9/29/2007
Surpresa
Há muito que não me meto nestas andanças, mas não quero deixar de expressar a minha surpresa por encontrar Menezes na liderança do PPD/PSD. OK, sei que Mendes (curiosamente os dois nomes têm as mesmas três letras no início) perdeu as batalhas de Gondomar, Oeiras e Lisboa na sua guerra autárquica. Sei que Mendes se atolou quando foi jurar fidelidade a Jardim e reconhecer o real mérito de Sua Majestade. Mas entre os dois sempre havia uma diferençazinha. Agora tudo se esfumou. Mendes, ao perder para um presidente de câmara, mostrou que de facto as autarquias não são o seu forte. Não soube defender-se das directas que lhe lançaram, apesar do apoio expresso de uns tantos nomes sonantes do seu partido.
9/25/2007
Vermelho, encarnado ou rubro?
Quem leva já umas boas décadas de vida apercebeu-se decerto de uma mudança significativa relativamente ao Benfica. Não me refiro ao facto de a equipa não ser já a vencedora habitual dos jogos que disputa. Tão pouco àquela característica que foi apanágio do clube durante muitos e muitos anos de fazer alinhar apenas jogadores portugueses. A mudança que menciono também não tem a ver com o exemplo acabado do multi-culturalismo português que o Benfica constituía, com muitos jogadores oriundos das então províncias ultramarinas de Moçambique e Angola. A História fez com que esses traços característicos desaparecessem, um após outro. Ficou, entretanto, a glória do Benfica, o mito que ainda faz arrastar multidões aos estádios ou a visionar jogos através da televisão.
A alteração substancial a que aludo tem a ver com a simbólica cor das camisolas dos jogadores e, consequentemente, do clube. Salazar, que não gostava especialmente de futebol mas que dele se aproveitou inteligentemente tal como Franco fez relativamente ao Real Madrid, elegeu o Benfica como símbolo da Nação. Os dois maiores clubes de Lisboa tinham, aliás, as cores da bandeira portuguesa. Mas havia, e há, menos verde na bandeira do que encarnado.
Aqui chegamos, finalmente, ao encarnado. Porque não vermelho? Porque, em tempos de feroz anti-comunismo, a cor vermelha era exclusiva dos países de Leste. O Estrela Vermelha, da cidade de Belgrado do então general Tito, tinha essa designação em português porque provinha de um país comunistóide. "Vermelho" era palavra mais ou menos banida em Portugal. Os sinais de trânsito eram três: verde, amarelo e encarnado. "Encarnado" é palavra ligada, obviamente, a carne e à encarnação de Deus que se assumiu na forma humana de Jesus Cristo. Logo, encarnado é palavra boa. Assim como o Bairro da Encarnação e várias igrejas da Encarnação espalhadas por todo o país.
Nas línguas que conheço melhor, não encontro sinónimos directos como em português para esta cor. Red, rouge, rojo, rot. E pára aí. Em Portugal, não. Encarnado, vermelho e, ainda, rubro (cor não só de sangue, mas de fogo).
Hoje em dias os sinais de trânsito já não são apenas encarnados ("Olha que está vermelho!"), a nossa bandeira "verde-rubra" já tem para alguns verde e vermelho e, imagine-se, o Benfica tem uma claque que se intitulou de "diabos vermelhos". Por um lado, está bem. Se Deus é encarnado, o diabo bem que pode ser vermelho. Mas Salazar nunca consentiria que a claque do símbolo futebolístico da sua nação ("Nação") tivesse o nome de "diabos" e, muito menos, "vermelhos". Vade retro, Satanás! Abrenúncio! (A verdade é que "diabos encarnados" não daria. Seria misturar o diabo com a encarnação numa batalha encarniçada.)
Mudanças do pós-25 de Abril, que ocasionaram, entre outras, esta camaleónica mutação dos dizeres das cores. Há coisas do diabo, não há?
A alteração substancial a que aludo tem a ver com a simbólica cor das camisolas dos jogadores e, consequentemente, do clube. Salazar, que não gostava especialmente de futebol mas que dele se aproveitou inteligentemente tal como Franco fez relativamente ao Real Madrid, elegeu o Benfica como símbolo da Nação. Os dois maiores clubes de Lisboa tinham, aliás, as cores da bandeira portuguesa. Mas havia, e há, menos verde na bandeira do que encarnado.
