Olhando as reportagens da campanha eleitoral que a televisão nos tem proporcionado, dei comigo a pensar por que têm as coisas de ser como são, se nem sempre foram assim. Veio-me à memória um texto de Mário Henrique Leiria intitulado "Torah", que fui repescar para o presente post:
Jeová achou que era altura de pôr as coisas no seu devido lugar. Lá de cima, acenou a Moisés.
Moisés foi logo, tropeçando por vezes nas lajes e evitando o mais possível a sarça ardente.
Quando chegou ao cimo, tiveram os dois uma conferência, cimeira, claro. A primeira, se não estou em erro.
No dia seguinte, Moisés desceu. Trazia umas tábuas debaixo do braço. Eram a Lei.
Olhou em volta, viu o seu povo aglomerado, atento, e disse para todos os que estavam à espera:
-Está tudo aqui escrito. Tudo. É assim mesmo e não há qualquer dúvida. Quem não quiser, que se vá embora. Já.
Alguns foram.
Então começou o serviço militar obrigatório e fez-se o primeiro discurso patriótico.
Depois disso, é o que se vê.
9/29/2005
9/28/2005
Autárquicas
Os frequentadores deste blog talvez se consigam lembrar de um texto intitulado "Estúpidos ou Inteligentes?" Era a propósito da reeleição de Bush e do Alberto João. A história tem a sua óbvia continuidade nas presentes eleições autárquicas. Embora haja uma série de candidatos que são alvo de suspeições várias, eles reúnem fortíssimas probabilidades de serem eleitos pelas gentes locais. A óptica das populações votantes mostra uma candura de séculos: se no poder central, que é lá longe, eles roubam que se farta, elejamos alguém que saiba igualmente roubar,porque ao menos rouba para nós. Está de acordo com a sabedoria popular: ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão.
9/27/2005
De regresso
Cheguei! Estive cerca de sete meses fora, no nordeste brasileiro, e nunca a vida me pareceu tão curta para curtir. Já cá estou há umas semanas, mas não me quis intrometer num blogue onde não tenho sido bem recebido. Mesmo assim, admito que me deixaram expor as minhas ideias. De quando em vez, fosse em Natal, com as suas praias (adorei Pirangi!), fosse em Fortaleza, fosse na incrível ilha de S. Paulo, eu ainda dava uma breve espiada nesta droga do blogue. Notei que o camarada que dava pelo nome de Peter Pan se tinha evaporado. Que descanse em paz, porque não faz cá falta nenhuma. Entrou um novo, que ainda não deu bem para perceber, mas já vi que também é esquerdóide. Como vocês todos, aliás. O que fez apressar o meu regresso a estas andanças foi um comentário interessante que aqui encontrei no outro dia: o lançamento de um selo no Brasil. Como o mundo é pequeno! Eu estava lá!! Em Fortaleza. Só tenho pena de não conhecer o António que contou aquela história toda, e bem certinha!
Agora, depois do assassínio político que o Presidente Sampaio fez ao Doutor Pedro Santana Lopes, não vejo críticas nenhumas ao actual Primeiro. Será que os autores deste blogue só vêem com um olho? Vocês podem ser muito objectivos quando se referem a objectos, mas quanto a pessoas não podiam ser mais parciais. Qualquer dia falamos! Só queria dizer que cheguei. Beijinhos para as senhoras!
Agora, depois do assassínio político que o Presidente Sampaio fez ao Doutor Pedro Santana Lopes, não vejo críticas nenhumas ao actual Primeiro. Será que os autores deste blogue só vêem com um olho? Vocês podem ser muito objectivos quando se referem a objectos, mas quanto a pessoas não podiam ser mais parciais. Qualquer dia falamos! Só queria dizer que cheguei. Beijinhos para as senhoras!
9/25/2005
O Marquês de Nova Orleães
Há dias passei os olhos pelo www.caffeeuropa.it . Estava quase a abandoná-lo quando deparei com um artigo em italiano, de nove páginas, intitulado: "Lisboa 1755: uma lição para reconstruir Nova Orleães." Para minha surpresa, o autor, Siegmund Ginzberg, estabelecia um paralelo entre 1755 e a recente catástrofe causada pelo furacão Katrina. Permito-me fazer um resumo da essência do artigo.
