Em termos puramente metafóricos, gosto de pensar num instrumento musical da vida. Dou-lhe o nome de biolino por "bio" ser "vida". Ao contrário do violino, com cujo nome se assemelha e que não tem mais do que quatro cordas, este tem seis. Uma é a corda da verdade. Ao seu lado fica a corda da mentira, que com ela faz contraponto. Seguem-se a corda da beleza e a da ironia-e-do-humor. A corda do combate vem a seguir e, por último, a corda da esperança (presente em todos os grandes finais).
Se gosto de imaginar este instrumento, é porque com ele é possível tocar muitas das melodias que se pretenda compor. Além disso, ele resume razoavelmente a vida. Quando olho para trás, vejo que, sem margem para dúvidas, a corda que mais busquei e também a que mais vezes dedilhei foi a da verdade. Cheguei a intitular-me truth-seeker e a escrever textos a esse respeito. Só que, e penso que já o contei aqui, tive uma vez alguns alunos a quem, a propósito de umas tantas estórias da História que eu acabava de contar, coloquei a pergunta: "Esta é uma verdade diferente da que costumam ouvir. O que eu vos disse é baseado em factos reais, mas admito que saia algo cruel para nós, portugueses. Preferem a verdade ou o mito?" Nem todos responderam – a maioria eram alunas, com idades compreendidas entre os 20 e os 25 anos - mas as que o fizeram não hesitaram: "O mito!". Foi, em certa medida, uma lição para mim. A verdade total, pura e dura, não agradava. Nem agrada.
E se a música fosse tocada conjuntamente com outras cordas? Para mim, a da mentira não servia, mas era excelente para contraponto. Pensei na necessidade de outras. Aí surgiu a terceira, a da beleza. Soa bem e dá prazer tocar. O que é belo e poético é admirado pela sua perfeição e pela sua originalidade. Porém, como a vida é feita de perspectivas diferentes segundo o ângulo em que a encaremos, o momento que vivemos e as pessoas com quem a partilhamos, senti que a corda da ironia e do humor se tornava igualmente essencial. Afinal, o humor e a ironia estão entre as grandes características que distinguem o homem dos animais.
Faltavam ainda duas cordas, uma delas assaz importante: a do combate e da luta. Estamos no mundo não só para o compreender e a ele nos adaptarmos mas, principalmente, também para o transformarmos. Não somos apenas seres receptivos, passivos, somos agentes de mudança e inovação. Para isso é necessário que combatamos e nos esforcemos por ganhar a batalha, dando o nosso melhor contributo possível e sendo suficientemente sensatos para não pretender alterar aquilo que consideramos válido.
A última corda é também a primeira, a da esperança. Sem esperança, nada se almeja, os braços falecem e morremos em vida. Pior: contaminamos os outros ao desesperarmos. E, disse-o o filósofo alemão Godamer, falecido salvo erro em 2004 já com mais de 100 anos, "a única ideia que quero defender sem restrições é que os seres humanos não podem viver sem esperança." É crucial que a esperança nunca seja perdida e, pelo contrário, seja alimentada.
Daqui resulta o meu biolino, que muitas vezes me domina, mais do que eu o domino a ele. Tento puxar para um lado e ele leva-me para outro. Isso sucede principalmente, devo admiti-lo, no conflito entre a exposição nua e crua da verdade - pelo menos como eu a vejo - e a inclusão ou exclusão da mensagem de esperança. A denúncia da mentira, corda falsa mas muito toante (por vezes mesmo troante quando tocada por alguns outros), é em si uma tentativa de contribuição para um mundo melhor. E essa é uma parte importante da luta em que a quinta corda se empenha. Mas continua a ser uma verdade que o tocar demasiado forte na denúncia da mentira é, per se, cruel.
O leitor poderá questionar-se: onde está a corda do sonho, da poesia e da utopia? Bem, essa é um resultado da melodia que se toca com as cordas do instrumento. Por exemplo, a corda da verdade, juntamente com a corda da beleza - ambas bem temperadas com a da esperança - podem produzir um sonho maravilhoso. Ao qual há que dar empowerment, como agora se diz.
