Logo que escrevi este título, o computador sublinhou-o a vermelho. Constatei que o corrector ortográfico não regista o termo, mas possui outros dois da família: "cabulando" e "cabulado". Já não é mau, admito. E isto porque, segundo aquilo que tenho ouvido por aí e o que acabo de ler num artigo estrangeiro, o cabulanço nas escolas é mais do que muito. Nas minhas últimas experiências pessoais, numa vigilância à disciplina que eu coordenava encontrei 23 alunos com cábulas num exame de frequência que abrangeu cerca de 330 examinandos. Num outro caso, que se tornou mais difícil, tive uma aluna a utilizar o seu telemóvel para receber, de uma conhecedora amiga que estava no exterior, uma tradução perfeita e mais umas quantas frases quase sem erros. Estes casos, quando detectados, acabam por se resolver. Por exemplo, a aluna que utilizou o SMS passou... no ano seguinte.
O assunto está longe de ser só português, como seria de esperar. Nesta febre de competitividade que grassa no mundo estudantil em que por uma décima se entra ou não no curso desejado, produzem-se falcatruas de toda a ordem. Desde ter acesso antecipado a testes a troco de dinheiro até arranjar um substituto com mais conhecimentos que faça o exame, passando pelo plágio de textos da Internet e pela utilização de telemóveis da última geração, MP3 e outra parafernália, os examinandos podem agora até dar-se ao luxo de fotografar um exame de ponta a ponta e enviá-lo para o exterior, aguardando depois a ajuda salvadora.
As instituições têm reagido de duas maneiras. Por um lado, à boa maneira militar usam contra-mísseis para se oporem aos mísseis. Aplicações informáticas como TurnItIn.com e MyDropBox.com comparam já os testes dos alunos com tudo o que esteja disponível na Internet e marcam a vermelho vivo tudo o que tenha sido copiado. Há escolas que introduziram detectores de metais para os examinandos que precisam de ir aos sanitários. Tem, além disso, havido uma redução do número de pessoas com acesso às provas. Nalgumas faculdades de medicina, os candidatos terão a partir do próximo ano lectivo que fornecer impressões digitais electrónicas e submeter-se depois a fotografia digital, a fim de tornar mais fácil a detecção de substitutos em provas de exame.
Por outro lado, há instituições onde foi decidido permitir todo o tipo de consulta. Os examinandos podem, com os seus PDAs e laptops, ter acesso à Internet, à semelhança do que acontece na vida real.
Todos estão de acordo que a concorrência desenfreada que se regista tem contribuído para o aumento do copianço. Mas, indo mais fundo, não se pode ignorar o efeito causado por comportamentos pouco éticos de empresas reputadas mundialmente, como a Enron e a WorldCom, além daqueles cientistas que publicam informação falseada das suas investigações. Sintomaticamente, à pergunta "Concorda ou discorda de que é preciso cabular ou mentir para alcançar sucesso?", incluída num inquérito recente feito a 25 mil alunos do ensino superior da Califórnia, cerca de 50 por cento concordaram abertamente.
E você, alguma vez cabulou?
3/27/2006
3/25/2006
Notícias para o desânimo?
A notícia fez manchete no Público. A TV repetiu-a. Outros media glosaram-na. "Portugal já foi ultrapassado pela República Checa." Ter sido ultrapassado representa, neste caso, possuir um PIB inferior. Ora, em princípio não há nada de mais natural do que o facto de o PIB português ter crescido menos do que o checo. Apresentando a República Checa remunerações ainda atraentemente baixas para os empresários, além de uma formação escolar apreciável, é absolutamente natural que nos tenha ultrapassado. Quantas multinacionais saíram de Portugal nestes últimos anos, indo exactamente para países como a República Checa, Eslováquia e Polónia, onde se praticam ainda salários baixos? Com certeza que quando a maré vaza num lado, enche no outro.
