Fui ontem, dia da reinauguração do Museu, dar uma vista de olhos pelo espólio do Rafael. Tendo conhecido o antigo edifício, encontrei agora uma mais-valia importante: um anexo na parte de trás destinado a exposições temporárias.
É sempre um gosto conviver com a irreverência do Bordalo Pinheiro caricaturista e com a criatividade e arte do ceramista. É sempre bom relembrar a evolução da figura do Zé Povinho -- agora também disponível em sistema informático de acesso simples e correcto --, o António Maria, o ódio aos ingleses que Portugal naquele tempo sentia, a crise do Finis Patriae. E, depois, há a possibilidade soberana de encontrar as caricaturas ou retratos de alguns dos grandes intérpretes daquele tempo, que hoje, para muitos, não passam de simples nomes de ruas da cidade: Saraiva de Carvalho, Rodrigues Sampaio, Anselmo Braancamp, Dias Ferreira, Fontes Pereira de Melo, Rosa Araújo, Henrique Burnay, Bulhão Pato, Herculano, Camilo, Eça, Ramalho.
Quando lá for, não deixe de reparar em caricaturas como O Canto Coral, em que um maestro empunha a batuta e ensina numerosos citadinos engravatados a cantarem o hino inglês. É dessa altura que temos os célebres versos "Contra os bretões, marchar, marchar", que regras do politicamente correcto transformaram no mais bravo e também mais suicida "Contra os canhões, marchar, marchar" do nosso hino.
Se for lá proximamente, veja ainda, no anexo, um bonito sol da Ana Vidigal feito com a Margarida Donald, pare para ver uns desenhos da Paula Rego, uns quadros do Batarda e ler um lindo texto ao espelho.
Vale a pena.
10/06/2005
10/05/2005
As tetas da vaca
A vaca do Estado, de tetas mais úberes do que qualquer outra no país mas também com o maior número de filhos dependentes, pasta no vasto prado dos impostos que outrem que não os impostores semeiam diariamente. O prado viçoso poderia contribuir para que a vaca desse mais leite para a sociedade no seu todo, mas a vista de tetas tão cheias do precioso líquido aguça a cobiça e eis uns tantos que, à socapa, retiram delas o mais que podem.
Foi há relativamente poucos anos que, numa entrevista a dois advogados franceses do foro criminal, li o que um deles, Maxime Delhomme, respondia ao jornalista: "É um mito o advogado que permite ao criminoso escapar. Se isso acontece, é porque o Ministério Público não fez o seu trabalho." Quer dizer: mesmo sabendo que alguém, acusado de um crime, não está inocente, o advogado defende-o e, se o indivíduo for inocentado, a culpa recai toda sobre o Ministério Público, que "não fez o seu trabalho". Há tempos, um outro advogado, neste caso português, afirmava a Maria João Seixas: "Não tenho nenhuma ideologia do crime. É-me igual a defesa de um homicida, de um pedófilo ou de umas ofensas corporais. Não ponho em nenhum destes, ou de outros exemplos, quaisquer calores especiais."
Como cidadão comum, que propugna a defesa do bem na sociedade, causa-me alguma perplexidade ouvir estas opiniões. Eu sei que um advogado (ad + vox) é alguém que empresta a sua voz na defesa de uma causa e, neste sentido, tanto pode defender o algoz como a vítima. Mas há algo de mercenarismo que me repugna nesta possibilidade de defesa, a sério, tanto de um caso como do seu oposto.
A propósito dos privilégios que ao longo dos anos foram sendo alcançados por grupos profissionais como os dos juízes, dos militares e dos professores, Vital Moreira, outro homem de leis, afirma num recente artigo que "a captura do Estado pelos corpos profissionais de elite do sector público é resultado, antes de tudo, da fraqueza daquele." Voltamos à mesma história da culpabilização inicial do Ministério Público, aqui transformada em "Estado", que não terá feito bem o seu trabalho. Ora, quem está neste Estado? Políticos, muitos deles advogados. Logo, para esses advogados -- e para outros igualmente, porque não? -- jogar para um lado ou para outro é sempre possível, apesar do juramento de fidelidade prestado em Belém perante o Presidente da República e as câmaras de televisão.
E é aqui que caio num outro caso, dado à luz também recentemente: o da empresa Eurominas, que, tendo recebido do Estado terrenos a preço simbólico na Península de Setúbal para neles se instalar, a dada altura descontinuou a sua actividade regular. O Estado, correctamente, exigiu que os terrenos lhe fossem devolvidos nos exactos termos em que tinham sido cedidos à empresa. As benfeitorias entretanto realizadas reverteriam a favor do Estado. Ao que os media narram, a situação arrastou-se por vários anos, com a Eurominas a não querer devolver os terrenos de mão beijada e a pedir indemnizações, as quais lhe eram recusadas pelo Estado e pelos tribunais. Eis que, entretanto, advogados que já estiveram ao serviço do Estado mas que agora têm a Eurominas como cliente, conseguem que esta receba -- mais uma vez da úbere mas já mirrante teta da vaquinha estatal -- uma indemnização choruda.
