5/11/2008

Optimismo em questão

Cada vez sinto mais que um optimista não é tanto o indivíduo que avança com resultados favoráveis para algo que está ainda para acontecer, mas antes aquele que, olhando para trás para as suas memórias do mundo, automaticamente escolhe os momentos ou episódios positivos e bons, linearmente ignorando os negativos.

5/08/2008

Certificados de aforro (da notícia à prática)

Dado que os vencimentos dos juros dos certificados de aforro são trimestrais, foi só agora no mês de Maio que cada um pôde ver concretamente quanto é que a medida tomada unilateralmente pelo Estado veio a custar ao seu bolso de aforrador. Considerando uma conta certa, quem recebia € 1000 de juros passa a receber € 827. São €173 euros de diferença, que voam injustamente do seu bolso para os cofres do Estado. Quando os juros estiveram baixíssimos (em 1999, 2000, 2001), os aforradores também suportaram essa baixa.
Embora entenda que o Estado não devesse manter um sistema que beneficiava mais o aforrador do que a maioria de outras aplicações, creio que teria sido de toda a justiça não mexer nas contas dos actuais aforradores, a não ser que tivessem excedido um determinado montante máximo - o que deve ter sido o caso de várias aplicações bancárias. Quanto à criação de certificados da Série C e cessação de emissões da Série B, nada tenho a opor.
Esta medida estatal tem decerto efeitos práticos na melhoria das finanças públicas mas (1) constitui um verdadeiro desincentivo à poupança e (2) mostra que, afinal, mesmo sem causas exógenas, as aplicações em fundos da Junta de Crédito Público têm um grau de risco considerável.

