"Não há língua mais fácil no mundo", dizem os que a falam desde o berço. Como ninguém é bom julgador em causa própria, veja você por si, como português de gema.
No outro dia, um amigo meu, que arranha inglês e foi a Londres em visita turística, ficou num hotel que estava em obras de restauro. Em pinturas, para ser mais exacto. A dado momento, ouviu alguém gritar Look out!, num andar muito por cima do seu. Correu à janela ao chamamento, só para levar na cabeça e nos ombros com a tinta de uma grande lata de plástico que escorregara das mãos do pintor. Concluiu, assisadamente, que quando os ingleses gritam look out! querem dizer que não se deve olhar para fora. Ainda por cima, o verde escuro nunca foi a sua cor favorita.
Esse mesmo amigo contou-me que, nessa noite, uma moça londrina o embaraçou quando, suave e languidamente, lhe perguntou, no bar onde tomavam um drink: "Which is the best flower to kiss?" Ele corou, murmurou um atrapalhado "I don't know" e ficou depois a ouvir a moça sussurrar-lhe, candidamente: "Tulips" (two lips).
Em inglês você julga que uma coisa é A, e depois ela sai B. Se você se lastimar do dinheiro que um pickpocket lhe surripiou do bolso, é capaz de ouvir o seu interlocutor dizer-lhe "I sympathize". Está você já todo contente com o facto de o considerarem simpático, quando uma mirada ao seu pequeno dicionário o informa que sympathize significa algo como "sinto muito!" Desmancha-prazeres!
É difícil entender uma língua com tantas rasteiras. Todos nós aprendemos a dizer "smoking" e chegamos a uma terra inglesa e constatamos que smoking não é coisa que se vista. Aliás, os dizeres que se encontram aqui e ali não são a dizer que é preciso usar smoking, mas a indicar precisamente o contrário: No smoking!
Anda um homem à espera de um fim feliz para a sua estadia, um happy end como ele sempre disse, e depois descobre que, afinal, é happy ending. Porque é que não disseram antes? Também o jogo do box não é assim que se diz, mas sim boxing, e o nosso surf, tão British, afinal é surfing. Que história é esta?!
Mas há muito mais, tanto que parece mesmo ser para nos fazer pirraça. Fala um homem em Christianism e emendam-nos, polidamente, para Christianity. Se falamos em Romantism, corrigem-nos para Romanticism. Se dizemos "lubrificate" quando pedimos para nos lubrificarem o carro, atiram-nos com um lubricate que é parecido mas faz o nosso verbo estar errado. E se quisermos condecorar alguém com umas medalhitas lusas e falamos em condecorate, atalham-nos o discurso. É decorate. Também o que deveria ser confraternize é apenas fraternize. Já podiam ter avisado antes!
Em matéria de grafia e pronúncia então, estamos conversados. Um verbo como to read, read, read devia obviamente ler-se da mesma forma. Devia! Estou convencido de que eles põem letras só para nos atrapalharem: em should, o -l- não se lê. O.K. Chegava. Era uma excepção e a gente aceitava. Mas não: em would, could, calm, salmon e mais uma chusma de palavras fazem o mesmo! A isto chamam eles simplicidade!
A história não fica por aqui: castle não tem um -t- audível, tal como listen. Debt e doubt têm o -b- só para nos confundir, e quanto ao -ough que aparece em tantas palavras, só está lá para ver se nós conseguimos resolver o problema: em tough, cough, trough, through, borough e thorough é um verdadeiro jogo de atirar a moeda ao ar a ver se se acerta. Não se acerta!
Imagine que hiccough, palavra que aparece em histórias de banda desenhada sob a forma abreviada de "hic" (soluço, principalmente quando se apanhou uma bebedeira), se pronuncia hik-kup (a última parte como cup).
Foi por estas e por outras que o filho de um outro amigo meu, já farto de andar a apanhar bonés com a língua inglesa em Londres, ficou doido quando leu um título no jornal de uma senhora que seguia no banco da frente do seu autocarro. Embora a notícia fosse sobre uma exposição que tinha alcançado grande êxito, o título, que foi tudo o que ele leu, dizia: "Exhibition pronounced success". No dia seguinte apareceu de volta na casa dos pais em Lisboa. Para experiência já bastava!
