Quando compramos um CD, fazemo-lo geralmente por causa de duas ou três faixas que, na altura, consideramos excepcionais. Ouvi-las é um deleite. Relativamente às outras faixas, porém, elas interessam-nos pouco ou nada. Não as conhecemos a priori, mas esperamos que pelo menos não nos desagradem.
Digamos que quando apreciamos os nossos primeiros contactos com uma pessoa, estamos a ouvir as faixas que nos são agradáveis ou, mesmo mais do que isso, que adoramos. Passado o primeiro deslumbramento, aguardamos com ansiedade que as restantes partes do disco, que só ouviremos mais tarde, não nos desiludam. Porém, o mais natural é que existam umas tantas musiquinhas que claramente preferiríamos não estivessem lá.
É mais ou menos assim que vemos os outros, e é igualmente assim que os outros nos vêem a nós. É bom que tenhamos consciência de que o CD de nós próprios não é ouvido com agrado por toda a gente. Muitos recusam-se a comprá-lo. Creio que podemos dar-nos por felizes quando somos nós mesmos que notamos isso. Podemos tentar melhorar o arranjo musical de algumas das partes. Discos compactos recheados apenas de músicas boas, cada uma melhor do que a outra, são algo que não existe. Se nos consciencializarmos disso, não é impossível que saibamos viver melhor em sociedade.
9/12/2007
9/09/2007
Mil e um casos de português-em-itálico
En passant, deixem-me dizer-vos que o mois d’août foi mais calmo do que o habitual. Com algum spleen à mistura, disfarçado apenas por trabalho q.b. - produto do que chamo "ociofobia" em vez de "workaholismo" - , afastei um eventual stress, embora não me tenha conseguido desligar dos media e das suas notícias sobre os arreliadores aumentos do spread bancário. Ouvi falar das agências de rating a propósito disto e daquilo, e dos problemas que os governos têm com as contas off-shore. Deliciei-me, entretanto, a ler o O’Neill blagueur ("na mediania é que está a sensaboria"), a Isabel Stilwell que nos trouxe uma Filipa de Lencastre com caché e glamour intelectual, os (altos) Gritos contra a indiferença do Fernando Nobre (AMI), e arranjei ainda tempo para reler O que diz Molero, i.e. o top de Dinis Machado.
Além disso, aproveitando aqui e ali o oco das férias, comecei em jeito de puro diletantismo a listar umas tantas palavras - como as usadas acima - que surgem geralmente em itálico, de origem estrangeira, e que não só empregamos em conversas de café como encontramos em artigos e notícias de jornal ou revista, ou ainda em livros e na televisão. A certa altura da minha listagem, que recebeu a colaboração de familiares, comecei a verificar que o número excedia claramente aquele que eu a princípio imaginara. Chegado ao número redondo de 200, disse para mim próprio que mil e um vocábulos proporcionariam um manancial bem mais interessante e significativo como amostra que me permitisse chegar a algumas conclusões. Só que passar de duzentos a mil não se faz com um mero estalido dos dedos! Recuperei a minha própria lista de frases latinas e, aos poucos, vi que conseguia ultrapassar os quinhentos itens. Atingir o milhar acabou por ser uma questão de tempo. Juntei os termos estrangeiros que consegui encontrar - ficaram de fora ainda muitos outros, como seria previsível -, e elaborei uma tabela em Word, que está ao dispor de quem a pretender (basta dizê-lo aqui ou contactar-me no jmolive@netcabo.pt.) Em termos de tamanho, a listagem representa algo entre 40 e 50 páginas. Na maioria dos casos, defini eu próprio os termos, ilustrando com um exemplo sempre que possível. Noutros, recorri a um dicionário da Porto Editora que tinha na casa da Praia.
E já que falo em dicionário, saliento que foi com verdadeiro prazer que encontrei numerosas expressões e vocábulos estrangeiros listados no corpo principal do dito, juntamente com as mais antigas palavras do nosso léxico. Isto significa um reconhecimento do seu uso na linguagem de todos os dias, pelo menos por parte de determinados grupos sociais. Um velho tabu nacional parece-me definitivamente quebrado: o nosso alfabeto já tem 26 letras e não apenas 23, como sucedeu durante décadas e décadas. O k, o w e o y são adoptados como letras usáveis em textos portugueses, muito embora o sejam em termos de origem estrangeira.
