7/21/2009

Quando o -s final português tem uma conotação específica

Começo por dizer que nunca encontrei este assunto abordado em nenhuma gramática da língua portuguesa. No entanto, tenho também de confessar que estou muito longe de ter consultado todas as gramáticas existentes.
O que vou aflorar em seguida não é uma regra, mas estou convencido de que constitui uma tendência muito acentuada da língua portuguesa. Se eu falo de um gira-discos, de um amola-tesouras ou de um abre-latas, estou a usar substantivos que terminam em –s apesar de estarem na sua forma singular. Que "um", artigo indefinido singular, venha seguido de um singular terminado em -s, nada tem de anómalo (os vocábulos "lápis" e "cútis" também terminam em –s no singular). Aliás, um gira-discos é uma simplificação de "aparelho que faz os discos girar", da mesma maneira que "um amola-tesouras" expressa "um indivíduo que amola tesouras" e um abre-latas traduz "um utensílio para abrir latas". É por isso que o hífen existe tanto em gira-discos como em amola-tesouras e em abre-latas. Estas palavras não têm qualquer conotação, negativa ou positiva. São objectivas.
Contudo, existem na nossa língua numerosas palavras que no singular terminam em –s e possuem por vezes uma forte conotação negativa. Tanto quanto me lembro, nunca aprendemos isto na escola, mas começamos a entender o processo quando ouvimos determinadas palavras e nos apercebemos da sua conotação. Posteriormente, podemos ser nós próprios os promotores de novos vocábulos, criativos e perfeitamente explícitos, i.e. imediatamente compreensíveis à vista ou ao ouvido de qualquer pessoa.

Lancemos uma mirada sobre duas dezenas de termos comuns:

Um choramingas
Um queixinhas
Um cobardolas
Um borrabotas
Um medricas
Um maricas
Um larilas
Um panilas
Um piegas
Um merdas
Um troca-tintas
Um arolas
Um vira-casacas
Um lambe-botas
Um lambe-cus
Um artolas
Um vira-latas
Um lamechas
Um lambe-pratos
Um tira-dentes

