8/02/2005
7/30/2005
Lotarias ou lutarias?
Será difícil obter uma forma que revele de maneira mais nítida a mentalidade portuguesa do que a recente capa de um diário nacional. Vinte e duas personagens mediáticas foram inquiridas sobre a sua reacção a um eventual ganho de mais de 113 milhões de euros no concurso Euromilhões. Os portugueses são de há muito vistos como um povo que procura obter o máximo, trabalhando o mínimo. É neste sentido que a referida capa acerta na mouche. Nenhuma das personalidades convidadas a dar a sua opinião se esquivou a dar o seu alvitre relativamente ao uso que daria a tanto dinheiro caído assim do céu. Dinheiro obtido sem que o contemplado tenha tido praticamente que mexer uma palha.
Dizem as estatísticas que os portugueses, apesar de serem apenas cerca de 10 milhões, apostam mais do que qualquer um dos outros oito países do Euromilhões. Desde Outubro de 2004, os nossos compatriotas já terão colocado apostas no valor de 626 milhões de euros. Este número não pode deixar de ser considerado extraordinário se for comparado com o de países como a França (573 milhões), a Espanha (530) e o Reino Unido (160 milhões). A Suiça não apostou mais do que 105 milhões, a Áustria 85 e a Irlanda 25 milhões. São números que dão que pensar. A cultura, a religião e a desigualdade social produzem estes resultados. Eis um bom tema para os sociólogos.
Sortes deste tipo são o sonho de muitos portugueses: ter a benesse dos deuses para não ter que se preocupar com o trabalho. A prová-lo está o número de vezes que o tema "reforma" é abordado entre trabalhadores, nomeadamente os mais citadinos. O diálogo contém quase invariavelmente esta linha: "A mim ainda faltam X anos! Tomara que a reforma viesse já amanhã!" A reforma é vista por inúmeros portugueses como o paraíso. Entretanto, todo o longo período que foi ou é preciso percorrer até alcançar esse visionado paraíso surge como o purgatório. Não admirará, portanto, que tão pouca gente se sinta realmente motivada para o trabalho. Não surpreenderá, igualmente, que a produtividade seja tão baixa.
Esta é uma doença seriíssima da sociedade portuguesa. Infelizmente, tem vindo a agravar-se. A conversa sobre os "nossos" direitos prevalece, vezes sem conta, sobre o tema dos deveres. É como que para compensar os longos tempos em que outros intervenientes da sociedade tiveram maioritariamente deveres e usufruíram de bem poucos direitos.
Não é nada fácil sairmos do buraco em que a sociedade se encontra. Sabemos, no entanto, que o exemplo tem de vir de cima -- da camada social que ocupa lugares de relevo, por riqueza, por poder político e por poder intelectual. Sem esse exemplo, muito pouco se poderá fazer. Ora, essa é a agravante desta doença: os potenciais intervenientes da mudança não mostram qualquer intenção de o fazer.
Temos um país que consegue a triste proeza de ser ainda mais assimétrico na distribuição da riqueza do que o é na forma como a população se distribui entre o litoral e o interior. Os níveis de injustiça social são inadmissíveis numa nação que, desde a sua adesão à CEE há praticamente vinte anos, recebeu, per capita, mais fundos do que qualquer outro dos restantes membros. Ocorre-nos aqui o clássico ditado: "Quem parte, reparte, e não fica com a maior parte, ou é tolo ou não tem arte." Ora, quem recebeu e repartiu teve de facto arte de bem distribuir. Escolheu os do seu clube, aqueles que mais tinham. Fundos europeus, que se esperava chegassem não só para atenuar as diferenças de Portugal em relação à Europa como para esbater os desníveis dentro do próprio país, contribuíram, contrariamente, para aprofundar este desnível nacional e, quanto à aproximação com as restantes nações europeias, para nos distanciarmos em vez de nos avizinharmos. Esta é uma verdade evidente, que os números não deixam negar. Entretanto, símbolos ostensivos de riqueza, como o número de carros de altíssimo preço que são vendidos em Portugal, mostram, se outros indicadores não fossem suficientes, para atestar que, como um conhecido ditado nos ensina, "os rios correm para o mar". Mais dinheiro para quem já o tem, desvirtuando não só a intenção de quem enviou os fundos como deixando também mais desprotegida uma parte significativa da população.
