12/21/2005

Feliz Natal!

Votos de Boas Festas para os colegas do blog e para todos aqueles que têm colaborado com os seus comentários, ou apenas lido os nossos arrazoados.
Pela minha parte, embora tenha como habitualmente vários assuntos na manga, vou fazer uma pausa natalícia.

12/17/2005

Mulher


Esta é uma foto tirada há algum tempo nas terras nortenhas do Soajo. Não custará a acreditar que fiquei algo estonteado ao ver esta aparentemente franzina mulher a carregar à cabeça um molho de fetos tão volumoso. Não consegui divisar-lhe o rosto para concluir se ia cansada ou a praguejar com a vida. A princípio, tudo o que enxerguei foi o que a objectiva captou: duas pernas magras a sustentarem um corpo que fazia mover ao longo da estrada aquele enorme feixe de fetos. Decidi segui-la. Ao fim de uns dois minutos chegou ao quintal da sua casa, onde alijou a carga. Com grande jovialidade, dispôs-se a falar comigo. Admitiu que não estava fatigada. Fazia aquilo duas ou três vezes no mês. "Mas mesmo assim era melhor não ter que carregar isto, bem entendido!" Falou-me com a resignação da mulher-mãe, que veste invariavelmente de preto, viu os seus dois filhos emigrarem para o Luxemburgo e agora tinha que tratar sozinha da sua vida. "Eles não querem que eu faça isto. Quando cá vêm no verão, não me deixam. Mas agora, até aquece!"
Impressionou-me. Pensei em dizer-lhe qualquer coisa, mas decidi quedar-me como ouvinte. Quem era eu, homem da cidade e apenas ocasional viajante por aquelas paragens, para eventualmente lhe transmitir palavras que, se causassem um sentimento de revolta, poderiam afinal envenenar quem fazia com prazer, por ser útil, tarefas a que há muito se habituara?
A publicação desta foto é uma pequena homenagem, a ela e a tantas outras mulheres que labutam sem cessar, desde o muito cedo da manhã, totalmente ignoradas da esmagadora maioria de nós.

12/16/2005

Périplo livreiro no Chiado


Como antigo morador no bairro de Santa Catarina, aluno do Passos Manuel e, mais tarde, da Faculdade de Letras na Rua da Academia das Ciências, o Chiado sempre foi o meu poiso de livros. Folhear romances, ler capítulos inteiros, dar uma olhadela a poemas, apreciar fotos e hesitar perante o preço foram passos que me habituei a dar nas livrarias do Chiado. Os alfarrabistas da Trindade e da rua do Alecrim também faziam frequentemente parte do meu itinerário, onde invariavelmente encontrava amigos perdidos nas mesmas deambulações.
No final da manhã de sábado passado, resolvi descer o Chiado. Descendo a Garrett, que juntamente com a Rua do Carmo e a Nova do Almada forma um Y invertido, entrei primeiro numa das minhas livrarias favoritas do passado: a Sá da Costa. Era lá que, antes do 25 de Abril, por vezes me arranjavam à sexta-feira à tarde, depois da hora a que terminava a eventual visita da PIDE (17H00), aqueles livrinhos que os bons costumes políticos da altura não consentiam que chegassem ao público em geral. Vinham invariavelmente embrulhados, sem qualquer identificação que permitisse concluir que tinham sido comprados na Sá da Costa. Ora bem, no passado sábado a Sá da Costa surgiu-me, sem remodelações aparentes, com apenas dois clientes no interior para igual número de funcionárias. Dei uma vista de olhos. Mantinha-se tudo sensivelmente na mesma. As estantes ainda são encimadas por quadradinhos de cartão com dizeres manuscritos: Direito, História, Edições Sá da Costa, etc. Quando saí, depois de dar uma volta pelas instalações onde, por falta de dinheiro, namorei durante meses uma enciclopédia que ainda hoje tenho em casa, o número de clientes era igual a zero. A abertura da caixa registadora não se fez ouvir.
Um pouco mais abaixo e do lado oposto, entrei na Bertrand. Um ambiente mais acolhedor, boa iluminação e decorações natalícias permitiam que estivessem uns 20 clientes ao todo na vasta livraria. Não eram muitos, mas não provocavam a horrível sensação de vazio. Mesmo assim, atendendo à quadra do ano, o movimento era relativamente diminuto.
Mais abaixo, entrei na FNAC, de que sou cliente assíduo. Para começar, não se poderá dizer que a FNAC seja apenas uma livraria, mas o certo é que vende incomparavelmente mais do que todas as livrarias do Chiado juntas. Havia um movimento grande, que é aliás frequente. Crianças, jovens e adultos, uns de pé e outros sentados em locais destinados a leitura rápida, folheavam livros, enquanto empregados perfeitamente identificáveis respondiam com prontidão e eficiência, geralmente graças ao sistema informático, a questões levantadas por clientes. Todos sabemos que a FNAC junta à livraria a música, os DVD, os computadores, as impressoras e toda a parafernália afim. E adiciona ainda a isto um café, venda de bilhetes para espectáculos e mais um cartão de membro. De qualquer forma, impressiona o número de pessoas que congrega em comparação com as restantes livrarias da zona.
Desci propositadamente a Rua Nova do Almada. A velha Luso-Espanhola é hoje a Coimbra Editora e, tanto quanto me pude aperceber, especializou-se na área de Direito, o que estará em ligação directa com o grande número de advogados que têm os seus escritórios naquela zona. Com bom aspecto no seu remodelado interior, estava fechada.
Mais abaixo e com o seu charme habitual, a centenária Férin tinha as portas abertas, mas apenas oito potenciais clientes. Coffee-table books decoravam as montras.
Do lado da Rua do Carmo, o panorama foi mais grave. Na Portugal, que foi em tempos uma das livrarias mais concorridas, três funcionários palravam uns com os outros. Não tinham ninguém para atender. Dois ou três visitantes limitavam-se a folhear os livros. Nada mudou na Portugal. Encontrei as obras de referência e as edições em inglês nas mesmas prateleiras em que sempre as consultei e adquiri.
Duas portas abaixo, a Aillaud & Lellos não tinha uma só pessoa lá dentro. O ambiente era soturno. Dois funcionários conversavam.
As conclusões a tirar dos resultados desta breve peregrinação impressionam-me.

