10/31/2005

Atiradores furtivos

Durante largos anos tive como colega um indivíduo que era particularmente arguto e pragmático no seu comportamento. Tendo passado por vários cargos na instituição em que trabalhava, foi-se precavendo relativamente a umas quantas pessoas que poderiam eventualmente pregar-lhe rasteiras, prejudicando-o, portanto. Como antídoto para eventuais males futuros, coleccionou dessas pessoas alguns documentos oficiais que, de uma forma ou doutra, as comprometiam. Um dia, mostrou-me a sua pequena mas valiosa colecção e confessou-me que dois dos colegas já o tinham tentado "entalar". "Bastou-me chamar-lhes a atenção. Lembrei-lhes que possuía documentos que não os favoreciam", contou-me. E assim passou incólume pela instituição até se reformar.
Esta história vem a propósito da recentemente eleita presidente de uma autarquia a norte do Porto. O que tem na manga é, creio, demasiado comprometedor para determinadas pessoas, quiçá um partido. Se a maçam demais, ela ameaçará lançar toda a artilharia de que dispõe. Os anarcas rir-se-iam: "Desculpem esta injustiçazinha. A democracia segue dentro de momentos."

10/30/2005

Uma lição da toponímia nacional

Os nomes que são dados às múltiplas localidades de um país derivam de um sem-número de itens: factores geográficos (rios, ribeiras, montes, vales, várzeas), nomes de santos protectores, corruptelas de designações antigas, etc. Muitos topónimos derivam também dos nomes de árvores, arbustos e plantas de vária ordem. Tal como sucede noutros países, Portugal é rico neste domínio. Proponho que demos uma mirada por esses topónimos.
Matas de faias dão-nos o Faial. Carvalhos dão-nos Carvalhais, Carvalhos, Carvalheira e Carvalhosa. Castanheiros dão-nos Soutos, Soutelos e Castanheiras, como Castanheira de Pera. Nogueiras emprestam o seu nome a muitas localidades, como Vila Nogueira de Azeitão. O funcho, de que o caracol tanto gosta, dá-nos o Funchal. Do junco vêm Juncal, Juncais e Junqueira. Da oliveira, temos Olival, Oliveirinha e múltiplas Oliveiras, de que a de Azeméis será a mais conhecida. Da ameixieira, temos Ameixial. Das matas provêm as Moitas e as próprias Matas. Povoações com o nome de Abrunheira, Nespereira, Nesperal, Alandroal (de aloendros), Amieira, Amiais (de amieiros), Amoreira e Moreira (de amoras) remetem-nos para mais árvores, de fruto ou não, e para arbustos. Cedros, Coentral, Horta, Fenais (de feno), Feteira (de fetos), Cebolais, Figueira, Figueiredo, Figueiró e Freixo lembram-nos outros elementos do nosso mundo vegetal. Aroeira, Avelal, Avelar, Avelãs, Beringel, Zambujeira, Azambuja, Zambujal, Azinhal, Pessegueiro, Laranjeiro, Tramagal, Olaias, Pereiro, Pereira e Macieira juntam-se à longa lista. Das malvas vêm as Malveiras, das murtas o Murtal e a Murtosa, dos nabos Nabais, dos marmelos Marmeleira, do louro Loureiro, Louredo e Lourosa, das silvas as Silveiras e Silvalde, do salgueiro Salgueirais, do sobro Sobral e Sobreira. E ainda: Nabais, Palmeira, Palmela, Sabugo, Sabugueiro, Rosmaninhal, Vimioso, Vimeiro, Vimieiro, Romãs, Salsas. De um país rico em vinho é natural que surja Vide, Vidigueira, Vinhó, Vinhas e Vinhais. Da árvore que mais tem ardido em Portugal são numerosos os topónimos: Pinheiro, Pinheiros, Pinho, Pinhão e Pinhel.
Existem muitas mais designações, mas esta listagem já nos dá uma ideia razoável. O que se poderá estranhar é que a árvore que mais aumentou em área plantada em Portugal, o eucalipto, não esteja representada com um único topónimo. E, no entanto, entre 1928 e 1995 a área plantada com eucaliptos em Portugal aumentou 90 vezes! (Lamento não possuir estatísticas credíveis pós-1995, mas todos podemos ver na nossa paisagem o aumento exponencial dos eucaliptais.) Porque será que as populações não quiseram denominar de "Eucaliptal" nenhuma das suas localidades, à semelhança de Olival e Olivais, ou Carvalhal e Carvalhais? Dir-me-ão: porque é uma árvore relativamente nova em Portugal. Será um motivo. Mas o principal é o facto de o eucalipto ser uma árvore que contribui -- e de que maneira! -- para a desertificação do território. É o oposto de povoamento. Onde há largas plantações de eucalipto, tendencialmente não há pessoas. Permito-me recordar que essas plantações não são matas. Faltam-lhes os três componentes habituais: as ervas, os arbustos e as árvores propriamente ditas. Destes três elementos, o eucaliptal só tem as árvores. Os eucaliptos. Eles próprios. Chupistas de toda a água que encontram. Os seca-pântanos de antigamente vieram para secar o país e alimentar as companhias de celulose. É uma forma de tratar o país como se fora uma colónia que apenas se explora. O mais possível. Sem pensar nas gerações vindouras. Tudo no curto prazo, porque dá rendimento rápido. Pouco nos devemos admirar dos incêndios a perder de vista que destroem as matas autóctones de Portugal, aquelas que no fundo deram os nomes a tantos vilares, aldeias, vilas e até cidades. Esta é uma lição que a toponímia nos concede, como que a dar-nos um conselho: quando os incêndios deflagram, não se olhe apenas para as alterosas e mediáticas chamas que iluminam o céu e tudo devastam à sua frente. Pense-se também, e principalmente, nas futuras raízes que no terreno ardido se vão criar!

