12/08/2007

Colonialismo - "Take" mil!




Como não poderia deixar de ser, a actual cimeira de Lisboa entre a Europa e a África levanta mais uma vez o clássico tema do colonialismo. Mugabe é certamente o líder mais contestado pelos europeus, muito possivelmente devido ao facto de, entre outros actos execráveis, ter retirado terras da posse das antigas famílias colonizadoras britânicas. A este propósito permito-me lembrar as palavras do antigo dirigente negro Jomo Kenyatta: "Quando os brancos chegaram a África, nós tínhamos as terras e eles a Bíblia. Ensinaram-nos a rezar de olhos fechados. Quando os abrimos, eles tinham as terras e nós a Bíblia."
Embora estes brancos não fossem portugueses mas sim britânicos – que portugueses poriam os nativos a ler a Bíblia? -, o problema põe-se sempre da mesma forma: a ocupação das terras. A terra sempre foi vista como mãe, e sagrada por isso. Não foi por mero acaso que no nosso país os judeus podiam entrar na finança e nas artes-e-ofícios, mas não eram autorizados a possuir terras.
Dir-se-á que o Zimbabue de hoje é muito menos rico do que foi aquando da colonização britânica. Quem duvida? No entanto, se o critério para a titularidade de uma terra é a produtividade que dela se obtém, ficaremos muitos de nós aqui em Portugal em maus lençóis. Aliás, essa é uma das justificações que há muitos anos ouço para a ocupação das terras da Palestina pelos israelitas. Bastará esse facto? Por extensão de raciocínio, os poços de petróleo no mundo passariam para a mão de quem melhor os explorasse. Seria, portanto, suficiente cortar as asas à educação dos terra-tenentes para que aparecesse alguém, estrangeiro mesmo, a proceder à respectiva ocupação - pela força das armas se necessário. Quanto ao direito internacional consagrado, bastaria não o cumprir.
Em minha opinião, se o Zimbabue não tivesse sido anteriormente a florescente Rodésia e as boas terras não tivessem pertencido a famílias brancas, o clamor contra Mugabe seria diferente. Sendo mau como governante, como vários dados estatísticos sobre o país amplamente demonstram, é possível que enfileire apenas numa galeria recheada de fracos governantes africanos. Entretanto, entende-se perfeitamente a atitude de ausência da cimeira por parte das autoridades britânicas. Se viessem, estariam em certa medida a endossar a política de Mugabe, o que irritaria sobremaneira os numerosos colonos brancos britânicos que se mantêm em países independentes que outrora fizeram parte do império de Sua Majestade e que contribuem fortemente para os contactos com a metrópole e respectivos negócios.
Hoje, junto ao Parque das Nações, houve pequenas mas ruidosas manifestações contra e pró-Mugabe. Deixo aqui duas das várias fotos que tirei. Cada um conclua o que quiser.

12/07/2007

Capítulo revisto

Em Abril do ano passado, referi aqui o problema de uma parte significativa da sociedade portuguesa - e, certamente, também de outras - relativo à dificuldade com que mulheres empregadas se deparam para ter filhos. Entre outros factores, pelo receio de perderem o seu lugar, essencial para o equilíbrio das contas do casal. No caso em questão, contei que a Leonor, uma simpática e eficiente funcionária do banco a que costumo ir, tinha 27 anos, estava casada havia três anos, morava do outro lado do Tejo, não tinha ainda filhos e, como me disse, "não sei como é que isso vai ser". E concluiu o seu raciocínio: "Não tenho tempo. Entro aqui todos os dias pouco depois das oito e chego de volta a casa às 8 da noite." O horário do banco era ultrapassado em muito, como é evidente, mas havia também o factor dos transportes.
Eu referia no post, algo azedamente, reconheço, que "é assim que a empresa espera que a sua funcionária corresponda, contribuindo com o seu quinhão de esforço para que o banco alcance os objectivos anuais que previamente definiu."
Já não vejo a Leonor há bastantes meses. Teria deixado a agência depois de lá ter trabalhado durante três anos? A boa notícia que me deram hoje é que ela está feliz, em casa e ainda em licença de parto, com a sua bebé. Por seu lado, o Banco portou-se bem e prometeu arranjar-lhe um lugar numa agência mais próximo de sua casa. Para mim foi uma excelente notícia de Natal, até porque é de algo natalício que se trata. All’s well that ends well.