5/07/2008

Mais ou menos subrepticiamente, cá vão entrando

Como professor de inglês, enderecei regularmente aos meus alunos vários avisos à sua navegação linguística, na medida em que há palavras que parecem ser uma coisa e de facto são outra. O curioso é que vários desses termos ingleses (anglo-americanos) que há anos eu ensinava como falsos amigos acabaram por entrar na nossa língua, mais ou menos subrepticiamente. O qualificativo dramatic é um bom exemplo. Eu costumava alertar para o facto de que dramatic não correspondia ao significado português de "dramático" mas sim ao de "brusco"ou "repentino", e ainda de "excitante" ou "movimentado". Ora bem! Hoje lemos com frequência nos jornais que se registou “uma subida dramática das acções da bolsa”.
Energetic era outra dessa centena ou mais de palavras que podem confundir os portugueses. Por meu lado, explicava que em inglês não se dizia "energic", como os alunos poderiam esperar, mas sim energetic (activo, enérgico, determinado). Pois bem! Presentemente, já oiço dizer “ela é muito energética”.
Global, por ser igual graficamente à palavra portuguesa “global”, poderia levar os alunos a pensar que o significado era idêntico quando isso não corresponde à verdade, como por exemplo em "uma apreciação global", que é an overall appraisal. Actualmente, o inglês global substituiu o português "mundial" em casos que todos conhecemos, como "à escala global".
"Afluente" costumava usar-se em português para um rio que desagua num outro maior. Este significado mantém-se, mas já oiço e vejo muitas vezes o termo "tributário" (do inglês tributary) para o mesmo efeito; por outro lado, "afluente", quando usado como qualificativo, passou a ter o significado do adjectivo inglês affluent, como vemos em affluent society (sociedade afluente, i.e. abastada, rica).
A expressão portuguesa "deitada abaixo" ou "de rastos" está a ser gradualmente complementada com uma tradução directa do inglês devastated, como se vê no exemplo "a coitada da Francisca deve estar devastada".
Uma tarifa que é igual para todos os casos seria normalmente em português "uma tarifa única". Pasme-se: como os ingleses e americanos usam flat rate, que tem este mesmo significado, em português já há muito que vejo "tarifa plana" e "taxa plana".
Também "bilião" é palavra que se usa cada vez menos em português devido a diferenças na palavra billion entre o Reino Unido (= um milhão de milhões) e os EUA (= mil milhões). Agora costumamos usar "mil milhões", o que acaba por se justificar para evitar graves erros numéricos.
Eventually, que significa "por fim", "acabar por", ainda não encontrou até agora paralelo no "eventualmente" português, mas não é impossível que seja uma das nossas próximas aquisições.
Uma palavra que já começa a fazer carreira nas nossas veredas linguísticas é "expatriado". No domingo passado, alguém que falava comigo sobre Angola contava-me que um amigo seu tinha ido morar para lá: "Mesmo para os expatriados a vida não é fácil. Ele demora cerca de três horas a percorrer o caminho (12 km.) de casa até ao centro de Luanda, onde trabalha." Dantes dizíamos sempre "emigrantes", mas é um facto que os americanos falam de expatriates ou, na forma abreviada, de expats.
To be supposed, que tem vários significados, v.g. "dever" e "esperar-se que" entrou também já há muito na língua portuguesa em tradução directa, o que faz com que digamos com a maior das naturalidades que "não somos supostos revelar os termos da nossa conversa com o presidente".
Por influência do you inglês, que em muitos casos corresponde ao nosso "nós" e a "se" no significado de "a gente", hoje dizemos muito vulgarmente "na Índia, tu/você entras/entra numa loja e és/é imediatamente abordado por um empregado". Há uns anos dir-se-ia "Na Índia entra-se numa loja e..." ou "a gente entra numa loja e..." Estas duas formas ainda hoje se empregam, mas a outra não era comum.
Mesmo em matéria de interjeições, oops! entrou definitivamente no nosso vocabulário (às vezes escreve-se "ups") e já ouvi muito ouch! em vez de "ai!" ou "ui!". Quanto a wow!, então nem se fala.
Para não prolongar muito estes exemplos, terminemos com o yeah!, que se tornou normal em afirmativas. Curiosamente, por razões eufónicas, se o yeah é seguido por outra palavra não se diz "yeah, pá", mas sim "yeah, meu" ou outra coisa qualquer. Ainda neste domínio, é interessante notar que a resposta portuguesa a uma pergunta que dantes usava geralmente o verbo da própria pergunta, v.g. "Podes fazer isso amanhã?" "Posso.", hoje transformou-se frequentemente em "Sim!", à maneira inglesa, v.g. "Vais amanhã para o Porto?" "Sim!".
Considero absolutamente normal o que está a suceder ao português-língua-viva. Em sociedades dinâmicas, a língua, como fenómeno social, é normalmente alvo de alterações e variantes como estas. Aliás, é assim que as línguas se vão formando ao longo dos séculos e dos contactos com outras culturas.
Entretanto há uma notícia bastante curiosa que não resisto a incluir aqui sobre o pragmatismo inglês e que mostra que Napoleão tinha razão quando dizia que para os ingleses os negócios estão acima de tudo. Considerando que o inglês se tornou indubitavelmente a lingua franca dos nossos dias à escala mundial, muitos negócios são tratados em língua inglesa. Com isso, os negociantes cuja língua materna não seja o inglês estão em clara desvantagem. Esta desvantagem é ainda mais acentuada sempre que, por exemplo em conversa durante um jantar, o inglês/americano/australiano usa expressões claramente idiomáticas, que geralmente não estão ao alcance de um estrangeiro, por muito razoavelmente que este domine a língua. Torna-se óbvio que o uso desse tipo de expressões não cai bem aos empresários que não são de língua inglesa na medida em que os coloca numa base de inferioridade relativa. Esse facto pode levá-los mesmo a preferir outros parceiros comerciais, mais simples e acessíveis na sua linguagem. É aqui que surge em Londres a Canning School, que prepara executivos na utilização de um conjunto de expressões que são mais compreensíveis para estrangeiros do que as suas frases mais coloquiais. Business is business. Assim, em vez de put off dever-se-á usar postpone, no lugar de pull out all the stops dir-se-á make every possible effort, educate será preferido a bring up, etc. Ao todo, são cerca de 1500 palavras e expressões coloquiais inglesas que devem ser deixadas para trás nas negociações. Pragmatismo acima de tudo. Cunning school, right?

5/03/2008

Adeus, Pinóquio!