Só que, justiça seja feita, a República Checa possui a grande vantagem que a Alemanha também teve, por exemplo, aquando da aplicação do Plano Marshall. É conveniente recordar que planos similares ao Marshall foram entretanto aplicados pelos americanos noutros locais. Sem qualquer sucesso. A razão é simples. Ao contrário do que sucedeu na Alemanha, onde existia uma sólida cultura das populações, nas outras paragens em que os sucedâneos do Marshall foram tentados havia carência desse "pormenor". Quem visita Praga entende bem o que a cultura representa naquele país. Entende que Viena, Budapeste e Praga eram cidades do mesmo império austro-húngaro, com forte componente cultural, visível na música, na literatura, na engenharia, na química, na indústria de uma maneira geral. Condicionada pelo império soviético, a Boémia e toda a Checoslováquia de antigamente entraram em declínio, como seria previsível. Basta no entanto um arranque desta ordem para levantarem cabeça. Está lá a base educacional.
Entretanto, gostaria de lembrar umas palavras sábias do economista Daniel Bessa: "O controlo do défice externo é mais importante do que a obsessão com o défice público. No dia em que exportarmos mais, os dois défices resolvem-se. Mas temos de ser nós a exportar, e não os estrangeiros que vierem para cá fazê-lo por nós." Isto porque os lucros das empresas estrangeiras que operam em Portugal entram no nosso PIB mas acabam por sair do país. A economia não é uma ciência exacta, como sabemos, e há dados, como o PIB, que representam o que representam. Por vezes são alguma fachada. Analisado à luz do nosso fisco, o descalabro entre ricos e pobres também não é tão visível como aquilo que se depara aos nossos olhos.
Contudo, isto não quer de maneira nenhuma dizer que Portugal não precisa de trabalhar e trabalhar e trabalhar mais, e mais proficuamente, além de gastar menos, porque essa é uma realidade inegável. Gostaria entretanto de lembrar aos jornalistas dos vários media que não é com títulos de desânimo e aparente regozijo perante más notícias que se levanta um país.
Só que, justiça seja feita, a República Checa possui a grande vantagem que a Alemanha também teve, por exemplo, aquando da aplicação do Plano Marshall. É conveniente recordar que planos similares ao Marshall foram entretanto aplicados pelos americanos noutros locais. Sem qualquer sucesso. A razão é simples. Ao contrário do que sucedeu na Alemanha, onde existia uma sólida cultura das populações, nas outras paragens em que os sucedâneos do Marshall foram tentados havia carência desse "pormenor". Quem visita Praga entende bem o que a cultura representa naquele país. Entende que Viena, Budapeste e Praga eram cidades do mesmo império austro-húngaro, com forte componente cultural, visível na música, na literatura, na engenharia, na química, na indústria de uma maneira geral. Condicionada pelo império soviético, a Boémia e toda a Checoslováquia de antigamente entraram em declínio, como seria previsível. Basta no entanto um arranque desta ordem para levantarem cabeça. Está lá a base educacional.
Entretanto, gostaria de lembrar umas palavras sábias do economista Daniel Bessa: "O controlo do défice externo é mais importante do que a obsessão com o défice público. No dia em que exportarmos mais, os dois défices resolvem-se. Mas temos de ser nós a exportar, e não os estrangeiros que vierem para cá fazê-lo por nós." Isto porque os lucros das empresas estrangeiras que operam em Portugal entram no nosso PIB mas acabam por sair do país. A economia não é uma ciência exacta, como sabemos, e há dados, como o PIB, que representam o que representam. Por vezes são alguma fachada. Analisado à luz do nosso fisco, o descalabro entre ricos e pobres também não é tão visível como aquilo que se depara aos nossos olhos.