Este é um instrumento tão fácil de tocar como outros. A música que dele se pode tirar é praticamente infinita. O agrado da melodia por parte dos que a ouvem é que pode ser literalmente diferente. Tudo, afinal, depende muito dos ouvidos de quem escuta. Por outro lado, tocar só para nós não faz sentido. "O meu amigo, o outro, não é senão a outra metade de mim próprio." Fazer de nós apenas uma metade e partilhar a outra com a audição do mundo é um conceito importante. Tal como pensar, como há dias ouvi numa conferência, que existe uma enorme diferença entre o cartesiano "Sou, logo existo" e o "Sou, porque tu és".
Eis umas meras reflexões biolínicas de um sentipensante, como nós humanos por natureza somos.
6/25/2007
6/23/2007
Confiança e Desconfiança
A confiança, tanto em nós próprios como nos outros, é um bom sintoma. É sintoma de uma sociedade predominantemente sã, na qual prevalece o respeito mútuo. Quem confia nas suas próprias capacidades produz mais e entra menos em quezílias com os outros.
Quem é desconfiado esconde, por baixo da sua desconfiança e aparente humildade, um desejo de ser maior do que aquilo que na realidade é. A desconfiança espelha, neste sentido, alguma frustração pessoal, que se pode estender à escala nacional. A desconfiança constante produz, em vez de obras, uma crítica permanente que se alimenta de si mesma para manifestar uma aparente superioridade moral dos críticos relativamente aos criticados. É uma forma de os críticos se elevarem aos seus próprios olhos, camuflando afinal a sua inerente mediocridade, e de igualmente se desresponsabilizarem dos assuntos que criticam.
O desconfiado é mais supersticioso do que a pessoa confiante em si mesma. A superstição, a crença numa sorte que o há-de bafejar e que ele pretende atrair para si através de rituais vários, como o jogo, acaba por representar o descontentamento com a sua própria pessoa. O elemento externo da superstição entra como suplemento natural.
A desconfiança, ao pôr tudo em causa, torna-se obviamente negativa, pelo que cria uma atmosfera de pessimismo, a qual leva a sociedade a ser menos feliz e a realizar menos do que poderia para o seu bem-estar e o dos outros. Na realidade, ao desconfiar dos elementos à sua volta, a pessoa sente pouca vontade de trabalhar em grupo, sempre receosa de que os outros a estejam a defraudar de uma forma ou de outra. Daqui resulta frequentemente um esforço individual maior que, por ser algo desgarrado, é inglório e não produz tanto quanto o daqueles outros que colaboram sadiamente uns com os outros.
O facto de as pessoas desconfiadas suspeitarem constantemente das restantes leva-as a equacionar a sua existência com grande regularidade. Têm aqui origem os debates sobre identidade, mesmo à escala nacional, em que as pessoas se esforçam por encontrar elementos positivos que dêem à sociedade em que estão integradas um valor do qual suspeitam mas que gostariam ardentemente de ver confirmado, na medida em que esse declarado valor colectivo lhes vai conferir mérito a si próprias.
O indivíduo desconfiado esconde uma vaidade que transborda com os sucessos de compatriotas seus, nomeadamente quando esses compatriotas são postos em confronto com pessoas de outros países. Aqui, uma visão bairrista, regionalista ou nacionalista, tende a obnubilar essas pessoas de outras vistas mais alargadas, à escala global.
A desconfiança conduz, ainda, a uma desvalorização da realidade actual, preterida pela mitificação de um passado glorioso. Crê-se pouco no presente. Ora, esta descrença é altamente perniciosa para a condução de projectos de equipa e a longo prazo, o que em termos económicos e financeiros se traduz mais no negócio, na oportunidade ocasional, do que no longo projecto empresarial unificador de múltiplas vontades.
Como consequência natural, o secretismo impõe-se à transparência. Este secretismo provoca a tendência para a formação de empreendimentos familiares - estes são os membros da sociedade nos quais em princípio mais se confia - e origina a apetência por parte das elites de formação de famílias não-consaguíneas mas classistas: as agremiações secretas, baseadas em votos de confiança e interajuda mútua. Estas associações, que naturalmente não gostam de ser vistas como secretas embora em grande parte o sejam, criam laços de confiança confessional de que sentem necessitar, dentro das suas vistas mais alargadas. Nelas, v.g. Maçonaria, Opus Dei, só os privilegiados são admitidos. Os votos expressos pelos seus membros são verdadeiros rituais de confiança na instituição e nos seus pares, além de demonstração de confiança em si mesmos.