O quarto jackpot de Portugal -- o de Bruxelas, depois do da Índia, do Brasil e o de África -- poderia ter trazido enormes benefícios, mas acabou por levar o país a, mais uma vez, singrar a senda do dinheiro fácil, caído do céu. Cada vez se torna mais difícil endireitar a sombra desta vara torta. Em vez de democracia, temos de certo modo uma plutocracia, constituída pelos diferentes poderes acima indicados -- os mesmos que poderiam e deveriam dar o exemplo de responsabilidade, contenção de custos, fiscalidade mais directa e ajustada. Mas a vida é assim. Como diria um amigo meu, não desanimemos. Lutemos. A esperança não pode morrer.
Dizem as estatísticas que os portugueses, apesar de serem apenas cerca de 10 milhões, apostam mais do que qualquer um dos outros oito países do Euromilhões. Desde Outubro de 2004, os nossos compatriotas já terão colocado apostas no valor de 626 milhões de euros. Este número não pode deixar de ser considerado extraordinário se for comparado com o de países como a França (573 milhões), a Espanha (530) e o Reino Unido (160 milhões). A Suiça não apostou mais do que 105 milhões, a Áustria 85 e a Irlanda 25 milhões. São números que dão que pensar. A cultura, a religião e a desigualdade social produzem estes resultados. Eis um bom tema para os sociólogos.
Sortes deste tipo são o sonho de muitos portugueses: ter a benesse dos deuses para não ter que se preocupar com o trabalho. A prová-lo está o número de vezes que o tema "reforma" é abordado entre trabalhadores, nomeadamente os mais citadinos. O diálogo contém quase invariavelmente esta linha: "A mim ainda faltam X anos! Tomara que a reforma viesse já amanhã!" A reforma é vista por inúmeros portugueses como o paraíso. Entretanto, todo o longo período que foi ou é preciso percorrer até alcançar esse visionado paraíso surge como o purgatório. Não admirará, portanto, que tão pouca gente se sinta realmente motivada para o trabalho. Não surpreenderá, igualmente, que a produtividade seja tão baixa.
Esta é uma doença seriíssima da sociedade portuguesa. Infelizmente, tem vindo a agravar-se. A conversa sobre os "nossos" direitos prevalece, vezes sem conta, sobre o tema dos deveres. É como que para compensar os longos tempos em que outros intervenientes da sociedade tiveram maioritariamente deveres e usufruíram de bem poucos direitos.
Não é nada fácil sairmos do buraco em que a sociedade se encontra. Sabemos, no entanto, que o exemplo tem de vir de cima -- da camada social que ocupa lugares de relevo, por riqueza, por poder político e por poder intelectual. Sem esse exemplo, muito pouco se poderá fazer. Ora, essa é a agravante desta doença: os potenciais intervenientes da mudança não mostram qualquer intenção de o fazer.
Temos um país que consegue a triste proeza de ser ainda mais assimétrico na distribuição da riqueza do que o é na forma como a população se distribui entre o litoral e o interior. Os níveis de injustiça social são inadmissíveis numa nação que, desde a sua adesão à CEE há praticamente vinte anos, recebeu, per capita, mais fundos do que qualquer outro dos restantes membros. Ocorre-nos aqui o clássico ditado: "Quem parte, reparte, e não fica com a maior parte, ou é tolo ou não tem arte." Ora, quem recebeu e repartiu teve de facto arte de bem distribuir. Escolheu os do seu clube, aqueles que mais tinham. Fundos europeus, que se esperava chegassem não só para atenuar as diferenças de Portugal em relação à Europa como para esbater os desníveis dentro do próprio país, contribuíram, contrariamente, para aprofundar este desnível nacional e, quanto à aproximação com as restantes nações europeias, para nos distanciarmos em vez de nos avizinharmos. Esta é uma verdade evidente, que os números não deixam negar. Entretanto, símbolos ostensivos de riqueza, como o número de carros de altíssimo preço que são vendidos em Portugal, mostram, se outros indicadores não fossem suficientes, para atestar que, como um conhecido ditado nos ensina, "os rios correm para o mar". Mais dinheiro para quem já o tem, desvirtuando não só a intenção de quem enviou os fundos como deixando também mais desprotegida uma parte significativa da população.