Contudo, isto não quer de maneira nenhuma dizer que Portugal não precisa de trabalhar e trabalhar e trabalhar mais, e mais proficuamente, além de gastar menos, porque essa é uma realidade inegável. Gostaria entretanto de lembrar aos jornalistas dos vários media que não é com títulos de desânimo e aparente regozijo perante más notícias que se levanta um país.
3/23/2006
Terreno aplanado
Contaram-me há muitos anos uma história verídica sobre o empreendedorismo americano, que agora me permito recordar. Um empresário do Arizona pretendia construir nos seus vastos terrenos um complexo turístico, no qual queria colocar água e arranjar algo como chamariz especial. Tendo sido informado de que uma das mais antigas pontes sobre o Tamisa, em Londres, ia ser retirada, deslocou-se a Inglaterra e comprou a já enferrujada ponte. Depois, com autorização das autoridades locais e a suas custas, construiu um desvio do rio que passava perto da sua propriedade. Construiu assim um amplo e longo canal. Foi sobre esse braço de rio que colocou a velha ponte londrina, devidamente pintada e impecável no seu aspecto. Ainda hoje lá está. O caso tornou-se célebre por ter sido possivelmente a primeira vez no mundo que alguém teve uma ponte construída antes de o rio existir.
Lembro-me por vezes desta história quando penso no novo colonialismo americano. Os americanos têm negócios em todo o lado, como sabemos. Governantes e empresários americanos deslocam-se com regularidade à Índia, ao Iraque, a Israel, à Nigéria, à África do Sul, às Filipinas, Paquistão, Bangladesh, China, Japão, Afeganistão, Angola, etc. Para além do facto de os seus conhecimentos e a sua tecnologia serem geralmente superiores, a vantagem de que dispõem hoje em dia face aos antigos colonizadores é colossal. Já têm uma ponte construída. Entram a falar a sua própria língua. Todos sabemos como a língua é um factor relevante. Ao contrário dos espanhóis e portugueses nas Américas, nas Áfricas e noutras partes do mundo, onde tiveram que obrigar ou simplesmente ensinar os nativos a falar o seu idioma para que a colonização pudesse ser eficaz, presentemente os americanos têm toda a papinha feita. Por um lado, herdaram o efeito da colonização britânica, que espalhou o inglês por meio mundo. Por outro, usufruem do verdadeiro privilégio de o inglês ser hoje a língua franca do globo.
Sob o ponto de vista da colonização, este é um trunfo de carpete vermelha à chegada. O pior é o comportamento por vezes desastrado dos colonizadores.
Lembro-me por vezes desta história quando penso no novo colonialismo americano. Os americanos têm negócios em todo o lado, como sabemos. Governantes e empresários americanos deslocam-se com regularidade à Índia, ao Iraque, a Israel, à Nigéria, à África do Sul, às Filipinas, Paquistão, Bangladesh, China, Japão, Afeganistão, Angola, etc. Para além do facto de os seus conhecimentos e a sua tecnologia serem geralmente superiores, a vantagem de que dispõem hoje em dia face aos antigos colonizadores é colossal. Já têm uma ponte construída. Entram a falar a sua própria língua. Todos sabemos como a língua é um factor relevante. Ao contrário dos espanhóis e portugueses nas Américas, nas Áfricas e noutras partes do mundo, onde tiveram que obrigar ou simplesmente ensinar os nativos a falar o seu idioma para que a colonização pudesse ser eficaz, presentemente os americanos têm toda a papinha feita. Por um lado, herdaram o efeito da colonização britânica, que espalhou o inglês por meio mundo. Por outro, usufruem do verdadeiro privilégio de o inglês ser hoje a língua franca do globo.
Sob o ponto de vista da colonização, este é um trunfo de carpete vermelha à chegada. O pior é o comportamento por vezes desastrado dos colonizadores.
3/21/2006
A passagem de mais um dia mundial da poesia é apenas o pretexto para partilhar algo de que gosto especialmente:
Os sulcos da sede
VER CLARO
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Os sulcos da sede
3/17/2006
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