Por seu turno, o desconfiado teme ser alvo de críticas como aquelas com que costuma mimosear os outros. Daí que tenda a falar pouco sobre os seus próprios trabalhos e acabe, inevitavelmente, por contribuir igualmente pouco para a sociedade em que se insere. O espectro do eventual ridículo apodera-se dele e manieta-o. O fracasso tolhe-o. A existência deste receio da exposição ao ridículo e ao fracasso contribui decisivamente para a falta de sentido empreendedor e para o estabelecimento de um limiar exageradamente baixo da sua noção de risco. Por esse motivo, não arrisca. Para ele, com a sua superstição, jogar não é arriscar. É apenas tentar um conluio com os deuses. Se a constelação lhe for favorável, a sorte sorrir-lhe-á.
Agora, em face do efeito deste panorama à escala nacional, imagine-se como a sua conversão para o lado da confiança mútua, do trabalho em grupo, da partilha de conhecimentos e da solidariedade social poderia ser um factor benéfico e um poderoso motor de desenvolvimento!
Quem é desconfiado esconde, por baixo da sua desconfiança e aparente humildade, um desejo de ser maior do que aquilo que na realidade é. A desconfiança espelha, neste sentido, alguma frustração pessoal, que se pode estender à escala nacional. A desconfiança constante produz, em vez de obras, uma crítica permanente que se alimenta de si mesma para manifestar uma aparente superioridade moral dos críticos relativamente aos criticados. É uma forma de os críticos se elevarem aos seus próprios olhos, camuflando afinal a sua inerente mediocridade, e de igualmente se desresponsabilizarem dos assuntos que criticam.
O desconfiado é mais supersticioso do que a pessoa confiante em si mesma. A superstição, a crença numa sorte que o há-de bafejar e que ele pretende atrair para si através de rituais vários, como o jogo, acaba por representar o descontentamento com a sua própria pessoa. O elemento externo da superstição entra como suplemento natural.
A desconfiança, ao pôr tudo em causa, torna-se obviamente negativa, pelo que cria uma atmosfera de pessimismo, a qual leva a sociedade a ser menos feliz e a realizar menos do que poderia para o seu bem-estar e o dos outros. Na realidade, ao desconfiar dos elementos à sua volta, a pessoa sente pouca vontade de trabalhar em grupo, sempre receosa de que os outros a estejam a defraudar de uma forma ou de outra. Daqui resulta frequentemente um esforço individual maior que, por ser algo desgarrado, é inglório e não produz tanto quanto o daqueles outros que colaboram sadiamente uns com os outros.
O facto de as pessoas desconfiadas suspeitarem constantemente das restantes leva-as a equacionar a sua existência com grande regularidade. Têm aqui origem os debates sobre identidade, mesmo à escala nacional, em que as pessoas se esforçam por encontrar elementos positivos que dêem à sociedade em que estão integradas um valor do qual suspeitam mas que gostariam ardentemente de ver confirmado, na medida em que esse declarado valor colectivo lhes vai conferir mérito a si próprias.
O indivíduo desconfiado esconde uma vaidade que transborda com os sucessos de compatriotas seus, nomeadamente quando esses compatriotas são postos em confronto com pessoas de outros países. Aqui, uma visão bairrista, regionalista ou nacionalista, tende a obnubilar essas pessoas de outras vistas mais alargadas, à escala global.
A desconfiança conduz, ainda, a uma desvalorização da realidade actual, preterida pela mitificação de um passado glorioso. Crê-se pouco no presente. Ora, esta descrença é altamente perniciosa para a condução de projectos de equipa e a longo prazo, o que em termos económicos e financeiros se traduz mais no negócio, na oportunidade ocasional, do que no longo projecto empresarial unificador de múltiplas vontades.
