3/14/2008

A guerra dos galheteiros

Os que gostam de línguas sempre se perguntaram por que motivo se diz "galhetas" em português. Tanto quanto sei, "una galleta" em castelhano é uma bolacha, tanto na sua faceta comestível como na versão popular de bofetada. Deixemos, porém, a etimologia dos galheteiros em paz, porque o que se avizinha não é apenas uma pacífica discussão deste teor, mas uma verdadeira guerra.
Todos nós nos lembramos que a história do "politicamente correcto" teve há três anos uma mudança drástica nos restaurantes: o azeite e o vinagre que poderiam ser usados para condimentar o bacalhau ou outros pratos de peixe, além de saladas, tinham obrigatoriamente de possuir uma embalagem especial do tipo usa-uma-vez-e-joga-fora. A lei foi clara e os galheteiros, que tão úteis e populares tinham sido durante décadas, viram chegado o seu fim ingloriamente. Vem-nos agora a Associação da Restauração e Similares de Portugal, vulgo ARESP, contar a história de outra maneira. Afinal, desta vez não terá sido a ASAE, com as suas costas largas, a determinar a medida. Segundo a ARESP, a Portaria nº 24/2005 foi "o infame resultado do poderoso lobby dos embaladores de azeite, que assim conseguiram o monopólio da sua comercialização e a consequente, e imediata, triplicação do respectivo preço". E esta, hein? Resta acrescentar que tudo se passou durante o governo PSD/CDS-PP e que terá sido este último partido o grande proponente de tão generosa medida. No próximo dia 31, aquando do seu congresso, a ARESP já fez saber que vai exigir a revogação da portaria acima mencionada. Será que das galhetas de vidro vamos passar às outras, de sopapo?

3/12/2008

Bush pós-Casa Branca

Diz-se que depois dos maus dias que passou, preocupado com a sua sorte, George W. anda agora contente da vida. As preocupações advinham-lhe do facto de não saber exactamente o que iria fazer depois da sua saída da Casa Branca como Presidente dos Estados Unidos da América. Individualidades como o Bill Clinton, o Jimmy Carter, o Gorbatchov, o Tony Blair, o Kofi Annan e tantos outros deixaram os seus lugares e ganharam e ganham bom dinheiro dando conferências por todo o mundo pagas a peso-de-ouro. E ele, Bush, o que iria fazer? Foi aí que as rugas começaram a ensombrar-lhe o rosto. Cada vez mais. Até que um bom amigo o desanuviou. Completamente. Agora o homem parece outro. "Vais vender a tua imagem como stand-up comedian", disse-lhe o amigo. "O.K.", respondeu Bush. "E depois o que é que eu digo às pessoas?" "Nada. Absolutamente nada. A tua presença em palco, olhando a plateia e tendo a plateia a olhar para ti, vai ser mais do que suficiente para eles darem as maiores gargalhadas da sua vida. Vais ser um sucesso por esse mundo fora!"
Coisas que se dizem. Será verdade?

3/11/2008

O quiz de Março


Hoje trago-vos uma pequena imagem-enigma, que só é enigmática para quem não conhece o local, de acesso livre e bastante visitado por quem assim o entender. Entretanto, desconfio que através da Internet, ao contrário do que sucedeu com o quiz de Fevereiro, não chegam lá.

3/06/2008

Três apontamentos brevíssimos

1. As manifestações dos professores contra a ministra da Educação ocorrem em múltiplas cidades do país. Aguarda-se a manifestação magna no próximo sábado, em Lisboa, no Terreiro do Paço. Entretanto, o primeiro-ministro irá estar noutra altura numa sessão sobre o mesmo assunto, em recinto fechado (em Março-marçagão, de manhã é Inverno, à tarde é Verão, como diz o ditado, de modo que é melhor ser prudente).
Pessoalmente, não defendo a demissão da Ministra, mas sou, claramente, pela revisão e adiamento da avaliação. Continuo naturalmente a pensar que as avaliações são necessárias e mesmo indispensáveis, pois é bom que se separe o trigo do joio, mas os moldes em que está prevista esta avaliação, a juntar ao erro crasso que é o de realizar à pressa algo que não foi minimamente testado, convidam de facto a um adiamento desta acção para o próximo ano lectivo.

2. Noticiam os jornais que a Judiciária investiga a venda de dois prédios, ambos dos CTT, sendo um em Coimbra e outro em Lisboa, a privados, num caso ocorrido em 2003. Como na altura alguns jornais relataram, no mesmo dia da venda pelos CTT do imóvel de Coimbra a um determinado preço, o comprador terá revendido o prédio por um preço largamente superior. Não há muito tempo, aliás, o actual bastonário da Ordem dos Advogados, referiu-se abertamente a este caso.
Investigar é bom e, em princípio, chegar-se-á a uma conclusão. Mas será que os responsáveis serão punidos? O grande problema que há muitos anos temos é que, seja em casos destes, seja noutros, os gestores da coisa pública se crêem donos do bem enquanto são gestores. Esquecem-se de que são apenas administradores e de que o real proprietário - o Estado - lhes pode (e deve) pedir contas pela forma como agiram. Enquanto essas regras não forem convenientemente definidas e a responsabilidade for de facto assacada em casos de dolo, a história continuará.