Se há línguas que opõem uma enorme barreira à entrada de vocábulos estrangeiros, a língua portuguesa não é certamente uma delas. Por um lado, ainda bem! E qual será o motivo principal que explica a importação de tantos vocábulos? Além de outras razões que este espaço não consente que eu aqui refira, creio que existe uma que é transversal às restantes e se lhes sobrepõe. Chamar-lhe-ei "o princípio da economia", algo que é facilmente explicável. O princípio da economia leva-nos a escolher a forma mais económica de fazermos ou dizermos as coisas. A língua inglesa, da qual temos nas últimas décadas importado um número muitíssimo apreciável de novos termos, é, grosso modo, mais económica do que a portuguesa. Porquê? Porque a sua costela germânica lhe confere um maior poder de síntese. Vejamos um exemplo das centenas que poderiam ser citados. Se estivermos a ler um artigo sobre empresas e nos depararmos com a expressão "a six-woman board", entenderemos facilmente que se trata de um-conselho-de-administração-composto-por-seis-membros,-todos-eles-mulheres. Ao compararmos aquela sintética expressão inglesa com a sua correspondente portuguesa, verificamos que a versão inglesa é muito mais curta. Não quer isto dizer que a adoptemos porque se trata de algo estruturalmente diferente, mas da compreensão deste facto podemos concluir que quando estamos perante uma palavra estrangeira nova e compreendemos sem grande dificuldade o seu significado, inferimos que a nossa tradução, analítica, vai ser mais longa e complexa. Aí, por razões de economia, optamos pelo termo estrangeiro.
Repare-se, por exemplo, que quando dizemos "um after-shave", estamos apenas a dizer "um depois do barbear". Então, e a especificação de que se trata de um creme, de uma loção ou um perfume? Suprimimo-la por razões de economia. Da mesma forma um soutien-gorge ficou reduzido a soutien. Chega. Na mesma ordem de ideias, dizer "um spread" significa sintetizar montes de coisas. Porquê empregar frases longas se uma palavra tão curta exprime aquilo que queremos dizer? Semelhantemente, se stress nos dá a perceber do que se trata e é uma palavra tão pequena, porque não adoptá-la?
Vejamos o caso de outro ângulo. Os portugueses adoram a sua palavra "saudade". Uma das razões por que a reverenciam é pela riqueza de conceitos que ela encerra e pela concisão com que esses mesmos conceitos são expressos. Ora, é este mesmo facto - entre outros motivos - que nos leva frequentemente a escolher termos estrangeiros e a nacionalizá-los depois. É assim que, prosseguindo com um dos exemplos acima, podemos sentir-nos stressados, consideramos stressante um determinado trabalho e vamos para férias para destressar.
Tomemos outro exemplo: street-racing. Em português, street-racing significa corridas-ilegais-de-automóveis-na-via-pública. Se calhar concordamos quase todos que é mais prático empregar street-racing. Porém, é evidente que muitos portugueses ficam de fora deste vocabulário (fosso geracional, por um lado, e fosso educacional, por outro). Não tenho infelizmente possibilidade de analisar o efeito deste dois "fossos" (gaps) no curto espaço de um post, mas o assunto poderá ficar para comentários.
Entretanto, quais são as principais origens dos itálicos portugueses? A maioria dos estrangeirismos da tabela das mil e uma palavras e expressões que sumariamente elaborei provém da língua inglesa, embora não necessariamente de Inglaterra. A seguir vêm os léxicos franceses e depois as expressões latinas. A grande distância, chegam-nos italianos e alemães. As palavras e expressões de origem castelhana no português são relativamente raras.
O latim, que já foi outrora uma língua franca como o inglês é nos dias de hoje, surge em citações de Cícero, Ovídio, Horácio, Júlio César, etc. A área singular mais notada é possivelmente a de Direito.
O francês tem, no que toca a importações pela nossa língua, raízes bem mais antigas que as do inglês. Os seus domínios principais são a moda, a cosmética e a culinária. Está, no entanto, a perder terreno para o inglês. Será interessante pensarmos que o rouge de há anos foi substituído pelo blush de hoje, e que a maquillage está a encontrar um sério rival no make-up. Por outro lado, note-se que na altura em que o desporto do boxe entrou em Portugal, ainda com a França como nossa ama-de-leite, não só o -ing (boxing) do nome original inglês não foi incluído, como o praticante de boxe se chamou boxeur (havia quem lesse bóksiúr). Ora, muito mais recentemente chegou-nos o kickboxing, já com o –ing, sendo o respectivo praticante um kickboxer e já não um kickboxeur. Sinais de mudança...
