Se imaginarmos um mapa-mundo como um grande campo de futebol com um jogo a ser disputado, chegaremos possivelmente à conclusão de que, como seria normal, a América é um país que não gosta de sofrer golos e que, em conformidade, defende estratégica e inteligentemente longe da sua baliza, fazendo o chamado pressing alto.
É neste sentido que o dólar americano circula por todo o mundo em larguíssimas quantidades, o que faz com que a sua eventual vulnerabilidade seja sentida não só na América, mas também em múltiplos países que possuem títulos americanos nos seus bancos nacionais e nos privados. Com isto resguarda-se a América, como é óbvio, pois ocasionais acções contra o dólar constituem de certo modo um tiro-no-pé para quem o tentar.
A estratégia de defender longe da sua baliza faz com que os Estados Unidos detenham, astutamente, bases em quase toda a parte. Dos Açores à Alemanha, de Diego Garcia ao Paquistão, os americanos possuem bases militares em 70 países do globo, sendo que 13 dessas bases são novas, criadas depois de 11 de Setembro de 2001.
Curiosamente, até a sua principal prisão de segurança - Guantánamo - foi colocada em território exterior aos EUA, em Cuba.
Por outro lado, contradizendo-se relativamente ao muro de Berlim que a América tanto criticou e que apodou de "muro da vergonha", não só a Administração americana apoia a construção do muro-barreira de Israel, como está a erguer um enorme muro-barreira ao longo da sua vasta fronteira com o México.
Os americanos têm, ainda, agentes da CIA e personalidades importantes das cenas nacionais de várias nações a trabalharem para si em muitos pontos do globo e a fornecerem preciosos dados. A este núcleo de informações, juntam-se as dos satélites que giram ininterruptamente em volta da Terra. Pressing alto, também.
Na linha das suas protecções a distância, os americanos criaram, juntamente com os europeus, a NATO - a que De Gaulle gostava de chamar North American Treaty Organization em vez de North Atlantic -, a qual, embora fundamentalmente de defesa, já serviu para atacar Belgrado e outros pontos, tendo além disso sido invocada pelos EUA imediatamente a seguir aos ataques a Nova Iorque em 2001.
Mais recentemente, os EUA pretendem criar postos de "defesa anti-míssil" tanto na República Checa como na Polónia.
Esta listagem de casos de pressing alto não podia deixar de fora o controle semi-paranóico nos voos para os Estados Unidos, país que há muito vive o complexo da segurança. Foi na base dessa segurança que os norte-americanos criaram as suas próprias histórias, em filme e banda desenhada, de Superhomens para defenderem a super-fortaleza, fonte e farol do Bem.
Foi por este conjunto de factos que o ataque do 11 de Setembro de 2001, bem dentro do seu território, foi tão sentido pelos americanos! Lembra muito a história de Roma, que só construiu muralhas à volta da cidade séculos depois de ter criado o seu grandioso império. A construção das muralhas e a transformação de Roma em cidade-bunker marcou o início do seu declínio.
Tudo isto vem a propósito da presente situação de paranóia americana perante o Irão. Como se não bastasse o mal que os americanos andam há muito a infligir à população iraquiana para conseguirem sacar o seu petróleo, eis que agora escolhem outro alvo, rico em petróleo e gás. Na semana passada, segundo informa a Newsweek, o Presidente Bush disse numa conferência de imprensa que "se estamos interessados em evitar uma Terceira Guerra Mundial, deveremos impedir que o Irão alcance o know-how necessário para produzir armas nucleares." Por outras palavras, Bush declarou que o Irão poderia provocar uma 3ª Guerra Mundial. Um dos seus conselheiros escreveu mesmo que o Presidente iraniano é semelhante a Hitler, na medida em que se trata de um revolucionário cujo objectivo é o de desestabilizar a actual ordem internacional e substituí-la por uma nova, dominada pelo Irão e governada pelo fascismo muçulmano.
