11/28/2007

De novo o aeroporto na baila

Cá temos mais um estudo para optimizar a solução aeroportuária na zona de Lisboa. Desta vez o trabalho foi realizado pela Universidade Católica na sequência de uma encomenda da Associação Comercial do Porto. O estudo defende a manutenção do aeroporto da Portela, apoiado por uma base na margem sul do Tejo para os voos low cost. Segundo rezam as notícias, esta solução de Portela + 1 pode representar uma poupança da ordem dos dois mil milhões de euros ao Estado e constituir uma melhor adaptação para mudanças que poderão ocorrer no futuro.
Só posso reagir favoravelmente a esta solução, que me parece perfeitamente viável e evitaria o grande desmando que o poderoso sector imobiliário português pretende: ocupar os cobiçados terrenos do aeroporto para aí construir, construir, construir. Como se Portugal precisasse continuamente de mais e mais cimento, por acaso numa altura em que algumas bolhas resultantes do boom habitacional já rebentaram noutros países. Entretanto, com a linha do Metro mais do que planeada para a zona, imagino os ataques que vão surgir contra esta opção.

11/27/2007

O acordo ortográfico (II)

Finalmente, estou a encontrar mais alguma (pouca) informação na imprensa sobre o acordo ortográfico a que me referi na semana passada neste blog. Não é sem tempo. Pelo que leio, Portugal garantiu à CPLP que aplicaria o acordo quando houvesse três países que o ratificassem, o que presentemente já sucede: o acordo foi ratificado por Brasil, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe.
Um professor da Universidade da Bahia (Brasil) afirma que o acordo, que ele conhece, é muito simples. Acentos considerados desnecessários desaparecem, consoantes mudas são abolidas e as três letrinhas que faltavam para que o nosso alfabeto ficasse igual ao dos ingleses - k, w e y - são adicionadas.
Sobre esta última adição nada tenho a dizer e até a saúdo. Aliás, supunha mesmo que ela já se tinha verificado (os dicionários modernos incluem o k, o w e o y. )
Quanto ao resto não sei se concordo, sem ver as regras estabelecidas. Se a forma diferente de pronunciar as palavras em cada país não for respeitada só para que haja uma uniformidade artificial, estou em absoluto desacordo. Repito o que disse no meu post anterior: não faz qualquer sentido uniformizar o que é diferente. Para quê? Porquê? Aliás, a nossa sintaxe é em muitos casos tão diferente da brasileira que ter todos os vocábulos grafados da mesma maneira é algo ridículo.
Informam-me que, no total, o novo acordo mexe com cerca de 0,4 por cento das palavras usadas no Brasil e com um pouco mais de 1 por cento da ortografia de Portugal. Ora, aqui já temos uma informação quantificada: planeia-se a mudança ortográfica de cerca de 3 vezes mais vocábulos usados em Portugal do que no Brasil! O que é que isso significa?
Dando como certa a informação de Jonuel Gonçalves, o já referido professor da Universidade da Bahia, óptimo passará a escrever-se ótimo e redacção transformar-se-á em redação. Que redacção passe a redação não acho muito grave, até porque ilação, que só se escreve com -ç- em português luso, pronuncia-se como se tivesse -cç-. Tal como inflação.
Estou a imaginar que, na mesma linha, vocábulos como acção, accionar, accionista, acta, actividade, activista, activo, acto, actor, actuar, actualização, actualmente, actuar, aspecto, atracção, baptista, baptizado, característico, colectivo, correcto, detectar, directamente, directo, director, efectivo, efectuar, eléctrico, electricidade, espectador, exactamente, exacto, factor, factura, impacto, incorrecto, infractor, inspector, pactuar, protector, respectivo, sector e transacção irão passar para ação, acionar, acionista, ata, atividade, ativista, ativo, ato, ator, atuar, atualização, atualmente, atuar, aspeto, atração, batista, batizado, caraterístico, coletivo, correto, detetar, diretamente, direto, diretor, efetivo, efetuar, elétrico, eletricidade, espetador, exatamente, exato, fator, fatura, impato, incorreto, infrator, inspetor, patuar, protetor, respetivo, setor e transação.
Há umas tantas palavras que me chocam sobremaneira e que, ao não respeitarem nem a etimologia nem a pronúncia, não só surgem aparentemente como incorrectas como irão causar problemas ortográficos na escrita de quem aprende línguas estrangeiras como o inglês e o francês. Se é verdade que director e diretor se podem ler da mesma forma, há algo cultural a faltar na segunda forma - algo que nem o francês nem o inglês abandonaram. Por que razão haveríamos nós de o fazer? Entretanto, para não-europeus esse substrato cultural pode contar menos do que para os europeus. Terão eventualmente uma visão mais pragmática, mais desapegada da etimologia. Tudo bem. Já hoje no Brasil se escreve atividade, por exemplo. Que os brasileiros continuem a fazê-lo, mas que não nos obriguem a segui-los.
Quanto à abolição de acentos, o que sucederá a palavras como polémica, económico, megalómano e quilómetros? No português falado no Brasil, a pronúncia destas palavras e de muitas outras faz-se com vogais fechadas. Daí que se escreva polêmico, econômico, megalômano e quilômetros. Qual será a solução? Se é abolido o acento, as palavras deixam de parecer esdrúxulas, como de facto são. Não se queira é mudar a pronúncia do português através da ortografia. Esta é que tem de acompanhar a oralidade tanto quanto possível, não o contrário.
Entretanto, tudo isto é cozinhado sem debate, num país que se intitula democrático! Foram os cidadãos de uma maneira geral e os professores em particular chamados a pronunciar-se? Não! O governo cala-se. Parece que só os livreiros é que se têm manifestado, e mansamente. Será que um caso destes, da nossa língua, serve apenas interesses comerciais? Muito mal vai o país se o governo oculta factos como este dos seus cidadãos!