Por seu lado, o inglês é altamente visível no léxico nacional nas áreas do desporto, da informática, da música moderna, da economia e da finança. E cada vez mais!
Já antecipa, caro leitor, que se quiser enriquecer a listagem acima mencionada com mais uma dúzia de termos ou com correcções, a gerência agradece. Fazemos assim uma espécie de wiki à la diable. Para terminar, aqui vão cerca de cem das mil e uma palavras e expressões que encontrará na tabela, a qual é, of course, mais uma lembrança para os amigos - ad usum amicorum - do que propriamente um estudo científico: software, hardware, back-up, clicar, printar, body-building, baby-sitting, spread, dumping, benchmarking, blue chips, rappel, ranking, rating, time-sharing, leasing, factoring, franchising, merchandising, marketing, p.o.s. (point of sale), plafond, partner, C.E.O., overbooking, outsourcing, players, insider trading, rooming-list, check-list, scorecard, affaire, blague, blagueur, parti-pris, paparazzi, nickname, nouveau riche, lingerie, soutien, collants, boxers, slips, rouge, blush, pourboire, tip, overdose, maquillage, make-up, mutatis mutandis, ad hominem, ridendo castigat mores, quot abundat non nocet, modus operandi, modus faciendi, modus vivendi, à contre-coeur, avant-garde, à la page, up-to-date, state-of-the-art, à vol d’oiseau, avant la lettre, enfant terrible, show-off, malgré tout, um must, naïf, réveillon, rentrée, rendez-vous, surf, kickboxing, doping, anti-doping, health club, hydrobike, step, keeper, off-side, m.v.p., sprint, sprintar, sprinter, slalom, karting, bavaroise, pudim, consommé, raviolli, risotto, évasé, tailleur, chic, ménage à trois, start-ups, reset e bingo!
Além disso, aproveitando aqui e ali o oco das férias, comecei em jeito de puro diletantismo a listar umas tantas palavras - como as usadas acima - que surgem geralmente em itálico, de origem estrangeira, e que não só empregamos em conversas de café como encontramos em artigos e notícias de jornal ou revista, ou ainda em livros e na televisão. A certa altura da minha listagem, que recebeu a colaboração de familiares, comecei a verificar que o número excedia claramente aquele que eu a princípio imaginara. Chegado ao número redondo de 200, disse para mim próprio que mil e um vocábulos proporcionariam um manancial bem mais interessante e significativo como amostra que me permitisse chegar a algumas conclusões. Só que passar de duzentos a mil não se faz com um mero estalido dos dedos! Recuperei a minha própria lista de frases latinas e, aos poucos, vi que conseguia ultrapassar os quinhentos itens. Atingir o milhar acabou por ser uma questão de tempo. Juntei os termos estrangeiros que consegui encontrar - ficaram de fora ainda muitos outros, como seria previsível -, e elaborei uma tabela em Word, que está ao dispor de quem a pretender (basta dizê-lo aqui ou contactar-me no jmolive@netcabo.pt.) Em termos de tamanho, a listagem representa algo entre 40 e 50 páginas. Na maioria dos casos, defini eu próprio os termos, ilustrando com um exemplo sempre que possível. Noutros, recorri a um dicionário da Porto Editora que tinha na casa da Praia.
E já que falo em dicionário, saliento que foi com verdadeiro prazer que encontrei numerosas expressões e vocábulos estrangeiros listados no corpo principal do dito, juntamente com as mais antigas palavras do nosso léxico. Isto significa um reconhecimento do seu uso na linguagem de todos os dias, pelo menos por parte de determinados grupos sociais. Um velho tabu nacional parece-me definitivamente quebrado: o nosso alfabeto já tem 26 letras e não apenas 23, como sucedeu durante décadas e décadas. O k, o w e o y são adoptados como letras usáveis em textos portugueses, muito embora o sejam em termos de origem estrangeira.