Em cada uma destas linhas encontramos um certo desvio do padrão normal que rege a língua portuguesa. Esse desvio consiste no facto de "um" ser um artigo indefinido singular e de o substantivo que se lhe segue terminar em –s, que é característico da formação de plurais. Se constituir uma certa anomalia, por que razão existirá? Que significado tem?
Embora não seja talvez importante dizê-lo, creio que esta inconsistência relativamente ao português-padrão é tomada subconscientemente mas é, por outro lado, suficientemente expressiva para ser de pronto aceite pela comunidade linguística.
Na mesma medida em que estas palavras constituem um desvio, também existe um desvio em todos estes substantivos qualificativos, cheios de expressividade, relativamente a um padrão convencional do ponto de vista da sociedade que utiliza o idioma.
Sociologicamente, estes substantivos aplicam-se a modelos que não são na generalidade dignos de admiração e, pelo contrário, são objecto por parte do núcleo duro da sociedade de um certo desprezo, uma reprovação que pode ser maior ou menor, mais ou menos ridícula ou com laivos de sátira. Esses modelos, representados por indivíduos e pelos seus comportamentos, existem na sociedade, mas são, pelo menos parcialmente, vistos como uma aberração quando postados em confronto com um paradigma imaginado e desejável.
Analisemos os casos um pouco mais em pormenor.
Todos temos a noção de que a generalidade da sociedade admira os homens valentes, possuidores de coragem para enfrentar situações difíceis e perigosas. O homem que não consegue ser assim denota medo ou constitui um desvio para um ser efeminado. Daqui advêm termos como "o medricas", "o maricas", "o borrabotas" e "o cobardolas". "O piegas", "o choramingas" e "o queixinhas" entram também neste grupo (todos terminados em -s). Daqui sobressai a admiração social pelo estoicismo, pelo aguentar a dor sem chorar, a tortura, se preciso for, sem revelar nomes de outrem.
A sociedade repudia de uma maneira geral os desvios ao padrão normal de relacionamento sexual entre homem e mulher. Esses desvios são punidos por vocábulos cuja formação igualmente terminada em –s denuncia o estigma aposto. Assim, falamos de "um larilas", "um maricas", "um panilas".
A sociedade admira igualmente os indivíduos íntegros, que se revelam consistentes no seu comportamento e são merecedores da nossa confiança. Os outros são classificados de maneira diferente. São "troca-tintas", "vira-casacas", "lambe-botas" ou, com maior agressividade, "lambe-cus".
Se um dentista é apodado de "tira-dentes", não o estamos exactamente a elogiar.
Se alguém que gosta de comer muito é apodado de "lambe-pratos", não o consideramos um gourmet, antes vemo-lo como um comilão desenfreado que rapa tudo.
"Um lamechas", com as suas lamechices, é mais um untador amoroso do que um pinga-amor.
Um cão rafeiro, que tem de procurar por si comida onde a encontrar, é "um vira-latas".
Um indivíduo que genericamente não presta é "um merdas".
Um indivíduo que usa barba e que não respeitamos muito ou mesmo despeitamos pode passar a ser "o barbas", se usar uma pêra passará a ser "o pêras", se for senhor de um notório bigode passará possivelmente a ser "o bigodes".
Da mesma maneira, alguém que tem necessidade de corrigir a vista com lentes será, depreciativamente, chamado "caixa d’óculos" ou, com um tom mais amigo mas jocoso, "o vidrinhos". Repare-se que todos estes qualificativos mais ou menos depreciativos terminam em –s.
Em termos práticos, se eu quiser criar palavras mais ou menos satíricas, ofensivas ou desprestigiantes para as pessoas a quem elas se aplicam, por vezes com laivos de comicidade, tenho apenas de arranjar vocábulos comuns apropriados e juntar-lhes um –s. Assim, se eu estiver a falar de um larápio e lhe chamar "o mãozinhas", toda a gente entenderá imediatamente. As alcunhas também se fazem assim. Se quiser referir-me a um indivíduo que fala muito e pelo meio diz coisas inconvenientes, posso chamar-lhe "o bocas". Se quiser ridicularizar um orelhudo, chamo-lhe "o orelhas". Se quiser criticar um governante por ele prometer muito e realizar pouco, chamo-lhe "o promessas".
Afinal, não era também nesta linha que Oliveira Salazar era apodado de "o Botas"? De resto, ele tinha ainda uma outra designação deste tipo que derivava do facto de a imprensa nunca anunciar, por razões de segurança, que Sua Excelência se ia deslocar a uma determinada cidade, por exemplo, Coimbra. Só no dia seguinte é que os jornais informavam: "O Senhor Presidente do Conselho esteve ontem em Coimbra." Nesta base, que nome foi arranjado para ele pela oposição? O "Esteves". (Hermann José usou mais tarde este nome, que para muitas pessoas significava alguma coisa que dava vontade de rir,sob uma outra vertente. Mais uma vez, encontramos aqui o –s a finalizar uma palavra singular e a conferir-lhe um significado muito especial.)
Para demonstrar a veracidade desta constatação pelo seu oposto, tomemos duas palavras semelhantes a várias outras que se encontram listadas acima: "mariola" e "carola". Dizer "um mariolas" não é vulgar porque a palavra acaba por ter uma conotação mais terna do que de reprovação. "Saíste-me um bom mariola!" é uma graça, diz-se com um sorriso e é como tal aceite.
Quanto a "carola", repare-se no exemplo "Se não fosse o carola do Sr. Carlos, o nosso clube já não existia." "O carolas", que não se usa, emprestaria ao Sr. Carlos uma conotação negativa quando aquilo que se pretendia era elogiá-lo. A língua estaria em contradição com o sentido que queria expressar, logo a comunidade não aceitaria, como não aceitou, o termo "carolas".
Quod erat demonstrandum.

