3/13/2006

Lisbon: streets&squares for the boys

Várias gerações de portugueses, incluindo aquela a que pertenço, tiveram aulas de História do seu país que, sistematicamente, prestavam muito pouca atenção aos séculos XIX e XX. A partir de 1820, o século XIX era tratado um pouco como o PREC que se seguiu ao 25 de Abril: muita bulha, muita parra e pouca uva. Por seu lado, o século que há poucos anos terminou careceria ainda de suficiente distanciamento histórico, pelo que eram estudados sem profundidade eventos, políticas e mentalidades sem dúvida relevantes. A História era muito escrita por monárquicos ou, pelo menos, por conservadores. Sobre a fundação da nacionalidade e o período dos descobrimentos sobejavam os ensinamentos, como se sabe. O liberalismo não era, por via de regra, suficientemente bem tratado, as ideias republicanas não surgiam convenientemente explicitadas. Da Maçonaria pode dizer-se que se evitava falar. Espero sinceramente que algo já tenha entretanto mudado nas nossas escolas.
É por este motivo que quem olha para a toponímia de Lisboa tem uma História contrastante pela frente. Sob o ponto de vista de nomes de ruas, avenidas e praças, Lisboa é claramente uma cidade predominantemente liberal, republicana e maçónica. "Como assim?", perguntar-se-á. De um tema que seria longo e até daria para um livro, apenas umas breves notas para que alguém as possa ler num blog como este.
Quem percorre Lisboa pela parte mais junto ao Tejo, depressa encontrará a longa e animada Avenida 24 de Julho. Porque se chama assim? Porque a data de 24 de Julho (de 1833) marca a entrada das tropas liberais sob o comando do Duque da Terceira na cidade de Lisboa, i.e., a "libertação" da cidade. Não longe desta avenida, fica o Cais do Sodré, onde está a praça dedicada ao militar Duque da Terceira. Entrando no coração da cidade, vemos que a praça mais central - o Rossio - tem outro nome oficial: Praça D. Pedro IV. Exactamente: o liberal libertador, o oposto do seu irmão Miguel, absolutista. Umas duas centenas de metros à frente, começa a avenida que ostenta o nome de Liberdade, a palavra mais importante para os liberais. É a principal artéria da cidade. Vai dar ao monumento ao Marquês de Pombal, esse estadista irreverente que tentou o mais que pôde agitar as águas na cidade e no país. Tendo estado em Londres, onde provavelmente pertenceu a uma loja maçónica, não perseguiu os maçons da cidade, expulsou os Jesuítas e reformou ou tentou reformar o ensino. O Marquês é um símbolo da transformação para os liberais. Um demónio para muitos absolutistas. Esta artéria citadina dos liberais irradia depois para vários lados. Numa outra via principal, aparece um dos ministros mais representativos do desenvolvimento do país: Fontes Pereira de Melo. Ao fundo da rua, outro liberal, parente do Marquês: o Duque de Saldanha. E, se anteriormente, tínhamos tido, a Liberdade em forma de avenida, encontramos agora a concretização dessa liberdade, a República, também ela transformada em importante avenida.
Dir-se-á: tudo é natural; foi a cidade a crescer nesse período. Talvez não seja só assim. É que os liberais, que ocuparam postos-chave na Câmara Municipal e que estiveram frequentemente ligados à Maçonaria e aos partidos políticos republicanos, sabiam como homenagear os seus. E também sabiam como deixar os outros de fora. Assim é que muitos dos nomes do século XIX que não estudámos na escola nos surgem nas ruas e nas praças da cidade. Numa breve viagem, de maneira nenhuma exaustiva, encontrei mais de cem nomes de ruas ligadas quer ao liberalismo, quer à maçonaria, quer à República. Muitos deles eu desconhecia, ou conhecia apenas como nome de rua. Perguntava-me por vezes: quem foi este? Vamos a alguns destes nomes, que "possuem" ruas nas partes laterais do longo corredor que atrás apontei: Alexandre Herculano, Castilho, Mouzinho da Silveira, Rodrigo da Fonseca, Barata Salgueiro, Rosa Araújo, Braamcamp, Duque de Palmela, Joaquim António de Aguiar, Sampaio e Pina, Duque de Loulé, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Rodrigues Sampaio, Bernardo Lima, Ferreira Lapa, Conde de Redondo, Gomes Freire, Sousa Martins, Martens Ferrão, Andrade Corvo, Sidónio Pais (ex-maçon), António Augusto de Aguiar, José Fontana, Tomás Ribeiro, Latino Coelho, Pinheiro Chagas, Filipe Folque. Quando deparamos com a avenida que assinala a data da implantação da República, a Cinco de Outubro, encontramos perto a Conde de Valbom, a Conde Valmor, a Elias Garcia, a Miguel Bombarda, a António José de Almeida, a Magalhães Lima (foi Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido entre 1907 e 1928), a Barbosa du Bocage (não é o poeta, mas sim o zoólogo, Ministro da Marinha e dos Negócios Estrangeiros), Marquês de Tomar (por detrás deste título esconde-se Costa Cabral), Duque d'Ávila, Marquês Sá da Bandeira e Marquês de Fronteira.
Uma outra artéria importante da cidade é a Avenida Almirante Reis. Este almirante era um oficial de Marinha bastante conhecido no seu tempo. Defensor de ideias republicanas, julgando o movimento de 1910 perdido suicidou-se no dia da vitória. A ligar a essa artéria há mais uma quantidade de liberais do século XIX, como Morais Soares, Pereira Carrilho, Alves Torgo, Pascoal de Melo, Passos Manuel e José Estêvão. Enfim, é um nunca mais acabar de personagens do século XIX ou do início do XX que aparecem aqui e ali e nos levam a perguntar quem são. Tenho aqui mais uns cinquenta em carteira, mas não quero maçar com tanto nome de rua.
Para terminar, apenas umas perguntas: porque será que Dom Miguel não tem nome em nenhuma rua, praça ou avenida? E sua mãe Carlota Joaquina? E o Duque de Cadaval, que deu forte apoio aos miguelistas? (Na realidade, alguma propriedade do Duque fica bem perto do Rossio, mas as "Escadinhas do Duque" não lhe mencionam o nome. Porque será?). É evidente que Salazar também não tem nome de rua, mas o Cardeal Cerejeira, que foi seu amigo e condiscípulo de Coimbra, tem. Convenhamos que isso já é mais normal. Como se costuma dizer: "santos e maçons não faltam nas nossas ruas."