Se há línguas que opõem uma enorme barreira à entrada de vocábulos estrangeiros, a língua portuguesa não é certamente uma delas. Por um lado, ainda bem! E qual será o motivo principal que explica a importação de tantos vocábulos? Além de outras razões que este espaço não consente que eu aqui refira, creio que existe uma que é transversal às restantes e se lhes sobrepõe. Chamar-lhe-ei "o princípio da economia", algo que é facilmente explicável. O princípio da economia leva-nos a escolher a forma mais económica de fazermos ou dizermos as coisas. A língua inglesa, da qual temos nas últimas décadas importado um número muitíssimo apreciável de novos termos, é, grosso modo, mais económica do que a portuguesa. Porquê? Porque a sua costela germânica lhe confere um maior poder de síntese. Vejamos um exemplo das centenas que poderiam ser citados. Se estivermos a ler um artigo sobre empresas e nos depararmos com a expressão "a six-woman board", entenderemos facilmente que se trata de um-conselho-de-administração-composto-por-seis-membros,-todos-eles-mulheres. Ao compararmos aquela sintética expressão inglesa com a sua correspondente portuguesa, verificamos que a versão inglesa é muito mais curta. Não quer isto dizer que a adoptemos porque se trata de algo estruturalmente diferente, mas da compreensão deste facto podemos concluir que quando estamos perante uma palavra estrangeira nova e compreendemos sem grande dificuldade o seu significado, inferimos que a nossa tradução, analítica, vai ser mais longa e complexa. Aí, por razões de economia, optamos pelo termo estrangeiro.
Repare-se, por exemplo, que quando dizemos "um after-shave", estamos apenas a dizer "um depois do barbear". Então, e a especificação de que se trata de um creme, de uma loção ou um perfume? Suprimimo-la por razões de economia. Da mesma forma um soutien-gorge ficou reduzido a soutien. Chega. Na mesma ordem de ideias, dizer "um spread" significa sintetizar montes de coisas. Porquê empregar frases longas se uma palavra tão curta exprime aquilo que queremos dizer? Semelhantemente, se stress nos dá a perceber do que se trata e é uma palavra tão pequena, porque não adoptá-la?
Vejamos o caso de outro ângulo. Os portugueses adoram a sua palavra "saudade". Uma das razões por que a reverenciam é pela riqueza de conceitos que ela encerra e pela concisão com que esses mesmos conceitos são expressos. Ora, é este mesmo facto - entre outros motivos - que nos leva frequentemente a escolher termos estrangeiros e a nacionalizá-los depois. É assim que, prosseguindo com um dos exemplos acima, podemos sentir-nos stressados, consideramos stressante um determinado trabalho e vamos para férias para destressar.
Tomemos outro exemplo: street-racing. Em português, street-racing significa corridas-ilegais-de-automóveis-na-via-pública. Se calhar concordamos quase todos que é mais prático empregar street-racing. Porém, é evidente que muitos portugueses ficam de fora deste vocabulário (fosso geracional, por um lado, e fosso educacional, por outro). Não tenho infelizmente possibilidade de analisar o efeito deste dois "fossos" (gaps) no curto espaço de um post, mas o assunto poderá ficar para comentários.
Entretanto, quais são as principais origens dos itálicos portugueses? A maioria dos estrangeirismos da tabela das mil e uma palavras e expressões que sumariamente elaborei provém da língua inglesa, embora não necessariamente de Inglaterra. A seguir vêm os léxicos franceses e depois as expressões latinas. A grande distância, chegam-nos italianos e alemães. As palavras e expressões de origem castelhana no português são relativamente raras.
O latim, que já foi outrora uma língua franca como o inglês é nos dias de hoje, surge em citações de Cícero, Ovídio, Horácio, Júlio César, etc. A área singular mais notada é possivelmente a de Direito.
O francês tem, no que toca a importações pela nossa língua, raízes bem mais antigas que as do inglês. Os seus domínios principais são a moda, a cosmética e a culinária. Está, no entanto, a perder terreno para o inglês. Será interessante pensarmos que o rouge de há anos foi substituído pelo blush de hoje, e que a maquillage está a encontrar um sério rival no make-up. Por outro lado, note-se que na altura em que o desporto do boxe entrou em Portugal, ainda com a França como nossa ama-de-leite, não só o -ing (boxing) do nome original inglês não foi incluído, como o praticante de boxe se chamou boxeur (havia quem lesse bóksiúr). Ora, muito mais recentemente chegou-nos o kickboxing, já com o –ing, sendo o respectivo praticante um kickboxer e já não um kickboxeur. Sinais de mudança...
