3/29/2008

O dominó-espiral

Há muitos anos já, fui um dia dar uma vista de olhos à Península da Arrábida e parei no Cabo Espichel. Sobre as rochas estavam estendidos vastos lençóis de algas, retiradas do mar ali perto. Depois de convenientemente secas, as algas seriam vendidas a uma de duas fábricas japonesas que existiam na zona, as quais procediam à sua transformação em vários produtos de elevado valor acrescentado. Um pescador que ocasionalmente serviu de meu informador contou-me que naquela altura não estava a ir ao mar porque o negócio da apanha das algas lhe era muito mais rentável. "A sardinha", disse-me ele, "desapareceu destas bandas." Alguém que ouviu parte da conversa veio confirmar-me que a sardinha tinha de facto desaparecido e ido para outros lados. "Sabe, a sardinha vinha aqui alimentar-se de peixinhos pequeninos, que por sua vez se alimentavam de algas. Como as algas estão a ir à vida em grandes quantidades, já não temos aqui esses peixinhos e, por seu lado, as sardinhas não vêm também. Elas não vinham cá fazer turismo. Desapareceu-lhes a motivação que as trazia aqui ao Cabo e, portanto, zarparam para outras paragens."
É. Tudo depende de tudo. As coisas estas encadeadas umas nas outras. Às vezes uma determinada acção ou medida pode transformar radicalmente as coisas. A história da sardinha, igual a tantas outras, ocorreu-me a propósito do que está presentemente a acontecer na sociedade chinesa. Em 1979, com a finalidade de suster o desenvolvimento incontrolado da sua população, o governo chinês decretou a política de um casal = um filho. Agora em 2008, cerca de trinta anos depois, as consequências dessa medida - muitas delas imprevistas - são bem visíveis, e de tal forma que, pouco a pouco, se tem verificado uma maior abertura por parte das autoridades chinesas. Recordo-me bem que, oito ou nove anos depois da implantação dessa política, os professores das escolas primárias oficiais começaram a queixar-se do "síndroma do pequeno imperador", tema que aliás cheguei a debater em aulas com alunas minhas. Em resumo, sucedia que se tinha passado da família chinesa numerosa, em que uns miúdos tratavam dos outros, para a existência de apenas uma criança na casa. Esta era, ainda por cima, geralmente um rapaz, já que muitas bebés tinham sido abortadas devido à preferência dos casais por rapazes. Os professores da escola primária queixavam-se de maior insubordinação nas suas aulas, de lutas entre os pequenos imperadores. A obediência tradicional das crianças estava a desaparecer. Havia ali uma mudança substancial.
Anos mais tarde, o exército notou a mesma coisa. A cega obediência que era apanágio das tropas chinesas estava a dar lugar a uma certa insubordinação, que as forças armadas não toleram nada bem.
Hoje em dia, o problema é outro: quem cuida dos pais que começam a ficar velhotes? Como a China não possui sistema de segurança social capaz de responder a tanta gente, o problema agudiza-se. Os filhos estão a negligenciar a tradição milenária de amparar os seus pais devidamente. A nova vida que levam, mais urbana que rural, não lhes permite dispensar os mesmos cuidados. Estes, diga-se, ficavam na maior parte dos casos a cargo das filhas: as mulheres têm outra forma, mais desvelada, de cuidar quer das crianças, quer dos idosos. Neste sentido, é curioso ver que um inquérito recentemente realizado em Pequim já fez ressaltar, pela primeira vez, que os casais estão a mostrar uma ligeira preferência por filhas relativamente a filhos. Colocar os pais num lar hoje em dia ainda representa uma situação ignominiosa para uma família chinesa, mas é de crer que a antiquíssima tradição de os mais novos cuidarem dos mais velhos venha gradualmente a cair. Entretanto, renasceu parcialmente o costume feudal de adoptar filhos adultos - mulheres, como é evidente.
Algo curioso também é o facto de muitos casais preferirem hoje, em resultado do aumento do custo de vida e urbanização da China, terem apenas um filho, sendo que um número considerável (25 por cento dos inquiridos) preferiria até não ter qualquer filho a fim de poder juntar mais dinheiro: é, no fundo, o conhecido estilo DINK americano: double income, no kids.
Muito mais haveria a dizer sobre o assunto, mas o que importa reter é o efeito dominó-espiral de determinadas medidas. Quer se trate de sardinhas, de pessoas, de veículos motorizados ou de produtos alimentares, há certas políticas que têm de ser muito bem sopesadas antes de ser implementadas. (Por que é que havia de me lembrar agora da medida tomada há uns anos atrás por alguns países, com grande relevo para os Estados Unidos, de invadirem o Iraque?)