3. Nos Estados Unidos, a candidatura de Obama está a obter resultados claramente superiores às expectativas. Os vários amigos que tenho na América, com excepção de um, apoiam Obama, na medida em que sentem que os terríveis anos de Bush estão a pedir uma grande reviravolta. Obama conseguiu arvorar-se como facho de esperança para milhões de pessoas desapontadas com o actual estado de coisas. Se é verdade que, por um lado, poderá não chegar à Casa Branca e, por outro, poderá revelar-se não estar à altura do desejo de mudança que criou nas pessoas, não deixa de ser notável o movimento que ele conseguiu e a resposta que obteve para os anseios que expressa. Achei interessante o que um dos meus amigos, que vive e trabalha em Washington, me contou há dias sobre as (pequenas) cotizações (mas em grande volume) que as pessoas fazem entre si para arranjar fundos para a campanha e como se empenham em angariar votos para Obama através de contactos porta-a-porta. É todo um movimento cívico que está em marcha para renovar a América e retirá-la tão cedo quanto possível do pesadelo bushiano. Espero que dê bons frutos.

3/03/2008

Três jogos simples

Devido à sua necessidade lúdica, o homem foi criando ao longo da sua existência - e continua criando - inúmeros jogos. De entre jogos de cartas, de tabuleiro, de ar livre, de desporto puro, de computador e outros, escolho hoje três dos "outros", que se me afiguram como clássicos, simples mas instrutivos, e interessantes sob vários ângulos. São eles o labirinto, a batalha naval e o sudoku. Possivelmente quem lê este apontamento já os jogou, seja quando foi criança ou adolescente (algo altamente improvável relativamente ao sudoku), seja ainda agora. Enquanto o labirinto e o sudoku são concebidos para uma pessoa só, a batalha naval destina-se a duas pessoas.
O labirinto é um passatempo infantil, como se sabe. De um dado ponto, o jogador procura, através de minotáuricos meandros que muitas vezes terminam num impasse, alcançar um determinado objectivo. É um exercício de observação (tanto quanto possível visto de topo, com vista de águia) e de paciência, do tipo if at first you don’t succeed, try and try and try again. A mim, os labirintos ensinaram-me uma lição quando eu tinha 5 ou 6 anos e me entretinha a tentar resolvê-los. Um dia, o meu irmão, onze anos mais velho, chamou-me parvo quando deparou comigo, debruçado e com um pequeno lápis, a tentar resolver um desses labirintos. Recordo-me de, ante a palavra "parvo", ter olhado muito para cima - além do mais, ele estava de pé e eu sentado - e de o ter ouvido explicar-me, com um sorriso matreiro, que se eu começasse do lado do objectivo o caminho para o ponto de partida seria muito fácil de descobrir. Fiz a experiência. Ele tinha toda a razão. Com isso, estragou-me o prazer de desvendar o mistério dos labirintos, mas deu-me uma lição que me serviu para a vida (só mais tarde entendi esse facto): "considera o outro lado, analisa os casos sempre de várias perspectivas".
A batalha naval foi para mim, enquanto adolescente, um jogo muito útil. Se bem me lembro, poucas vezes perdia. Aprendi algo importante com este jogo: mais importante do que atirar ao fundo um barco-de-dois do nosso adversário ou o porta-aviões é conhecer a sua localização exacta. Porquê? Pela simples razão de que depois se colocam cruzes a toda a volta do barco afundado, o que significa que não vamos desperdiçar tiros para casas onde o inimigo não pode ter nenhuma embarcação por ser contra as regras. Numerar primeiro as jogadas, assinalar depois os tiros certeiros e, por último, eliminar montes de hipóteses através das cruzes constitui um método que aumenta sobremaneira a nossa eficácia de tiro. Esta lição de método e de eficiência necessária para atingir um objectivo foi-me dada em grande parte, se bem me recordo, por este jogo, que hoje terá caído em completo desuso (a 2ª Grande Guerra, na qual batalhas navais foram muito frequentes, já vai longe). Era o nosso passatempo favorito nas aulas de Latim, nomeadamente quando um colega estava a ser chamado à matéria dada. A uma língua morta como é o latim replicávamos nós com um jogo bem vivo. Nunca houve problema, a não ser num dia em que dois colegas meus, de tão concentrados que estavam no jogo, não deram pelo final da aula e pela saída dos restantes alunos. Só repararam que a professora estava ali mesmo junto a eles quando um proclamou, virando a cabeça, o resultado da jogada anterior: "Submarino ao fundo em B2."
Por seu lado, o sudoku é, tal como os outros, um jogo sem palavras: um puzzle labiríntico de números, que procura levar o jogador a descobrir como preencher as múltiplas casas que estão em branco, seguindo regras pré-estabelecidas. Este é, de longe, o mais moderno dos três jogos que escolhi. Dada a sua natureza numérica e popularidade, qualquer jornal nacional ou estrangeiro o tem. É mais um produto da globalização. Tal como o labirinto, exige análise e a paciência de um strip tease numérico. Constitui um razoável exercício mental, por eliminação de hipóteses. No final, o completamento do puzzle serve de recompensa para a ginástica cerebral entretanto realizada.
Jogar faz bem. Mantém-nos atentos, concentrados, e distraídos do resto. Tal como o sentido de humor, a faceta lúdica do homem é primordial.
Sobre os jogos de computador prefiro que sejam outros a falar, mas sempre direi que, como não posso fixar os olhos durante muito tempo num monitor, eles cansam-me. Por outro lado, parecem-me jogos demasiado reactivos. Não me dão o relax que espero de um jogo-passatempo após um dia de trabalho. Talvez seja apenas uma questão de hábito. Seja como for, prefiro pensatempos a meros passatempos.