Por seu lado, o inglês é altamente visível no léxico nacional nas áreas do desporto, da informática, da música moderna, da economia e da finança. E cada vez mais!
Já antecipa, caro leitor, que se quiser enriquecer a listagem acima mencionada com mais uma dúzia de termos ou com correcções, a gerência agradece. Fazemos assim uma espécie de wiki à la diable. Para terminar, aqui vão cerca de cem das mil e uma palavras e expressões que encontrará na tabela, a qual é, of course, mais uma lembrança para os amigos - ad usum amicorum - do que propriamente um estudo científico: software, hardware, back-up, clicar, printar, body-building, baby-sitting, spread, dumping, benchmarking, blue chips, rappel, ranking, rating, time-sharing, leasing, factoring, franchising, merchandising, marketing, p.o.s. (point of sale), plafond, partner, C.E.O., overbooking, outsourcing, players, insider trading, rooming-list, check-list, scorecard, affaire, blague, blagueur, parti-pris, paparazzi, nickname, nouveau riche, lingerie, soutien, collants, boxers, slips, rouge, blush, pourboire, tip, overdose, maquillage, make-up, mutatis mutandis, ad hominem, ridendo castigat mores, quot abundat non nocet, modus operandi, modus faciendi, modus vivendi, à contre-coeur, avant-garde, à la page, up-to-date, state-of-the-art, à vol d’oiseau, avant la lettre, enfant terrible, show-off, malgré tout, um must, naïf, réveillon, rentrée, rendez-vous, surf, kickboxing, doping, anti-doping, health club, hydrobike, step, keeper, off-side, m.v.p., sprint, sprintar, sprinter, slalom, karting, bavaroise, pudim, consommé, raviolli, risotto, évasé, tailleur, chic, ménage à trois, start-ups, reset e bingo!
9/06/2007
Sopa de letras
Em que medida desenha o V o vale que o contém?
Até que ponto está o W na wave inglesa, seja ela hertziana ou líquida de mar?
Como se inscreve o Z no zigue-zague da vida?
E o G na gaguez do indivíduo que é pouco escorreito na sua fala?
E o B que se balbucia a si próprio?
O P que explode?
E o X que se cruza com a mesma naturalidade com que nós cruzamos as pernas?
Se lhes juntarmos um a claro, um e alegre, mais um i sibilino, o o do sol e o lúgubre u, teremos possibilidade de expressar meio mundo. O outro meio fica para as restantes letras, que também são necessárias para a vida. De qualquer forma, mesmo só com este jogo sempre entendemos melhor que Saara, com a sua monotonia de deserto, seja uma palavra que contém três aa, devidamente enquadrados por consoantes suaves a formarem as dunas que quebram a monocórdica planura.
Até que ponto está o W na wave inglesa, seja ela hertziana ou líquida de mar?
Como se inscreve o Z no zigue-zague da vida?
E o G na gaguez do indivíduo que é pouco escorreito na sua fala?
E o B que se balbucia a si próprio?
O P que explode?
E o X que se cruza com a mesma naturalidade com que nós cruzamos as pernas?
Se lhes juntarmos um a claro, um e alegre, mais um i sibilino, o o do sol e o lúgubre u, teremos possibilidade de expressar meio mundo. O outro meio fica para as restantes letras, que também são necessárias para a vida. De qualquer forma, mesmo só com este jogo sempre entendemos melhor que Saara, com a sua monotonia de deserto, seja uma palavra que contém três aa, devidamente enquadrados por consoantes suaves a formarem as dunas que quebram a monocórdica planura.
Feitios
Num livrito que uma vez publiquei juntamente com um colega, deixei registado um breve apontamento relativo a uma sensação que experimentei frequentemente como professor. Essa sensação era a de que não podia deixar de considerar estranho que alunas minhas do curso de Secretariado, que faziam ditados nalgumas aulas, vissem apontado não o número de palavras certas, mas sim o número de erros que tinham cometido. Entenderia melhor a situação se uma aluna fizesse 20 ou 30 erros, mas no que toca àquelas estudantes que faziam um ou dois erros num texto de 200 palavras, parecia-me um exagero. Era assim a prática, no entanto. Discuti-a com as alunas que, no entanto, a consideraram tão normal que não viam nenhum mal nisso. Achei-me mais papista que o papa, mas mesmo assim considero que num ditado de 200 palavras seria mais correcto escrever 199/200, do que 1 a vermelho, no canto superior direito.