Aqui chegamos, finalmente, ao encarnado. Porque não vermelho? Porque, em tempos de feroz anti-comunismo, a cor vermelha era exclusiva dos países de Leste. O Estrela Vermelha, da cidade de Belgrado do então general Tito, tinha essa designação em português porque provinha de um país comunistóide. "Vermelho" era palavra mais ou menos banida em Portugal. Os sinais de trânsito eram três: verde, amarelo e encarnado. "Encarnado" é palavra ligada, obviamente, a carne e à encarnação de Deus que se assumiu na forma humana de Jesus Cristo. Logo, encarnado é palavra boa. Assim como o Bairro da Encarnação e várias igrejas da Encarnação espalhadas por todo o país.
Nas línguas que conheço melhor, não encontro sinónimos directos como em português para esta cor. Red, rouge, rojo, rot. E pára aí. Em Portugal, não. Encarnado, vermelho e, ainda, rubro (cor não só de sangue, mas de fogo).
Hoje em dias os sinais de trânsito já não são apenas encarnados ("Olha que está vermelho!"), a nossa bandeira "verde-rubra" já tem para alguns verde e vermelho e, imagine-se, o Benfica tem uma claque que se intitulou de "diabos vermelhos". Por um lado, está bem. Se Deus é encarnado, o diabo bem que pode ser vermelho. Mas Salazar nunca consentiria que a claque do símbolo futebolístico da sua nação ("Nação") tivesse o nome de "diabos" e, muito menos, "vermelhos". Vade retro, Satanás! Abrenúncio! (A verdade é que "diabos encarnados" não daria. Seria misturar o diabo com a encarnação numa batalha encarniçada.)
Mudanças do pós-25 de Abril, que ocasionaram, entre outras, esta camaleónica mutação dos dizeres das cores. Há coisas do diabo, não há?
9/24/2007
Distribuição
Noticia a imprensa que quando um consumidor compra um quilo de pêra rocha ou de maçãs produzidas em Portugal, só um terço do valor pago pelo comprador reverte para o produtor. O resto fica, bem entendido, no sistema de distribuição.
Há anos que este facto é noticiado. Há anos que tudo permanece na mesma. É mau que assim seja. Ponhamo-nos no papel do produtor que, como é regra no ser humano, tem um apurado sentido de justiça. Ao ver que a população se queixa do preço da fruta e que ele se queixa dos seus fracos réditos, pensará normalmente que não vale a pena. Quando a fiscalidade de um país consente que as mais-valias vão prioritariamente para quem não produz e deixa com problemas financeiros aqueles que produzem – problemas financeiros agravados sempre que há calamidades atmosféricas -, pode pedir-se alguma motivação real a um produtor? Numa primeira oportunidade, se o dinheiro sonante vier a jeito, vende a sua propriedade principal a alguém que nela construirá uma casa, possivelmente com piscina, e deixará algum terreno para uma pequena horta ou árvores de fruto. O solo deixará de ter a mesma finalidade, como é óbvio. Multiplicado por variadíssimos casos deste tipo, o produto agrícola nacional não aumenta. Pelo contrário. O antigo agricultor irá passar uns dias a casa da filha nos arrabaldes do Porto, Viseu ou Lisboa, e nos outros continuará na sua terra, mas já sem produzir mais do que para seu próprio sustento.
A noção de que uns são escravos dos outros está enraizada em muita mentalidade portuguesa, certamente como resquício da colonização de séculos, alimentada pelo Estado e pela Igreja. O Estado, como gestor, tem largas culpas no cartório. Devido à adesão à União Europeia, é verdade que hoje o grande instrumento que lhe resta é o da fiscalidade. Mas será que o usa bem? Com toda a evidência, favorece os ricos, apenas tolera os restantes. Pode dizer-se que não é assim, mas os argumentos caem necessariamente por terra quando se olha para o sempre crescente fosso entre os mais necessitados e as elites, que as estatísticas comprovam. Enquanto a situação se mantiver assim - e a culpa não é de assacar apenas a este ou àquele governo, mas sim a todos os que não tentam efectuar a mudança -, Portugal continuará a afastar-se da Europa orgulhosa, motivada para produzir. Viver da reforma através da segurança social continuará a ser o objectivo número um de grande parte da população. Afinal, talvez esta não seja uma mera questão de distribuição de rendimentos relativa a maçãs e a pêra rocha.