10/27/2005

Matriz de Acontecimentos (27 Outubro 2005)

Este fim-de-semana muda a hora. Ao acordar, no domingo, será uma hora mais cedo do que o indicado nos relógios que não tenham sido corrigidos. Que tal aproveitar para visitar um Museu? Recordo que os «Museus Oficiais», e alguns particulares, são grátis ao domingo de manhã. Recordo, ainda, que a interessantíssima exposição «Malhoa e Bordalo: Confluências duma Geração»foi prolongada até 6 de Novembro. Acaba no próximo sábado, dia 29, o SeixalJazz2005 ? todas as noites às 21h30 e 23h30.

Acaba no domingo, dia 30, o Grande Mercado do Livro de Outono - Mercado da Ribeira, das 10h00 às 22h00.

Decorre até 6 de Novembro XXV Festival Nacional de Gastronomia de Santarém, o XVI Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora e os XIII Encontros de Coros Amadores do Concelho de Oeiras.

Não liga/s nada às sugestôes aqui penosamente alinhadas! Para ver/es o que perdeu/ste sugiro o blog www.bizarrologia.com/jazz/jazz.php que no post do dia 22 pp. titula de «Um concerto memorável na Ordem dos Médicos» o concerto liderado pelo médico Barros Veloso aqui sugerido e onde não o/a vi ?(na realidade estou a sugerir o blog, que é muito interessante, embora neste caso estejam a ser bonzinhos. Foi bom, mas longe do memorável, grau que, dadas as limitações da minha memória, aplico com alguma parcimónia).

Quinta-feira, dia 27:
às 18h00, na Gulbenkian, «Arte e Ciência: Conversa em Torno de uma Obra de Arte», com Nuno Crato, Nuno Faria, José Brandão, João Paulo Feliciano e João Caraça (moderador), do ciclo ?À Luz de Einstein 1905-2005?;

às 18h00, no Monte-Estoril, reabertura do Museu da Música Portuguesa Casa Verdades Faria (local onde se passarão a realizar as conferências do ciclo ?De Música também se fala - Tudo o que você sempre quis saber sobre Beethoven... e nunca teve a oportunidade de perguntar!", por Teresa Cascudo).

Sexta-feira, dia 28:
às 21h30, na Culturgest, Uri Caine interpreta, a solo, composições originais, jazz standards e arranjos e improvisações sobre música de Mahler, Verdi e Beethoven.

Sábado, dia 29:
às 15h00, no Auditório da Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha, homenagem ao poeta Alexandre O´Neill pelas Comunidades de Leitores e de Cinéfilos das Caldas da Rainha (inclui a projecção, em estreia, do filme ?Tomai lá do O´Neill?).

das 15h00 às 19h30, na Culturgest, Maratona de Leitura tema: o amor!

às 17h00, na Fnac Colombo: Angelina, apresenta o CD ?Jazz Feelings?.

Domingo, dia 30:
às 12h00, no CAMJAP (?Centro Arte Moderna da Gulbenkian?) visita temática do ciclo ?Artistas da Colecção? «Eduardo Nery e a Arte Óptica na Colecção do CAMJAP» por Carla Mendes.