3/27/2008

Europa em revolta contra o hipercapitalismo

O penúltimo número da revista Newsweek inclui um artigo interessante, que não vi transcrito ou resumido nos media portugueses. Tudo começou há dois anos, quando os serviços secretos alemães conseguiram subornar um funcionário de uma importante instituição bancária do Liechstenstein. Ofereceram-lhe uma quantia considerável (4,2 milhões de euros) e um novo nome e passaporte em troca de um CD cujo conteúdo consistia nos nomes, contas e correspondência financeira de 1400 abastados clientes estrangeiros. Há três semanas, investigadores alemães efectuaram 120 visitas-busca baseadas na informação recolhida, tendo obtido confissões que prefiguram um total de 29 milhões de euros em impostos recuperados - estando estes números em crescendo a cada dia que passa. As pessoas que foram alvo das buscas incluem figuras bem conhecidas, como o Administrador-Geral dos Correios, Klaus Zumwinkel.
Por seu lado, as autoridades do fisco da Finlândia e da Noruega encontram-se presentemente a dar caça aos nacionais dos seus respectivos países cujos nomes constam igualmente do CD. Mais de uma dúzia de outros estados, v.g. França, Grã-Bretanha e EUA, iniciaram as suas próprias investigações.
A celeuma e as manifestações que este caso já provocou não são coisa de pouca monta, a julgar pelos meios de comunicação social. A revista Stern titulava a sua capa da semana passada "Elites sem moral - como os ricos estão a minar a nossa sociedade". A Manager Magazine inquiria: "Está o supercapitalismo a destruir a democracia?" "Evasor Fiscal Inimigo do Estado", proclamava a revista Spiegel, exibindo a foto de mais um administrador de uma empresa de topo.
É, aliás, na Alemanha, que a luta anti-capitalista está a ganhar mais força. "Este problema de fuga aos impostos só vem reforçar a ideia que os alemães têm profundamente enraizada de que os ricos só o são por explorarem os pobres", escreve um analista político. As consequências deste facto invadem, como seria previsível, o campo político. No penúltimo domingo, em eleições regionais, Hamburgo tornou-se o terceiro estado alemão em outras tantas semanas a destronar uma governação conservadora e a eleger um partido radical de esquerda, ex-comunista - e Hamburgo é um estado que está em franco desenvolvimento e onde a taxa de criminalidade é baixa.
Em França, é notório o facto de Jérôme Kerviel, o homem que custou quase 5 biliões de euros à instituição financeira Société Générale no passado mês de Janeiro, ser visto por muitos não como um criminoso, mas sim como uma vítima do hipercapitalismo. Em Inglaterra, é pelo menos interessante notar que o recente livro do correspondente de economia da BBC, Robert Peston, Who Runs Britain? How the Super-Rich Are Changing Our Lives está rapidamente a tornar-se um best-seller.
Na medida em que tem como pano de fundo a era da globalização, uma inflação crescente, taxas de desemprego elevadas em determinados países e um sério abrandamento da economia dos Estados Unidos, creio que um assunto desta ordem deve merecer a nossa atenção.

3/24/2008

Pior do que o fisco: aqui é a dobrar!