O quarto jackpot de Portugal -- o de Bruxelas, depois do da Índia, do Brasil e o de África -- poderia ter trazido enormes benefícios, mas acabou por levar o país a, mais uma vez, singrar a senda do dinheiro fácil, caído do céu. Cada vez se torna mais difícil endireitar a sombra desta vara torta. Em vez de democracia, temos de certo modo uma plutocracia, constituída pelos diferentes poderes acima indicados -- os mesmos que poderiam e deveriam dar o exemplo de responsabilidade, contenção de custos, fiscalidade mais directa e ajustada. Mas a vida é assim. Como diria um amigo meu, não desanimemos. Lutemos. A esperança não pode morrer.
7/26/2005
Inglish ma non troppo
As línguas têm realmente muito que se lhes diga. Sobre as traduções de uma maneira geral, os italianos costumam dizer traduttore tradittore, o que evidentemente significa que os tradutores são traidores -- da língua, claro. Misoginamente, os britânicos gostam de dizer que as traduções são como as mulheres: as que são fiéis não são bonitas, as que são bonitas não são fiéis. Enfim, seja como for, em matéria de traduções admito que não conheço nada melhor do que um guia turístico sobre Portugal que foi, muito traiçoeiramente para a língua shakespeariana, vertido para inglês. Macarrónico é o adjectivo que costumamos aplicar em casos destes. Aqui, não creio que macarrónico seja suficiente.
Foi por volta de 1920 que saiu a público um Illustrated Guide of Lisbon, Estoris, Cascais and Cintra. É uma pérola preciosa para ilustrar a forma como não se deve traduzir, mas acaba por ser, por outro lado, uma amostra deliciosa desse mesmo facto. O livro apresenta innumerable gravings e fornece informações úteis sobre o país, o povo e os seus costumes. Como o visitante descobrirá por si mesmo, Lisbon is a beautiful city offering all comodities to the visitant and, the habitudes of the Portuguese people, simple and typic.
No que respeita a alojamento, existem unidades hoteleiras para todos os gostos e ao alcance de todas as bolsas. No Hotel Avenida Palace o turista tem à sua escolha 120 chambers with warm and cold water and, all rooms with telephone to the city. No Hotel Americano, que fica perto, a água é também warm mas, para além disso, são oferecidas cleanliness and nicety. Durante os meses mais frios, o Hotel Suiço Atlântico será porventura uma escolha mais acertada, pois oferece hot water and treatment of the first order. Mas se o visitante não gostar de água canalizada, deverá então rumar a Coimbra e ficar no Hotel Astória, onde terá à sua espera flowing water in all rooms.
Na eventualidade de ser por razões de saúde que o turista estrangeiro procura Portugal, o guia fornece-lhe uma longa listagem dos best dwelling places with explendid water for various sufferings. Mas se a sua saúde está impecável, então é essencial que visite a Costa do Sol, onde the blue and immaculated sky is genuinely Portuguese with many beautiful clouds and, where life is quiet, simple and far from the luxury of civilisation which tires and fatigues.
O combóio a vapor sai do Cais do Sodré e a viagem proporciona ao turista a view of store-houses, docks and the Maritime Port of Desinfection. Em Paço d'Arcos deve procurar ver the siege of the School of the Torpedos Fixos e mais à frente, em Carcavelos, the siege of the Cable Station. Do combóio ainda terá oportunidade de ver a variety of queer rocks. A 25 km. de Lisboa, o visitante encontrará a terra prometida com a sua flora, specially that of Monte Estoril, that is famous for its queerness and exuberance.
Como é uma zona privilegiada, onde tudo se conjuga to become its beautiful sweeter, o visitante pode ser tentado a ficar lá de noite. Nesse caso, o guia recomenda o Grand Hotel Estrade, que fornece aos hóspedes the latest sanitary and other up-to-date improvements. Perto, fica o igualmente excelente Hotel Miramar, equipado com the latest sanitary implements e que, além disso, é the rendezvous for the five o'clock teas in the terrace.