Segunda-feira, dia 31:
às 23h30, na 2:, Ana Sousa Dias vai conversar com a escritora brasileira Nélida Piñon.

Terça-feira, dia 1, feriado:
às 21h30, na Igreja de S. Domingos, concerto evocativo do Terramoto de 1755 pela Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Quarta-feira, dia 2:
às 18h00, na Culturgest, conferência do ciclo «Óperas (mal) amadas do Século XX»: Maskarade (1906) de Carl Nielsen (1865-1931), por Sérgio Azevedo.

A seguir:
11 a 20 de Novembro, London Jazz Festival

25 de Novembro, às 22h45, na Aula Magna: Jacinta

Download do ficheiro das Sugestôes (27 Outubro 2005)

Bom fim-de-semana

JMiguel

Três notícias positivas

Considero dignificante a posição de Portugal no relatório sobre liberdade de imprensa, elaborado todos os anos pela organização "Repórteres sem Fronteiras". O 24º lugar que o país ocupa, à frente do Reino Unido, França e Espanha, é bastante interessante. Os Estados Unidos foram, entretanto, relegados do 23º para o 44º lugar. Como seria de prever, também neste capítulo são os países nórdicos, como a Dinamarca, a Finlândia e a Noruega que lideram o ranking.
As duas outras notícias positivas dizem respeito à autarquia de Lisboa. Num caso, o poder autárquico resistiu à tentação do imobiliário e transformou, conforme prometido, a antiga estação da Carris no Arco Cego -- uma área altamente valiosa em termos de terrenos -- num jardim, ainda em fase de conclusão. O edifício contíguo está a ser objecto de restauro.
Por outro lado, a Fonte Luminosa, na Alameda Afonso Henriques, foi restaurada, incluindo os baixos-relevos das partes laterais. O topo por detrás da fonte, que se encontrava em lastimável estado, foi todo ajardinado.
É um prazer assinalar estes factos.

10/25/2005

Gastronomia portuguesa

Eu sei que há tasquinhas em tudo quanto é feira. Sei também que qualquer Bolsa do Turismo de Lisboa apresenta anualmente uma quantidade notável de comes-e-bebes. Mas continuo a considerar que a Feira de Gastronomia de Santarém é das melhores do país. Estende-se ao longo de cerca de três semanas, o que permite aos restaurantes apostarem no seu melhor. E quem diz restaurantes diz, obviamente, casas de doces. E de presuntos. E de queijos. Sem faltarem os vinhos, claro.
Dei uma saltada à Feira num dia pacato. Com uns amigos de velha data. A única grande decisão que tivemos que tomar foi entre saltitar de tasquinha em tasquinha, petiscando e bebericando aqui e ali, ou abancar num sítio e comer. Esta hipótese seria eventualmente mais cómoda, a outra mais interessante. Foi o não-abancar a alternativa escolhida. E foi também uma alegre romaria, saborosa, apaladada, rica e variada, de região em região. Qualidade: impecável. É realmente extraordinário fazer uma peregrinação deste tipo e apanhar, por vezes no prato, por vezes só no menu, petiscos tão díspares como maranhos e bucho, da Beira Baixa, chanfana, cracas dos Açores, pezinhos de coentrada, ensopado de cabrito e torresmos do Alentejo, peixinhos da horta, sopa e arroz de lingueirão, choquinhos fritos e xerém do Algarve, posta mirandesa, posta maroeira, nacos na pedra, enguias fritas, ensopado de enguias, sável, leitão da Bairrada e eu sei lá mais o quê. Uma delícia, quando se come um pouco disto e um pouco daquilo, que o que se encomenda é para o grupo e cada um só petisca. Pão do melhor, jarros de vinho óptimo: as tascas estão a concurso e, no final, haverá prémios para os melhores. Doçaria conventual de bom nível e extraordinária variedade.
Ponhamos por uns dias a política de lado e revejamo-nos neste mosaico de elevada qualidade que é a comida portuguesa. Podem muitos dos nossos valores ter caído, mas há sempre outros que mais alto se alevantam. Estes são uns deles. Quem puder tasquinhar assim num dia pouco concorrido considere-se um felizardo. Comeu e bebeu do melhor que Portugal tem. E ao fazer as contas, divididas por todos, não pagou muito. É que a concorrência aperta e preços demasiado altos deitariam tudo a perder.
Salvo erro até 3 de Novembro -- mais uma sugestão saborosa do João Miguel -- convém não perder Santarém.