Há anos que este facto é noticiado. Há anos que tudo permanece na mesma. É mau que assim seja. Ponhamo-nos no papel do produtor que, como é regra no ser humano, tem um apurado sentido de justiça. Ao ver que a população se queixa do preço da fruta e que ele se queixa dos seus fracos réditos, pensará normalmente que não vale a pena. Quando a fiscalidade de um país consente que as mais-valias vão prioritariamente para quem não produz e deixa com problemas financeiros aqueles que produzem – problemas financeiros agravados sempre que há calamidades atmosféricas -, pode pedir-se alguma motivação real a um produtor? Numa primeira oportunidade, se o dinheiro sonante vier a jeito, vende a sua propriedade principal a alguém que nela construirá uma casa, possivelmente com piscina, e deixará algum terreno para uma pequena horta ou árvores de fruto. O solo deixará de ter a mesma finalidade, como é óbvio. Multiplicado por variadíssimos casos deste tipo, o produto agrícola nacional não aumenta. Pelo contrário. O antigo agricultor irá passar uns dias a casa da filha nos arrabaldes do Porto, Viseu ou Lisboa, e nos outros continuará na sua terra, mas já sem produzir mais do que para seu próprio sustento.
A noção de que uns são escravos dos outros está enraizada em muita mentalidade portuguesa, certamente como resquício da colonização de séculos, alimentada pelo Estado e pela Igreja. O Estado, como gestor, tem largas culpas no cartório. Devido à adesão à União Europeia, é verdade que hoje o grande instrumento que lhe resta é o da fiscalidade. Mas será que o usa bem? Com toda a evidência, favorece os ricos, apenas tolera os restantes. Pode dizer-se que não é assim, mas os argumentos caem necessariamente por terra quando se olha para o sempre crescente fosso entre os mais necessitados e as elites, que as estatísticas comprovam. Enquanto a situação se mantiver assim - e a culpa não é de assacar apenas a este ou àquele governo, mas sim a todos os que não tentam efectuar a mudança -, Portugal continuará a afastar-se da Europa orgulhosa, motivada para produzir. Viver da reforma através da segurança social continuará a ser o objectivo número um de grande parte da população. Afinal, talvez esta não seja uma mera questão de distribuição de rendimentos relativa a maçãs e a pêra rocha.
9/21/2007
Palavras abstractas
Há uns cinco ou seis anos, um aluno meu de Inglês escreveu num teste coisas como the society, the responsibility, the accounting e viu o seu the sistematicamente riscado. Na aula, fez a pergunta que deveria e que sempre incentivei: "Why?"
Em conformidade com uma prática habitual, pedi a um colega dele, bom aluno, para vir para o meu lado explicar-lhe o assunto. O tema já tinha sido abordado em aula, mas o aluno em questão não o teria apreendido. Na sua explicação ao colega, o José Carlos, o bom aluno, disse-lhe que substantivos abstractos, como responsibility, não podem ser definidos, exactamente por serem abstractos. O uso do artigo de-fi-ni-do seria um contra-senso, na exacta medida em que definir uma coisa que é por natureza indefinida não faz sentido, pelo menos aos olhos da língua inglesa. Só é possível, explicou ele, quando essa palavra abstracta é restringida no seu sentido, como acontece quando se utiliza um of. Deu como exemplo "The responsibility of those people".
E como é que sabemos o que é uma palavra abstracta?”, insistiu o Mário, o aluno com dúvidas. Aí foi a minha vez de apelar para a memória dele e pedir-lhe, jocosamente, para recordar substantivos não-concretos, vagos e difusos, usados pelos políticos nos seus discursos. A turma toda colaborou. Desse brainstorming em estilo de verdadeiro happening surgiram palavras que eles ouviam frequentemente sair da boca dos políticos, como crescimento, qualidade, excelência, justiça, educação, saúde, produtividade, progresso, desenvolvimento, dignidade, honestidade, ética, moral, paz, segurança, liberdade. O Mário entendeu. Riu-se, juntamente com os colegas.
Não me lembro de posteriormente ter tido que usar a minha esferográfica para corrigir os the do Mário antes de substantivos abstractos.
Em conformidade com uma prática habitual, pedi a um colega dele, bom aluno, para vir para o meu lado explicar-lhe o assunto. O tema já tinha sido abordado em aula, mas o aluno em questão não o teria apreendido. Na sua explicação ao colega, o José Carlos, o bom aluno, disse-lhe que substantivos abstractos, como responsibility, não podem ser definidos, exactamente por serem abstractos. O uso do artigo de-fi-ni-do seria um contra-senso, na exacta medida em que definir uma coisa que é por natureza indefinida não faz sentido, pelo menos aos olhos da língua inglesa. Só é possível, explicou ele, quando essa palavra abstracta é restringida no seu sentido, como acontece quando se utiliza um of. Deu como exemplo "The responsibility of those people".