12/06/2007

Afeganistão

Eu já sabia que o –tan (ou –tão, em português) que termina alguns nomes de países asiáticos significa "terra". Assim teremos, por exemplo, Cazaquistão (terra dos cazaques), Industão, Paquistão e Afeganistão. O que eu não sabia é que as exportações de ópio do Afeganistão somavam o equivalente a mais de metade do PIB lícito do país e constituíam 93% de todo o ópio que se consome no mundo. Graças a estes números, o Afeganistão tornou-se o maior produtor de narcóticos à escala mundial desde o período de ouro da China, neste mesmo domínio mas no século XIX.
Uma pergunta: não é no Afeganistão que estão tropas portuguesas?

12/04/2007

Mudanças

Para quem já pode falar de um relativamente longo curso de vida é, obviamente, mais visível a mudança das sociedades em determinados padrões. Atrevo-me a dizer que na sociedade portuguesa existem, para além de vários outros, uns tantos pontos em que são bem notórias alterações substanciais. Embora os factores que agora são predominantes sempre tivessem existido, o seu peso era claramente inferior ao dos seus contrários. Todos os itens que aponto têm alguma ligação entre si.
Uma das alterações mais significativas consistiu na passagem de uma sociedade prioritariamente do dever para uma outra primordialmente dos direitos. Onde outrora se falava de obrigações, hoje tende-se a invocar direitos. Este novo posicionamento retira prazer ao trabalho, que se continua a fazer mas mais esforçadamente, incentiva o pensamento em fins-de-semana, nas férias e na aposentação/reforma e, à escala nacional, conduz a menor rigor, maior facilitismo e produtividade mais baixa.
Directamente correlacionada está a redução da capacidade de sacrifício, como reflexo da glorificação do prazer. A sociedade de há umas décadas era mais resignada e arcava com o seu fardo como um dever natural. Com a diminuição do limiar de sofrimento, passou a existir uma insatisfação maior e um mais agudo sentimento de inveja perante os que se podem dar ao luxo de prazeres vários e excentricidades. Daqui resulta uma sociedade mais tumultuosa e menos contida.
Os valores éticos sofreram uma clara menorização, em parte como resultado da limitação da consciência do que é "pecado". A contrapor-se, surgiu a liberdade, o vale-quase-tudo. Aspectos religiosos, muito salientes em décadas anteriores, esvaneceram-se notoriamente. As filas que se registavam noutros tempos para a confissão dos pecados dos fiéis só muito esporadicamente poderão voltar a surgir. A existência de menos valores de referência leva a que, em caso de comportamentos duvidosos, a lei seja invocada por uns tantos como não infringida - o ónus da prova ficará a cargo do acusador -, relegando para segundo plano eventuais aspectos éticos.
Toda a transição do culto de um certo espartanismo, que anteriormente prevalecia, para uma ficcionada sociedade de bem-estar "romano" levou a que vários provérbios antigos passassem a ser ignorados. "No poupar é que está o ganho" constitui um bom exemplo, substituído gradualmente por algo não expresso mas materializado em "no gastar é que está o prazer da vida". Deste novo posicionamento resultou inicialmente uma taxa de poupança em forte diminuição que, posteriormente, se traduziu num acentuado endividamento das famílias.
No seu conjunto, estas são alterações muito profundas.