Não esquecendo que, antes de lançarem bombas atómicas sobre o Japão no final da 2ª Guerra Mundial, os EUA declararam, mentirosamente, fazê-lo em nome dos 500.000 militares americanos que operavam naquela zona do Pacífico quando na realidade tinham apenas 46.000, atente-se nos dados fornecidos pelo comedido director da citada revista. Segundo Zakaria, o Irão tem uma economia semelhante à da Finlândia em termos dimensionais, sendo o seu orçamento anual de defesa da ordem dos 4,8 biliões de dólares. Desde o século XVIII que o Irão não invade nenhum país. Por seu lado, os EUA possuem um PIB 168 vezes maior e as suas despesas com a defesa ultrapassam 110 vezes as do Irão. Anote-se que Israel e todos os países árabes - com excepção da Síria e do Iraque - são contra o Irão. Pois mesmo assim devemos acreditar que Teerão está prestes a desestabilizar a ordem mundial? Valha-nos Deus!
10/30/2007
10/28/2007
Exposição na Gulbenkian
.jpg)
.jpg)
Uma das actuais exposições da Gulbenkian chama-se "Um Atlas de Acontecimentos" e encerra o programa "O Estado do Mundo" incluído nas comemorações do meio século de existência da Fundação. Sem ser uma exposição enorme, ocupa dois amplos espaços do edifício e exibe trabalhos de 28 artistas de vários países. Algumas das obras foram especificamente feitas para a mostra agora exibida.
Por gostar muito do presente, com toda a multiplicidade de ângulos sob os quais ele pode ser visto, deu-me gosto apreciar as várias formas como as diferentes disciplinas de arte se expressam, de facto multidisciplinarmente. Foi bom vaguear pelas duas salas, quase desertas de público no dia em que as visitei, voltando aqui e ali atrás.
Por gostar muito do presente, com toda a multiplicidade de ângulos sob os quais ele pode ser visto, deu-me gosto apreciar as várias formas como as diferentes disciplinas de arte se expressam, de facto multidisciplinarmente. Foi bom vaguear pelas duas salas, quase desertas de público no dia em que as visitei, voltando aqui e ali atrás.
Não se esperem maravilhas. Nada há de arte tradicional, nem Kandinsky, nem Magritte, nem Warhol. Tão pouco Mondrian, a cabeça de Nefertitis ou um busto de Péricles. O número de obras não é muito significativo, mas isso não impede que possamos ter uns bons momentos de reflexão e que nos encontremos a sorrir perante certeiras irreverências. Para mim, valeu a pena.
(Numa das fotos, vê-se uma imagem do Iraque durante a Guerra do Golfo, com palmeiras abatidas a lembrarem destroços armados do conflito, como se fossem canhões ainda apontados para tudo e para nada. Na outra, um simpático crocodilo olha como um basbaque para um aparelho de televisão e dá o mote para a evolução do seu cérebro - uma explicação sobre o fundamentalismo que está patente na parede ao lado. A explicação diz o seguinte: "Fundamentalism: the rise of the crocodilian brain. Sun radiation, alcohol and fat consumption, talk radio and sports on TV overstimulate the hypothalamus. If high degree of activity in the crocodilian brain expands into the lonely system it activates the "God" spot and automatically blocks most of the rational functions of the neo-cortex. Gland secretions are geared toward systematic destruction and reproduction. Territorial reflexes and other self-preservation instincts govern all emotions: predatorial sex and cannibalism are justified. Religious ecstasy is achieved by war. The crocodile’s brain rises to fundamentalism by interpreting its own compulsions as "God’s" direct orders.")
(Numa das fotos, vê-se uma imagem do Iraque durante a Guerra do Golfo, com palmeiras abatidas a lembrarem destroços armados do conflito, como se fossem canhões ainda apontados para tudo e para nada. Na outra, um simpático crocodilo olha como um basbaque para um aparelho de televisão e dá o mote para a evolução do seu cérebro - uma explicação sobre o fundamentalismo que está patente na parede ao lado. A explicação diz o seguinte: "Fundamentalism: the rise of the crocodilian brain. Sun radiation, alcohol and fat consumption, talk radio and sports on TV overstimulate the hypothalamus. If high degree of activity in the crocodilian brain expands into the lonely system it activates the "God" spot and automatically blocks most of the rational functions of the neo-cortex. Gland secretions are geared toward systematic destruction and reproduction. Territorial reflexes and other self-preservation instincts govern all emotions: predatorial sex and cannibalism are justified. Religious ecstasy is achieved by war. The crocodile’s brain rises to fundamentalism by interpreting its own compulsions as "God’s" direct orders.")
10/26/2007
Educacão
Onde deveria haver rigor, porque o desrigor já grassa há demasiados anos, existe facilitismo. E nunca mais pára!