E como é que sabemos o que é uma palavra abstracta?”, insistiu o Mário, o aluno com dúvidas. Aí foi a minha vez de apelar para a memória dele e pedir-lhe, jocosamente, para recordar substantivos não-concretos, vagos e difusos, usados pelos políticos nos seus discursos. A turma toda colaborou. Desse brainstorming em estilo de verdadeiro happening surgiram palavras que eles ouviam frequentemente sair da boca dos políticos, como crescimento, qualidade, excelência, justiça, educação, saúde, produtividade, progresso, desenvolvimento, dignidade, honestidade, ética, moral, paz, segurança, liberdade. O Mário entendeu. Riu-se, juntamente com os colegas.
Não me lembro de posteriormente ter tido que usar a minha esferográfica para corrigir os the do Mário antes de substantivos abstractos.
9/19/2007
Quem ajuda os pobres ajuda-se a si mesmo
É possível que a máxima referida no título termine habitualmente com "ajuda a Deus". Mas isso é para aqueles que não pensam em termos de Realpolitik, na qual os valores contam decididamente menos do que os resultados.
Leio no jornal que "empresas brasileiras vivem uma febre de África". O artigo informa que o comércio entre o Brasil e África mais do que quadruplicou nos últimos dez anos e que existem várias grandes empresas brasileiras, como a Petrobras e a Odebrecht, na actual ofensiva.
A priori, não gostaria de criticar. E até aplaudirei se a exploração não for a do costume. O que quero sublinhar com este brevíssimo texto é o apetite frequente de países que antigamente foram colónias e que, por esse facto, não tiveram então oportunidade de ser colonizadores, de entrarem na colonização nouvelle vague. Tal como o Brasil foi uma colónia portuguesa, os Estados Unidos foram uma colónia inglesa. E que dizer dos apetites denotados pela Austrália, antiga colónia britânica, na sua esfera de acção?
Diga-se o que se disser, estas arremetidas são sinais de verdadeira pujança e espírito empreendedor. Tal como o sol, que quando coloca uma parte do mundo no escuro passa a iluminar a outra metade, ou as marés, que vazam num lado para encher noutro, este é um ciclo. Não há nada de verdadeiramente novo neste fenómeno.
Notemos, entretanto, que o factor linguístico é um trunfo para os brasileiros em Moçambique e Angola, os países nos quais o Brasil declaradamente se interessa. Resumindo a razão dos investimentos brasileiros, disse o presidente de uma das empresas investidoras em África, a Vale do Rio Doce: "A África é uma das poucas fronteiras naturais ainda abertas para a expansão de negócios em sectores como petróleo, gás e mineração."
É um pensamento que me traz à memória Porfírio Diaz, parafraseado: "Pobre África, tão longe do céu, tão perto dos ricos do mundo!"
P.S. O sistema de controlo do blogger informa que cheguei ao meu post número 600. A informação espanta-me. Seis centenas?!
Leio no jornal que "empresas brasileiras vivem uma febre de África". O artigo informa que o comércio entre o Brasil e África mais do que quadruplicou nos últimos dez anos e que existem várias grandes empresas brasileiras, como a Petrobras e a Odebrecht, na actual ofensiva.
A priori, não gostaria de criticar. E até aplaudirei se a exploração não for a do costume. O que quero sublinhar com este brevíssimo texto é o apetite frequente de países que antigamente foram colónias e que, por esse facto, não tiveram então oportunidade de ser colonizadores, de entrarem na colonização nouvelle vague. Tal como o Brasil foi uma colónia portuguesa, os Estados Unidos foram uma colónia inglesa. E que dizer dos apetites denotados pela Austrália, antiga colónia britânica, na sua esfera de acção?
Diga-se o que se disser, estas arremetidas são sinais de verdadeira pujança e espírito empreendedor. Tal como o sol, que quando coloca uma parte do mundo no escuro passa a iluminar a outra metade, ou as marés, que vazam num lado para encher noutro, este é um ciclo. Não há nada de verdadeiramente novo neste fenómeno.
Notemos, entretanto, que o factor linguístico é um trunfo para os brasileiros em Moçambique e Angola, os países nos quais o Brasil declaradamente se interessa. Resumindo a razão dos investimentos brasileiros, disse o presidente de uma das empresas investidoras em África, a Vale do Rio Doce: "A África é uma das poucas fronteiras naturais ainda abertas para a expansão de negócios em sectores como petróleo, gás e mineração."
É um pensamento que me traz à memória Porfírio Diaz, parafraseado: "Pobre África, tão longe do céu, tão perto dos ricos do mundo!"
P.S. O sistema de controlo do blogger informa que cheguei ao meu post número 600. A informação espanta-me. Seis centenas?!
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