11/28/2005
Presidenciais
Por razões que não consigo descortinar, ninguém ainda aflorou aqui a questão das presidenciais. Talvez seja por fartura de política, talvez seja por cansaço relativamente aos candidatos -- um déjà vu a provocar um enorme bocejo. Seja como for, há um aspecto interessante: temos pela frente um autêntico direita-esquerda. Há um candidato único da direita, contra cinco da esquerda (um deles, filho do homem que primeiro me ensinou inglês a sério, farta-se de protestar que não lhe ligam, e até parece ter razão no seu sentir-se discriminado).
Um encontro tão directo da direita contra a esquerda nas presidenciais era algo que não se via há bastante tempo. Parece-me interessante, como intróito, rever um pouco a matéria dada sobre este assunto. Começarei por lembrar que sempre que alguém nos diz que "essa de esquerdas e direitas é pura balela", esse alguém é, sem margem para dúvidas, de direita. Porquê? Porque ser de esquerda exige uma tomada de consciência e um sentimento de revolta mais ou menos acentuado que não se compadece com a não-existência de, pelo menos, um dualismo. Pelo contrário, a quem é de direita convém esbater as diferenças para que o status quo se prolongue sem alterações de maior. Com evolução sim, nunca com revolução.
Não quer dizer que todos os esquerdistas sejam revolucionários, mas há decerto algo com que se preocupam bem mais que as pessoas de direita: com a justiça social. O valor número um da esquerda sempre foi uma tendência para a igualdade. Isto não significa todos muito ricos, mas sim todos com bons meios de subsistência. Para quem é de esquerda, repugna que a desigualdade excessiva provoque o domínio claro de uns pelos outros, o que vai contra uma desejada harmonia social.
Para a direita, o valor número um é a ordem. Cada peça no seu lugar no tabuleiro de xadrez. Congruentemente, a direita defende a tradição, que torna as diferenças sociais legítimas porque atestadas pela história. O que a direita defende não é a liberdade que a esquerda entende: liberdade de pensamento e expressão num contexto de rule of law.Defende, sim, um conceito de liberdade desregulada. Assim, quem mais tem, mais poderá acumular. Mas essa desregulação, que tem largos efeitos práticos, tem algo a precedê-la em matéria de relevância: a segurança. A manutenção da ordem. Não há nada que a direita mais tema do que a desordem.
Esquerda e direita são populistas na sua ânsia de angariarem votos. Mas a cultura da direita, ao apelar aos que tão diferentes são em matéria de rendimentos, pretende mais do que tudo manter a situação, com a dominação dos muitos pelos relativamente poucos.
Quem não soubesse, entenderia imediatamente pelo que escrevo que sou de esquerda. Acredito na possibilidade de um mundo melhor, que não é necessariamente um mundo mais rico, mas encerra certamente uma melhor distribuição da riqueza. Acredito mais no valor da liberdade do que da segurança, que tantas vezes é usada para cercear as liberdades. Aceito aquela máxima muito simples que nos diz que a direita sabe fazer dinheiro, mas não sabe distribuí-lo, enquanto a esquerda sabe distribuí-lo, mas não o sabe fazer. Considero-a, no entanto, uma asserção tipicamente de direita, na medida em que se refere exclusivamente a dinheiro, o que, sendo importante, é manifestamente insuficiente.
Tenho para mim que existem basicamente dois grandes pólos ideológicos, dos quais um é mais característico da esquerda, e o outro do pensamento mais conservador da direita. Em resumo possível, direi que: a direita pretende basicamente o crescimento da riqueza, enquanto a esquerda luta pela sua redistribuição. À liberdade empresarial da direita contrapõe-se um ideal de igualdade de oportunidades da esquerda. Ao conceito de segurança da direita o ideal da liberdade. À forma mais tradicional de família da direita responde a esquerda com novas formas de vida em conjunto. À exploração de matérias-primas que a direita defende nas suas políticas de curto prazo, replica a esquerda com a luta pela defesa e conservação do ambiente.
São opções claras, com pontos de vista nitidamente diferenciados, embora às vezes o contexto internacional obrigue a práticas quase semelhantes em determinados aspectos.