Segundo o autor, Lisboa, com o seu porto e suas fabulosas riquezas, desempenhava então um papel relevante no comércio entre o Mediterrâneo (e o Brasil) e a Inglaterra. Era para Portugal o que Nova Orleães, com o seu imenso porto de 200 quilómetros ao longo das margens do Mississipi, representa hoje para a economia americana. Em pleno século das luzes, a questão principal que se levantou aquando do cataclismo de Lisboa girou à volta da "justificação da vontade de Deus". Escreveram-se numerosos artigos e livros sobre o assunto, tendo pensadores tão conhecidos como Voltaire, Rousseau e Kant dado as suas opiniões sobre o terramoto. A "ira de Deus" foi tema forte, desenvolvido em Portugal especialmente pelo jesuíta italiano Malagrida. Notável orador, este jesuíta defendeu que as verdadeiras causas da destruição de casas, palácios, igrejas e conventos tinham sido os "abomináveis pecados" da cidade. A sua argumentação continha um óbvio ponto fraco: se Lisboa possuía tantos lugares religiosos e tantos homens e mulheres da Igreja, porque a teria Deus exactamente escolhido para fazer desabar a sua ira?
Pela Europa fora, esta argumentação cedo deu lugar a uma outra: o terrível desastre tinha sido apenas o prenúncio de outras catástrofes bem mais graves. "Quando calhará a nossa vez?", perguntavam, inquietos, os habitantes de cidades como Paris e Londres. Numa onda diferente expressaram-se outros, quiçá mais progressistas. Por exemplo, Rondet, um jansenista francês, escreveu uma obra de 700 páginas -- Réflexions sur le Désastre de Lisbonne -- com a finalidade de demonstrar que Deus tinha escolhido Lisboa para avisar toda a Europa que deveria abandonar a Inquisição e o extremismo religioso. Um exilado português convertido ao protestantismo, Cavaleiro de Oliveira, produziu vários escritos para denunciar a "diabólica, infernal e ridícula" adoração de imagens e relíquias de santos, o "odioso tribunal" da Inquisição e o tratamento particularmente brutal dado aos judeus no nosso país. Dirigiu mesmo cartas ao rei, pedindo o afastamento dos jesuítas. Em vão. Orelhas moucas foi o que o rei e a população fizeram. As relíquias de santos aumentaram, enquanto os milagres se multiplicaram, tal como as procissões.
O terramoto atingiu principalmente a parte baixa da cidade. Tal como em Nova Orleães, era lá que vivia grande parte da população pobre, embora naturalmente não junto aos edifícios do palácio da Ribeira. Como era o dia 1 de Novembro, as igrejas estavam cheias de fiéis. Tanto o maremoto que se seguiu aos abalos como também os incêndios que deflagraram, ajudados pelo vento forte que então se fazia sentir, causaram entre 10000 e 15000 mortos. Os pobres foram as principais vítimas. E os doentes. Quatrocentos pessoas hospitalizadas morreram carbonizadas no Hospital Real. A mais numerosa das comunidades estrangeiras, a britânica, teve 77 mortos. Entre os nobres e pessoas da alta houve cerca de vinte vítimas. Estes são números relativamente reduzidos. Os ricos viviam nas partes mais altas da cidade, tal como em Nova Orleães. A família real apressou-se a construir o seu palácio no alto da Ajuda. Cedo voltaram a existir em Lisboa festas palacianas, o que, aliás, mereceu palavras de censura por parte da Igreja. Em Nova Orleães, as notícias dizem-nos que várias piscinas das casas dos mais ricos voltaram a estar cheias.
Se todas as grandes catástrofes têm um personagem principal, no caso de Lisboa esse personagem foi o Marquês de Pombal. Tão importante foi na reconstrução da "baixa" que ainda hoje nos referimos ao seu estilo como "pombalino". Quando o rei, pouco experiente, perguntou ao Marquês o que deviam fazer perante aquela calamidade, o Marquês terá respondido: "Enterrar os mortos, cuidar dos vivos". Enquanto a Europa, atónita, discutia como interpretar a cólera divina, o Marquês chamou a si a situação. Foi rápido e decidido. A fim de evitar que alguma epidemia alastrasse, menos de 24 horas depois do terramoto propôs ao patriarca que se recolhessem todos os cadáveres em embarcações. Os corpos seriam lançados às águas no mar, depois de passada a barra do Tejo. Tudo foi feito com discrição. Sem hesitar, ordenou a requisição de todos os cereais dos arredores da cidade e mesmo dos navios ancorados no porto. Impôs controlo severíssimo sobre os presos. Mandou prestar a melhor atenção aos cuidados hospitalares. Assegurou a ordem pública. Em 4 de Novembro, 72 horas após o tremor de terra, já tinha obtido autorização para proceder à execução sumária de quem fosse apanhado a saquear casas ou a roubar. Fez erigir forcas em vários bairros da cidade. Garantiu a continuidade das transacções comerciais e financeiras. Fez com que as tipografias voltassem imediatamente a funcionar (precisava delas para os editais). A Gazeta de Lisboa, semanal, saiu pontualmente no dia 5 de Novembro, sem que tivesse tido interrupção de um só número.