7/20/2009

Pegando numa notícia

Tal como tem acontecido em milhentas outras circunstâncias, uma pequena notícia de há dias mostra o gato escondido com o rabo de fora. Neste caso, no sector financeiro internacional.
Como todos tivemos ocasião de ouvir, ler e ver nos diversos meios de comunicação, a crise actual é o resultado de vários agentes e factores, entre os quais avulta o abismo existente entre a economia real do planeta e as massas financeiras que atravessam este mesmo planeta em que vivemos. A proporção mais consensualmente aventada é da ordem de 3 para 1. Este diferencial foi gradualmente causando um enorme desfasamento que, por sua vez, esteve na origem de uma bolha que acabou por rebentar com estrondo.
Conceitos queridos aos conservadores neo-liberais como liberalização, desregulação e desregulamentação estiveram entre os grandes culpados. Choveram entretanto vozes de governantes, apavorados perante a queda da economia e aumento em espiral da taxa de desemprego nos seus próprios países, clamando por maior controlo e por regulação muito mais apertada.
Entre os instrumentos financeiros mais comummente usados pelas grandes fortunas estiveram os hedge funds, fundos que não passam pela bolsa e movimentam massas de dinheiro tão vultosas que podem provocar verdadeiros tsunamis em bolsas ou em multinacionais, como aliás já sucedeu. Os dinheiros colocados nesses hedge funds provêm geralmente de contas offshore que os seus detentores manejam a seu bel-prazer, elidindo do Estado os respectivos valores sujeitos a impostos e defraudando a sociedade a que pertencem por nacionalidade.
Ora bem! Já com bem mais de um ano de crise, com os problemas de emprego que se conhecem e as óbvias dificuldades estatais para manter intocado o sistema de Segurança Social – de onde há mais saídas devidos a subsídios aos desempregados e menos entradas em razão de uma economia débil e do facto de os grandes dinheiros estarem offshorizados – o panorama pareceria óptimo para uma profunda revolução do sistema. Puro engano! Os grandes agentes e causadores da crise mantêm-se, embora com um nível de riqueza substancialmente mais baixo. O seu poder permanece intacto a muitos níveis – superando o poder político, que eles financiam. Assim sendo, a questão que se coloca não é a de abandonarem o sistema, mas sim de procurarem desregulá-lo cada vez mais. Se a Segurança Social cai, eles lá estarão para atrair as maiores deduções para reformas. A pergunta que chegou a ser feita "Será o fim do capitalismo?" tem uma resposta em certa medida surpreendente: "Pelo contrário!"
Vamos por partes.

1.Vale mais ser grande ou ser pequeno? – Com excepções sem grande significado, a resposta inquestionável é "ser grande". Assim, pensemos em grandes bancos, grandes fundos, grandes multinacionais, grandes empresas, grandes PIBs, etc.

2.As empresas maiores preferem trabalhar a uma escala nacional ou mundial? A resposta certa é "mundial ou global". O "nacional", "pátrio", recua perante tudo o resto. A palavra "patriota" é quase tabu. Países explorados ou mesmo militarmente invadidos vêem os seus patriotas ser apodados de "insurrectos", "revoltosos" ou "terroristas". O ponto de vista é sempre o dos grandes, que controlam os media.

3.O desemprego nacional, em grande parte causado pela procura de mão-de-obra mais barata noutras paragens como a China, Índia, Indonésia e México, não preocupa as grandes companhias? Porque haveria de preocupar? Elas até agradecem. Despedem trabalhadores efectivos colectivamente e desandam para outros lados. Usando a palavra-chave do mundo empresarial do neo-liberalismo: desinstalam-se. Noutros casos, despedem uns tantos empregados apenas para talvez os readmitir mais tarde com a ajuda de subsídios estatais, que os governantes mais cedo ou mais tarde terão de conceder para que o seu próprio lugar no governo não fique em perigo.

4. E os salários? Não só serão mais baixos, como também o vínculo que prende os trabalhadores à empresa tenderá a deixar de ser o de efectividade. O empregado chamará a isto precariedade. Na óptica do empregador, o esquema não significa mais do que externalizar serviços. Vulgo outsourcing. Assim, a firma, que deve estar sempre pronta a encarar a hipótese de ser vendida – faz parte do conceito de "desinstalação" – torna-se mais apetecível para o comprador, que estará disposto a pagar mais. Grande parte do trabalho de casa já está feito.