Como consequência natural, o secretismo impõe-se à transparência. Este secretismo provoca a tendência para a formação de empreendimentos familiares - estes são os membros da sociedade nos quais em princípio mais se confia - e origina a apetência por parte das elites de formação de famílias não-consaguíneas mas classistas: as agremiações secretas, baseadas em votos de confiança e interajuda mútua. Estas associações, que naturalmente não gostam de ser vistas como secretas embora em grande parte o sejam, criam laços de confiança confessional de que sentem necessitar, dentro das suas vistas mais alargadas. Nelas, v.g. Maçonaria, Opus Dei, só os privilegiados são admitidos. Os votos expressos pelos seus membros são verdadeiros rituais de confiança na instituição e nos seus pares, além de demonstração de confiança em si mesmos.
Por seu turno, o desconfiado teme ser alvo de críticas como aquelas com que costuma mimosear os outros. Daí que tenda a falar pouco sobre os seus próprios trabalhos e acabe, inevitavelmente, por contribuir igualmente pouco para a sociedade em que se insere. O espectro do eventual ridículo apodera-se dele e manieta-o. O fracasso tolhe-o. A existência deste receio da exposição ao ridículo e ao fracasso contribui decisivamente para a falta de sentido empreendedor e para o estabelecimento de um limiar exageradamente baixo da sua noção de risco. Por esse motivo, não arrisca. Para ele, com a sua superstição, jogar não é arriscar. É apenas tentar um conluio com os deuses. Se a constelação lhe for favorável, a sorte sorrir-lhe-á.
Agora, em face do efeito deste panorama à escala nacional, imagine-se como a sua conversão para o lado da confiança mútua, do trabalho em grupo, da partilha de conhecimentos e da solidariedade social poderia ser um factor benéfico e um poderoso motor de desenvolvimento!
6/20/2007
Poesia sempre!
Arredada a poesia deste blogue há algum tempo, deixo-vos uma pitada da belíssima poesia de Ruy Belo:
E tudo era possível
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível e era só querer
E tudo era possível
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível e era só querer
Breves, mas com muito pano para mangas
1. A produtividade não se consegue apenas com o apoio de acréscimos de tecnologia. A organização é vital. Ainda hoje me ocorre um exemplo a que tive ocasião de assistir em matéria de produtividade discursiva quando trabalhei pela primeira vez na Alemanha. Em festas, os discursos eram sempre feitos entre o consommé e o primeiro prato. A razão era simples: o consommé abria o apetite aos presentes, que não iriam perdoar a qualquer orador que demorasse mais de cinco minutos a expressar-se. É algo muito diferente do costume de reservar os discursos para o final da refeição, quando toda a gente, já bem atestada de sólidos e líquidos, se está, portanto, mais ou menos marimbando para o tempo que o discursante leva na sua oração.
2. A questão do novo aeroporto continua a fazer manchetes. Uma vez aberta a caixa de Pandora, olha-se com olhos de ver para a hipótese de manutenção da Portela + outro aeroporto de suporte. O problema reside, obviamente, nas promessas já feitas a financiadores imobiliários. Ressalta que, em quaisquer eleições há, para além de eleitores anónimos, financiadores registados. Estes últimos investem o seu dinheiro na natural expectativa de retorno com lucros do dinheiro investido. Se aos eleitores, a propósito de quebras de promessas eleitorais, o partido eleito pode acenar com "circunstâncias imprevisíveis a que somos inteiramente alheios", "Bruxelas dixit" ou mesmo "O P.R. sugeriu, mas com força institucional", os financiadores não perdoam explicações deste tipo. Na próxima vez, quem não cumpriu agora, nada leva.
3. Quem possui uma empresa privada e faz contrato com um novo gestor assina com este um contrato que lhe dá algumas garantias. O novo gestor submeter-se-á às condições, desde que estas não sejam demasiado leoninas para a parte empregadora. Contrariamente, quem aceita lugares de topo na administração pública, muitas vezes de cariz político, sabe que pode contar com cláusulas que lhe são altamente favoráveis e lhe renderão grossas maquias em caso de despedimento ou substituição. Será que este aspecto tem a ver com compadrio político, ou revelará apenas que gerir empresa privada (com rosto) e empresa pública (estatal, sem rosto) são coisas bem diferentes?