Em suma, fez num número reduzido de horas, e com os meios de que dispunha no século XVIII, aquilo que em Nova Orleães, no século XXI, levou uma semana.
O artigo termina com a inevitável comparação com Bush. Como não quero bater mais no ceguinho do Bush, fico-me por aqui, mas registo este ponto de vista estrangeiro sobre a acção de um português.
Segundo o autor, Lisboa, com o seu porto e suas fabulosas riquezas, desempenhava então um papel relevante no comércio entre o Mediterrâneo (e o Brasil) e a Inglaterra. Era para Portugal o que Nova Orleães, com o seu imenso porto de 200 quilómetros ao longo das margens do Mississipi, representa hoje para a economia americana. Em pleno século das luzes, a questão principal que se levantou aquando do cataclismo de Lisboa girou à volta da "justificação da vontade de Deus". Escreveram-se numerosos artigos e livros sobre o assunto, tendo pensadores tão conhecidos como Voltaire, Rousseau e Kant dado as suas opiniões sobre o terramoto. A "ira de Deus" foi tema forte, desenvolvido em Portugal especialmente pelo jesuíta italiano Malagrida. Notável orador, este jesuíta defendeu que as verdadeiras causas da destruição de casas, palácios, igrejas e conventos tinham sido os "abomináveis pecados" da cidade. A sua argumentação continha um óbvio ponto fraco: se Lisboa possuía tantos lugares religiosos e tantos homens e mulheres da Igreja, porque a teria Deus exactamente escolhido para fazer desabar a sua ira?
Pela Europa fora, esta argumentação cedo deu lugar a uma outra: o terrível desastre tinha sido apenas o prenúncio de outras catástrofes bem mais graves. "Quando calhará a nossa vez?", perguntavam, inquietos, os habitantes de cidades como Paris e Londres. Numa onda diferente expressaram-se outros, quiçá mais progressistas. Por exemplo, Rondet, um jansenista francês, escreveu uma obra de 700 páginas -- Réflexions sur le Désastre de Lisbonne -- com a finalidade de demonstrar que Deus tinha escolhido Lisboa para avisar toda a Europa que deveria abandonar a Inquisição e o extremismo religioso. Um exilado português convertido ao protestantismo, Cavaleiro de Oliveira, produziu vários escritos para denunciar a "diabólica, infernal e ridícula" adoração de imagens e relíquias de santos, o "odioso tribunal" da Inquisição e o tratamento particularmente brutal dado aos judeus no nosso país. Dirigiu mesmo cartas ao rei, pedindo o afastamento dos jesuítas. Em vão. Orelhas moucas foi o que o rei e a população fizeram. As relíquias de santos aumentaram, enquanto os milagres se multiplicaram, tal como as procissões.
O terramoto atingiu principalmente a parte baixa da cidade. Tal como em Nova Orleães, era lá que vivia grande parte da população pobre, embora naturalmente não junto aos edifícios do palácio da Ribeira. Como era o dia 1 de Novembro, as igrejas estavam cheias de fiéis. Tanto o maremoto que se seguiu aos abalos como também os incêndios que deflagraram, ajudados pelo vento forte que então se fazia sentir, causaram entre 10000 e 15000 mortos. Os pobres foram as principais vítimas. E os doentes. Quatrocentos pessoas hospitalizadas morreram carbonizadas no Hospital Real. A mais numerosa das comunidades estrangeiras, a britânica, teve 77 mortos. Entre os nobres e pessoas da alta houve cerca de vinte vítimas. Estes são números relativamente reduzidos. Os ricos viviam nas partes mais altas da cidade, tal como em Nova Orleães. A família real apressou-se a construir o seu palácio no alto da Ajuda. Cedo voltaram a existir em Lisboa festas palacianas, o que, aliás, mereceu palavras de censura por parte da Igreja. Em Nova Orleães, as notícias dizem-nos que várias piscinas das casas dos mais ricos voltaram a estar cheias.