Relevantes são, ainda, as diferentes maneiras de encarar o Estado. Tanto a esquerda como a direita consideram-no essencial nas suas políticas. A um Estado mais redistribuidor e interventivo da esquerda, responde a direita com um Estado mais liberal, garante da ordem e da segurança, benévolo na fiscalidade
Neste pano de fundo, Cavaco Silva tem o apoio da direita. Todos os grandes grupos económicos estão com ele. Os restantes candidatos, que se degladiam uns aos outros, pugnam no campo da esquerda.
Até agora, Portugal tem tido presidentes bastante consensuais e que não originaram descontentamentos de vulto. A direita apoiou Mário Soares na sua reeleição, se bem me lembro. A única situação mais grave ultimamente foi o derrube do governo de Santana Lopes, algo que no entanto foi tão aprovado pela maioria da população que acabou por resultar na maioria absoluta conferida aos socialistas.
Agora, esboça-se uma radicalização maior. A ver vamos.
Um encontro tão directo da direita contra a esquerda nas presidenciais era algo que não se via há bastante tempo. Parece-me interessante, como intróito, rever um pouco a matéria dada sobre este assunto. Começarei por lembrar que sempre que alguém nos diz que "essa de esquerdas e direitas é pura balela", esse alguém é, sem margem para dúvidas, de direita. Porquê? Porque ser de esquerda exige uma tomada de consciência e um sentimento de revolta mais ou menos acentuado que não se compadece com a não-existência de, pelo menos, um dualismo. Pelo contrário, a quem é de direita convém esbater as diferenças para que o status quo se prolongue sem alterações de maior. Com evolução sim, nunca com revolução.
Não quer dizer que todos os esquerdistas sejam revolucionários, mas há decerto algo com que se preocupam bem mais que as pessoas de direita: com a justiça social. O valor número um da esquerda sempre foi uma tendência para a igualdade. Isto não significa todos muito ricos, mas sim todos com bons meios de subsistência. Para quem é de esquerda, repugna que a desigualdade excessiva provoque o domínio claro de uns pelos outros, o que vai contra uma desejada harmonia social.
Para a direita, o valor número um é a ordem. Cada peça no seu lugar no tabuleiro de xadrez. Congruentemente, a direita defende a tradição, que torna as diferenças sociais legítimas porque atestadas pela história. O que a direita defende não é a liberdade que a esquerda entende: liberdade de pensamento e expressão num contexto de rule of law.Defende, sim, um conceito de liberdade desregulada. Assim, quem mais tem, mais poderá acumular. Mas essa desregulação, que tem largos efeitos práticos, tem algo a precedê-la em matéria de relevância: a segurança. A manutenção da ordem. Não há nada que a direita mais tema do que a desordem.
Esquerda e direita são populistas na sua ânsia de angariarem votos. Mas a cultura da direita, ao apelar aos que tão diferentes são em matéria de rendimentos, pretende mais do que tudo manter a situação, com a dominação dos muitos pelos relativamente poucos.
Quem não soubesse, entenderia imediatamente pelo que escrevo que sou de esquerda. Acredito na possibilidade de um mundo melhor, que não é necessariamente um mundo mais rico, mas encerra certamente uma melhor distribuição da riqueza. Acredito mais no valor da liberdade do que da segurança, que tantas vezes é usada para cercear as liberdades. Aceito aquela máxima muito simples que nos diz que a direita sabe fazer dinheiro, mas não sabe distribuí-lo, enquanto a esquerda sabe distribuí-lo, mas não o sabe fazer. Considero-a, no entanto, uma asserção tipicamente de direita, na medida em que se refere exclusivamente a dinheiro, o que, sendo importante, é manifestamente insuficiente.
Tenho para mim que existem basicamente dois grandes pólos ideológicos, dos quais um é mais característico da esquerda, e o outro do pensamento mais conservador da direita. Em resumo possível, direi que: a direita pretende basicamente o crescimento da riqueza, enquanto a esquerda luta pela sua redistribuição. À liberdade empresarial da direita contrapõe-se um ideal de igualdade de oportunidades da esquerda. Ao conceito de segurança da direita o ideal da liberdade. À forma mais tradicional de família da direita responde a esquerda com novas formas de vida em conjunto. À exploração de matérias-primas que a direita defende nas suas políticas de curto prazo, replica a esquerda com a luta pela defesa e conservação do ambiente.
São opções claras, com pontos de vista nitidamente diferenciados, embora às vezes o contexto internacional obrigue a práticas quase semelhantes em determinados aspectos.