4. As eleições para a autarquia lisboeta, a realizar no próximo mês, fizeram surgir cerca de uma dúzia de candidaturas. Residirá uma das razões para tão elevado número de candidaturas, ainda por cima a uma câmara municipal que está em péssima situação financeira, no facto de que, hoje em dia, é apenas durante o período eleitoral que partidos menores têm possibilidade de fazerem ouvir a sua voz?
5. O caso da professora sexagenária, atingida por leucemia, que foi obrigada a dar aulas durante um mês para que pudesse ser-lhe conferida a aposentação, e que veio a falecer pouco depois, mereceu do Ministério das Finanças, através da Caixa Geral de Aposentações, o sucinto comentário de que foi cumprida integralmente a lei. É um comentário que mostra que, apesar das transformações já há muito efectuadas em domínios como o contabilístico, Portugal continua indubitavelmente a preferir a forma à substância.
2. A questão do novo aeroporto continua a fazer manchetes. Uma vez aberta a caixa de Pandora, olha-se com olhos de ver para a hipótese de manutenção da Portela + outro aeroporto de suporte. O problema reside, obviamente, nas promessas já feitas a financiadores imobiliários. Ressalta que, em quaisquer eleições há, para além de eleitores anónimos, financiadores registados. Estes últimos investem o seu dinheiro na natural expectativa de retorno com lucros do dinheiro investido. Se aos eleitores, a propósito de quebras de promessas eleitorais, o partido eleito pode acenar com "circunstâncias imprevisíveis a que somos inteiramente alheios", "Bruxelas dixit" ou mesmo "O P.R. sugeriu, mas com força institucional", os financiadores não perdoam explicações deste tipo. Na próxima vez, quem não cumpriu agora, nada leva.
3. Quem possui uma empresa privada e faz contrato com um novo gestor assina com este um contrato que lhe dá algumas garantias. O novo gestor submeter-se-á às condições, desde que estas não sejam demasiado leoninas para a parte empregadora. Contrariamente, quem aceita lugares de topo na administração pública, muitas vezes de cariz político, sabe que pode contar com cláusulas que lhe são altamente favoráveis e lhe renderão grossas maquias em caso de despedimento ou substituição. Será que este aspecto tem a ver com compadrio político, ou revelará apenas que gerir empresa privada (com rosto) e empresa pública (estatal, sem rosto) são coisas bem diferentes?
4. As eleições para a autarquia lisboeta, a realizar no próximo mês, fizeram surgir cerca de uma dúzia de candidaturas. Residirá uma das razões para tão elevado número de candidaturas, ainda por cima a uma câmara municipal que está em péssima situação financeira, no facto de que, hoje em dia, é apenas durante o período eleitoral que partidos menores têm possibilidade de fazerem ouvir a sua voz?
5. O caso da professora sexagenária, atingida por leucemia, que foi obrigada a dar aulas durante um mês para que pudesse ser-lhe conferida a aposentação, e que veio a falecer pouco depois, mereceu do Ministério das Finanças, através da Caixa Geral de Aposentações, o sucinto comentário de que foi cumprida integralmente a lei. É um comentário que mostra que, apesar das transformações já há muito efectuadas em domínios como o contabilístico, Portugal continua indubitavelmente a preferir a forma à substância.
6/18/2007
Que a hortografia vá plantar batatas!
Discute-se frequentemente na sociedade portuguesa a questão dos erros cometidos na escrita do português por pessoas com estudos. Admitindo-se embora que a perfeição cabe apenas a Deus e que ninguém é dono da língua, existem mesmo assim umas tantas regras convencionadas para a escrita que contribuem para melhorar a comunicação. Ocorre-me agora a frase "Queremos licenciatura univercitária!", que um bem intencionado aluno de um instituto politécnico proclamava nos anos 80 nos lavatórios da sua escola. Terá decerto incentivado vários dos seus colegas a lutar pelo mesmo desígnio.