Se todas as grandes catástrofes têm um personagem principal, no caso de Lisboa esse personagem foi o Marquês de Pombal. Tão importante foi na reconstrução da "baixa" que ainda hoje nos referimos ao seu estilo como "pombalino". Quando o rei, pouco experiente, perguntou ao Marquês o que deviam fazer perante aquela calamidade, o Marquês terá respondido: "Enterrar os mortos, cuidar dos vivos". Enquanto a Europa, atónita, discutia como interpretar a cólera divina, o Marquês chamou a si a situação. Foi rápido e decidido. A fim de evitar que alguma epidemia alastrasse, menos de 24 horas depois do terramoto propôs ao patriarca que se recolhessem todos os cadáveres em embarcações. Os corpos seriam lançados às águas no mar, depois de passada a barra do Tejo. Tudo foi feito com discrição. Sem hesitar, ordenou a requisição de todos os cereais dos arredores da cidade e mesmo dos navios ancorados no porto. Impôs controlo severíssimo sobre os presos. Mandou prestar a melhor atenção aos cuidados hospitalares. Assegurou a ordem pública. Em 4 de Novembro, 72 horas após o tremor de terra, já tinha obtido autorização para proceder à execução sumária de quem fosse apanhado a saquear casas ou a roubar. Fez erigir forcas em vários bairros da cidade. Garantiu a continuidade das transacções comerciais e financeiras. Fez com que as tipografias voltassem imediatamente a funcionar (precisava delas para os editais). A Gazeta de Lisboa, semanal, saiu pontualmente no dia 5 de Novembro, sem que tivesse tido interrupção de um só número.
Em suma, fez num número reduzido de horas, e com os meios de que dispunha no século XVIII, aquilo que em Nova Orleães, no século XXI, levou uma semana.
O artigo termina com a inevitável comparação com Bush. Como não quero bater mais no ceguinho do Bush, fico-me por aqui, mas registo este ponto de vista estrangeiro sobre a acção de um português.
9/23/2005
«Triste é a ociosidade
danosa a intemperança
pesada a ignorância» (Tales de Mileto)
Manhã cálida de Setembro. Costa norte da ilha de Rodes. Um táxi parado num miradouro junto ao mar. Uma família de turistas contempla a beleza única, matricial, do Egeu e tira as habituais fotografias "para mais tarde recordar".
Eis que chega outro táxi. Percebe-se que o local é ponto de paragem obrigatória para os táxis de serviço ao tour pela ilha. Americanos, estes últimos, um casal de meia idade. É-lhes dito (conforme havia sido dito aos primeiros, e o mapa que estes consultavam não dava margem para dúvidas) que o território que se via do outro lado do mar era a Turquia.
Enormes manifestações de júbilo por parte da senhora americana, dir-se-ia que havia sido encontrada a Atlântida.
Excitadíssima, pergunta ao taxista em grandes sorrisos e alta voz: "Oh! É uma ilha? E vive lá gente?!"
«Suporta com condescendência a pequenez
dos teus próximos» (Pítaco de Lesbos)
danosa a intemperança
pesada a ignorância» (Tales de Mileto)
Manhã cálida de Setembro. Costa norte da ilha de Rodes. Um táxi parado num miradouro junto ao mar. Uma família de turistas contempla a beleza única, matricial, do Egeu e tira as habituais fotografias "para mais tarde recordar".
Eis que chega outro táxi. Percebe-se que o local é ponto de paragem obrigatória para os táxis de serviço ao tour pela ilha. Americanos, estes últimos, um casal de meia idade. É-lhes dito (conforme havia sido dito aos primeiros, e o mapa que estes consultavam não dava margem para dúvidas) que o território que se via do outro lado do mar era a Turquia.
Enormes manifestações de júbilo por parte da senhora americana, dir-se-ia que havia sido encontrada a Atlântida.
Excitadíssima, pergunta ao taxista em grandes sorrisos e alta voz: "Oh! É uma ilha? E vive lá gente?!"
«Suporta com condescendência a pequenez
dos teus próximos» (Pítaco de Lesbos)
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