3/10/2006

Desbabelização do mundo

A necessidade é a mãe de todos os inventos. Imagine que a factura da sua companhia no que respeita a serviços de tradução ascendia a 900 milhões de dólares por ano. É uma soma enormíssima. Bem, assim tão grande não há felizmente nenhuma companhia que tenha essa despesa. Mas tem-na a União Europeia, graças aos seus 25 países-membros e 21 línguas oficiais.
Para reduzir essa fatia do orçamento, a UE está a tomar medidas. A mais simples de conceber é, provavelmente, também a mais difícil de executar pelos problemas políticos que envolve: tornar o inglês a única língua para efeitos de burocracia europeia. Entende-se, no entanto, o melindre da questão. Arredar o francês dos documentos franceses e o alemão da documentação alemã não parece nada fácil. E que dizer da reacção dos outros países?
É aí que entra a tecnologia. No seu próprio interesse, é a UE que está a custear projectos interessantes e inovadores. Companhias como a Siemens, Nokia e DaimlerChrysler e algumas universidades de topo estão a colaborar com a União Europeia. Sabia que já é possível hoje chegar-se a Pequim com uma máquina com software integrado que se aponta, como se fosse um telemóvel, para um determinado alvo e traduz para inglês cerca de 3 mil caracteres chineses? A Siemens está a desenvolver uma aplicação informática que reconhece palavras oralizadas, traduz e, depois, reproduz oralmente a tradução através da junção de sílabas pré-gravadas por falantes nativos em várias línguas. É um sistema que provavelmente chegará ao Parlamento Europeu dentro de dois anos. Por seu lado, a finlandesa Nokia está a desenvolver software de telemóveis que traduz e pronuncia, em tempo real, diálogos em inglês e chinês. A DaimlerChrysler está a tentar substituir os tradicionais auscultadores por dispositivos colocados no tecto que emitem de um máximo de 5 metros de altura raios auditivos que podem circunscrever-se à área de um lugar. O sistema de tradução de conferências permitirá igualmente o uso de óculos sem fios, que possibilitarão a leitura da legendagem dos discursos, tipo tele-ponto.
Caminha-se para um mundo diferente.