No princípio do ano soube-se que muitos dos cursos do Ensino Superior Politécnico que incluem Matemática e disciplinas afins no seu plano de estudos deixaram de exigir aquela disciplina nas respectivas provas de acesso ao ensino superior - e os cursos são de Contabilidade e de Gestão ou áreas semelhantes! Se se tratasse de ensino privado, talvez a admiração não fosse grande. Mas como é ensino superior público...
Sabe-se do desejo expresso por parte do Ministério da Educação de fazer exames do 12º Ano que cubram apenas este ano, deixando de fora as matérias leccionadas no 10º e 11º. Pasma-se!
Lê-se agora que chumbos por faltas vão deixar de existir no ensino básico e secundário. Trata-se de um verdadeiro convite à falta. Num país já de si com mentalidade que acusa grande falta de rigor, esta é mais uma machadada. Em vez de governo, temos desgoverno!
No princípio do ano soube-se que muitos dos cursos do Ensino Superior Politécnico que incluem Matemática e disciplinas afins no seu plano de estudos deixaram de exigir aquela disciplina nas respectivas provas de acesso ao ensino superior - e os cursos são de Contabilidade e de Gestão ou áreas semelhantes! Se se tratasse de ensino privado, talvez a admiração não fosse grande. Mas como é ensino superior público...
Sabe-se do desejo expresso por parte do Ministério da Educação de fazer exames do 12º Ano que cubram apenas este ano, deixando de fora as matérias leccionadas no 10º e 11º. Pasma-se!
Lê-se agora que chumbos por faltas vão deixar de existir no ensino básico e secundário. Trata-se de um verdadeiro convite à falta. Num país já de si com mentalidade que acusa grande falta de rigor, esta é mais uma machadada. Em vez de governo, temos desgoverno!
10/24/2007
Substância e forma
Às vezes, um exemplo pode facilitar uma explicação que, em teoria, é possível que não seja entendida à primeira.
Qual é a diferença entre substância e forma?
Um exemplo: o que pesa mais? Um quilo de algodão ou um quilo de chumbo? Formalmente, pesam ambos o mesmo. Substantivamente, porém, quem os deixar cair em cima da cabeça verá imediatamente como é!
Qual é a diferença entre substância e forma?
Um exemplo: o que pesa mais? Um quilo de algodão ou um quilo de chumbo? Formalmente, pesam ambos o mesmo. Substantivamente, porém, quem os deixar cair em cima da cabeça verá imediatamente como é!
10/21/2007
A imagem reflectida
Acho que para lá do primeiro reflexo que todos nós vemos, que é possivelmente a nossa imagem e a de outros num espelho, um outro reflexo que não nos escapa é o do céu espelhando-se nas águas do mar ou de um lago. Talvez tenha sido esta imagem que inspirou ordens religiosas como a dos cistercienses a conceptualizar uma ordem divina lá em cima no céu, que os monges tentavam reproduzir na Terra o mais fielmente possível. Assim, baseados nessa visão celestial, os conventos e mosteiros terrestres da Ordem de Cister seguiam sempre o mesmo tipo de construção nos vários países em que foram erguidos. Respeitavam o plano original.
Lembro-me que, quando aprendi este facto, dei por mim a pensar de maneira mais reflexiva, no sentido literal da palavra. Recordo-me que ao ir pela primeira vez a Évora com olhos de ver, depois de encontrar nas terras do Alentejo próximas da cidade vastos latifúndios, imaginei que o reflexo dessas propriedades tinha de ser visível nas casas que iria encontrar na cidade. Como seria natural, a ideia confirmou-se com a existência de algumas casas amplas, não altas, mas sempre com um fresco átrio e numerosas divisões.
Da mesma forma, é normal que se pense nos muitos zeros de conta bancária que os proprietários de luxuosas vivendas, automóveis espectaculares, iates e aviões privados têm necessariamente de possuir. É mais uma vez o reflexo, aquilo a que o fiscalista chama "sinais exteriores de riqueza".