De quem é a culpa? Da falta de ética dos advogados que interferiram no assunto, tal como no propalado caso dos sobreiros que envolveu o CDS no anterior governo, ou da inépcia do Estado em defender os interesses gerais da Nação? Será aqui que entroncam os "homens de confiança", que se são da confiança de uns é porque não são da confiança de todos? Assim, a culpa, se é que existe, tende a deslocar-se de pessoas com rosto para um Estado sem rosto. Ou seja: dilui-se. O passo seguinte é afirmar que "quem tem a culpa é o povo que elege os políticos!" Pronto. Está tudo dito. É como querer acusar Deus de ter criado o mal no mundo, porque, se não tivesse criado o homem, esse mal não existiria.
Entretanto, as tetas da vaca vão ficando mais flácidas e vazias, e o prado, menos verdejante, ressente-se da seca.
Foi há relativamente poucos anos que, numa entrevista a dois advogados franceses do foro criminal, li o que um deles, Maxime Delhomme, respondia ao jornalista: "É um mito o advogado que permite ao criminoso escapar. Se isso acontece, é porque o Ministério Público não fez o seu trabalho." Quer dizer: mesmo sabendo que alguém, acusado de um crime, não está inocente, o advogado defende-o e, se o indivíduo for inocentado, a culpa recai toda sobre o Ministério Público, que "não fez o seu trabalho". Há tempos, um outro advogado, neste caso português, afirmava a Maria João Seixas: "Não tenho nenhuma ideologia do crime. É-me igual a defesa de um homicida, de um pedófilo ou de umas ofensas corporais. Não ponho em nenhum destes, ou de outros exemplos, quaisquer calores especiais."
Como cidadão comum, que propugna a defesa do bem na sociedade, causa-me alguma perplexidade ouvir estas opiniões. Eu sei que um advogado (ad + vox) é alguém que empresta a sua voz na defesa de uma causa e, neste sentido, tanto pode defender o algoz como a vítima. Mas há algo de mercenarismo que me repugna nesta possibilidade de defesa, a sério, tanto de um caso como do seu oposto.
A propósito dos privilégios que ao longo dos anos foram sendo alcançados por grupos profissionais como os dos juízes, dos militares e dos professores, Vital Moreira, outro homem de leis, afirma num recente artigo que "a captura do Estado pelos corpos profissionais de elite do sector público é resultado, antes de tudo, da fraqueza daquele." Voltamos à mesma história da culpabilização inicial do Ministério Público, aqui transformada em "Estado", que não terá feito bem o seu trabalho. Ora, quem está neste Estado? Políticos, muitos deles advogados. Logo, para esses advogados -- e para outros igualmente, porque não? -- jogar para um lado ou para outro é sempre possível, apesar do juramento de fidelidade prestado em Belém perante o Presidente da República e as câmaras de televisão.
E é aqui que caio num outro caso, dado à luz também recentemente: o da empresa Eurominas, que, tendo recebido do Estado terrenos a preço simbólico na Península de Setúbal para neles se instalar, a dada altura descontinuou a sua actividade regular. O Estado, correctamente, exigiu que os terrenos lhe fossem devolvidos nos exactos termos em que tinham sido cedidos à empresa. As benfeitorias entretanto realizadas reverteriam a favor do Estado. Ao que os media narram, a situação arrastou-se por vários anos, com a Eurominas a não querer devolver os terrenos de mão beijada e a pedir indemnizações, as quais lhe eram recusadas pelo Estado e pelos tribunais. Eis que, entretanto, advogados que já estiveram ao serviço do Estado mas que agora têm a Eurominas como cliente, conseguem que esta receba -- mais uma vez da úbere mas já mirrante teta da vaquinha estatal -- uma indemnização choruda.
De quem é a culpa? Da falta de ética dos advogados que interferiram no assunto, tal como no propalado caso dos sobreiros que envolveu o CDS no anterior governo, ou da inépcia do Estado em defender os interesses gerais da Nação? Será aqui que entroncam os "homens de confiança", que se são da confiança de uns é porque não são da confiança de todos? Assim, a culpa, se é que existe, tende a deslocar-se de pessoas com rosto para um Estado sem rosto. Ou seja: dilui-se. O passo seguinte é afirmar que "quem tem a culpa é o povo que elege os políticos!" Pronto. Está tudo dito. É como querer acusar Deus de ter criado o mal no mundo, porque, se não tivesse criado o homem, esse mal não existiria.