5.As offshores mantêm-se? Como já foi referido, os governantes e até, saúde-se, o Papa estão contra a existência desses centros financeiros semi-secretos. Eles são o cerne de todo o sistema. São o local onde os grandes lucros obtidos com as operações de globalização – e também com branqueamento de capitais de operações ilícitas – se eximem de impostos devidos aos Estados nacionais. Enquanto as offshores se mantiverem, não haverá qualquer mudança substancial no sistema. Pelo contrário, este tenderá a agravar-se, do ponto de vista do cidadão comum.

6.Qual é a posição dos Estados e seus respectivos governos? Muitos dos Estados já não estão isolados, unidos que foram por diversos tratados a fim de ganharem maior dimensão, como é o caso da União Europeia. A NAFTA, o Mercosur e outras associações de países lutam pela união-que-faz-a-força. Todos querem ser grandes para aumentar o seu poder e fazer economias de escala. Individualmente, cada Estado tem os seus governantes, que se verão obrigados a melhorar os países que estão a gerir sob pena de perderem a popularidade e, com ela, o lugar. Com a descapitalização do Estado devido ao abrandamento da economia e à consequente diminuição de receitas, agravada pela evasão fiscal efectuada através dos offshores, os governantes nacionais debatem-se com sérios problemas. Como é visível neste momento.

7.O capitalismo neo-liberal manter-se-á? Nada é garantido, mas (quase) tudo, surpreendentemente, parece indicar isso mesmo. Barack Obama está a tentar uma verdadeira revolução nos Estados Unidos e também a nível internacional, mas é infelizmente duvidoso que seja cem por cento bem-sucedido face a forças tão poderosas do mundo do capital. Apetece-me recordar uma reflexão irónica do já falecido economista J. K. Galbraith: "No sistema capitalista, o homem explora o homem. No sistema comunista é o contrário."

8.Então e qual é agora a pequena notícia que terá dado azo a estas linhas?A notícia informa que os responsáveis da Euronext (bolsas de valores de Portugal, França, Bélgica e Holanda) consideram que as Multilateral Trading Facilities (MTF) – plataformas alternativas de transacção de acções – estão a fazer concorrência desleal. As MTF não são regulamentadas e possuem uma estrutura muito mais leve por não fazerem os investimentos a que as outras bolsas são obrigadas, o que se reflecte nos preços. Estas plataformas captam já cerca de 20 por cento, com tendência para aumentar, do total da liquidez gerada pelas bolsas convencionais. Como o preço das acções não se determina nestas plataformas mas sim nas bolsas regulamentadas, a partir do momento em que a liquidez se vai fazendo fora há o risco de o preço não se formar de uma maneira correcta, o que é gravíssimo para os fundamentos do mercado. Quem fica a ganhar são as grandes casas de investimento que, aliás, são os accionistas destas plataformas alternativas, e os hedge funds, que privilegiam a utilização das MTF.

Quod erat demonstrandum.

7/16/2009

Pergunta a quem me souber responder

Até quando é que Alberto João Jardim vai continuar a dizer as enormidades que diz, sem que alguém ponha cobro aos seus desmandos?!

7/14/2009

Pode a liberdade oprimir?