Numa outra versão do mesmo tema, encontro frequentemente um reflexo notório nos transportes públicos lisboetas, dos autocarros ao metro, e nalgumas zonas da cidade. Não se trata aqui de casos de pobreza ou de riqueza, mas algo de ordem histórica e cultural. A percentagem de pessoas de cor não branca na cidade de Lisboa é hoje em dia bastante elevada. Angolanos, cabo-verdianos, brasileiros, moçambicanos, guineenses, são-tomenses, goeses, timorenses são às dezenas, às centenas, aos milhares. Nada tenho contra eles, obviamente, mas não posso deixar de entrever aqui o reflexo bem nítido de uma sociedade portuguesa que foi colonialista durante séculos. Os efeitos dessa longa colonização por outras terras mais tropicais acabam por reflectir-se no dia-a-dia de hoje. Também Londres, dado que o império britânico se espalhou por todo o mundo, oferece um reflexo semelhante, embora aí a percentagem maior seja de indianos, paquistaneses e nigerianos.
Em contrapartida, se formos, por exemplo, a Viena, a Berlim, a Praga, Budapeste ou Zurique, constatamos que a percentagem de pessoas de cor não branca é muitíssimo mais reduzida. A não-existência de um passado colonial do tipo do nosso ou do inglês explica imediatamente o fenómeno.
No jogo da vida, é interessante pensarmos nos aspectos em que somos apenas o reflexo, contrastando com outros em que somos eventualmente agentes de imagem-espelho.
A propósito do reflexo colonial, permito-me recordar o início do interessante ensaio A Stranger in the Village do escritor negro americano James Baldwin, publicado há cerca de 50 anos: "From all available evidence no black man had ever set foot in this tiny Swiss village before I came. I was told before arriving that I would probably be a "sight" for the village; I took this to mean that people of my complexion were rarely seen in Switzerland, and also that city people are always something of a "sight" outside of the city. It did not occur to me – possibly because I am an American – that there could be people anywhere who had never seen a Negro."
Lembro-me que, quando aprendi este facto, dei por mim a pensar de maneira mais reflexiva, no sentido literal da palavra. Recordo-me que ao ir pela primeira vez a Évora com olhos de ver, depois de encontrar nas terras do Alentejo próximas da cidade vastos latifúndios, imaginei que o reflexo dessas propriedades tinha de ser visível nas casas que iria encontrar na cidade. Como seria natural, a ideia confirmou-se com a existência de algumas casas amplas, não altas, mas sempre com um fresco átrio e numerosas divisões.
Da mesma forma, é normal que se pense nos muitos zeros de conta bancária que os proprietários de luxuosas vivendas, automóveis espectaculares, iates e aviões privados têm necessariamente de possuir. É mais uma vez o reflexo, aquilo a que o fiscalista chama "sinais exteriores de riqueza".
Numa outra versão do mesmo tema, encontro frequentemente um reflexo notório nos transportes públicos lisboetas, dos autocarros ao metro, e nalgumas zonas da cidade. Não se trata aqui de casos de pobreza ou de riqueza, mas algo de ordem histórica e cultural. A percentagem de pessoas de cor não branca na cidade de Lisboa é hoje em dia bastante elevada. Angolanos, cabo-verdianos, brasileiros, moçambicanos, guineenses, são-tomenses, goeses, timorenses são às dezenas, às centenas, aos milhares. Nada tenho contra eles, obviamente, mas não posso deixar de entrever aqui o reflexo bem nítido de uma sociedade portuguesa que foi colonialista durante séculos. Os efeitos dessa longa colonização por outras terras mais tropicais acabam por reflectir-se no dia-a-dia de hoje. Também Londres, dado que o império britânico se espalhou por todo o mundo, oferece um reflexo semelhante, embora aí a percentagem maior seja de indianos, paquistaneses e nigerianos.
Em contrapartida, se formos, por exemplo, a Viena, a Berlim, a Praga, Budapeste ou Zurique, constatamos que a percentagem de pessoas de cor não branca é muitíssimo mais reduzida. A não-existência de um passado colonial do tipo do nosso ou do inglês explica imediatamente o fenómeno.
No jogo da vida, é interessante pensarmos nos aspectos em que somos apenas o reflexo, contrastando com outros em que somos eventualmente agentes de imagem-espelho.
A propósito do reflexo colonial, permito-me recordar o início do interessante ensaio A Stranger in the Village do escritor negro americano James Baldwin, publicado há cerca de 50 anos: "From all available evidence no black man had ever set foot in this tiny Swiss village before I came. I was told before arriving that I would probably be a "sight" for the village; I took this to mean that people of my complexion were rarely seen in Switzerland, and also that city people are always something of a "sight" outside of the city. It did not occur to me – possibly because I am an American – that there could be people anywhere who had never seen a Negro."
Subscrever:
Mensagens (Atom)