5/31/2007

Aeroportos

É conhecido o posicionamento da mãe relativamente ao filho pequeno a quem quer dar a sopa: "preferes que eu te dê a sopa com a mão direita ou com a esquerda?" O miúdo diz uma ou outra, e assim come a sopa. O que, sensatamente, a mãe deixa de fora das suas perguntas é a terceira hipótese: "queres comer a sopa ou não?"
Um pouco à semelhança, a questão da localização do novo aeroporto de Lisboa discute-se entre a margem direita e a margem esquerda do Tejo ou, dito de outro modo, entre a Ota e Rio Frio. A terceira hipótese é a que não é posta na mesa: manter o aeroporto-mãe em Lisboa e criar apenas um alternativo, seja na Ota, seja em Rio Frio, ou noutro local apropriado. Isto porque, como há muito se percebeu e neste blogue já foi tratado ("Ota é batota"), os terrenos do actual aeroporto são os mais cobiçados de todos. É por causa deles que uma nova linha do Metro está planeada para aquele local. A construção da Alta de Lisboa está toda encaminhada para isso. Os partidos principais estão, naturalmente, envolvidos no assunto. Londres com Heathrow, Gatwick e Luton, Paris com Orly, Charles-De-Gaulle e Le Bourget, Berlim com Tempelhof e Tegel, Madrid com Barajas, Cuatro Vientos e Torrejon, Nova Iorque com Kennedy e La Guardia, e tantas outras cidades importantes com dois ou mais aeroportos foi assim que resolveram a questão. Por que não Lisboa?
Os interesses económicos, que controlam os media, são a mãe que, vendo-nos e sabendo-nos pequenos, nos estende a colher e pergunta simplesmente "A ou B?" A enorme diferença é que a mãe se preocupa sinceramente com o bem-estar do seu filho, enquanto que os detentores de capital estão unicamente interessados no seu próprio lucro.

5/30/2007

Por detrás da greve

Creio poder dizer-se que a greve geral destapa uma realidade bem mais preocupante do que a greve em si. O mais perturbador é mesmo aquilo que os números do emprego revelam. Segundo o jornal Público de hoje, existem em Portugal quase 900 mil trabalhadores a prestar serviço a recibo verde, perto de 650 mil com contratos a prazo e cerca de 190 mil que exercem a sua actividade sem serem nem efectivos nem empregados a prazo. A tendência é para que estes números aumentem e não para que diminuam. Neste momento, os números indicam que existem já mais de um milhão de trabalhadores sem grande segurança no emprego.
Em Novembro de 2004 surgiram neste blogue orações a dois novos santos. Um deles era São Mercado, o outro São Precário. É exactamente esta precariedade no trabalho que assusta. O trabalhador precário está sempre em risco de ser considerado redundante e ver-se na rua sem apelo nem agravo. Quem está a prazo depende da apreciação do empregador relativamente à sua competência e grau de submissão e acatamento cego das ordens recebidas. A falta de um vínculo laboral mais forte coloca inevitavelmente o trabalhador num grau de grande instabilidade, difícil de ser compaginada, por exemplo, com pagamentos regulares do empréstimo contraído junto de um banco para a compra de uma casa a vinte ou trinta anos. Depois, fale-se no aumento de casos de stress, de divórcio de casais, do número de casais sem filhos. Em contrapartida, veja-se o aumento despudorado dos lucros de determinadas empresas.
Como é que os desprotegidos de São Precário podem fazer greve? As pernas são-lhes cortadas à partida. A chamada postura de faca-e-queijo na mão pertence a outrem que não o empregado nessas condições. A retaliação do patronato por atitudes grevistas da parte de trabalhadores neste regime é mais do que provável. Lembro-me de situações pelas quais vi colegas meus, professores, passarem numa instituição em que trabalhei durante algum tempo. Independentemente da sua competência, a sua atitude em determinadas reuniões na escola acabou por levá-los para a rua. Despedidos? Não, que isso podia custar indemnizações. Uns tiveram apenas a não-renovação de contratos para o ano seguinte; a outros foram atribuídos horários diurnos, quando se sabia que apenas podiam leccionar à noite por exercerem outra actividade durante o dia numa empresa.
Já se pensou no medo de falar, de escrever, de tossir, que uma situação de precariedade acarreta? No cansaço que ela causa? Sobre emprego e trabalho nestas condições, foi Vicente Ferreira que, há já longos anos, nos deixou a frase certa: "Não vejas, não fales, não ouças, não te rales... para que não te entales." Preocupante a muitos níveis.

