Já alguma vez repararam como as barreiras que no futebol se formam para defender as balizas tendem a avançar sempre um passinho ou dois antes que o jogador adversário dispare o seu chuto? Esse não respeitar as regras é o prato do dia. Não se trata de uma ilegalidade total. É apenas um jeitinho.
É também este jeitinho que, ao longo da nossa vida, vamos encontrando em múltiplas reuniões. O regulamento diz uma coisa, mas "este regulamento já deveria ter sido alterado". É assim que se actua frequentemente quando uma pessoa "que interessa" sairia prejudicada pelo cumprimento cabal do regulamento. Mas depois, como passar isso para a acta? É fácil, e há muito que existe fórmula apropriada: "A título excepcional, o Conselho determinou que..." É a autonomia local a vigorar sobre a lei geral. Espera-se que ninguém conteste. Afinal, todos votaram a favor, ou houve pelo menos uma larga maioria.
A título excepcional se vão fazendo favores sobre favores. São, no fundo, as cunhas ou, como agora se diz, as informalidades. Quando mudam os presidentes, os conselhos ou as administrações, talvez seja melhor não mexer nesses assuntos. "O que lá vai, lá vai. Não estamos cá para remexer no passado, mas sim para pensar no futuro!"
Porém, a coisa fez-se. E quando surge um caso semelhante, às vezes o precedente é mais importante que o presidente.
2/26/2006
2/25/2006
Quantidade e qualidade
Num artigo inserido no Público, a professora Maria do Carmo Vieira afirma que hoje em dia existe um número descomunal de disciplinas no ensino básico: quinze! Aos miúdos fica assim negado o direito ao seu tempo livre e igualmente ao seu tempo de estudo.
Embora não conhecendo o assunto suficientemente bem, não posso deixar de ficar surpreendido com o número de disciplinas. Quinze!
Este facto trouxe-me à mente, por contraste, um dos dias mais felizes da minha vida. Tinha dez anos. Tendo feito a instrução primária na província, prestei provas de admissão aos liceus em Lisboa. Para continuação dos meus estudos, fui para Paço d'Arcos, onde poderia ficar em casa de uns tios. Iria fazer os meus primeiros dois anos do liceu com uma professora particular exactamente em Paço d'Arcos. A referida senhora dirigia um orfanato em Lisboa e preparava para o 1º e 2º anos na sua própria casa. Tinha grupos reduzidos de alunos, oito ou nove. No primeiro dia, apresentei-me, com toda a timidez de provinciano. Foi aí que, após a natural apresentação, a professora anunciou que as aulas do 1º Ano eram só da parte da manhã - rejubilei! - e... dia sim, dia não. Saltei! No meu regresso a casa, nem queria acreditar! (Só no 2º Ano é que as aulas seriam diárias, mas igualmente numa parte do dia.)
Tínhamos trabalhos de casa regulares, a aprendizagem foi excelente, passámos todos no 2º Ano e eu até dispensei das orais, com média de 16. Entretanto, os meus tempos livres foram fenomenais. Fiz bons amigos e passei um tempo que já na altura eu considerava estupendo. É por tudo isto que me surpreende - e faz imensa pena - que no ensino básico o número total de disciplinas seja de quinze! E tempo livre para a miudagem?
Embora não conhecendo o assunto suficientemente bem, não posso deixar de ficar surpreendido com o número de disciplinas. Quinze!
Este facto trouxe-me à mente, por contraste, um dos dias mais felizes da minha vida. Tinha dez anos. Tendo feito a instrução primária na província, prestei provas de admissão aos liceus em Lisboa. Para continuação dos meus estudos, fui para Paço d'Arcos, onde poderia ficar em casa de uns tios. Iria fazer os meus primeiros dois anos do liceu com uma professora particular exactamente em Paço d'Arcos. A referida senhora dirigia um orfanato em Lisboa e preparava para o 1º e 2º anos na sua própria casa. Tinha grupos reduzidos de alunos, oito ou nove. No primeiro dia, apresentei-me, com toda a timidez de provinciano. Foi aí que, após a natural apresentação, a professora anunciou que as aulas do 1º Ano eram só da parte da manhã - rejubilei! - e... dia sim, dia não. Saltei! No meu regresso a casa, nem queria acreditar! (Só no 2º Ano é que as aulas seriam diárias, mas igualmente numa parte do dia.)