No newspeak que, através de eufemismos, procura proteger as pessoas e classes mais desfavorecidas, surgiu há anos o "gestor de espaços públicos", abreviadamente GEP. O gestor de espaços públicos exclui o mundo rural e inclui na sua actividade apenas o espaço citadino. É ele - e digo "ele" por que até hoje nunca encontrei mulheres a desempenhar este papel - que nos locais de maior movimento das cidades se assenhoreia de qualquer espaço da via pública para indicar a automobilistas que tentam estacionar a sua viatura qual o melhor lugar para o fazer. É uma missão perfeitamente inútil, pois condutores invisuais é coisa que não existe. Mas já se sabe que, em numerosos locais, quando alguém está a manobrar para estacionar o carro vai receber a visita de um GEP que, através de gestos tão conspícuos quanto de vã utilidade, lhe diz, como se estivesse a falar para um aprendiz de carta de condução, que deve virar o volante para a esquerda ou para a direita. Esta será, no entanto, a sua justificação principal para colectar o indivíduo parqueante com "uma moedinha". O típico GEP resmunga a tudo o que seja menos de 50 cêntimos e o seu vício de droga aumenta em espiral quando o cliente, à falta de trocos, lhe passa um euro para a mão.
A EMEL, empresa municipal zeladora dos estacionamentos em Lisboa, não é menos arguta do que os arrumadores em matéria de locais que precisam de ordenamento do território urbano. Daí que tenha colocado parquímetros nessas mesmas ruas e avenidas. Em princípio, a medida deveria ter condenado os GEP. Pelo contrário, beneficiou-os! Há montes de parquímetros que os GEP avariam, não para que eles não funcionem, mas ao procurar sacar antes dos funcionários da EMEL as moedas que lá caíram. As fotos acima mostram um GEP nessa árdua missão. Inadvertidos, muitos automobilistas continuam a colocar as suas moedas em parquímetros avariados, receosos de uma multa. Nunca serão os GEP que estão nas proximidades a avisá-los da avaria. De olho no seu Multibanco, aguardam por uma hora conveniente para explorarem a segunda componente do filão: já colheram a sua parte da "descoberta" do espaço vago, agora vão ocupar-se da outra parte do seu rendimento.
Foi o Padre António Vieira que nos deixou um curioso provérbio do seu tempo na interessante obra "Arte de Furtar", dedicada a Sua Majestade o rei D. João IV, o único incorrupto do reino segundo o autor: "Com arte e com engano, vivo uma parte do ano; com engano e com arte, vivo a outra parte." Coisas do século XVII.

3/22/2008

Mil e uma causas

"Um vídeo como este vale mais do que mil palavras." É possível. Mas o que é garantido é que a sua passagem pela televisão originou já não mil, mas mais de um milhão de palavras, quer escritas, quer apenas ditas oralmente. O vídeo realizado com o telemóvel por um aluno de uma escola do Porto mostrando o incumprimento por uma aluna do 9º Ano de uma ordem dada pela professora e a reacção subsequente foi algo que deu que falar. Como não podia deixar de ser, voltou à baila o tema da indisciplina, a que, à falta de outra palavra mais suave, se chamou "violência nas escolas". Como é habitual nestes casos, procurou-se linearmente uma causa. Os pais, tout court, foram os mais acusados. Não é impossível, porém, que os pais da aluna em questão tenham, eles próprios, condenado a acção da filha. Mas também é possível que a tenham defendido.
Menos especificadamente, foram mencionados outros factores que podem ter levado ao acto de desobediência e indisciplina, nomeadamente a permissividade social existente. Em princípio, não excluo nenhum factor nem a combinação de vários. Permito-me, no entanto, realçar o aviltamento que se regista no status do professor. Já no final de 2004, aquando de uma acção voluntária de formação de professores que fiz numa escola de ensino básico, correspondi a um pedido de entrevista. Permito-me transcrever um excerto do jornal em que a entrevista foi publicada: "A propósito das dificuldades actualmente sentidas pelos professores, creio que a maior de todas reside no seu status. A autoridade está, de uma maneira geral, em declínio. Muitos docentes não usufruem do respeito que merecem. Na sociedade, existe uma atmosfera populista. Mesmo sem querer, o professor envereda frequentemente pelo facilitismo a fim de não se tornar impopular junto dos seus alunos. E também por outros motivos. Quando tal acontece, a sociedade ressente-se e o status do professor também. É fundamental que o aluno sinta admiração pelo professor. De outra forma, não se sentirá motivado."
A cena da Carolina Michaelis fez-me lembrar este passo. O continuado facilitismo imposto pelo Ministério desprestigiou os professores, fazendo-os executantes da sua política, por um lado, e seus escudos, por outro. Contaram-me vários professores que se viram obrigados, por assim dizer, a dar nota de passagem a alunos que em rigor não a mereciam. Este é um facto que sem dúvida desprestigia qualquer docente e cria um precedente grande que no ano seguinte provavelmente se repetirá. Quando o aluno sabe que não é 100 por cento o critério daquele professor que tem à sua frente que conta para a sua passagem não o respeita da mesma forma que outrora sucedia. Obviamente! Desse abaixamento de status se ressente depois todo o edifício. Já que não há provas de exame verdadeiramente a não ser no 12º Ano...
O que sucedeu numa escola do Porto poderia acontecer noutra instituição qualquer e com outro docente. Se os professores e alguns pais têm eventualmente alguma responsabilidade, os vários gestores do Ministério da Educação das últimas décadas têm ainda mais. (E quanto ao comportamento dos colegas de turma, todos sabemos que individualmente somos uma coisa e, colectivamente, outra.)

