12/30/2007

A ASAE pode ter muita razão, mas...

Da mesma forma que o canalizador polaco serviu de símbolo na querela da livre-circulação de serviços transfronteiriços na União Europeia, também o mundo das intervenções da ASAE ganhou um símbolo: as bolas-de-berlim. Porquê? "Porque agora já não podemos encontrar bolas-de-berlim nas praias. A ASAE cortou as pernas aos vendedores." As bolas-de-berlim não estiveram sozinhas, porém. "Rissóizinhos feitos em casa já não se podem vender em nenhum estabelecimento. Acabou-se o que era bom!" "Já lá vai o tempo dos bolos-rei com brinde. Que saudades!"
Ora bem. Parece que a ASAE se transformou no diabo que varre a sociedade portuguesa, multa e encerra estabelecimentos. Os esclarecimentos que encontramos na imprensa não são, no entanto, tão irracionais como se possa supor. Comecemos pelas bolas-de-berlim. Você gostaria de saber que algumas das ditas bolas - que podem ser aquelas que lhe vão parar à boca - foram feitas em deploráveis condições de higiene, com uso de óleos saturados, já impróprios para consumo? Não é provável que sim. Se as bolas-de-berlim forem fabricadas num estabelecimento devidamente licenciado e, portanto, inspeccionável, não há nenhuma razão para que não sejam vendidas nas praias ou em qualquer outro local.
O que se passa com os rissóis feitos em casa para venda num estabelecimento é muito semelhante. Que garantia existe de que os óleos com que eles são fritos ainda estão em bom estado? Não nos esqueçamos que quem os faz aumenta o seu lucro se tiver que mudar menos vezes o óleo, que é um produto caro. E quem diz rissóis, diz também empadas, pastéis de bacalhau e coisas semelhantes. Quem pode controlar a casa onde os rissóis são fabricados?
Os bolos-rei podem continuar a ter brindes; contudo, estes têm que se distinguir do bolo que se come, seja pela cor, pelo tamanho ou pela consistência. Colocar um pequeno coração com um alfinete como brinde pode não ser uma boa ideia. Se for ingerido, poderá provocar perfuração ou obstrução do aparelho digestivo.
Outras questões se levantam como o não-uso de galheteiros em restaurantes e o embrulhar em papel de jornal as castanhas assadas à venda na rua. Quanto ao azeite e vinagre, acho que foi uma boa ideia aplicar às garrafas em serviço num restaurante um sistema que foi, salvo erro, primeiramente usado nalgumas marcas de whisky: não há possibilidade de reenchimento da garrafa. Sabendo-se da longa e má tradição que temos em Portugal da mixórdia de azeites e óleos, a medida parece absolutamente correcta.
No que diz respeito ao material que serve para embrulhar as castanhas, há legislação que, razoavelmente, proíbe tanto o uso de papel já usado como o facto de esse papel conter desenhos, pinturas ou dizeres na parte que está em contacto com as castanhas. Qual é o mal?
Ao contrário do que corre populisticamente na Net, estas medidas não são incorrectas, tal como não foi incorrecto há anos proibir que os bolos de pastelaria fossem para as mesas, sendo depois recolhidos os que os clientes não queriam. Eu diria que o problema reside mais na falta de formação das pessoas que dirigem restaurantes e pastelarias do que propriamente nas medidas. Nessa carência de formação e na não-necessidade de quaisquer cursos para que alguém possa abrir um restaurante ou uma pastelaria reside um dos maiores problemas. Ainda por resolver.
Contudo, o problema tem uma outra faceta, a qual não é de maneira nenhuma para desprezar. De facto, muitos locais de Portugal, especialmente em pequenos povoados, ainda são muito antiquados. Porém, é o que temos. Eu diria que os cafés e lojas de mercearia que existem nessas povoações não oferecem as condições que os estritos regulamentos "europeus”"exigem. Ora, se uma entidade como a ASAE decide inspeccionar esses lugares com rigor, as coimas que irá aplicar serão tão elevadas que os proprietários se verão compelidos a fechar as suas portas. Os habitantes dos lugares ficarão sem a sua mais importante fonte de abastecimento de artigos de primeira necessidade ou sem o café local, ponto de reunião básico.
Assim, se não forem equacionados e devidamente acautelados estes inconvenientes, o serviço prestado pela ASAE acabará por ser mais nefasto do que positivo. As coimas aplicáveis nas zonas nobres de uma cidade como Lisboa não podem ser as mesmas que num modesto lugarejo do nosso interior cada vez mais desabitado. Caso não haja alguma ponderação e se avançar com um processo cego, a ASAE passará a ser um dos órgãos mais odiados pela população do país. Neste sentido, haverá certamente pontos da actual legislação que precisam de ser revistos, assim como o montante das respectivas penalizações para os prevaricadores.
Além disso, é claro que se estranha toda esta sanha persecutória por parte da ASAE. Se o seu objectivo é lutar pela saúde da população, por que razão o legislador não previu que fossem retirados, por exemplo, muitos dos produtos à venda que claramente provocam obesidade? (Sabe-se que, incrivelmente, dois terços das americanas, adultas, possuem excesso de peso ou são mesmo obesas, algo que não tem tendência para mudar nos anos mais próximos!) Interesses dos grandes em jogo? É, na verdade, mais fácil atingir os pequenos, que não têm força para fazer lobbying. Não me digam que qualquer dia não se vai poder comprar nas charcutarias fiambre, salame, mortadela, queijo, etc. sem ser em pacotes já embalados! Quem fica a ganhar? Quem fica a perder?