Tínhamos trabalhos de casa regulares, a aprendizagem foi excelente, passámos todos no 2º Ano e eu até dispensei das orais, com média de 16. Entretanto, os meus tempos livres foram fenomenais. Fiz bons amigos e passei um tempo que já na altura eu considerava estupendo. É por tudo isto que me surpreende - e faz imensa pena - que no ensino básico o número total de disciplinas seja de quinze! E tempo livre para a miudagem?
2/24/2006
Fitas
Leio no último número de uma conhecida revista americana que, sob o ponto de vista cultural, a América sempre tendeu para o provincianismo e pouco mais olha do que para o seu próprio umbigo. Esta frase vem a propósito da passagem de filmes estrangeiros nos Estados Unidos, que é muito reduzida - tanto no cinema como na televisão. Ler legendas é antiquado e fastidioso para a esmagadora maioria das pessoas. Como exemplo quantificado, veja-se que uma das maiores empresas americanas de DVDs envia diariamente qualquer coisa como 1,4 milhões de unidades para os seus clientes. Dessa impressionante quantidade, só 5,5 por cento são filmes estrangeiros.
Um outro exemplo interessante é-nos dado pela "generosidade" da Academia que atribui os Óscares. Cada país estrangeiro pode submeter apenas um filme a concurso! Imagine-se, diz o autor do artigo, se cada estúdio americano não pudesse submeter mais do que um filme para os Óscares. Curiosamente, na secção de películas não-nacionais, têm sido os filmes franceses e os italianos os maiores ganhadores de prémios, porque os seus júris estão bem instruídos para escolherem filmes que não sejam demasiado estrangeiros para os americanos!
Um outro exemplo interessante é-nos dado pela "generosidade" da Academia que atribui os Óscares. Cada país estrangeiro pode submeter apenas um filme a concurso! Imagine-se, diz o autor do artigo, se cada estúdio americano não pudesse submeter mais do que um filme para os Óscares. Curiosamente, na secção de películas não-nacionais, têm sido os filmes franceses e os italianos os maiores ganhadores de prémios, porque os seus júris estão bem instruídos para escolherem filmes que não sejam demasiado estrangeiros para os americanos!
2/22/2006
Mais do mesmo
Já vão perto de quarenta anos desde que uma conversa com alguém que eu mal conhecia, a bordo de um autocarro de turismo, me deu uma sacudidela. A pessoa em questão era uma senhora amante de viagens, culta e com alguma sobranceria intelectual. Tinha estado em Israel havia pouco tempo. Descrevia-me o país de modo maravilhado. Quando lhe coloquei a questão de o Estado de Israel representar a ocupação de um território que era ocupado por outras pessoas, ignorou o argumento com uma resposta sincera, mas que me siderou: "Outrora, os judeus viveram naquela área. Havia de ver a diferença entre os palestinianos e os israelitas. O que os israelitas conseguiram fazer daquele território é fantástico. Os campos, o desenvolvimento que se vê por todo o lado, os projectos. São uma raça superior. Nunca os muçulmanos lhes chegam sequer aos calcanhares!" Quando lhe disse que o argumento era perigoso, entre outros aspectos porque, na mesma base, qualquer antigo ocupante mais civilizado podia reivindicar os seus direitos históricos e invadir um território soberano, a minha companheira de viagem despachou-me com a minha juventude e inexperiência. A senhora contava com umas três décadas a mais do que eu. Não contestei mais, até para que todos nos déssemos bem durante o périplo turístico, o que veio de facto a suceder.
Nesta altura, noto da parte de muitas outras pessoas que escrevem na Net ou na imprensa a mesma agressividade na política mundial: os fins justificam os meios. Um tanto na mesma linha, escrevia há dias o director de um conhecido jornal diário que "discutir se os cruzados foram menos ou mais sanguinários quando conquistaram Antioquia do que Mahmed II quando entrou em Constantinopla é um exercício relativamente fútil. No fim, contam os resultados, e os resultados medem-se pelo que são hoje capazes de oferecer as diferentes culturas e civilizações como padrões de vida e convivência." Isto cheira-me um pouco ao "Fim da História" de Fukuyama. O nosso padrão é o melhor, logo podemos e devemos impô-lo aos outros. Se os outros são muçulmanos e possuem as mais ricas jazidas de petróleo do mundo, que são vitais para nós, tanto pior para eles se não concordarem connosco. Vamos a eles!