Isto vem a propósito do jeito que um número muito significativo de pessoas tem de não olhar para o lado positivo que outros já fizeram. Consideram-no normal e "já feito". O trabalho delas é que conta, misturado com uns ais de sofrimento e uma ladainha de esforçados labores narrados depois a amigos. O que os outros fizeram não foi mais do que a sua obrigação.
Essas são também as pessoas que tendem a falar muito de si próprias quando estão com outras. Raramente discutem ideias objectivamente, per se. É geralmente a sua posição face a determinadas coisas, num estilo de "adoro" ou "detesto". Tudo acaba por ser, afinal, uma outra maneira de falarem de si próprias. Se têm histórias interessantes para contar, ainda vale. Se não, é melhor desligarmos.
Valorizar os lados positivos dos outros é importante. Assim como ouvir mais do que falar, na linha daquele velho ditado grego que nos diz que Deus nos deu duas orelhas e só uma boca para que falemos apenas metade do que ouvimos.
Isto vem a propósito do jeito que um número muito significativo de pessoas tem de não olhar para o lado positivo que outros já fizeram. Consideram-no normal e "já feito". O trabalho delas é que conta, misturado com uns ais de sofrimento e uma ladainha de esforçados labores narrados depois a amigos. O que os outros fizeram não foi mais do que a sua obrigação.
Essas são também as pessoas que tendem a falar muito de si próprias quando estão com outras. Raramente discutem ideias objectivamente, per se. É geralmente a sua posição face a determinadas coisas, num estilo de "adoro" ou "detesto". Tudo acaba por ser, afinal, uma outra maneira de falarem de si próprias. Se têm histórias interessantes para contar, ainda vale. Se não, é melhor desligarmos.
Valorizar os lados positivos dos outros é importante. Assim como ouvir mais do que falar, na linha daquele velho ditado grego que nos diz que Deus nos deu duas orelhas e só uma boca para que falemos apenas metade do que ouvimos.
9/04/2007
Beach-sharing

Sete e meia de uma manhã de sonho. A praia está ainda deserta de veraneantes. Estamos nos dias finais de Agosto. Não corre qualquer brisa. A maré apresenta-se totalmente vazia, ofertando um vasto pedaço de areal que só as gaivotas aproveitam. Elas são as herdeiras e desfrutadoras naturais de toda esta quietude. Enquanto não chegam alguns madrugadores para o seu exercício físico de caminhar na areia húmida, as gaivotas podem estar descansadas. No bando, que diviso perfeitamente da minha varanda, não noto a existência de qualquer João Capelo rebelde que abandone o grupo e voe para outras paragens. Esse rebelde estaria possivelmente condenado ao sofrimento, rejeitado que seria por outros bandos. É unidas que as gaivotas vivem melhor. Ao entardecer, sensivelmente à hora a que o sol se põe, voarão para o seu local de descanso nocturno. Voarão igualmente em bando, todas na mesma direcção, mas dividir-se-ão em pequenos grupos de três ou quatro, com segundos de intervalo umas das outras. Lá longe, juntar-se-ão algures, junto a rochedos mais abrigados.
Por ora, estão a gozar os raios deste sol que ainda não aquece verdadeiramente e lhes permite serem as rainhas e os reis do areal.
Cá em cima na arriba começam a fazer-se ouvir os almeidas da Câmara. Vêm fazer a recolha de algum lixo que não foi colocado em contentores. Passam os primeiros carros a acelerar. Contrastam fortemente com a serenidade patenteada pelas gaivotas lá em baixo, junto ao mar. As aves revelam um elevado sentido de timing e bom senso no aproveitamento do que a natureza lhes oferece. O mar está calmíssimo, fera amansada que atira, na sua orla final, uma ligeira fímbria de espuma sobre o areal. Alguém terá andado durante a noite a passá-lo a ferro, como aqui se diz.
Por baixo da minha janela passa o primeiro transeunte. Contempla o mar à medida que anda. Traz na mão direita um saco de plástico com o pão ainda quente que a padaria acabou de lhe vender.
A senhora que o ano passado passeava aqui o seu bebé no carrinho, mesmo à beira de água, e que eu acabei por colocar no blog como foto de postal de férias, já estará hoje provavelmente a dar-lhe uma papa lá em casa.