3/06/2006

Em português, euro não rima com ouro

Um relatório do gabinete de estudos Bruegel sobre as consequências da introdução do euro mostra que, ao contrário de outros países como a Irlanda, Portugal saiu penalizado. Nos sete anos iniciais de uso da moeda europeia, a taxa de câmbio real subiu 30 por cento, o que não foi contrabalançado pelo aumento da produtividade nacional. Os produtos portugueses tornaram-se, assim, menos competitivos no mercado externo, reduzindo as possibilidades nacionais de exportação. A agravar a questão vem o desempenho do Estado, que não refreou as suas despesas, aumentou a dívida externa e não facilitou o crescimento da economia. Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que sofre. As taxas de inflação que se registaram, baixas relativamente ao nosso passado mas superiores às dos nossos parceiros europeus, constituíram outro relevante factor de erosão.
O país sente. A explicação impiedosa vem de fora.

3/04/2006

Lusomundo

Pelo menos no C.C. Vasco da Gama, ir aos cinemas Lusomundo é tudo menos ver o antigo mundo luso. Como se fôssemos nós próprios personagens de um filme, apanhamo-nos a comprar bilhetes no mesmíssimo local em que outros adquirem volumosos sacos de pipocas. (Tal como nas estações de serviço, ao essencial junta-se o complementar.) O odor a popcorn invade escandalosamente aquele ambiente. O espectador acalenta a esperança de que os sacos não sejam tantos que vão odorizar toda a sala. Engana-se. A tribalização já está muito avançada. Os sacos são muitos, o sentir o mastigar crocante ao nosso lado enquanto o filme decorre não é a mais agradável das sensações. Olfactivamente, é um desastre.
Até as luzes se apagarem totalmente para que comece o filme que estamos interessados em ver, levamos com uns quatro ou cinco trailers e um volume de som que faz qualquer surdo imaginar que aquela sala o curou. Acabei de vir de uma dessas sessões. As apresentações duraram 17 minutos. À mistura vieram anúncios publicitários, como aos sumos Compal. Sei bem que esta cena não é nova, mas ultimamente tem-se agravado notoriamente.
O filme (Good Night, and Good Luck) foi bom. Mas nem ele me fez esquecer salas bem mais civilizadas, como as da Cinemateca, do Nimas ou do Quarteto.

3/01/2006

Empreendedorismo da direita

Coisa rara neste blogue, quero fazer hoje aqui o elogio da direita. Fundamentalmente pelo seu espírito empreendedor. A direita mostra um sentido negocial muito superior à esquerda. E até sentido de risco, pouco frequente entre os portugueses, como sucede com a presente oferta pública de aquisição da PT pelo grupo Sonae.
Logo que, há dias, o Ministro da Saúde anunciou que não seria impossível que o SNS fosse efectuar cortes nos financiamentos das pessoas com maiores recursos, a direita saudou o facto. Pensou, naturalmente, nos negócios que dessa medida poderiam surgir. Mostrou-se alerta.
Tem-se mostrado igualmente alerta relativamente à necessidade de o Estado não assumir tantas obrigações para com os cidadãos no que respeita à Segurança Social.
Há cerca de vinte anos que vem acorrendo à chamada do Estado, abrindo múltiplas instituições de ensino superior privado com pólos em todo o país.
Se o negócio é de águas, mostram-se interessados.
Se é de energia nuclear, respondem à chamada.
Se é de energias alternativas, como a eólica, aprestam-se a concorrer e a mostrar obra.
No imobiliário, é o que se sabe.
Nas várias privatizações, são os grandes da direita que entram.
Embora na mira de lucros, enfrentam riscos naturais. É uma direita que arrisca e faz falta ao país.