O Evangelho dos Blogues, segundo Pacheco Pereira

Um longo artigo de Pacheco Pereira no Público de hoje diz, a dada altura: "O que se passa é que esse verdadeiro mostruário em linha, feito de mil egos à solta, revela mesmo a nossa pobreza, a nossa rudeza, a falta de independência face aos poderosos, grandes, pequenos e médios, os péssimos hábitos de pensar, a falta de estudos e trabalho, de leitura e de "mundo" que caracterizam o nosso Portugalinho. Nem podia ser de outra maneira." (Lembra o estilo do Vasco Pulido Valente!) Mais à frente, afirma: "Sem reflexão crítica sobre o próprio meio, sobre o meio em Portugal, que introduza critérios de qualidade e exigência que os blogues são lestos a exigir a outros mas não a aplicar a si próprios, os blogues serão apenas mais uma câmara de ressonância da nossa vida cívica."
É-se preso por ter cão, e também por não ter o dito. Será que ajuda alguma coisa falar assim dos blogues portugueses, ou é apenas para denegrir o panorama? Será que não teremos aqui um caso de participação razoável da sociedade portuguesa? Será que a necessidade de pensar, de concatenar ideias e expressá-las de forma acessível não conta? Seria melhor ficarmos mudos, sem usar a escrita? Valeria mais ventilarmos as nossas ideias apenas num café?
Creio que a afirmação de que os bloggers não gostam de ser contraditados não corresponde totalmente à verdade. Por meu lado, já várias vezes aprendi variadíssimas coisas através dos comentários e fui corrigido. Gostei. Recordo-me, por exemplo, que há mais ou menos um ano levantei a questão dos indultos pelo Presidente da República e aprendi (com gosto) várias coisas que desconhecia com quem sabia mais do que eu sobre o assunto. Além disso, os blogs são informativos em muitos aspectos. Se os bloguistas portugueses são assim tão maus, por que razão existirão já firmas comerciais - a começar por alguns media – que incluem blogues nos seus sites da Web? Não é deitando abaixo o "Portugalinho" que se faz desaparecer o diminutivo do nome e se põe Portugal a mexer!