5/28/2007

Benfica, Porto, ou Sporting?

Suponho que nunca se fez em Portugal um estudo consistente, baseado em amostras representativas, daquilo que leva rapazes e raparigas, mulheres e homens, a manifestarem uma simpatia especial, que pode ser ferrenha, por um determinado clube. Seja como for, é sempre possível aventar um número de hipóteses. Vou tentar fazê-lo, esperando que alguém forneça acréscimos ou conteste a validade das hipóteses formuladas.
Em primeiro lugar, poderá perguntar-se: porquê mencionar os três clubes acima e não quaisquer outros? (Admito que poderia ter acrescentado o Belenenses, mas a diferença na quantidade de simpatizantes à escala nacional é tão grande que preferi não o fazer.) Se escolhi aquele trio, foi obviamente porque sinto que são os únicos que possuem antenas que cobrem todo o território português.
Historicamente, estes três clubes nasceram à escala das duas maiores cidades portuguesas. Porém, dois deles cedo ganharam uma ampla cobertura nacional, não à custa do futebol mas sim de uma outra modalidade muito mais popular: o ciclismo. O ciclismo, numa época em que os jornais e a rádio eram os principais meios de comunicação, levava as camisolas vermelhas do Benfica (os Nicolaus), e as verde-brancas do Sporting (os Trindades) a Braga, a Vila Real, à Covilhã, a Castelo Branco e a Évora. Havia um enorme entusiasmo popular. As populações deslocavam-se a locais por vezes distantes para ver passar as caravanas ciclistas. Aí, os clubes ganharam muitos adeptos. O Futebol Clube do Porto (o único dos três que usa a palavra "futebol" no seu nome) não se intrometeu na disputa Nicolau-Trindade e com isso concentrou-se mais na sua área citadina e nortenha (por oposição a Lisboa), o que não quer dizer que entretanto não tenha constituído uma boa equipa de ciclismo e também outras de diversíssimas modalidades.
Simultaneamente com a sua acção de polinização à escala territorial através do ciclismo, os clubes grandes começaram a fundar as suas filiais em localidades relativamente pequenas, onde geralmente havia um grupo de carolas com algum dinheiro que conseguiam ter influência suficiente para garantir que o clube da terra fosse considerado filial do Benfica ou do Sporting. Nasce aqui uma combinação interessante, pois através das cores da equipa local, os jovens identificavam-se com as cores do clube padrinho. Esta identificação era, evidentemente, tanto maior quanto mais vitórias somasse o clube de que se era fã. Este aspecto é muito importante, porque as vitórias naturalmente atraem adeptos (band-waggon effect).
De facto, se houve épocas em que o Sporting foi de longe o melhor clube português e apresentou os então célebres cinco violinos que jogavam todos na selecção nacional - hélas, numa altura em que ainda não havia televisão em Portugal -, outras ocorreram em que o domínio total foi do Benfica e, talvez nos últimos vinte anos, do Futebol Clube do Porto. Neste sentido, estou convencido de que Benfica e Porto conquistaram numerosos adeptos em todo o país com as suas extraordinárias vitórias em competições nacionais e internacionais. Neste último domínio, o Sporting não foi tão bem sucedido.
Então, perguntar-se-á, e a família não tem influência na determinação das simpatias clubistas? É evidente que sim. Tradicionalmente, a mãe abstém-se destas coisas (pelo menos, abstinha-se), mas o pai tem, por via de regra, o seu clube, o qual escolheu maioritariamente pelas razões acima apontadas (tradição local, linha familiar, e acompanhamento de vitórias).
Entretanto, algo perfeitamente possível é que a mesma pessoa apoie dois clubes ao mesmo tempo: um à escala nacional, outro a nível local. A maioria dos adeptos de Braga são apoiantes da equipa da sua cidade, mas acima dela está o Benfica. Excepto quando joga contra o Braga. O mesmo sucede com os leirienses relativamente ao Sporting. Aliás, este aspecto pode levar pessoas a usarem determinadas equipas como transversais na sua simpatia. A Académica recebe as preferências de muitos estudantes e ex-estudantes que normalmente torcem pelo Porto, Sporting ou Benfica. Também o Belenenses pode ser visto pelos adeptos lisboetas, aveirenses e, no geral, habitantes da faixa litoral, como uma equipa simpática, cujos jogadores ostentam nas suas camisolas a Cruz de Cristo das caravelas de antanho. Neste sentido, Académica e Belenenses entram no grupo dos clubes empáticos à escala nacional.
E do ponto de vista das classes sociais, existirá alguma diferença? Certamente que não em termos de adeptos: podem encontrar-se ricos e pobres entre os simpatizantes do Porto, Benfica e Sporting. No entanto, a imagem é a de que o Benfica é um clube mais do povo e o Sporting mais de elite, enquanto que o Porto congrega maioritariamente uma cidade de que é o símbolo e o único clube que pode disputar a primazia ao detestado macrocefalismo lisboeta.
Entre os colaboradores deste blogue, sei que o João Ratão é um portista ferrenho, o Sete-Sóis um benfiquista declarado, tal como o António, que já é há muito da nossa família. Por meu lado, sou sportinguista. O meu irmão, mais velho, era adepto do Sporting. Tanto o meu filho como a minha filha são do Sporting, assim como um neto.
Alguém dizia que, se o Papa tivesse nascido na China, teria tido quase cem por cento de probabilidades de ser budista. Acho que é um bom ponto para iniciar uma discussão.