São já oito e trinta. Esta praia imensa continua desaproveitada pelos homens. Está um dia de eleição, talvez o melhor do mês. Entretanto, diviso para norte, junto a uns rochedos que agora são acessíveis, pescadores a tentar apanhar polvos. O bando de gaivotas mantém-se bem no centro da praia, naquele que é geralmente o local de banhos. Começa, no entanto, a denotar alguma inquietação. Uma ou outra gaivota ensaia um voo, volteja por breves instantes e volta a poisar no seu local.
Passam mais pessoas por baixo da minha janela. Homens de idade. São geralmente os idosos os que se levantam mais cedo. Estão mais próximos da natureza, eles que se sentem condicionados pelo frio, o sol e a humidade excessiva. Com a idade voltamos todos a uma ligação mais íntima com a natureza, algo que tínhamos perdido na primeira infância. Deitar com as galinhas, levantar com os galos passa a ser o lema.
Aqui por baixo surgem dois cães. Farejam coelhos eventualmente escondidos nas arribas, junto aos chorões. Nada encontram. Acabam por fazer apenas as suas necessidades, os dois simultaneamente. Não ladram nem fazem qualquer barulho. Também não serão eles a quebrar a quietude do início da manhã.
Por ora, estão a gozar os raios deste sol que ainda não aquece verdadeiramente e lhes permite serem as rainhas e os reis do areal.
Cá em cima na arriba começam a fazer-se ouvir os almeidas da Câmara. Vêm fazer a recolha de algum lixo que não foi colocado em contentores. Passam os primeiros carros a acelerar. Contrastam fortemente com a serenidade patenteada pelas gaivotas lá em baixo, junto ao mar. As aves revelam um elevado sentido de timing e bom senso no aproveitamento do que a natureza lhes oferece. O mar está calmíssimo, fera amansada que atira, na sua orla final, uma ligeira fímbria de espuma sobre o areal. Alguém terá andado durante a noite a passá-lo a ferro, como aqui se diz.
Por baixo da minha janela passa o primeiro transeunte. Contempla o mar à medida que anda. Traz na mão direita um saco de plástico com o pão ainda quente que a padaria acabou de lhe vender.
A senhora que o ano passado passeava aqui o seu bebé no carrinho, mesmo à beira de água, e que eu acabei por colocar no blog como foto de postal de férias, já estará hoje provavelmente a dar-lhe uma papa lá em casa.
São já oito e trinta. Esta praia imensa continua desaproveitada pelos homens. Está um dia de eleição, talvez o melhor do mês. Entretanto, diviso para norte, junto a uns rochedos que agora são acessíveis, pescadores a tentar apanhar polvos. O bando de gaivotas mantém-se bem no centro da praia, naquele que é geralmente o local de banhos. Começa, no entanto, a denotar alguma inquietação. Uma ou outra gaivota ensaia um voo, volteja por breves instantes e volta a poisar no seu local.
Passam mais pessoas por baixo da minha janela. Homens de idade. São geralmente os idosos os que se levantam mais cedo. Estão mais próximos da natureza, eles que se sentem condicionados pelo frio, o sol e a humidade excessiva. Com a idade voltamos todos a uma ligação mais íntima com a natureza, algo que tínhamos perdido na primeira infância. Deitar com as galinhas, levantar com os galos passa a ser o lema.
Aqui por baixo surgem dois cães. Farejam coelhos eventualmente escondidos nas arribas, junto aos chorões. Nada encontram. Acabam por fazer apenas as suas necessidades, os dois simultaneamente. Não ladram nem fazem qualquer barulho. Também não serão eles a quebrar a quietude do início da manhã.
Pronto! Surgiu a primeira banhista. Uma senhora mais ou menos adiposa, de fato de banho preto, procura perder peso através do seu passeio matinal. Dirige-se para a beira de água. Certamente não para afugentar as gaivotas, apenas para sentir na planta dos pés o fresco da água do mar. As aves começam a agitar as asas. Duas delas lançam-se para o ar, no que são seguidas a espaços pelas restantes. Certas de que dali não lhes vem perigo, dão uma volta e poisam de novo, um pouco mais longe. Surgem, porém, mais pessoas. A situação torna-se insustentável. O bando levanta voo, desta vez mais alto, e desaparece nos ares, direcção ao sul.
Subscrever:
Mensagens (Atom)