Quando há dias o Presidente da República falou sobre o desencanto dos jovens pela política, produto em grande parte de promessas vãs e incumpríveis dos candidatos partidários, ele tinha naturalmente razão. Os jovens interessam-se por muitas outras coisas, entre as quais avulta a absoluta necessidade de um dia obterem auto-sustentação, o que, suspeitam, não lhes vai ser nada fácil alcançar.
Entretanto, contrastemos esse desencanto-com-a-política patenteado pela geração jovem com o denodado afã de vários adultos, alguns já de provecta idade, que se engalfinham - devidamente secundados por centenas de elementos do partido - para lograrem atingir o poder máximo no PSD. O Alberto João quer voar da Madeira para o Cont’nente para pôr tudo na ordem, o que o incontornável Santana começa por contrariar. Há um Passos Coelho que é apoiado por bases nortenhas, a peso-pesado Ferreira Leite que arrisca, o advogado Aguiar Branco que já avançou, o Menezes que disse que não e que desistia, mas... Haverá possivelmente ainda mais uns tantos concorrentes, mas de momento não me ocorrem outros nomes.
Ocorre-me, sim, o abismo geracional que se cava entre estes superagitados políticos mais os seus apoiantes basistas ávidos de poder e os jovens, com os ouvidos cheios de promessas mas muito carentes de actos e de verdade em vez de palavras encantatórias de ilusão.
4/29/2008
4/25/2008
Evolução ou involução?
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O 25 de Abril que hoje se comemora determinou que Portugal seria um país livre e, politicamente, uma república parlamentar. "Para lamentar" começou-se logo a ouvir, pouco tempo depois, por parte da reacção. Mas à reacção contrapôs-se a vontade real da nação de mudar as coisas. Assim, as primeiras assembleias da República estiveram cheias de homens-bons (o que inclui mulheres, relativamente às quais não quero, por óbvias razões, usar o mesmo qualificativo no feminino). Era, no geral, um conjunto de mentes activas e generosas aquele que encheu S. Bento nas primeiras vezadas. Homens e mulheres de carácter e de convicções, que por estas se batiam na liberdade que o 25 de Abril lhes concedera. Lembro-me de pessoas como Mário Soares, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, Salgado Zenha, Manuel Alegre, o meu bom amigo Henrique Barrilaro Ruas, Natália Correia, Raúl Rego e Maria de Lurdes Pintasilgo. E muitos outros que sobressaíam no debate ideológico. Trinta e quatro anos passados, vemos que houve indubitavelmente significativas alterações na sociedade portuguesa, muito mais aberta ao estrangeiro do que outrora, com cérebros brilhantes a destacar-se em vários domínios.
No domínio político, porém, vejo antes uma involução. Gradualmente, as vozes isoladas, auto-responsáveis e perfeitamente identificáveis foram sendo substituídas pelos carreiristas políticos, que depressa criaram para si próprios regalias, benesses, privilégios, mordomias. Mencionando apenas uma, cada ano de deputado passaria a contar como dois para efeitos de reforma - à semelhança do que se passara com as tropas intervenientes nas campanhas da guerra colonial. Porém, enquanto só os elementos que tinham estado nas zonas de intervenção armada tinham tido direito a essa benesse, no caso dos deputados não havia distinção. Mesmo os que mal abrissem o bico aufeririam do mesmo privilégio.
Em breve os deputados passaram a ser, na sua maioria, membros dos órgãos dos partidos, fechando a porta a todo o movimento cívico que pretendesse intrometer-se com elementos seus. O domínio partidário calou vozes discordantes no seu seio, sob pena de estas terem que abandonar o parlamento para o qual tinham sido eleitas pelo voto popular. A liberdade parlamentar passou a ser fundamentalmente partidária e já não individual. A escola de formação dos partidos aumentou o seu número de alunos, abnegados, disciplinados, fiéis. Ansiosos por obterem os créditos que lhes permitissem receber não o tradicional canudo, mas sim o mais desejado lugar na Assembleia onde pudessem finalmente assentar o seu traseiro. Infelizmente para nós, civis amantes da liberdade individual, o funcionalismo partidário passou a ser a regra, com algumas naturais excepções.
O parlamentarismo perdeu há muito o seu cachet inicial. Continua com algumas benesses próprias, embora outras já tenham sido cerceadas. A Assembleia mantém-se como o único lugar que, em princípio, pode dar acesso à Champions, ao parlamento europeu, lá fora, com outros mundos, outros vencimentos e mordomias de viagens. De todo este conjunto resulta um cravo do 25 de Abril naturalmente algo mais murcho do que o original (foto). Regaram-no mal, foi o que foi. Tanto cimentaram os antigos jardins de canteiros floridos que hoje temos falta de bons jardineiros.