12/02/2007

O síndroma do -s




Pergunte-se a um professor de inglês se os seus alunos têm grandes dificuldades em aprender a língua. O mais natural é que ele (ou ela) diga que não. Mas acrescentará que existem alguns berbicachos. Talvez o mais importante destes seja a interferência do nosso –s. Poder-se-ia mesmo chamar-lhe o síndroma do –s. Porquê?
A resposta cabal seria longa, mas vou tentar sucintamente dar uma ideia. Calcula-se que um terço das dificuldades que os alunos denotam na aprendizagem de uma língua estrangeira derive de interferências da sua própria língua. É lógico que essas interferências existam. No que respeita à aprendizagem do inglês, o caso do –s é característico. Para um português, pensar em termos de –s final é pensar em plurais. Esqueçamos palavras de excepção como lápis e pires que, apesar de serem singulares, já contêm um –s. Pensemos antes em praticamente todas as outras, como livros, computadores, homens, mulheres, crianças, etc. É a ideia enraizada de que "um –s no fim da palavra é igual a plural" que nos leva a pensar que é assim em todas as línguas.
Porque haveria de ser? Na foto que acompanha este post, vemos o anúncio de quartos em vários idiomas. Tudo termina em –s, uma vez que falamos de quartos e não apenas de um quarto. Foi certamente isso que levou o bem-intencionado autor do letreiro a escrever erradamente Zimmers. De facto, quartos são, na língua alemã, Zimmer. Perguntar-se-á: então como se distingue um quarto de vários quartos? É fácil. Nos exemplos dados de lápis e pires, se falarmos em os lápis e os pires, sabemos que estamos a tratar de um plural. Em alemão, basta igualmente a mudança da palavra que antecede Zimmer para se compreender se é singular ou plural.
Ora, o inglês é uma língua originariamente germânica, se bem que a esmagadora maioria do seu vocabulário seja, felizmente para nós, de raiz latina. Daqui sucede que quando surgem palavras como man, woman, child, foot, mouse, etc., todas de origem germânica, haja uma enorme tendência para fazer erradamente o plural em mens, womens, childrens, feets e mouses. Difícil de corrigir? Não. Qualquer explicação simples como esta, conjugada com exercícios para a criação de rotinas, resultará.
Pior, muito pior, é o caso dos verbos. Quando se diz a um aluno que a terceira pessoa do singular do Indicativo Presente dos verbos termina em –s, ele aceita - que remédio! - mas a coisa custa-lhe um bocado a engolir, principalmente quando tem de aplicar. Para quem aprende, aquele –s é perfeitamente contra naturam. Ora, facilitará muito a missão do professor explicar que afinal aquele –s nada tem a ver com plural e que essa é a razão porque não tem significado de maior aplicá-lo num singular. De facto, quando o aluno tem que aprender que é he likes it em vez de he like it, ele olha algo de esguelha para a língua. Mas se se lhe disser que aquele –s até está lá, por assim dizer, para lhe facilitar a vida, ele fica mais receptivo. Na realidade, o actual –s que encontramos em praticamente todos os verbos (she loves it, he writes books, it looks fine) não passa de uma simplificação do antigo -th, que tem uma pronúncia aproximada do –s e, afortunadamente, evoluiu para este. Imagine-se a frase: What God giveth, He can take. Não será muito mais simples dizer What God gives, He can take? Se o inglês continuasse sempre com aquele –th, contaminar-nos-ia com a forma de falar tipo "sopinha de massa". Tenho por experiência própria que, perante esta explicação simples, o aluno apreende a ideia facilmente e, depois da prática que lhe vai naturalmente ser necessária, horrorizar-se-á até com aqueles colegas que dizem he speak, he read em vez de he speaks, he reads.
Esta arreliadora interferência do –s surge ainda noutros casos, de que mencionarei apenas mais dois ou três. Experimente-se pedir a alunos médios para dizer ou escrever em inglês algo como "as fábricas e os seus produtos". Garantidamente, alguns dirão the factories and its products. Quando se lhes chama a atenção para o uso não correcto de its, dirão "as fábricas não são pessoas, logo..." Logo, o quê? É verdade que its se emprega como possessivo de coisas. O problema é que estamos em presença de um plural (factories). Pois é, mas o problema reside exactamente no facto de que its também termina em –s, o tal que é característico do plural em português. É daqui que vem a interferenciazinha. Quando se pede aos alunos para usarem their, alguns a princípio até duvidam: afinal their é uma palavra que não termina em -s.
Então, e o que dizer da palavrinha inglesa this? É muito frequente que mesmo alunos razoáveis escrevam this things ou algo do género. Mas se pensarmos no "síndroma do -s", que coisa pode haver de mais natural? Embora this seja um singular (isto; este, esta), o facto de terminar em -s torna-o numa atracção quase fatal, que consiste em fazer coincidir o -s de things com o -s de this. De facto, a palavra correcta a usar - these - parece em princípio à nossa formatação cerebral pouco ajustada a um plural por não terminar em -s.
Precisamente pelo mesmo motivo, people é tratado por muitos estudantes de inglês como singular (falta-lhe o essezinho!) e news, apesar de singular, é uma palavra vista como plural. É claro que quanto mais cedo se alertar para esta tendência, explicando a sua etiologia, e praticar, tanto melhor. Caso contrário, teremos durante muito tempo estudantes a dizerem people is like this e what are the news? - em vez de people are like this e what's the news?
É assim, através das raízes lógicas que a língua materna forma no nosso cérebro que se dão muitas colisões na aprendizagem de línguas estrangeiras. Nada que não se resolva, mas convém alertar para estes factos e fazer incidência neles através de exercícios interessantes para que o problema tenha uma solução mais rápida.


P.S. Este é um modestíssimo contributo linguístico - elementar mas original - que dou aqui no blog. Se for do agrado de alguns leitores, prosseguirei de vez em quando com outros. Se ninguém se manifestar, este terá sido o último. Por razões óbvias.