As linhas do futebol e a liderança

Todos os que gostam de futebol sabem que uma equipa é tanto melhor quanto mais habilidosos os seus jogadores forem e mais entreajuda prestarem uns aos outros. Se nos concentrarmos na questão da entreajuda, verificaremos que a formação de linhas, que avançam ou recuam em sintonia, constitui a melhor garantia para uma situação de ataque ou de defesa perante um adversário que teoricamente possui armas idênticas. De onde vem a necessidade dessas linhas? Do facto de ser crucial que não se criem grandes vazios entre os jogadores da equipa, pois será aproveitando esses eventuais vazios que a equipa adversária poderá chegar ao seu objectivo - o golo - e consequentemente causar a nossa derrota. Na não-existência de grande distanciamento entre os jogadores de uma mesma equipa e na sua coordenação uns com os outros reside, portanto, uma das chaves do sucesso de uma equipa vitoriosa. Como é evidente, este é um sistema que exige um grande esforço de todos, pois avançar e recuar durante noventa minutos num campo que tem cerca de 110 metros de comprimento por 75 de largura não é tarefa fácil. Daí que seja essencial, a par dos factores atrás mencionados, uma óptima condição física dos jogadores. Sem ela, tudo se poderá perder. Um outro elemento fundamental para a coesão e sucesso do onze é a amizade entre os jogadores, i.e. o espírito de equipa. Sem ele, nada se faz concretamente. Pelo contrário, sobressairão as rivalidades individuais. As entreajudas não funcionarão convenientemente.
Onde é que este arrazoado se pode aplicar à liderança, concretamente num estabelecimento de ensino? Em múltiplos aspectos, de facto. Em primeiro lugar, uma escola tem também um objectivo, que não se chama golo, mas que se traduz em eficácia. Na escola existem também várias linhas. A direcção e os restantes órgãos de gestão constituem uma das linhas principais, os docentes formam outra e os funcionários uma terceira. Todos pertencem à mesma equipa e não jogarão bem se jogarem desgarrados. Daqui se infere que uma liderança bem conduzida implica uma boa definição dos objectivos principais e da estratégia a seguir para os alcançar, subentende boa comunicação entre as várias linhas e uma aprovação das linhas gerais de orientação por todos. Embora reconhecendo que cada um é o maior responsável pelos seus actos, a liderança tem de possuir e desenvolver instrumentos de controlo para colher informação atempadamente útil sobre o andamento da actividade. É aí que a avaliação da escola, o que inclui os professores e todos os outros intervenientes, incluindo a própria Direcção, constitui uma peça importante na eficácia a atingir. Se as linhas estiverem coesas, se houver vontade de trabalhar e real espírito de equipa, os resultados da avaliação só podem ser bons. Caso contrário…