No domínio político, porém, vejo antes uma involução. Gradualmente, as vozes isoladas, auto-responsáveis e perfeitamente identificáveis foram sendo substituídas pelos carreiristas políticos, que depressa criaram para si próprios regalias, benesses, privilégios, mordomias. Mencionando apenas uma, cada ano de deputado passaria a contar como dois para efeitos de reforma - à semelhança do que se passara com as tropas intervenientes nas campanhas da guerra colonial. Porém, enquanto só os elementos que tinham estado nas zonas de intervenção armada tinham tido direito a essa benesse, no caso dos deputados não havia distinção. Mesmo os que mal abrissem o bico aufeririam do mesmo privilégio.
Em breve os deputados passaram a ser, na sua maioria, membros dos órgãos dos partidos, fechando a porta a todo o movimento cívico que pretendesse intrometer-se com elementos seus. O domínio partidário calou vozes discordantes no seu seio, sob pena de estas terem que abandonar o parlamento para o qual tinham sido eleitas pelo voto popular. A liberdade parlamentar passou a ser fundamentalmente partidária e já não individual. A escola de formação dos partidos aumentou o seu número de alunos, abnegados, disciplinados, fiéis. Ansiosos por obterem os créditos que lhes permitissem receber não o tradicional canudo, mas sim o mais desejado lugar na Assembleia onde pudessem finalmente assentar o seu traseiro. Infelizmente para nós, civis amantes da liberdade individual, o funcionalismo partidário passou a ser a regra, com algumas naturais excepções.
O parlamentarismo perdeu há muito o seu cachet inicial. Continua com algumas benesses próprias, embora outras já tenham sido cerceadas. A Assembleia mantém-se como o único lugar que, em princípio, pode dar acesso à Champions, ao parlamento europeu, lá fora, com outros mundos, outros vencimentos e mordomias de viagens. De todo este conjunto resulta um cravo do 25 de Abril naturalmente algo mais murcho do que o original (foto). Regaram-no mal, foi o que foi. Tanto cimentaram os antigos jardins de canteiros floridos que hoje temos falta de bons jardineiros.
4/23/2008
A kari-ka-tura
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Há cerca de três semanas, um grupinho deste blogue deslocou-se a Vila Franca de Xira para uma conferência de José-Augusto França sobre a sua vivência do neo-realismo. A conferência em questão realizou-se no novo Museu, um notável edifício com a assinatura de Alcino Soutinho.
Antes disso, o grupo do azweblog foi deliciar-se com uma exposição de cartoons no velho Celeiro da Patriarcal, a poucos passos do museu. A mostra que vimos era notável - já fechou - e contava com um recanto especialmente dedicado à grande arte de Abel Manta. Na restante parte, repleta de dezenas de cartoons recentemente publicados, parámos durante algum tempo em frente do que considerámos ser uma esplêndida peça: o Dalai Lama retratado como panda e devidamente enjaulado pela China. Tirámos foto, como não poderia de ser.
Antes disso, o grupo do azweblog foi deliciar-se com uma exposição de cartoons no velho Celeiro da Patriarcal, a poucos passos do museu. A mostra que vimos era notável - já fechou - e contava com um recanto especialmente dedicado à grande arte de Abel Manta. Na restante parte, repleta de dezenas de cartoons recentemente publicados, parámos durante algum tempo em frente do que considerámos ser uma esplêndida peça: o Dalai Lama retratado como panda e devidamente enjaulado pela China. Tirámos foto, como não poderia de ser.
Sabemos agora que a inspirada caricatura de António Jorge Gonçalves foi contemplada com o 2º prémio num concurso internacional do World Press Cartoon, a que concorreram 766 trabalhos de 367 jornais e revistas de 67 países. Só pedimos desculpa de a foto não estar à altura, mas não conseguimos melhor e queremos partilhá-la convosco.
4/21/2008
Uma questão de contas
Como, admittedly, não sou especialista em coisa nenhuma, hesito muitas vezes abordar neste blogue determinadas questões que são nebulosas para mim. Penso, no entanto, que no etéreo espaço em que os textos vogam poderá eventualmente surgir, por um altamente improvável acaso - os acasos nunca são prováveis, ou então não seriam acasos - , um especialista ou alguém com mais conhecimentos do que eu, que me esclareça. Aí decido-me a avançar. É algo que já tem sucedido múltiplas vezes.