Entretanto, as tetas da vaca vão ficando mais flácidas e vazias, e o prado, menos verdejante, ressente-se da seca.
10/04/2005
Madeira, baluarte civilizacional
Imagine alguém que lhe pespega teorias sem-fim sobre democracia. Você convencer-se-á de que está em presença de um democrata? Se sim, é ingénuo. Não é na teoria que as pessoas se conhecem, mas sim na prática. Não me parece que a questão central à volta do Doutor Alberto João Jardim seja a democracia. Na realidade, esta será até relativamente irrelevante no contexto geral. De resto, ele foi já eleito um número significativo de vezes, segundo todas as regras da democracia, pelo povo da Madeira. Foi eleito para governar, e deverá parecer -- a não ser a uma meia-dúzia de esquerdóides democratas sem provas dadas -- que tem governado bem.
Você tem visto a evolução da Madeira nos últimos trinta anos? Já viu como, apesar de tudo o que os pasquins dizem do governante, a ilha continua a ser um paraíso de ordem e de paz? Já reparou que no Funchal não há os milhares de graffitti que emporcalham as ruas de Lisboa? A Madeira parece um oásis de um certo Portugal antigo, mas com todas as características de modernidade de um país avançado. Esta conciliação não é fácil de alcançar. Esplêndidos hotéis, vias de comunicação impecáveis, um aeroporto que foi premiado, segurança nas ruas, jardins bem conservados, ruas limpas, escolas a funcionar, uma zona off-shore -- que mais se pode querer?
Não é impossível que, do ponto de vista democrático, aqueles que no Continente vilipendiam o Doutor Alberto João Jardim agissem menos democraticamente do que ele se estivessem no governo da ilha. O que decerto não conseguiriam era manter um paraíso impecável, como aquele que a Madeira oferece a quem a visita. Poderá dizer-se que há uma mão férrea por detrás, mas é uma mão que sabe governar. O resto são tretas! Palavras e mais palavras para encher jornais e telejornais!
Você tem visto a evolução da Madeira nos últimos trinta anos? Já viu como, apesar de tudo o que os pasquins dizem do governante, a ilha continua a ser um paraíso de ordem e de paz? Já reparou que no Funchal não há os milhares de graffitti que emporcalham as ruas de Lisboa? A Madeira parece um oásis de um certo Portugal antigo, mas com todas as características de modernidade de um país avançado. Esta conciliação não é fácil de alcançar. Esplêndidos hotéis, vias de comunicação impecáveis, um aeroporto que foi premiado, segurança nas ruas, jardins bem conservados, ruas limpas, escolas a funcionar, uma zona off-shore -- que mais se pode querer?
Não é impossível que, do ponto de vista democrático, aqueles que no Continente vilipendiam o Doutor Alberto João Jardim agissem menos democraticamente do que ele se estivessem no governo da ilha. O que decerto não conseguiriam era manter um paraíso impecável, como aquele que a Madeira oferece a quem a visita. Poderá dizer-se que há uma mão férrea por detrás, mas é uma mão que sabe governar. O resto são tretas! Palavras e mais palavras para encher jornais e telejornais!
10/03/2005
Sobre o Poder
Alguém me pediu ontem umas frases sobre o poder para um trabalho seu. Enviei-lhe três páginas de citações que tenho em ficheiro, recolhidas de várias fontes. Talvez uma meia dúzia dessas citações tenha interesse para os leitores deste azweblog.
- "O poder é como um violino: toma-se com a esquerda e toca-se com a direita." (Juan Peron)
- "Um indivíduo pode ter óptimas ideias antes de ser ministro. Porém, quando se senta na cadeira do poder, as ideias começam a entrar-lhe pelo rabo acima."
- "Putas ao poder, que os filhos já lá estão!"
- "Paris vale bem uma missa!" Frase famosa que se cita a propósito das pessoas gulosas de poder que não se incomodam de engolir uns tantos sapos para o alcançar. É atribuída a Henrique IV de França, de tendência protestante (huguenote), a propósito da sua necessidade de ser católico para ser coroado rei de França, o que de facto veio a suceder.
- "Poder é fazer os outros acreditar que as nossas ideias são as deles." Disse-o o Alvin Toffler.
- "O grande problema dos reis era que nunca tocavam nos puxadores das portas -- esse prazer estava-lhes vedado." Henri Michaux
- "O pior que se pode dizer de um chefe é a verdade!"