Acha bem aquilo que vê na foto? Como se trata obviamente de algo encenado, é possível que a sua reacção não seja forçosamente negativa, mas imagine que havia combates deste tipo entre pequeníssimos Davides que podem a todo o momento ser arremessados para fora das cordas do ringue pelos poderosos Golias, que têm muitas vezes o seu peso. O que pensaria?
Este slide pretende apenas ilustrar uma das minhas citações favoritas: "Entre o forte e o fraco é a liberdade que oprime e a lei que liberta." Apesar do aparente paradoxo de a liberdade poder oprimir, felizmente para o pequeno David a lei não permite que haja combates entre pessoas com diferenças tão notórias em matéria de peso, de idade e, no geral, de compleição física. Se fosse apenas o mais forte a decidir, ele possivelmente não hesitaria em lutar contra o pequenote, arranjando até talvez o argumento de que primeiro tinha sido provocado por ele. Mas como a lei não consente que tal se faça, se o grandalhão se sentir incomodado com a presença do pequeno, procurará outras maneiras de eliminar o seu potencial adversário. Por exemplo, conseguindo que a justiça feche os olhos. Por outras palavras, comprará a justiça se esta não for suficientemente forte e isenta.
A nossa sociedade está cheia destes combates. Poderosas multinacionais contra empresas de relativamente pequena dimensão. Grandes fábricas que asfixiam através de política de preços ou outros meios fabriquetas bem menores. Governos autoritários contra cidadãos indefesos. Países militarmente bem apetrechados contra outros pobremente equipados. Hipermercados contra lojecas de bairro.
O.K. E se a lei existir mas não for aplicada ou só se aplicar a uns tantos mais fracos? É aqui que se diz que os mais fortes têm a faca e o queijo na mão. Eles dão o emprego, mas com salários reduzidos e em condições precárias. Eles despedem colectivamente os seus empregados para mais tarde readmitirem alguns graças a subsídios entretanto concedidos pelo Estado para obviar à situação de desemprego. Eles apoiam os políticos governantes que prometem este mundo e o outro, e depois apenas nos trazem à memória a clássica e certeira frase de Friedrich Schlegel: "As promessas de ontem dos políticos são os impostos de hoje."
Este slide serve modestamente para nos fazer lembrar a extraordinária importância da justiça, a sério, na nossa sociedade.

7/13/2009

O que ressalta é o que atrai a malta

Volta e meia, se acho que nas minhas sobrancelhas há alguns pêlos brancos a mais, agarro numa tesoura e zás!, corto uns tantos que estejam mais espigados. Geralmente faço um único corte, porque a experiência me diz que essa é a técnica mais correcta. Faço a operação em frente ao espelho grande da casa de banho e, como seria previsível, os pêlos cortados caem na bacia do lavatório. Algo estranhamente, porém, quando olho para o lavatório o que me salta à vista são os pêlos pretos que vieram juntamente com os brancos no tal corte, efectuado com cuidado mas a eito.
É claro que não há qualquer mistério nem toque de magia no facto de eu ver cabelos pretos e não os brancos que pretendi cortar. No branco da bacia do lavatório sobressaem os pretos porque os brancos se confundem com a cor da bacia.
Creio que é assim também na vida. O que ressalta para nós é aquilo que se opõe à cor natural das nossas ideias e da nossa mente no geral. O que sobressai é aquilo que é diferente e contrastante. O que berra. Tudo o resto tende a passar despercebido. Está lá, mas é como se não estivesse. Desse resto já nada vemos, exactamente como sucede com o facto de eu não encontrar à primeira vista os pêlos brancos que acabei de cortar.
É por este motivo, para dar alguns exemplos, que os estrangeiros que nos visitam nos ensinam inadvertidamente a olhar para objectos e pormenores que, de tão consabidos por nós, nos passam absolutamente despercebidos. É também por isso que o olhar e a mente de um arquitecto, de um engenheiro, de um médico, de um psicólogo, nos podem ensinar muita coisa se não tivermos nós próprios formação naquelas áreas. É ainda por isso que, quando fazemos uma viagem fora do nosso país, os residentes locais estranham por vezes que estejamos a tirar fotografias a algo que para eles nada tem de especial. É igualmente por isso que na cultura dos outros procuramos aqueles pontos que divergem dos nossos, os quais chegamos a criticar e a ridicularizar, em vez de nos concentrarmos nos imensos itens comuns que possuímos mas preferimos ignorar. E afinal, ocorre-me agora, não será esta a mesmíssima razão que dantes levava todo o moleiro que se prezava a ter um cão de cor preta? Pelo menos na minha região de moinhos costumava ser assim: o cão do moleiro era sempre preto, já que a farinha era branca e o cão estava lá para guardar o moinho e não para comer a farinha.
Na próxima vez que aparar as sobrancelhas vou procurar com mais atenção os pêlos brancos que cortei.