7/30/2007

Boas férias!

Este escriba irá estar ausente do azweblog durante quase todo o mês de Agosto. Votos de boas férias aos que as vão gozar agora, e boa disposição para os restantes!

7/28/2007

Antes de férias

Admito que esta canícula do fim de Julho me convidava a despedir-me de leitores amigos com uns votos de boas férias - votos que naturalmente expresso -, e um anúncio de regresso lá para finais de Agosto. No entanto, porque um artigo do jornal Público de hoje, assinado por São José Almeida, bate num ponto que é substancialmente o meu, permito-me deixar ainda um breve apontamento em jeito de balanço político-partidário.
A razão que leva às aparentes crises do PSD e do CDS não é a crise de direita, thank you, mas a forma como o PS tem conduzido a sua política. Ambos os partidos do bloco central - PS e PSD - possuem, como todos sabemos, uma ala mais à esquerda e outra mais à direita. A ala do PS que está neste momento no governo é, claramente, a ala mais à direita do partido. Sendo assim, é natural e lógico que esteja a servir mais a direita, sob o nome de esquerda, do que outra coisa. Como o primeiro-ministro se tem revelado bastante à-vontade no seu papel, com bons dotes oratórios e um discurso fluente e persuasivo, ganha com facilidade a uma oposição parlamentar de direita que se encontra debilitada por ter o adversário a usar muitos dos seus trunfos.
E não causa protestos a sua política? Como não! Uma política de direita leva invariavelmente a protestos, na medida em que tende a beneficiar um número reduzido de indivíduos, já de si privilegiados, e a afectar a maioria. O que a direita tem em vista é a formação de riqueza. Tradicionalmente, o pensamento esquerdista preocupa-se mais com a distribuição dessa riqueza, de maneira a esbater as diferenças sociais.
É aqui que surge o país adiado que Portugal tem sido e o seu inegável atraso no capítulo da formação e da educação. E da honestidade. Há muita coisa que continua a ser levada pouco a sério no país. Em alturas em que há fundos comunitários em abundância, utilizam-se muitos desses fundos em investimentos não reprodutivos. A corrupção faz imensos estragos. O banco de favores, tipo "ajuda-me hoje, que eu ajudo-te amanhã", tem raízes fundas no país. O populismo que continua a grassar na educação tem consequências gravíssimas. Nesse domínio, preferiu-se claramente a quantidade à qualidade, com efeitos muito perniciosos em termos futuros. Sem fundos estruturais vindos da União Europeia, o resultado tenderia a ser catastrófico.
Portugal é membro da Eurolândia desde 1999, com o euro a circular no país desde 2002. Com mais efeitos positivos para o país do que negativos, diga-se. O Programa de Estabilidade, que também pede Crescimento (PEC), exige disciplina, já que o euro é moeda forte, criada à imagem e semelhança do marco alemão. Ora, esta disciplina, pouco comum em Portugal, exige medidas que são necessariamente impopulares. Quando estiveram no governo, o PSD e o CDS não fizeram o seu trabalho de casa correctamente. Foram essencialmente populistas. Depois da desastrosa governação de Santana Lopes, estava aberto o caminho para um PS reformador. Esse Partido Socialista conquistou a maioria absoluta basicamente por culpa do governo de direita. Porém, para que o governo cumprisse o PEC de forma a não ser convidado a sair do euro, impunham-se típicas medidas de austeridade, que acabaram por deixar praticamente incólumes os mais ricos e causaram largos problemas aos restantes. Foram anunciadas grandes transformações, das quais algumas foram executadas. Na sua maioria, as medidas incidiram, como geralmente sucede nestes casos, sobre o campo social custeado pelo Estado. A reforma da Segurança Social penalizou os trabalhadores. Algumas reformas administrativas já tomadas no campo da Função Pública penalizam os funcionários. Reformas ao nível das carreiras na Educação penalizaram os professores, que já tinham sido atingidos pela reforma da Segurança Social. No domínio da Saúde, a reconversão do mapa geral de hospitais e centros de atendimento provocou natural descontentamento. Um maior controlo das contas públicas enfureceu a ilha da Madeira e causou descontentamento e constrangimentos financeiros em muitas autarquias.
Não ponho em dúvida que estas medidas eram necessárias para que Portugal se mantivesse no grupo do euro. Mas são reformas que, na sua lógica, caberiam mais a um governo de direita fazer. Desta forma, por não ser penalizada e ter a semi-esquerda a fazer o seu trabalho, a direita ganha com este alisar de terreno. À direita interessam os negócios, a formação de riqueza através do mundo empresarial, uma maior facilidade para despedir trabalhadores, e isso tem vindo progressivamente a ocorrer. Uma taxa de desemprego elevada também favorece a direita. Por um lado, desacredita a esquerda governante, por outro baixa os salários a pagar, o que significa aumento de lucros.
Mas, perguntar-se-á, tudo o que o governo tem feito é de direita? A resposta tem de ser negativa. Aliás, se fosse totalmente positiva, o governo não se teria mantido até agora. Por um lado, apesar das gravosas correcções introduzidas, o governo mantém a ideia básica do sistema da Segurança Social. Não ousa destruí-lo, o que seria uma das ambições da direita neo-liberal. Na feitura da lei do arrendamento urbano, não cedeu às muitas pressões a que foi sujeito, que pretendiam uma liberalização quase total. A fazer-se o que o sector imobiliário pretendia, haveria uma revolução social no país urbano. (Em resposta, os senhorios têm feito boicote ao arranjo de edifícios.) No que respeita ao abaixamento de impostos, que não faria qualquer sentido na presente situação de correcção do défice, até agora o governo tem-se mantido firme. É ainda verdade que conseguiu aumentar a sua receita fiscal através de um maior controlo dos impostos - mas não tornou esses impostos suficientemente progressivos, pelo que sectores que já eram privilegiados como a banca continuam a apresentar chorudos lucros que contrastam pelo seu volume com a panorâmica geral da economia. Aí, o governo não tem, lamentavelmente, contribuído para diminuir as desigualdades sociais em Portugal. Mais importante: o governo não tem cedido a pressões para alteração da Constituição, algo que é um dos objectivos prioritários da direita.
A pressão disciplinadora de Bruxelas tem sido mais importante do que a acção crítica da oposição.