Esta "questão de contas" está em stock há talvez uns dez dias. Foi, de facto, há pouco mais de uma semana que fiquei surpreendido ao ouvir falar de fundos públicos em regime off-shore. Dada a natureza de fuga ao fisco da maioria das organizações financeiras que actuam off-shore, não pude deixar de estranhar que dinheiros do Estado português andassem por essas vias. Esperei ler mais sobre o assunto, mas parece que alguém decidiu colocar um penedo sobre o tema. Sabemos agora pelo Ministério das Finanças que (possivelmente entre várias outras aplicações financeiras do Estado) o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social possui aplicações off-shore da ordem dos 42 milhões de euros (cerca de oito milhões e meio de contos). Seria difícil haver ironia maior neste caso. Logo o Fundo de Estabilização (!) Financeira da Segurança (!) Social!
Quando a polícia judiciária de um país procura saber informações sobre determinadas contas colocadas off-shore, depara com um tal emaranhado labiríntico de linhas, produto de uma bem urdida engenharia financeira, que não raramente sai com as mãos a abanar. O cruzamento de depósitos e investimentos serve exactamente para baralhar os eventuais investigadores e criar uma firewall na qual o fisco não logre entrar. Assim se consegue o "mais absoluto sigilo".
Curiosamente, esta história do mais absoluto sigilo lembra as inúmeras vivendas que se encontram protegidas dos olhares exteriores por uma vedação metálica, geralmente verde natureza, que lhes dá um certo ar de bunker. As vivendas em questão ficam, de facto, protegidas dos mirones exteriores; porém, se alguém consegue passar a vedação pela calada da noite - ou mesmo durante o dia -, esse alguém pode passar a actuar com segurança, porque ele também está protegido dos olhares de quem passa no exterior (câmaras de vigilância eliminam-se com relativa facilidade). Por analogia, se voltarmos aos depósitos ou investimentos feitos off-shore, isto significa que a firewall que protege do fisco também protege os gestores do dinheiro alheio.
Na presente crise do subprime, que contagiosamente passou a vários fundos de risco e tem causado a enorme mossa no sistema financeiro que se conhece (?), "estabilização" e "segurança" são palavras que fazem pelo menos sorrir. Como é mesmo no caso português? Colocar a estabilização da segurança num sistema volátil é algo de uma enorme incongruência! Recordemos os hedge funds! A certa altura, pode naturalmente suceder ao Estado o mesmo que tem acontecido aos bancos: ter vultosos activos contabilísticos que só valem no papel. Seria bom que este caso fosse esclarecido – e de forma transparente. Será pedir muito? Pelo andar da carruagem, é.
Esta "questão de contas" está em stock há talvez uns dez dias. Foi, de facto, há pouco mais de uma semana que fiquei surpreendido ao ouvir falar de fundos públicos em regime off-shore. Dada a natureza de fuga ao fisco da maioria das organizações financeiras que actuam off-shore, não pude deixar de estranhar que dinheiros do Estado português andassem por essas vias. Esperei ler mais sobre o assunto, mas parece que alguém decidiu colocar um penedo sobre o tema. Sabemos agora pelo Ministério das Finanças que (possivelmente entre várias outras aplicações financeiras do Estado) o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social possui aplicações off-shore da ordem dos 42 milhões de euros (cerca de oito milhões e meio de contos). Seria difícil haver ironia maior neste caso. Logo o Fundo de Estabilização (!) Financeira da Segurança (!) Social!
Quando a polícia judiciária de um país procura saber informações sobre determinadas contas colocadas off-shore, depara com um tal emaranhado labiríntico de linhas, produto de uma bem urdida engenharia financeira, que não raramente sai com as mãos a abanar. O cruzamento de depósitos e investimentos serve exactamente para baralhar os eventuais investigadores e criar uma firewall na qual o fisco não logre entrar. Assim se consegue o "mais absoluto sigilo".
Curiosamente, esta história do mais absoluto sigilo lembra as inúmeras vivendas que se encontram protegidas dos olhares exteriores por uma vedação metálica, geralmente verde natureza, que lhes dá um certo ar de bunker. As vivendas em questão ficam, de facto, protegidas dos mirones exteriores; porém, se alguém consegue passar a vedação pela calada da noite - ou mesmo durante o dia -, esse alguém pode passar a actuar com segurança, porque ele também está protegido dos olhares de quem passa no exterior (câmaras de vigilância eliminam-se com relativa facilidade). Por analogia, se voltarmos aos depósitos ou investimentos feitos off-shore, isto significa que a firewall que protege do fisco também protege os gestores do dinheiro alheio.