5/23/2007

Estes topónimos! (II)

Na semana passada, coloquei aqui um pequeno texto sobre toponímia portuguesa ("Por esses rios acima"). Como nele refiro, tenho ultimamente estudado algo sobre o assunto e, devo confessar abertamente, vejo-me frequentemente confrontado com a minha ignorância quase total relativamente a determinados pontos. O trabalho em si vai resultar algo chato, mas há, entretanto, alguns apontamentos mais interessantes que podem dar para este post e, possivelmente, ainda para outro pequeno texto. É uma ameaça, eu sei, mas é também uma partilha, um dos lemas do nosso blog.
Admito que nunca tinha pensado que os suevos, alanos, vândalos, ostrogodos e visigodos eram todos eles de línguas germânicas. Hoje seriam alemães, austríacos, húngaros, eu sei lá o quê!. Ora, se um Ataúlfo foi rei dos visigodos, como se poderá estranhar que esse nome, já devidamente transformado com a erosão do tempo, apareça no norte? Olhamos para uma povoação, vemo-la localizada no concelho de Vila Real com o nome de Adoufe (anteriormente Adaúfe) e ficamos a pensar no que aquilo quererá dizer. Depois entendemos que tudo terá começado com um indivíduo abastado, de nome Ataúlfo e de língua germânica, que teve uma vasta propriedade agrícola, uma "villa", que depois com os tempos se foi parcelando e povoando com agricultores. Aí, já a "villa" passou a "aldeia" que, com alguma surpresa minha, é um termo arábico (ad-daia). Temos ali todo o fluir do tempo, pessoas como nós a viverem a sua vida e o seu mundo, e a deixarem as suas marcas até aos dias de hoje.
Encontro um rei dos visigodos chamado Turismundo e um monarca suevo de nome Requimundo. Como posso ficar admirado se, depois, me aparecem terras no norte com nomes aparentemente complicados, como Freamunde, Gilmonde, Gemunde, Amonde, Mondim, a linda barragem de Salamonde, que afinal não são mais do que a marca germânica dos turistas invasores?
Entra-se noutra linha e nota-se a importância das viúvas em nomes como Porcalhota e Bacalhoa. A primeira enviuvou do seu Vasco Porcalho, proprietário que viveu no século XIV e possuía uma grande quinta; a segunda enterrou o seu Manuel Bacalhau, proprietário de um bonito palacete e largos terrenos. Daqui resultou, no primeiro caso, a localidade que foi denominada durante muitos anos Porcalhota, até que a população pediu oficialmente para que mudassem o registo e tudo passou para a designação de Amadora, mais suave. No segundo caso, tivemos, como é evidente, a Quinta da Bacalhoa, em Azeitão. Até lembra um pouco outra mulher que herdou, famosamente, o nome do seu defunto marido. Ele era o Giocondo.
Mas admita-se que existiram boas razões para as mudanças oficiais de nomes de outras localidades. Imagine-se que havia no concelho da Guarda uma aldeia que ostentava, com pouco orgulho, diga-se, o nome de Porco. Este porco era, naturalmente, o antigo porco-bravo que abundava por aquelas paragens. Pois, sim, mas como se chamam os habitantes de uma aldeia que tem o nome de Porco? Hoje a mesma terra chama-se Aldeia Viçosa.
Outra povoação que tinha razões de queixa era uma situada perto do Tejo. Oficialmente, chamava-se Punhete. A população a certa altura reuniu-se e decidiu recusar o nome. As instâncias oficiais aceitaram e hoje a linda vila chama-se Constância.
Para terminar este texto necessariamente curto, bloguesse oblige, mais um breve apontamento toponímico, este aprendido no passado domingo durante uma interessante visita ao Jardim Tropical (Belém) conduzida pelo Prof. Fernando Catarino. Fiquei aí a saber que, em tempos antigos, muitos terrenos entre Pedrouços e o Jamor (Cruz Quebrada) eram alagadiços. Por esse motivo, foram aproveitados para plantações que rendessem algum dinheiro. Pensei em arroz. Qual quê! Eram plantações de linho. Ora, esse linho precisava naturalmente de ser tratado antes de poder ser utilizado. Era batido com espadelas de madeira e, perto da zona de Belém, havia várias oficinas onde a planta tinha que passar por chapas com dentes de ferro, para que a estopa e a sua parte lenhosa e áspera (tomento) fossem retiradas. Este aparelho para o tratamento do linho, e o próprio tratamento, chamavam-se "rastelo". Começamos assim a entender melhor a razão do nome do estádio do Belenenses e por que motivo a melhor linhagem de Lisboa escolheu o bairro do Restelo para morar.