7/24/2007

Autenticidade encenada

A propósito do título acima, ocorre-me um almoço dominical na casa dos meus pais, tinha eu apenas sete ou oito anos. Estávamos à mesa todos os membros da família e mais um casal amigo, o que representava um total de dezoito pessoas (este era sempre o número limite por causa da mesa e da sala). Não me lembrando já dos antecedentes, recordo que a certa altura a conversa entre os adultos incluiu a menção de um beijo. Do meu lugar eu terei metido o bedelho na conversa, o que fez com que os outros me perguntassem se eu sabia o que era beijar. Respondi-lhes que sim. Aí, todos fingiram não saber. Pediram-me então que lhes explicasse e, candidamente, dei-lhes uma explicação. Descrevi-lhes um beijo "à cinéfila". Alguém comentou: "Mas isso é só nos filmes". Todos imediatamente concordaram.
Só anos mais tarde é que vi o ridículo da situação. Eles tinham fingido bem, reagindo com acerto e humor à minha ingenuidade. Tratava-se de uma reacção concertada no momento.
Ora, uma reacção é muito diferente de uma acção. Esta corresponde a uma iniciativa tomada por alguém. Há dias, tivemos um caso típico de autenticidade encenada, na circunstância pelo partido socialista. À boa maneira do eterno caciquismo, o partido arrebanhou gentes de Cabeceiras de Basto e do Alandroal para celebrar com um banho de multidão um pouco maior a prevista vitória de António. Costa nas eleições para a Câmara de Lisboa. A população de Lisboa soube do caso e, naturalmente, não gostou. Ninguém gosta de comer gato por lebre.
Eis que os spin doctors socialistas atacam de novo. Dentro da admissível auto-promoção da "revolução tecnológica" que o governo tem apregoado, os assessores de imagem congeminaram a cena de uma sala de aula com miúdos recrutados por uma empresa de casting, a qual lhes pagou a 30 euros por cabeça para serem figurantes. No fundo, a presença da ministra da Educação e do primeiro-ministro acabou por servir para realçar a falsa autenticidade da encenação. E com crianças, senhores?
Houve, no entanto, um aspecto muito positivo que convém igualmente salientar: a televisão pública mostrou as imagens, como se esperaria, mas revelou também as perguntas feitas pelos jornalistas e as esclarecedoras respostas dos miúdos, o que constituiu um bom exemplo de liberdade de trabalho da RTP, contra aqueles que falam em governamentalização total. Valha-nos isso!