Na presente crise do subprime, que contagiosamente passou a vários fundos de risco e tem causado a enorme mossa no sistema financeiro que se conhece (?), "estabilização" e "segurança" são palavras que fazem pelo menos sorrir. Como é mesmo no caso português? Colocar a estabilização da segurança num sistema volátil é algo de uma enorme incongruência! Recordemos os hedge funds! A certa altura, pode naturalmente suceder ao Estado o mesmo que tem acontecido aos bancos: ter vultosos activos contabilísticos que só valem no papel. Seria bom que este caso fosse esclarecido – e de forma transparente. Será pedir muito? Pelo andar da carruagem, é.
4/19/2008
Língua inglesa - Uso e tradução de verbos com preposição
Como todos sabemos por experiência própria, as línguas estrangeiras possuem pontos de vista diversos relativamente às coisas - o que se traduz no vocabulário, especialmente nos substantivos -, maneiras que nos são estranhas de considerar o tempo ou o espaço - algo que as preposições expressam -, e formas que não são iguais às nossas para falar do tempo passado, presente e futuro, aquilo que os verbos com os seus diferentes "tempos" fazem melhor.
A língua inglesa apresenta-se aos olhos e ouvidos de um português com uma característica especial, sobre a qual nos vamos debruçar um pouco: verbos seguidos de preposições. Nesta designação cabem verbos do tipo bring up, bring about, put off - que são às centenas mas que por ora vamos deixar de fora - e outros ainda, que iremos abordar a seguir. Estes são verbos que, se ouvidos ou lidos, são relativamente fáceis de entender mas, e este é o ponto principal, mais difíceis de traduzir (e às vezes é necessário traduzi-los).
Imagine-se pedindo a um português seu conhecido, com conhecimentos razoáveis de inglês, para dizer in English algo como "atravessámos a rua a correr". Previsivelmente, o indivíduo em questão dirá we crossed the street running. Na realidade, ele estará a traduzir a frase bloco por bloco em vez de traduzir a ideia da forma que ela se apresenta normalmente na língua inglesa: we ran across the street. Da mesma forma, "ela saiu da sala a correr" será she ran out of the room. Há claramente uma maneira diferente da nossa de expressar a ideia. O que se nota é que a forma adverbial "a correr" não é expressa em inglês por um advérbio mas sim pelo verbo. Notamos ainda que tanto a ideia de "atravessar" como a de "sair" são expressas em inglês por uma preposição (across e out). Temos a chave. Dado que este processo estrutural é muito comum em inglês, é fundamental que quem esteja a aprender a língua o domine. Com isso, resolverá muitos problemas de tradução para português - frases que parecem evidentes mas depois não se sabe bem como traduzir e anda-se para ali às voltas sem saber bem onde lhe pegar. Como o tempo é dinheiro...
Pensemos então na chave básica: o verbo inglês expressa aquilo que em português é normalmente um advérbio; a preposição inglesa dá-nos a ideia do verbo português.
Vejamos alguns outros exemplos para compreendermos melhor e notemos simultaneamente que a frase portuguesa só excepcionalmente será mais curta que a inglesa; tende mesmo a ser mais longa (a já aludida diferença noutros posts entre línguas sintéticas e analíticas):
1. He was bailed out. – (sabemos que bail é fiança e que to bail é afiançar; tomamos a preposição out como o verbo português, enquanto o verbo inglês será a nossa "maneira como", i.e. o advérbio). Assim, teremos: Ele foi libertado mediante o pagamento de uma fiança.
2. Dogs sniff out the foxes. – Os cães, graças ao seu faro, fazem as raposas sair das tocas.
3. Compare-se com the dogs dig the foxes out – Os cães põem-se a escavar junto às tocas e fazem as raposas sair cá para fora.
4. The game was rained off. – O jogo foi adiado devido à chuva. (a preposição off que conhecemos de to put off - "adiar", funciona como verbo português, enquanto o verbo inglês to rain nos diz porquê - a noção adverbial).
5. Lisbon trams are being phased out. - Os eléctricos de Lisboa estão a desaparecer gradualmente (por fases).
6. During the Spanish war, many tons of coffee were smuggled out of Portugal. (sabendo que smuggle é contrabando, é fácil começar pela preposição e depois pegar no verbo inglês como advérbio) – Durante a guerra de Espanha, houve muitas toneladas de café que saíram de Portugal por meio de contrabando.
É claro que ao aplicarmos esta técnica na tradução de inglês para português, por exemplo num artigo de jornal ou num livro, estamos simultaneamente a alimentar o nosso cérebro com a forma inglesa, pelo que depois, ao falarmos ou escrevermos esta língua, teremos a saudável tendência para estruturarmos as frases à correcta maneira inglesa.