Ao entrevistar seis alunos que obtiveram este ano os melhores resultados do 1º Semestre de uma determinada escola superior, fui questionado por eles sobre a maneira como chegara aos seus nomes. Expliquei-lhes que fizera um estudo e elaborara um relatório com as conclusões desse mesmo estudo para os órgãos directivos. Mostrei-lhe o documento de 65 páginas que tinha na mão. "Esse relatório está disponível para nós?", perguntaram-me. Respondi-lhes que não. O estudo tinha sido feito motu proprio com determinados destinatários em vista, e era portanto a eles que se destinava. "E por que razão é que não lhe temos acesso, se é sobre a escola?" Lembrei-lhes que há diferentes graus na comunicação. Por exemplo, numa empresa, há um grupo muito restrito de pessoas que tem acesso a toda a informação, mesmo a mais confidencial, há um segundo grupo mais alargado que pode consultar outro tipo de informação e existe, por exemplo, o site da empresa, onde a informação é disponibilizada a todos. Forneci-lhes, entretanto, alguns dados do relatório sobre os quais me perguntaram e que não havia qualquer problema em revelar.
Esta é parte de uma aprendizagem que fazemos - e praticamos - ao longo da vida. O que dizemos a B sobre C é por vezes algo diferente daquilo que dizemos a C. Compreensivelmente, diga-se. Há verdades demasiado cruas que nada ganham em ser ditas a determinadas pessoas. A questão que se põe é muitas vezes de tacto ou de educação. Entretanto, se houver problemas a resolver, é importante que eles sejam apresentados a quem tem poder para lhes dar uma resolução conveniente. Ventilá-los por todo o lado só pode agravá-los, e o nosso objectivo nº 1 é que eles sejam debelados e não alastrados.
Será isto fazer censura? É possível, mas de qualquer forma será censura não censurável - de facto, altamente recomendável até.
Mentir, como é? Conheci alguém que foi um verdadeiro mestre na arte de mentir. Nunca o intitularia de mentiroso, porém. Era - já faleceu - um homem sério, culto, possuidor de numerosos valores que por vezes cultivava e, noutros casos, preferia deixar de lado. Era aí que ele mentia. Mas mentia com tal convencimento que seria difícil descortinar que ele passava ao lado da verdade. Mais: se alguém dissesse à plateia que o escutava que naquele ponto ele estava a mentir, quase de certeza que os ouvintes diriam que ele a mentir não estava: quando muito, estaria mal informado.
O canadiano Marshall McLuhan expressou bem casos como este: "O homem mediaticamente bem sucedido é aquele que consegue fazer passar aos espectadores como sincera uma mensagem em que ele próprio não acredita."
Há dias li no Público uma entrevista com Paul Ekman, professor de Psicologia na Universidade da Califórnia, em que ele é peremptório: "Ninguém votaria num político que não fosse capaz de mentir." Diz mais: "É difícil apanhar um político a mentir. Porquê? Porque ele não se sente culpado." Conclui o seu raciocínio: "O problema dos líderes políticos é que eles lidam com os outros numa lógica de negociação e regateio. Ora, com vista a obter o melhor acordo, nem sempre podem dizer a verdade quando estão a negociar. E, mesmo quando se dirigem aos eleitores do seu país, se disserem toda a verdade, é um facto que também a estão a revelar aos partidos da oposição. Logo..."
Este é um posicionamento que me lembra uma carta ao director que há tempos li: "Os governantes têm o direito e o dever de mudar de opinião em função dos acontecimentos exteriores ao Governo e da forma como melhor pensam servir os interesses dos portugueses. Aliás, o mesmo se passa com os responsáveis das empresas de sucesso, que não podem seguir políticas rígidas, antes têm de estar prontos a reagir à envolvente exterior."
Adeus, Pinóquio!

Lógica democrática

Há tempos, em conversa com alguém que foi ministro deste país, falei-lhe de uma coisa que, salvo erro, já abordei neste lugar uma vez: a discordância que se nota frequentemente entre o preâmbulo de um documento legal e o respectivo articulado. "Ingenuidade a sua", disse-me ele. "Você ainda não entendeu bem como é que a democracia funciona. De facto, a coisa passa-se mais ou menos assim: quando há problemas orçamentais ou determinadas pressões, sejam elas nacionais ou de origem estrangeira, preparamos um documento legal para acudir ao que é necessário fazer. O preâmbulo é fundamental, embora seja uma fachada em muitos casos, pois há coisas que não se podem dizer. Convém, portanto, que exista alguma elevação no teor desse preâmbulo, o qual deve falar em qualidade disto e daquilo e mencionar várias facetas socialmente nobres, fornecendo assim uma justificação que reunirá um consenso bastante alargado relativamente às medidas que vão ser prescritas a seguir. Quando o articulado está algo desfasado do preâmbulo é porque existiram a posteriori – mas também podem ter surgido a priori – interesses vários que se impuseram e que obrigaram o ministério em questão a fazer aqui e ali um tour de force. O sistema democrático tem de respeitar os eleitores, ou pelo menos alguns deles, e como tal aparecem alterações que se tornam necessárias. Mas quanto ao preâmbulo, só excepcionalmente é que ele é objecto de emendas."
Fala quem sabe.