Relevantes são, ainda, as diferentes maneiras de encarar o Estado. Tanto a esquerda como a direita consideram-no essencial nas suas políticas. A um Estado mais redistribuidor e interventivo da esquerda, responde a direita com um Estado mais liberal, garante da ordem e da segurança, benévolo na fiscalidade
Neste pano de fundo, Cavaco Silva tem o apoio da direita. Todos os grandes grupos económicos estão com ele. Os restantes candidatos, que se degladiam uns aos outros, pugnam no campo da esquerda.
Até agora, Portugal tem tido presidentes bastante consensuais e que não originaram descontentamentos de vulto. A direita apoiou Mário Soares na sua reeleição, se bem me lembro. A única situação mais grave ultimamente foi o derrube do governo de Santana Lopes, algo que no entanto foi tão aprovado pela maioria da população que acabou por resultar na maioria absoluta conferida aos socialistas.
Agora, esboça-se uma radicalização maior. A ver vamos.
11/25/2005
Ministério da Educação e docentes (II)
Foi há cerca de vinte anos que, intrigado com a falta de conhecimentos de muitos dos estudantes que recebia das escolas secundárias, pedi a três alunas minhas para me contarem o que se passava. Eram três alunas especiais, docentes de francês e português no ensino básico e secundário. Amigas, as três tinham decidido aproveitar a oportunidade que a escola superior em que eu estava lhes oferecia para se matricularem em cursos livres de línguas. Como a expressão se fazia na língua que estavam a reaprender, a sua prática oral serviu até de razoável exercício, sem as inibições que às vezes estudantes sentem ao exprimir-se em línguas estrangeiras. É que o assunto não só lhes dizia respeito como, além disso, elas tinham imensa vontade de se abrir sobre o tema.
Devo dizer que sempre considerei os "desabafos" pessoais algo de importante. Deitar cá para fora coisas que nos oprimem (e abafam, no sentido de nos tirarem o fôlego ou criarem aperto -- a angústia, a ansiedade, o Angst alemão que está ligado a isto tudo, tal como a angina pectoris) é uma verdadeira e saudável catarse. Abafo é pressão, pelo que conseguir extravasar essa pressão é fundamental. É, no fundo, a ex-pressão.
E as "alunas" expressaram-se. Ainda hoje me recordo bem das suas ideias. Eram de profundo desapontamento. Porquê? Basicamente por questões de disciplina geral e de rigor. Não se pense que me falaram nessa coisa mediática que dá pelo nome de violência física, com agressões e coisas do género. Falaram-me de outro tipo de violência. De se sentirem impotentes perante a sociedade, os seus meninos e meninas, e ainda os respectivos pais. Estes alijavam a carga sobre os docentes das escolas, exigindo aos professores aquilo em que frequentemente eles próprios eram permissivos. Queriam que os docentes endireitassem a vara torta que lhes entregavam, em termos de respeito, disciplina e prazer de trabalhar. Queriam também resultados bons: era essencial que os filhos passassem de ano. Mas não eram só os pais a quererem isso. O próprio Ministério tinha criado todas as condições para que as estatísticas educativas fossem mais risonhas. E, diziam-me elas, é bastante difícil chumbar alunos. Temos que responder a quesitos vários. Ora, a realidade simples é que muitos dos estudantes não sabem o suficiente para passar. Porém, com a pressão daqui e dali, acabam por transitar para o ano seguinte. Sentimo-nos naturalmente desautorizadas. Essas passagens imerecidas levam à falta de aplicação dos alunos no ano posterior. Para quê estudar tanto, se a passagem está praticamente garantida? E não é a passagem que interessa aos pais?
Infelizmente, tem-se andado há muito neste engano. Recordo-me de, há anos, ter encontrado nos lavabos de uma escola politécnica em que leccionava, um protesto escrito na parede: "Queremos licenciatura univercitária!" E, mesmo com a grafia errada, obtiveram-na. O engano do facilitismo e da escola light foi fatal. Enquanto por palavras se falava em "escola de excelência", a realidade mostrava algo substancialmente diferente. Nunca se deveria ter ido por aí. Isso representou o abanar das estruturas. Não foi algo apenas conjuntural para que as estatísticas revelassem enormes progressos do país, a que corresponderiam mais fundos de apoio europeus. A situação abalou o edifício social, muito para além da escola, e esta foi, por sua vez, afectada pelo abalo do edifício social. Entrou-se na teoria do aluno-coitadinho. Existem notórias excepções, como é óbvio, mas o resultado global está à vista de todos. O interesse pelos fins, desprezando a forma como a eles se chegava, foi fruta podre que contaminou mais do que devia. Este é um assunto longo, que exigiria muito espaço e exemplos concretos, que aliás abundam. Limitemo-nos à questão dos professores.