5/22/2007

Franchising intelectual

Todos sabemos que uma das ideias básicas das lojas que abrem em regime de franchising é o de poderem ter logo à partida um nome sonante. Por outras palavras, não é preciso labutar para criar uma imagem, porque essa imagem já existe. É isso que se passa com a Benneton e com tantas outras marcas.
No mundo do spam que percorre os e-mails, tem surgido ultimamente uma versão deste tipo, não no sentido de realização de lucros comerciais, mas no outro de alguém ver a sua escrita ser lida por meio-mundo através da polinização automática que o receptor de um anexo em PowerPoint faz: "passa a outro e não ao mesmo". A questão está bem vista e já é há muito utilizada pelos publicitários, que dizem com toda a impunidade deste mundo que 62 por cento dos médicos recomendam um determinado produto, 59 por cento das donas de casa fazem o mesmo com um determinado detergente, etc. É a política do band-waggon, do seguimento da maioria, que os publicitários pretendem: "Se tantos deles fazem, eu vou fazer o mesmo".
Ora, quando o Zé dos Anzóis sabe antecipadamente que, se puser um texto seu na blogosfera ou coisa que o valha, ele não irá ter grande divulgação, pensa, inteligentemente: "que tal se usar um nome consagrado, como se em regime de franchising, para dar outra credibilidade e imagem ao meu texto?" Recentemente, vi este facto acontecer com a utilização de dois nomes bem conhecidos: Fernando Pessoa e Pablo Picasso. Põem-se umas fotografias do Pessoas e uns quadros do Picasso a enfeitar os slides, e aí temos textos "deles", que eles nunca escreveriam nem de facto escreveram, a receber a publicidade e a tiragem desejadas pelo verdadeiro autor.
Há coisas mais graves? Certamente que sim, mas é bom que as pessoas estejam alerta, porque não é grande negócio comprar gato supondo que se está a comprar lebre.