7/22/2007

Existencial

Somos aquilo que pensamos ser? Aquilo que dizemos? Aquilo que fazemos? Ou somos, afinal, como os outros nos vêem (mais do que como nos vemos a nós próprios)?
Preguiçosamente, talvez tenhamos a tendência para dizer que somos um pouco de tudo isso. Mas, na realidade, como somos?

7/19/2007

Humor em vias de extinção?

Uma notícia da semana passada fez-me rir. Como é sobre sentido de humor, acabou por cumprir a sua missão. O conceituado Journal of the International Neuropsychological Society inclui no seu último número um artigo que sugere que as piadas podem estar em vias de extinção. Quem ler até aqui poderá pensar que o artigo se baseia na recente experiência portuguesa de reprimir severamente algumas graçolas - em si uma boa anedota -, mas não é naturalmente esse o caso. Segundo os autores do artigo, a diminuição do sentido de humor acompanha a idade. Neste sentido, como a população mundial está claramente a envelhecer em muitos países, as anedotas tenderão a extinguir-se.
Aqui está um campo em que acho que a ciência não se devia meter, porque é extremamente difícil chegar a conclusões exactas. Mas analisemos a coisa por partes. É ou não verdade que nos rimos menos de uma piada que já conhecemos? Para mim, isso parece-me óbvio. Uma anedota, tal como um automóvel ou uma casa ou uma caneta, ou, ou, é sempre melhor em primeira do que em segunda mão. Chegados aqui, é natural que os mais velhos se riam menos de piadas que para eles já têm barbas (o próprio humor envelhece através das suas barbas). Recordo-me que já no liceu, quando algum de nós se punha a contar uma anedota que julgava nova, havia muitas vezes um dos ouvintes que começava a cofiar o queixo como que a acariciar a barba, levando à eterna pergunta: "Já conheces?" À resposta afirmativa havia uma interrupção, logo seguida dos protestos dos outros que ainda não conheciam a piada. E porquê esse interesse em ouvir até ao fim? Porque rir é bom! "Dia não rido é dia não vivido." Toda a gente gosta de rir. Quem não gosta, está doente. "Weine, und Du weinst allein! Lache, und die Welt lacht mit Dir!" diz-se em alemão (Chora, e chorarás sozinho. Ri, e o mundo rirá contigo!)
Ora bem, o que tenho notado é que os meus amigos mais velhos se pelam por boas piadas. Ainda há dias, num jantar, lamentou-se a não-presença de um habitué, que é um grande contador de anedotas. E é mais ou menos tudo velhada que gosta de comer e beber! ("Quando nada mais há para dar, ainda resta o paladar!")
Não me venham, pois, com essa de que com o envelhecimento da população diminui o caudal de anedotas. É evidente que alguém que está com os pés para a cova não tirará grande prazer nem da melhor piada; o seu mal-estar não lho permite. Mas quando se está de boa saúde, não é a idade que rouba às pessoas o sentido de humor. Pode até refiná-lo.
Continuo a dizer que o sentido de humor é uma das grandes características que distinguem o homem dos outros animais. Se o Muttley ri à maneira humana, é porque é um boneco inventado pelo homem. Idem para o Jerry. Idem para o Speedy. Mas até seria interessante que os animais se rissem com gosto de uma piada. Faziam-nos mais companhia. Entretanto, uma verdade é certa: a educação de uma pessoa e o seu esprit de finesse contam bastante para a forma como ela não só cria humor como entende o humor dos outros. A faceta educação é bem mais importante do que a idade, creio. Digo "creio" porque, feliz ou infelizmente, certezas não tenho; para essas é melhor consultar a revista da Sociedade Internacional de Neuropsicologia.