Alguns exemplos mais, só para prática:
1. In China, at least 86 casinos have been forced out of business.
2. The police clubbed the insurgents down.
3. The former Prime Minister was gunned down.
4. Most analysts rule out an abrupt about-face in Brasília.
5. Stock-market investors dip in and dip out.
Faço notar que nunca vi este tema abordado em nenhum livro ou artigo. Contudo, ele é de grande utilidade, facilita o trabalho do tradutor e, ao mesmo tempo, abre outras portas.
A língua inglesa apresenta-se aos olhos e ouvidos de um português com uma característica especial, sobre a qual nos vamos debruçar um pouco: verbos seguidos de preposições. Nesta designação cabem verbos do tipo bring up, bring about, put off - que são às centenas mas que por ora vamos deixar de fora - e outros ainda, que iremos abordar a seguir. Estes são verbos que, se ouvidos ou lidos, são relativamente fáceis de entender mas, e este é o ponto principal, mais difíceis de traduzir (e às vezes é necessário traduzi-los).
Imagine-se pedindo a um português seu conhecido, com conhecimentos razoáveis de inglês, para dizer in English algo como "atravessámos a rua a correr". Previsivelmente, o indivíduo em questão dirá we crossed the street running. Na realidade, ele estará a traduzir a frase bloco por bloco em vez de traduzir a ideia da forma que ela se apresenta normalmente na língua inglesa: we ran across the street. Da mesma forma, "ela saiu da sala a correr" será she ran out of the room. Há claramente uma maneira diferente da nossa de expressar a ideia. O que se nota é que a forma adverbial "a correr" não é expressa em inglês por um advérbio mas sim pelo verbo. Notamos ainda que tanto a ideia de "atravessar" como a de "sair" são expressas em inglês por uma preposição (across e out). Temos a chave. Dado que este processo estrutural é muito comum em inglês, é fundamental que quem esteja a aprender a língua o domine. Com isso, resolverá muitos problemas de tradução para português - frases que parecem evidentes mas depois não se sabe bem como traduzir e anda-se para ali às voltas sem saber bem onde lhe pegar. Como o tempo é dinheiro...
Pensemos então na chave básica: o verbo inglês expressa aquilo que em português é normalmente um advérbio; a preposição inglesa dá-nos a ideia do verbo português.
Vejamos alguns outros exemplos para compreendermos melhor e notemos simultaneamente que a frase portuguesa só excepcionalmente será mais curta que a inglesa; tende mesmo a ser mais longa (a já aludida diferença noutros posts entre línguas sintéticas e analíticas):
1. He was bailed out. – (sabemos que bail é fiança e que to bail é afiançar; tomamos a preposição out como o verbo português, enquanto o verbo inglês será a nossa "maneira como", i.e. o advérbio). Assim, teremos: Ele foi libertado mediante o pagamento de uma fiança.
2. Dogs sniff out the foxes. – Os cães, graças ao seu faro, fazem as raposas sair das tocas.
3. Compare-se com the dogs dig the foxes out – Os cães põem-se a escavar junto às tocas e fazem as raposas sair cá para fora.
4. The game was rained off. – O jogo foi adiado devido à chuva. (a preposição off que conhecemos de to put off - "adiar", funciona como verbo português, enquanto o verbo inglês to rain nos diz porquê - a noção adverbial).
5. Lisbon trams are being phased out. - Os eléctricos de Lisboa estão a desaparecer gradualmente (por fases).
6. During the Spanish war, many tons of coffee were smuggled out of Portugal. (sabendo que smuggle é contrabando, é fácil começar pela preposição e depois pegar no verbo inglês como advérbio) – Durante a guerra de Espanha, houve muitas toneladas de café que saíram de Portugal por meio de contrabando.
É claro que ao aplicarmos esta técnica na tradução de inglês para português, por exemplo num artigo de jornal ou num livro, estamos simultaneamente a alimentar o nosso cérebro com a forma inglesa, pelo que depois, ao falarmos ou escrevermos esta língua, teremos a saudável tendência para estruturarmos as frases à correcta maneira inglesa.
Alguns exemplos mais, só para prática:
1. In China, at least 86 casinos have been forced out of business.
2. The police clubbed the insurgents down.
3. The former Prime Minister was gunned down.
4. Most analysts rule out an abrupt about-face in Brasília.
5. Stock-market investors dip in and dip out.
Faço notar que nunca vi este tema abordado em nenhum livro ou artigo. Contudo, ele é de grande utilidade, facilita o trabalho do tradutor e, ao mesmo tempo, abre outras portas.
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