Mas se o turista não é amante de desportos ao ar livre, é possível que o Hotel Paris constitua uma escolha melhor, na medida em que tem a billiard table in the basement to avoid inconvenience to guests. O guia recomenda uma saltada à Boca do Inferno, com its splendorous aspect, where the sea roaring transforms its calmness in the most furiosity into the rocks.
O percurso entre Cascais e Sintra constitui a beautiful walk with fine panorama. The Park of Pena has many fountains, lakes, gardens and splendid collection of original vegetation. Cintra tem inúmeros atractivos para o visitante, o qual não deverá de forma nenhuma deixar de conhecer por dentro o velho Palácio Real, onde King Edward VIIth and William the second had breakfast on the hall.
Tal como Lisboa, também Cintra dispõe de uma excelente gama de alojamentos. O Hotel Nunes provides hot and cold water canalised in all rooms and, the Hotel Netto, para além de ter electricidade, serves breakfast and dinners of host and caution.
Antes de regressar a Lisboa, o visitante deverá considerar a hipótese de dar um salto a Mafra e ao seu convento. To make a complete idea of the vast dimensions of the Mafra Convent it is must to say that it is quadrilater measuring 40 thousand square metres, having in each face more than 200 doors and the windows and the total being five thousands. One of the chim of the bells weighs 12 thousand kilos. Mais do que cem anos antes, Beckford terá dito sobre Mafra: Never my eyes have seen such precious marbles as those ones shine up and down round my heads. Never my eyes have seen corinthic chapiters so nicely curved.
De volta a Lisboa depois desta exaustiva viagem, o visitante poderá ainda desejar fazer algum turismo no conforto de um táxi; encontram-se muitos destes táxis with stand in the main artery of the town and the fares are shown in the tables that the same manifest. Se se quiser voltar a sair da cidade, a ideia de andar de combóio é perfeitamente viável: the railway takes place day by day, setting Lisbon in intercourse with all the towns of the country, villages and foreigner.
(Este texto foi adaptado de um artigo publicado já há largos anos no Anglo-Portuguese News. Considero-o uma verdadeira jóia.)
Foi por volta de 1920 que saiu a público um Illustrated Guide of Lisbon, Estoris, Cascais and Cintra. É uma pérola preciosa para ilustrar a forma como não se deve traduzir, mas acaba por ser, por outro lado, uma amostra deliciosa desse mesmo facto. O livro apresenta innumerable gravings e fornece informações úteis sobre o país, o povo e os seus costumes. Como o visitante descobrirá por si mesmo, Lisbon is a beautiful city offering all comodities to the visitant and, the habitudes of the Portuguese people, simple and typic.
No que respeita a alojamento, existem unidades hoteleiras para todos os gostos e ao alcance de todas as bolsas. No Hotel Avenida Palace o turista tem à sua escolha 120 chambers with warm and cold water and, all rooms with telephone to the city. No Hotel Americano, que fica perto, a água é também warm mas, para além disso, são oferecidas cleanliness and nicety. Durante os meses mais frios, o Hotel Suiço Atlântico será porventura uma escolha mais acertada, pois oferece hot water and treatment of the first order. Mas se o visitante não gostar de água canalizada, deverá então rumar a Coimbra e ficar no Hotel Astória, onde terá à sua espera flowing water in all rooms.
Na eventualidade de ser por razões de saúde que o turista estrangeiro procura Portugal, o guia fornece-lhe uma longa listagem dos best dwelling places with explendid water for various sufferings. Mas se a sua saúde está impecável, então é essencial que visite a Costa do Sol, onde the blue and immaculated sky is genuinely Portuguese with many beautiful clouds and, where life is quiet, simple and far from the luxury of civilisation which tires and fatigues.
O combóio a vapor sai do Cais do Sodré e a viagem proporciona ao turista a view of store-houses, docks and the Maritime Port of Desinfection. Em Paço d'Arcos deve procurar ver the siege of the School of the Torpedos Fixos e mais à frente, em Carcavelos, the siege of the Cable Station. Do combóio ainda terá oportunidade de ver a variety of queer rocks. A 25 km. de Lisboa, o visitante encontrará a terra prometida com a sua flora, specially that of Monte Estoril, that is famous for its queerness and exuberance.