Com o problema da notória desresponsabilização social em que frequentemente se entrou, os docentes honestos e sérios ficaram verdadeiramente desolados. Esses professores mais não pretendem do que rigor, o reconhecimento do seu trabalho e do esforço dos seus alunos. Querem justiça, como todo o ser humano que se preza. Com o abalo da estrutura social, o status do professor sofreu. Os concursos sucessivos de colocação nas escolas, a mediatização do número de professores a engrossarem a lista dos desempregados, os lamentos frequentes registados nas televisões, não serviram para melhorar esse status. Muito pelo contrário.
Ora, se há algo crucial para que um aluno aprenda é a confiança e a admiração pela pessoa que o ensina. Pela pessoa e pela instituição. Com a exposição frequente nos media, e nas conversas gerais, de diplomados que de facto cometem erros que não são admissíveis, lança-se o descrédito sobre a escola e, em linha directa, sobre os professores. Em geral. Sem separar o trigo do joio. Porque há trigo e há joio.
Em minha opinião, agora mais informada, a situação presentemente imposta às escolas básicas e secundárias contribui mais para aviltar a maneira como os docentes são vistos, e se vêem a si próprios, do que para resolver a questão do insucesso escolar. Entre a qualidade e a quantidade, há que escolher. Existem, de facto muitas coisas a melhorar na escola, mas é preciso nunca perder de vista as raízes da sociedade em que ela se encontra inserida. Com isso, ser-se-á mais justo, mais honesto, e não se procurará arranjar bodes expiatórios únicos.
Devo dizer que sempre considerei os "desabafos" pessoais algo de importante. Deitar cá para fora coisas que nos oprimem (e abafam, no sentido de nos tirarem o fôlego ou criarem aperto -- a angústia, a ansiedade, o Angst alemão que está ligado a isto tudo, tal como a angina pectoris) é uma verdadeira e saudável catarse. Abafo é pressão, pelo que conseguir extravasar essa pressão é fundamental. É, no fundo, a ex-pressão.
E as "alunas" expressaram-se. Ainda hoje me recordo bem das suas ideias. Eram de profundo desapontamento. Porquê? Basicamente por questões de disciplina geral e de rigor. Não se pense que me falaram nessa coisa mediática que dá pelo nome de violência física, com agressões e coisas do género. Falaram-me de outro tipo de violência. De se sentirem impotentes perante a sociedade, os seus meninos e meninas, e ainda os respectivos pais. Estes alijavam a carga sobre os docentes das escolas, exigindo aos professores aquilo em que frequentemente eles próprios eram permissivos. Queriam que os docentes endireitassem a vara torta que lhes entregavam, em termos de respeito, disciplina e prazer de trabalhar. Queriam também resultados bons: era essencial que os filhos passassem de ano. Mas não eram só os pais a quererem isso. O próprio Ministério tinha criado todas as condições para que as estatísticas educativas fossem mais risonhas. E, diziam-me elas, é bastante difícil chumbar alunos. Temos que responder a quesitos vários. Ora, a realidade simples é que muitos dos estudantes não sabem o suficiente para passar. Porém, com a pressão daqui e dali, acabam por transitar para o ano seguinte. Sentimo-nos naturalmente desautorizadas. Essas passagens imerecidas levam à falta de aplicação dos alunos no ano posterior. Para quê estudar tanto, se a passagem está praticamente garantida? E não é a passagem que interessa aos pais?