11/26/2007

Say "Money Money!"

Já experimentei várias vezes durante anos e nunca deu errado. Preparo-me para tirar a fotografia de uma ou mais pessoas e atiro-lhes com a velha frase Say cheese! Uns ainda riem, mas a maior parte já acha a frase tão batida que fica na mesma, de lábios fechados, ou ainda pior. E cheese obriga a abrir para o lado as comissuras dos lábios, sendo portanto meio-caminho andado para o sorriso!
Garantidamente porém, quando lhes peço que digam Money Money!, aí o sorriso é total. É que money money não só causa o mesmo efeito físico de cheese - e a dobrar - como também evoca o dito money. E a isso nem o mais empedernido anti-capitalista resiste.

11/24/2007

Quando o Anjo da Guarda não guarda bem

Sem mencionar nomes, o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais acusou grandes empresas de fugirem ao fisco. Protestou Van Zeller, o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), dizendo que referir empresas sem especificar quais lançava um anátema sobre todas. Então, o Secretário de Estado ter-lhe-á mostrado documentos que provavam existir uma maior incidência clara sobre o sector imobiliário. Aí, o presidente da CIP descansou e até concordou com o Governo. Saltaram-lhe em cima os homens do imobiliário (a construção civil também faz parte da CIP, embora na sua actividade não tenha qualquer semelhança com indústrias químicas, metalo-mecânicas, de produtos alimentares, etc.). Se já andavam um tanto às turrras com a Confederação por esta estar a retardar o andamento das apetecíveis obras relativas ao novo aeroporto com a apresentação do projecto alternativo de Alcochete, os construtores decidiram agora agir. Se a CIP não nos defende, para que é que estamos lá? E saíram.
Sobre a fuga fiscal, nem uma palavra. Mas era esse o assunto?

11/23/2007

Senha e contra-senha

Toda a gente sabe que, sempre que temos um ficheiro confidencial no computador podemos usar uma palavra secreta, de código, que geralmente designamos por password. Semelhantemente, nas Forças Armadas assuntos secretos podem exigir o uso de uma senha e respectiva contra-senha. Em casas-fortes de bancos usam-se chaves com códigos, sendo geralmente necessárias duas para a abertura dos cofres. Noutros locais, contra a senha Pássaro azul, o visitante terá de saber a contra-senha, v.g. Falcão prateado. Imitando o que se passa no mundo dos adultos, também filmes com crianças como protagonistas mostram o uso de senhas e contra-senhas, como se vê por exemplo na película alemã Emílio e os Detectives e numa das obras-primas de Manuel de Oliveira, Aniki-Bobó.
Esta série de situações com algum paralelo entre si traz-me, afinal, a uma história que no outro dia me contaram e que me levou na altura a uma sonora gargalhada pelo inesperado da cena. Contou-me uma divertida senhora, que há cerca de 35 anos estudou em regime de internato num colégio de freiras no Alentejo, que a disciplina que lá dentro reinava era rígida. Havia horas precisas para as refeições, para o estudo, a meditação, o jogo, etc. Até aqui tudo bem. Nada que verdadeiramente nos surpreenda. O interessante é o que se passava diariamente ao despertar, manhã ainda cedia: as raparigas que descansavam todas no mesmo dormitório eram pontualmente acordadas às sete horas pela freira de serviço que, após bater à porta, lançava do lado de fora como senha um sonoríssimo e vibrante Viva Jesus!. Pois do lado de dentro as estremunhadas moças tinham de responder de pronto e em coro, na voz mais alta que conseguissem, a contra-senha combinada: Morra o pecado! Assim mesmo: Viva Jesus! Morra o pecado! Diariamente.
Imagine-se a cena! Deo gratias, a sociedade está hoje livre destes rituais que, pelo menos a mim, parecem provir de uma longínqua Idade Média de profundas trevas, embora, quem sabe?, cheia de boas intenções.