Como é uma zona privilegiada, onde tudo se conjuga to become its beautiful sweeter, o visitante pode ser tentado a ficar lá de noite. Nesse caso, o guia recomenda o Grand Hotel Estrade, que fornece aos hóspedes the latest sanitary and other up-to-date improvements. Perto, fica o igualmente excelente Hotel Miramar, equipado com the latest sanitary implements e que, além disso, é the rendezvous for the five o'clock teas in the terrace.
Mas se o turista não é amante de desportos ao ar livre, é possível que o Hotel Paris constitua uma escolha melhor, na medida em que tem a billiard table in the basement to avoid inconvenience to guests. O guia recomenda uma saltada à Boca do Inferno, com its splendorous aspect, where the sea roaring transforms its calmness in the most furiosity into the rocks.
O percurso entre Cascais e Sintra constitui a beautiful walk with fine panorama. The Park of Pena has many fountains, lakes, gardens and splendid collection of original vegetation. Cintra tem inúmeros atractivos para o visitante, o qual não deverá de forma nenhuma deixar de conhecer por dentro o velho Palácio Real, onde King Edward VIIth and William the second had breakfast on the hall.
Tal como Lisboa, também Cintra dispõe de uma excelente gama de alojamentos. O Hotel Nunes provides hot and cold water canalised in all rooms and, the Hotel Netto, para além de ter electricidade, serves breakfast and dinners of host and caution.
Antes de regressar a Lisboa, o visitante deverá considerar a hipótese de dar um salto a Mafra e ao seu convento. To make a complete idea of the vast dimensions of the Mafra Convent it is must to say that it is quadrilater measuring 40 thousand square metres, having in each face more than 200 doors and the windows and the total being five thousands. One of the chim of the bells weighs 12 thousand kilos. Mais do que cem anos antes, Beckford terá dito sobre Mafra: Never my eyes have seen such precious marbles as those ones shine up and down round my heads. Never my eyes have seen corinthic chapiters so nicely curved.
De volta a Lisboa depois desta exaustiva viagem, o visitante poderá ainda desejar fazer algum turismo no conforto de um táxi; encontram-se muitos destes táxis with stand in the main artery of the town and the fares are shown in the tables that the same manifest. Se se quiser voltar a sair da cidade, a ideia de andar de combóio é perfeitamente viável: the railway takes place day by day, setting Lisbon in intercourse with all the towns of the country, villages and foreigner.
(Este texto foi adaptado de um artigo publicado já há largos anos no Anglo-Portuguese News. Considero-o uma verdadeira jóia.)
7/25/2005
Origem das Palavras VI - Castelo de S. Jorge
Há um santo na história de Portugal que foi, a partir de certa altura, ingratamente talvez, posto de lado pelos nossos compatriotas. O santo em questão chamava-se Iago, nome difícil já de si, derivado de Iacob. Em face da dificuldade de pronúncia, galegos, castelhanos e portugueses não estiveram com meias medidas: prefixaram-no de "Santo" e passaram a chamar-lhe "Santiago". Ora, sucede que esse santo tinha uma fama terrível de mata-mouros. Não havia, portanto, luta contra a moirama conduzida por forças ibéricas que o não invocasse. Com esse inimigo comum para os cristãos, tudo correu bem até à batalha de Aljubarrota. Aí, os nossos inimigos castelhanos -- ajudados por bem treinados cavaleiros da Gasconha -- traziam-no como padroeiro,embora os portugueses não fossem propriamente mouros. Quanto às lusas hostes -- ajudadas por mercenários ingleses com bom treino da arte de guerrear adquirido durante a celebrada Guerra dos Cem Anos -- tinham igualmente Santiago como padroeiro. O problema era bicudo. Criar-se-iam hesitações ao santo, suposto ser neutro num caso destes (esta parte da história lembra-me "As Peregrinações de um Santo", um belo texto escrito por uma das nossas co-bloguistas). Para não o colocar em maus lençóis, os portugueses decidiram então pedir emprestado aos ingleses, que na altura eram ainda católicos, o seu santo padroeiro: S. Jorge. Fosse porque S. Jorge estivesse habituado a lutar contra o dragão ou porque os gascões não sabiam da presença dos ingleses e julgavam que a batalha seria ganha facilmente, o certo é que os melhores cavaleiros gascões foram feitos prisioneiros quando decidiram avançar sozinhos, uma vez que as suas montadas foram certeiramente atingidas pelos Robin Hoods que tinham vindo em nossa ajuda. Com os seus convidados prisioneiros e, logo a seguir, mortos, o rei dos castelhanos decidiu que aquela não era a ocasião ideal para combater e decidiu voltar para casa. Estava decidida a batalha de Aljubarrota e, com ela, a independência de Portugal. O rei português casou entretanto com uma nobre inglesa, tiveram filhos ilustres e viveram muito felizes. Ao castelo de Lisboa onde residiam quando não estavam no seu palácio de Sintra decidiram dar o nome do santo que, na batalha contra Santiago, lograra obter uma retumbante vitória. É assim que até hoje temos, no topo de uma das sete colinas da cidade, o Castelo de S. Jorge.