Quando eu estava no liceu, os rapazes mais velhos e maiores que queriam desafiar os mais novos molhavam um dos dedos com saliva e esfregavam esse dedo na cara dum dos mais pequenos. É evidente que, dada a estatura maior do provocador, muitas vezes a potencial vítima limitava-se a virar as costas e ir-se embora. Pois até isso poderia causar a ira do grandalhão. Várias bulhas começavam assim.
No final, o provocador lavaria as suas mãos da culpa dizendo que o outro não aceitou aquele gesto de pura brincadeira. Ele tinha-lhe batido, afinal, por falta de sentido de humor do outro.
O lobo e o cordeiro, não é? Já vimos este filme em qualquer lado.
Nesta altura, noto da parte de muitas outras pessoas que escrevem na Net ou na imprensa a mesma agressividade na política mundial: os fins justificam os meios. Um tanto na mesma linha, escrevia há dias o director de um conhecido jornal diário que "discutir se os cruzados foram menos ou mais sanguinários quando conquistaram Antioquia do que Mahmed II quando entrou em Constantinopla é um exercício relativamente fútil. No fim, contam os resultados, e os resultados medem-se pelo que são hoje capazes de oferecer as diferentes culturas e civilizações como padrões de vida e convivência." Isto cheira-me um pouco ao "Fim da História" de Fukuyama. O nosso padrão é o melhor, logo podemos e devemos impô-lo aos outros. Se os outros são muçulmanos e possuem as mais ricas jazidas de petróleo do mundo, que são vitais para nós, tanto pior para eles se não concordarem connosco. Vamos a eles!
Quando eu estava no liceu, os rapazes mais velhos e maiores que queriam desafiar os mais novos molhavam um dos dedos com saliva e esfregavam esse dedo na cara dum dos mais pequenos. É evidente que, dada a estatura maior do provocador, muitas vezes a potencial vítima limitava-se a virar as costas e ir-se embora. Pois até isso poderia causar a ira do grandalhão. Várias bulhas começavam assim.
No final, o provocador lavaria as suas mãos da culpa dizendo que o outro não aceitou aquele gesto de pura brincadeira. Ele tinha-lhe batido, afinal, por falta de sentido de humor do outro.
O lobo e o cordeiro, não é? Já vimos este filme em qualquer lado.
2/15/2006
Respondendo ao repto do António "venham de lá poetas do vasto mundo", trago um poema de Alda Lara. Para quem a não conhece, é uma poetisa angolana, nascida em Benguela, que morreu em 1962 com 31 anos. Tendo tirado o curso de medicina nas universidades da então Metrópole (Lisboa e Coimbra), Alda Lara descreve como ninguém a saudade que sentia da sua mãe África, enquanto estudante universitária ultramarina. A sua poesia está toda compilada num livro intitulado "Poemas", que o seu marido editou já depois da sua morte. Tem vários poemas muito conhecidos, porque foram musicados (Meu bergantim, Testamento, Mãe negra), mas hoje proponho estoutro, que se chama "Herança" e foi escrito em 1950:
Meu filho:
que os teus braços sejam longos
como a minha esperança
nos longos dias...
e o teu corpo, que antevejo,
venha flexível e liso,
como a justiça que desejo...
Que os teus olhos nasçam poços
onde repouse p'ra sempre
a paz do tempo todo,
e o teu peito seja
tão grande e tão profundo,
que lhe possa confiar o mundo...
que os teus braços sejam longos
como a minha esperança
nos longos dias...
e o teu corpo, que antevejo,
venha flexível e liso,
como a justiça que desejo...
Que os teus olhos nasçam poços
onde repouse p'ra sempre
a paz do tempo todo,
e o teu peito seja
tão grande e tão profundo,
que lhe possa confiar o mundo...
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