Infelizmente, tem-se andado há muito neste engano. Recordo-me de, há anos, ter encontrado nos lavabos de uma escola politécnica em que leccionava, um protesto escrito na parede: "Queremos licenciatura univercitária!" E, mesmo com a grafia errada, obtiveram-na. O engano do facilitismo e da escola light foi fatal. Enquanto por palavras se falava em "escola de excelência", a realidade mostrava algo substancialmente diferente. Nunca se deveria ter ido por aí. Isso representou o abanar das estruturas. Não foi algo apenas conjuntural para que as estatísticas revelassem enormes progressos do país, a que corresponderiam mais fundos de apoio europeus. A situação abalou o edifício social, muito para além da escola, e esta foi, por sua vez, afectada pelo abalo do edifício social. Entrou-se na teoria do aluno-coitadinho. Existem notórias excepções, como é óbvio, mas o resultado global está à vista de todos. O interesse pelos fins, desprezando a forma como a eles se chegava, foi fruta podre que contaminou mais do que devia. Este é um assunto longo, que exigiria muito espaço e exemplos concretos, que aliás abundam. Limitemo-nos à questão dos professores.
Com o problema da notória desresponsabilização social em que frequentemente se entrou, os docentes honestos e sérios ficaram verdadeiramente desolados. Esses professores mais não pretendem do que rigor, o reconhecimento do seu trabalho e do esforço dos seus alunos. Querem justiça, como todo o ser humano que se preza. Com o abalo da estrutura social, o status do professor sofreu. Os concursos sucessivos de colocação nas escolas, a mediatização do número de professores a engrossarem a lista dos desempregados, os lamentos frequentes registados nas televisões, não serviram para melhorar esse status. Muito pelo contrário.
Ora, se há algo crucial para que um aluno aprenda é a confiança e a admiração pela pessoa que o ensina. Pela pessoa e pela instituição. Com a exposição frequente nos media, e nas conversas gerais, de diplomados que de facto cometem erros que não são admissíveis, lança-se o descrédito sobre a escola e, em linha directa, sobre os professores. Em geral. Sem separar o trigo do joio. Porque há trigo e há joio.
Em minha opinião, agora mais informada, a situação presentemente imposta às escolas básicas e secundárias contribui mais para aviltar a maneira como os docentes são vistos, e se vêem a si próprios, do que para resolver a questão do insucesso escolar. Entre a qualidade e a quantidade, há que escolher. Existem, de facto muitas coisas a melhorar na escola, mas é preciso nunca perder de vista as raízes da sociedade em que ela se encontra inserida. Com isso, ser-se-á mais justo, mais honesto, e não se procurará arranjar bodes expiatórios únicos.
VERGONHA
Retirado do jornal PÚLICO de hoje:
Hoje é Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres.
Violência doméstica matou 33 mulheres desde o início do ano.
Foram alvejadas a pistola ou caçadeira, golpeadas com faca ou machado, mortas à vassourada, à paulada, ao murro ou pontapé. Desde o início do ano, 29 mulheres foram assassinadas por maridos, namorados ou ex-companheiros, mais quatro por familiares.
Como dizia a canção, "vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar!"
Hoje é Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres.
Violência doméstica matou 33 mulheres desde o início do ano.
Foram alvejadas a pistola ou caçadeira, golpeadas com faca ou machado, mortas à vassourada, à paulada, ao murro ou pontapé. Desde o início do ano, 29 mulheres foram assassinadas por maridos, namorados ou ex-companheiros, mais quatro por familiares.
Como dizia a canção, "vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar!"
11/24/2005
PROPOSTA
Agora que está decidido que o novo aeroporto de Lisboa vai ser na Ota, gostaria apenas de propor, em primeira mão, que aos vastos terrenos da Portela, os quais a seu tempo irão ficar devolutos para construção imobiliária, se dê a designação de Bairro dos Políticos. Numa Lisboa que tem, entre muitos outros, o Bairro Azul, o Bairro do Restelo, o Bairro Cardeal Cerejeira, o Bairro da Madre de Deus, o Bairro dos Actores, o Bairro dos Professores, o Bairro das Colónias, o Bairro dos Irmãos Pobres, o Bairro da Liberdade, o Bairro Operário e o Bairro da Penitenciária, está obviamente a faltar o Bairro dos Políticos. Será o maior de Lisboa. Como convém.
(Se sobejar ainda alguma nesga de terreno, que ela seja aproveitada para a edificação do Bairro dos Construtores.)
(Se sobejar ainda alguma nesga de terreno, que ela seja aproveitada para a edificação do Bairro dos Construtores.)
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