7/10/2008

Enigma


Quem sugere uma solução para o enigma desta foto? Passei no domingo numa rua de Lisboa perto da Praça de Arroios e encontrei este letreiro que me intrigou. Igreja cristã ou cabeleireiro? Coexistência pacífica?

7/08/2008

Não matei!

Por mero acaso, estive no outro dia com um indivíduo beirão com quem já tinha estado uma vez. A certa altura, da sala do 2º andar onde nos encontrávamos vi-o atirar pela janela fora (para o quintal que fica na parte de baixo) o cigarro que ele tinha estado a fumar. Lembrei-lhe que o cigarro aceso podia acertar nalguma pessoa ou num cão. "Se for num cão, não faz mal." A dureza do discurso impressionou-me - estamos num tempo em que falar contra os animais se tornou altamente incorrecto.
Ele explicou-me que não era tanto assim. Tinha um ódio tremendo a gatos e cães. Desde miúdo. Contou-me então a vez em que, gaiato ainda, tinha ido trabalhar para o campo com a mãe. À hora do almoço, não encontrou a sopa que levara no farnel exactamente intacta. Nem dava para meia tijela. "O gato andou por aí", disse-lhe a mãe. "Se calhar foi-te à sopa." Com a fome a apertar e o odiozinho aos bichos a martirizá-lo, o puto não esperou muito. Apanhando a mãe distraída a trabalhar, agarrou numa corda, filou o gato e enforcou-o. Assim! "Para que servem os gatos? Aquilo é bicho que não interessa!"
Se essa era uma história antiga, agora que o indivíduo já é quase avô, tinha entretanto uma outra fresquinha para contar. "Este fim-de-semana fui à terra por causa de uns terrenos que lá tenho e uma hortinha. Então não é que apanhei quatro cães a darem-me cabo das cebolas e do tomate que eu tinha plantado! Espojados a dormir e a esborrachar-me aquilo tudo, que me custou uma nota!" Perguntei-lhe de quem eram os cães. "Ninguém me disse quem era o dono. Mas hoje já não estão cá." "Não me diga que você os enforcou como fez ao gato quando era miúdo?" "Não. Não matei os cães. Eles é que foram gulosos! Foram comer o frango que eu tinha cozinhado com uma boa dose do produto que usamos nos terrenos. Garanto-lhe que nunca mais vão às cebolas nem a mais nada. Foi remédio santo!"
Santo é que o homem não é, caramba!

7/06/2008

TGV em risco de descarrilar antes de partir

Depois de Luís Campos e Cunha, o primeiro ministro das Finanças do Governo de Sócrates, ter manifestado as suas dúvidas quanto à bondade do projecto TGV, é agora a vez de Cavaco Silva levantar algumas questões quanto às mais-valias do projecto face aos seus elevados custos e à actual situação difícil das finanças nacionais, as quais não serão favorecidas por maiores endividamentos do país. Tanto Campos e Cunha como Cavaco Silva são indubitavelmente mais conhecedores da área de finanças do que Sócrates. Este, no início do seu mandato e perante as objecções de Campos e Cunha, não aceitou a sua continuação no Governo e substituiu-o por Teixeira dos Santos. Só que Cavaco Silva não é membro do Governo, mas sim o Presidente da República...

7/02/2008

Cereal killer


Este é um cartoon notável (o título é meu e a reprodução directa do jornal foi o melhor que consegui arranjar) publicado há umas semanas no Público. A autoria - conhece-se bem o traço - só podia ser do Luís Afonso. Pela oportunidade do "boneco" e poder de síntese-que-diz-tudo, os meus parabéns através do azweblog ao Luís Afonso.

7/01/2008

Os peseteros

Diga-se o que se disser, muitas pessoas da minha geração ainda consideram importante o "amor à camisola", a fidelidade à empresa e à família. Pode ser que não cumpram a cem por cento, mas existe um sentimento enraizado de que é assim que deve ser. Gerações mais novas tendem a pensar de maneira diferente: mais no sentido de aproveitar as oportunidades que surgem, uma vez que elas podem não se repetir.
Como é sabido, antigamente um ciclista que do Benfica passasse para o Sporting ou vice-versa era apodado de “traidor”. Vendia-se por uns parcos dinheiros, à maneira de Judas. O mesmo se passava com jogadores de futebol. Não era imaginável que o benfiquista Eusébio passasse para o Porto ou para o Sporting, ou que o sportinguista Travassos se transferisse para um clube rival.
Gradualmente, porém, o dinheiro começou a falar mais alto. Os leilões a ver quem dava mais passaram a ser correntes. Clubes apodados de bem geridos transformaram-se em entrepostos de venda, sempre na mira de comprarem barato para venderem caro. Recentemente, no campeonato europeu verificou-se que a selecção portuguesa era das mais valiosas - era conhecido o preço por que tinham sido vendidos a clubes estrangeiros muitos dos jogadores que nela alinhavam.
Sempre defenderei a liberdade e, portanto não posso em consciência opor-me a mudanças. Cada um é livre de escolher o que considera ser melhor para si, sendo naturalmente responsável pelos seus actos. E admito, naturalmente, que questões de dignidade pessoal, problemas familiares ou de saúde podem estar na base de mudanças mais do que justificadas.
Apesar de tudo, há situações que continuam a doer aos formatados em fidelidade. Citarei três casos bem nossos conhecidos. Por um lado, a transferência de Figo do Barcelona, onde era idolatrado e ganhava bom dinheiro, para o grande rival espanhol de Madrid. Já foi há uns anos, mas constituiu uma verdadeira ofensa para os catalães, que até lhe tinham dado a honra de capitanear a equipa. Mais: o clube madrileno ficou com toda a razão para pensar que o mesmo lhe poderia suceder a si relativamente ao dito jogador se aparecesse outra proposta mais elevada.
Scolari, treinador da selecção portuguesa, é um outro caso. Para o bem e para o mal, desenvolveu-se uma mística entre o homem e o nosso país. Vê-lo abandonar por meras (?) razões monetárias não caiu bem. Isto digo eu, mas muitos não concordarão comigo. A sua dificuldade em línguas vai possivelmente causar-lhe grandes problemas e portanto ele abre até a hipótese de regressar um dia. Eu nunca o receberia.
O terceiro caso é o de Cristiano Ronaldo, o menino-bonito do Manchester. Depois de receber mil prodigalidades do clube onde se fez um grande jogador à escala mundial, disse-se pronto a trocar o clube inglês pelo Real Madrid. Pesetero, como Figo.
Entretanto, não esqueçamos que mesmo no mundo do futebol bem pago ainda existem alguns fiéis. Agora durante o Euro sensacionalmente ganho pela Espanha sobressaiu Xavi, um jogador que entrou para o Barcelona aos 11 anos. Recusou pelo menos por duas vezes sair do seu clube. Em ambas foi convidado por José Mourinho, primeiro para o Chelsea, agora para o Inter. Em ambos os casos declinou o convite. É, evidentemente, um símbolo emblemático do Barcelona, tal como foi Guardiola, que vai ser o novo treinador da equipa e jogou no clube juntamente com Figo.
Apesar das notáveis e saborosas excepções como estas de Xavi e Guardiola, os valores máximos que contam hoje em dia parecem ser os da conta bancária. Os outros são subalternizados. É uma evolução sociologicamente interessante. É sintomático que uns a aceitem sem quaisquer problemas de consciência e outros a reprovem, admitindo apenas que se trata de um sinal dos tempos.