Alguns comentários?
- "O poder é como um violino: toma-se com a esquerda e toca-se com a direita." (Juan Peron)
- "Um indivíduo pode ter óptimas ideias antes de ser ministro. Porém, quando se senta na cadeira do poder, as ideias começam a entrar-lhe pelo rabo acima."
- "Putas ao poder, que os filhos já lá estão!"
- "Paris vale bem uma missa!" Frase famosa que se cita a propósito das pessoas gulosas de poder que não se incomodam de engolir uns tantos sapos para o alcançar. É atribuída a Henrique IV de França, de tendência protestante (huguenote), a propósito da sua necessidade de ser católico para ser coroado rei de França, o que de facto veio a suceder.
- "Poder é fazer os outros acreditar que as nossas ideias são as deles." Disse-o o Alvin Toffler.
- "O grande problema dos reis era que nunca tocavam nos puxadores das portas -- esse prazer estava-lhes vedado." Henri Michaux
- "O pior que se pode dizer de um chefe é a verdade!"
Alguns comentários?
10/02/2005
Uma questão de tamanho
Os médicos gostam de dizer que somos muito o espelho daquilo que comemos. E têm toda a razão quando se referem à obesidade ou à excessiva magreza por excesso ou carência de comida. É óbvio que existem também motivos de ordem genética ou disfunções ocasionais que podem provocar a gordura ou o emagrecimento, mas o que se come conta muito.
Os póneis são lindos cavalinhos que nascem e crescem nas ilhas Shetland. Devido ao facto de essas ilhas britânicas serem batidas por fortes ventos oceânicos, os pastos não são ricos, pelo que os animais crescem pouco. Há umas décadas, um americano imbuído de espírito de iniciativa e sentido comercial pensou que teria um óptimo mercado na América se conseguisse criar póneis no seu país. Ao fim de duas gerações, porém, os póneis que tinha importado transformaram-se em cavalos normalíssimos.
Os chineses são, em grande medida, tão pequenos por falta de comida adequada (a situação tende a melhorar, obviamente). Ao fim de duas ou três gerações nos Estados Unidos -- e há milhares de chineses que todos os anos emigram para lá -- eles ficam praticamente da mesma altura dos americanos. Sob um determinado ângulo, os chineses são póneis humanos, como lembrava Josué de Castro na sua Geopolítica da Fome.
Quando vamos a Marrocos, somos surpreendidos pelo tamanho dos burros locais. São francamente mais pequenos que os burros lusitanos. A razão é a mesma que trouxe os muçulmanos a invadirem a Península Ibérica no primeiro século da era de Maomé. Aqui havia mais água, mais frutos, a terra era mais rica -- era, no fundo, a terra que os textos do Corão prometiam.
Nós, portugueses, somos hoje também substantivamente mais altos do que no passado. No último século crescemos em média cerca de dez centímetros. É claro que tudo tem a ver com o maior consumo de carne, de leite, de ovos, e outros géneros alimentícios que um menor poder de compra e um mundo diferente não nos colocavam ao alcance do prato.
Os póneis são lindos cavalinhos que nascem e crescem nas ilhas Shetland. Devido ao facto de essas ilhas britânicas serem batidas por fortes ventos oceânicos, os pastos não são ricos, pelo que os animais crescem pouco. Há umas décadas, um americano imbuído de espírito de iniciativa e sentido comercial pensou que teria um óptimo mercado na América se conseguisse criar póneis no seu país. Ao fim de duas gerações, porém, os póneis que tinha importado transformaram-se em cavalos normalíssimos.
Os chineses são, em grande medida, tão pequenos por falta de comida adequada (a situação tende a melhorar, obviamente). Ao fim de duas ou três gerações nos Estados Unidos -- e há milhares de chineses que todos os anos emigram para lá -- eles ficam praticamente da mesma altura dos americanos. Sob um determinado ângulo, os chineses são póneis humanos, como lembrava Josué de Castro na sua Geopolítica da Fome.
Quando vamos a Marrocos, somos surpreendidos pelo tamanho dos burros locais. São francamente mais pequenos que os burros lusitanos. A razão é a mesma que trouxe os muçulmanos a invadirem a Península Ibérica no primeiro século da era de Maomé. Aqui havia mais água, mais frutos, a terra era mais rica -- era, no fundo, a terra que os textos do Corão prometiam.
Nós, portugueses, somos hoje também substantivamente mais altos do que no passado. No último século crescemos em média cerca de dez centímetros. É claro que tudo tem a ver com o maior consumo de carne, de leite, de ovos, e outros géneros alimentícios que um menor poder de compra e um mundo diferente não nos colocavam ao alcance do prato.
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