7/24/2005
Reciprocidade
Sucede a todos nós ficarmos na memória com factos que presenciámos na infância ou adolescência, passagens de livros ou cenas de filmes. Recordo-me da cena de uma bela película de René Clair, em que um rapaz de treze ou catorze anos entra numa cervejaria cheia de homens. Vê de súbito o seu boné ser-lhe retirado da cabeça por um engraçado. Num ápice, o boné está a ser lançado pelo ar para uma mesa onde estavam outros homens, perante o desespero do rapaz que corre a tentar apanhar o boné apenas para o ver voltear de mesa em mesa. A rabia faz todos aqueles homens gozarem como perdidos. Sucedem-se as gargalhadas. Até que, num dos volteios, de grupo em grupo e mesa em mesa, o boné escapa à mão de quem o devia agarrar. O boné entorna-lhe a caneca de cerveja, sobre a mesa e sobre si próprio. Aí, o homem que antes rira desbragadamente, manda "alto e pára o baile!" Cessa-lhe a gargalhada, solta-se-lhe a ira.
É óbvio que a cena me ficou gravada pela exploração que os mais fortes frequentemente fazem dos mais fracos. Pela troça que gostam de fazer, mas que não admitem em atitude recíproca.
Todo este arrazoado vem a propósito do ocidente e da China. A Europa, que sempre mandou e explorou os outros -- veja-se a colonização, que durante séculos levou à exploração de matérias-primas e depois à exportação de produtos e de modos culturais impostos aos territórios invadidos -- dá-se mal se agora a invadem com produtos que economicamente a prejudicam. São a mesma Europa e América que não hesitaram na deslocalização de fábricas para o país do rapaz do boné, na venda de maquinaria a bom preço e na invasão cultural por vários meios, que agora reagem. A situação recorda-me Portugal país-de-emigração a dar-se mal como país-de-imigração. Quem nunca se pôs na pele do outro, não sabe o que dói ser invadido e tratado como inferior. Vêm-me à memória, nem sei bem porquê, aquelas pessoas que, sem pensarem duas vezes, tratam indivíduos da sua idade por tu, mas não admitem tratamento recíproco.
É óbvio que a cena me ficou gravada pela exploração que os mais fortes frequentemente fazem dos mais fracos. Pela troça que gostam de fazer, mas que não admitem em atitude recíproca.
Todo este arrazoado vem a propósito do ocidente e da China. A Europa, que sempre mandou e explorou os outros -- veja-se a colonização, que durante séculos levou à exploração de matérias-primas e depois à exportação de produtos e de modos culturais impostos aos territórios invadidos -- dá-se mal se agora a invadem com produtos que economicamente a prejudicam. São a mesma Europa e América que não hesitaram na deslocalização de fábricas para o país do rapaz do boné, na venda de maquinaria a bom preço e na invasão cultural por vários meios, que agora reagem. A situação recorda-me Portugal país-de-emigração a dar-se mal como país-de-imigração. Quem nunca se pôs na pele do outro, não sabe o que dói ser invadido e tratado como inferior. Vêm-me à memória, nem sei bem porquê, aquelas pessoas que, sem pensarem duas vezes, tratam indivíduos da sua idade por tu, mas não admitem tratamento recíproco.
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