12/28/2007

Byblos

Possivelmente escrevo para quem já visitou a Byblos, a nova livraria de Lisboa, mas quero de qualquer forma saudar aqui no blog o seu aparecimento. Auto-intitulada a maior livraria do país em termos de área, algo de que não duvido por um segundo, a Byblos está longe de ser uma livraria comum. Os livros estão cuidadosamente divididos por secções, existe um enorme espaço para andar, ver e escolher, há diversos locais onde nos podemos sentar e calmamente folhear um livro, e existem diversos computadores à disposição dos clientes, que podem consultar o acervo de livros, DVDs, CDs, playstations, etc. e o respectivo preço (há sempre 10 por cento de desconto sobre o preço habitual). Esteticamente é um local muito interessante e confortável, com dois pisos muito amplos ligados por escadas rolantes. O bar serve refeições a preços acessíveis.
Encontrei um único senão: o acesso. Fica a dois passos do CC Amoreiras, é verdade, mas como a Byblos não é servida pelo Metro, só se nos oferece a alternativa do autocarro ou do automóvel. Parquear um automóvel por aqueles sítios não é tarefa fácil, embora existam estacionamentos pagos, a começar pelo do próprio Centro Amoreiras.
Para quem se lembra da pequena maravilha que foi a primeira Buchholz na Avenida da Liberdade, livraria que depois passou para a Duque de Palmela e teve os problemas que se conhecem, aqui está uma prenda natalícia que se espera fique por longos anos na nossa cidade.

12/23/2007

Boas Festas

Aos colegas e amigos do "azweblog", votos de Festas Felizes e de boas entradas em 2008.

12/22/2007

Cisão da Bélgica à vista?


Ponha a sua imaginação a funcionar e, tendo como base numerosas declarações públicas feitas pelo Presidente do Governo Regional da Madeira, considere a hipótese de ele ter congeminado uma lei, devidamente aprovada pelo Parlamento regional, que determinaria que nenhum cidadão nascido fora da Região ou sem parentesco directo a nativos da ilha pudesse adquirir terrenos públicos. Por outras palavras, terrenos das autarquias ou do próprio Governo Regional só poderiam ser vendidos a “madeirenses”. Concebe esta hipótese?
Se sim, está a ir longe de mais. A. J. Jardim já tomou múltiplas atitudes pró-Madeira, mas esta ainda não e, possivelmente, nunca pensará em tal. Já o mesmo não se pode dizer de um senhor belga chamado Tim Vandenput, que é presidente do município de Hoeilaart, uma cidade relativamente pequena que não fica longe de Bruxelas. Vandenput, flamengo até à medula, determinou que o potencial comprador de terrenos públicos na área da sua autarquia tem de fazer prova da sua fluência na língua flamenga. Se não, não! "Esta é uma região da Flandres e é como tal que queremos que se mantenha!"
Dificilmente se arranjaria uma história mais simbólica do que esta para vincar a profunda aversão que muitos flamengos nutrem pelos habitantes da Bélgica francófona. Ao contrário de Portugal, que é o país mais antigo da Europa com as mesmas fronteiras, a Bélgica data apenas de 1830. A parte belga de língua francesa já foi em tempos muito próspera, mas presentemente está a ser largamente "subsidiada" pela Flandres. Calcula-se que os trabalhadores flamengos contribuem anualmente com cerca de 3000 dólares para cada valão, o que causa naturais ressentimentos. Este é um exemplo verídico e flagrante da importância da língua (e não só) na formação de uma comunidade. Note-se que o Presidente do partido mais votado nas últimas eleições belgas considerou a Bélgica um acidente da história, sem real valor intrínseco, e ousou dizer que "os franceses" eram demasiado estúpidos para aprender o flamengo.
É verdade que o país continua a funcionar e que acabou de ser atamancado um governo temporário, mas não se vê solução à vista. Teremos possivelmente mais um desmembramento, tal como ocorreu com a Checoeslováquia. Pode parecer estranho à primeira vista que, numa altura em que a União Europeia já congrega 27 nações, haja esta cisão em potência. A História continua a mostrar-nos que problemas relativos às raízes culturais dos povos se tornam explosivas quando agregadas a questões económicas. Ainda por cima no país que tem como capital a cidade de Bruxelas, onde está sedeada uma parte substancial do aparelho político e administrativo da União Europeia!