12/15/2005

Toda Gente Vê (TGV)


Às vezes chego a pensar que aquilo que tenho escrito contra o TGV não tem qualquer razão de ser. Num país que há anos ainda mantinha sinais de enorme atraso, como é evidenciado por este pequeno comboio de mercadorias que fotografei numa ida a Trás-os-Montes, como poderá ainda haver pessoas contra o progresso?
Façamos com que essas vozes anti-progressistas e reaccionárias sejam só fumaça, como a que sai da chaminé desta locomotiva! P'rá frente é que é!

12/14/2005

Resultados finais sem totalidade de dados

Num exame que uma vez me calhou vigiar numa escola de Contabilidade, um aluno pediu-me a certa altura para chamar um professor da cadeira. Segundo ele, na questão 3 do ponto faltavam dados, pelo que não conseguia chegar à solução. Chamei de pronto o regente da cadeira, que olhou para o ponto e, depois de um minuto de reflexão, disse: "Você tem razão. Faltam aqui pelo menos umas duas linhas, que quem passou o ponto terá inadvertidamente saltado. Agradeço-lhe o reparo." Terá ido depois às várias salas onde o exame se estava a realizar e, no quadro, escreveu, com as suas desculpas, as linhas em falta. De facto, admitiu que não se podia chegar a resultados concretos sem possuir aqueles dados.
Vejo agora que professores deste género não estão no governo. Se estivessem, só por "artes mágicas de político" conseguiriam saber, já, que o preço final dos bilhetes do TGV iria em 2015 ficar em cerca de 80 euros no trajecto Lisboa-Porto, que o número de empregos (temporários) que se vão criar é da ordem das muitas dezenas de milhar e que o custo final de todo o processo de construção da via, carruagens, etc. é de 4,7 mil milhões de euros. É que, segundo os media, o governo ainda não decidiu se a entrada em Lisboa será feita pelo norte se pelo sul. Outra incógnita diz respeito às estações que vão servir a linha de alta velocidade. Daqui depende, obviamente, a articulação a fazer com a rede convencional. Também não se sabe como vai ser desenhado o modelo de financiamento,o qual tem evidentes reflexos no custo. Igualmente se desconhece se a terceira ponte de Lisboa sobre o Tejo (Chelas-Barreiro) irá ser só ferroviária ou servirá simultaneamente o trânsito automóvel. Enfim, ninharias... para mágicos. Gostaria apenas de saber se os membros do governo tomariam decisões deste tipo se o dinheiro saísse do seu próprio bolso, em vez de do bolso dos contribuintes.
Duas notas, a findar. A primeira é sobre o impacte previsto do TGV sobre o avião nas ligações Lisboa-Porto-Lisboa. O avião é clarissimamente perdedor, o que naturalmente deveria ser um ponto importante a favor da manutenção do aeroporto na Portela. Mas não é. E não é porque o outro assunto está arrumado. Magister dixit. O país é o mesmo, o pagante é o mesmo, mas o novo aeroporto de Lisboa na Ota nada tem a ver com o TGV.
A segunda: lembram-se das realidades virtuais que foram programadas para a gigantesca barragem do Alqueva? Comparem-nas com as realidades actuais.