A recente decisão ministerial de não considerar parte dos erros ortográficos nas provas de Português dos 4º e 6º anos enfileira naquilo que tem havido: facilitismo grave, que depois conduz a casos de bradar aos céus. Também nas provas de outras disciplinas foi considerado que os eventuais erros de português não contariam para a nota final. Assim, um aluno que responda bem a uma questão, em bom português, não terá melhor nota do que outro que também responda de maneira acertada mas com um "à" em vez de "há", um "á" no lugar de "à", "se quizésse-mos" onde deveria estar "se quiséssemos", "para que a reunião se realiza-se" em vez de "... realizasse", etc. Pragmáticas, houve pessoas que sugeriram que os testes fossem de resposta múltipla, com a marcação da resposta correcta através de um símbolo convencionado.
Lançar a culpa toda do actual desatino linguístico para cima da parafernália de multimédia que nos rodeia é desculpa de mau pagador. Embora seja um factor importante, ignora o preocupante facto de que, por exemplo, alguns docentes também sofrem de problemas desse tipo.
Educar, como tem sido dito vezes sem conto, não é manter as crianças e os adolescentes numa semi-ignorância. É prepará-los para a vida. Não se pode, por um lado, afirmar que os estudantes têm que estar aptos a enfrentar a competição, e depois não tentar afincadamente apetrechá-los com os meios adequados para fazerem face à concorrência que de facto irão sentir.
"Agora os computadores corrigem os erros!" é outro argumento largamente usado. Diz-se isto um pouco como se afirma que "não é preciso saber fazer mentalmente operações aritméticas porque hoje em dia existem os calculadores". A verdade é que, embora essa faceta correctora dos computadores seja muito útil, as máquinas não vão distinguir, por exemplo, entre "consertar" e "concertar", ou entre "coser" e "cozer", porque todas estas formas existem, embora com significados diferentes.
Pessoalmente, não posso deixar de considerar grave a atitude de complacência do Ministério da Educação. A não ser que as ministeriais cabeças achem que a tirada do Eça sobre o dever de se falar "patrioticamente mal línguas estrangeiras" se aplica, afinal, também à própria língua portuguesa na sua forma escrita!
A recente decisão ministerial de não considerar parte dos erros ortográficos nas provas de Português dos 4º e 6º anos enfileira naquilo que tem havido: facilitismo grave, que depois conduz a casos de bradar aos céus. Também nas provas de outras disciplinas foi considerado que os eventuais erros de português não contariam para a nota final. Assim, um aluno que responda bem a uma questão, em bom português, não terá melhor nota do que outro que também responda de maneira acertada mas com um "à" em vez de "há", um "á" no lugar de "à", "se quizésse-mos" onde deveria estar "se quiséssemos", "para que a reunião se realiza-se" em vez de "... realizasse", etc. Pragmáticas, houve pessoas que sugeriram que os testes fossem de resposta múltipla, com a marcação da resposta correcta através de um símbolo convencionado.
Lançar a culpa toda do actual desatino linguístico para cima da parafernália de multimédia que nos rodeia é desculpa de mau pagador. Embora seja um factor importante, ignora o preocupante facto de que, por exemplo, alguns docentes também sofrem de problemas desse tipo.
Educar, como tem sido dito vezes sem conto, não é manter as crianças e os adolescentes numa semi-ignorância. É prepará-los para a vida. Não se pode, por um lado, afirmar que os estudantes têm que estar aptos a enfrentar a competição, e depois não tentar afincadamente apetrechá-los com os meios adequados para fazerem face à concorrência que de facto irão sentir.
"Agora os computadores corrigem os erros!" é outro argumento largamente usado. Diz-se isto um pouco como se afirma que "não é preciso saber fazer mentalmente operações aritméticas porque hoje em dia existem os calculadores". A verdade é que, embora essa faceta correctora dos computadores seja muito útil, as máquinas não vão distinguir, por exemplo, entre "consertar" e "concertar", ou entre "coser" e "cozer", porque todas estas formas existem, embora com significados diferentes.
Pessoalmente, não posso deixar de considerar grave a atitude de complacência do Ministério da Educação. A não ser que as ministeriais cabeças achem que a tirada do Eça sobre o dever de se falar "patrioticamente mal línguas estrangeiras" se aplica, afinal, também à própria língua portuguesa na sua forma escrita!
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