10/19/2009

Quando Puxe significa Empurre


Em Penafiel, Saramago insurgiu-se há poucos dias contra a onda de americanismos que, traduzidos ou não, entraram de súbito na língua portuguesa. Ele tem razão. Quem é que diz consola de jogos e não playstation? Quem é que diz eliminatória – que foi palavra usada durante muitos anos – em vez de playoff? E como é que layoff entrou tão rapidamente no nosso vocabulário? Bem, isto daria pano para mangas, mas admito que é assunto que eu próprio já tratei extensamente noutros posts (foi propositadamente que usei a palavra, em vez de textos ou escritos).
Tive oportunidade de encontrar há três ou quatro dias mais um caso interessante de uso da língua inglesa. Foi numa unidade hoteleira onde estive pela primeira vez. Local paradisíaco, no campo, serviço de primeira, é natural que não só os menus estejam em português e em inglês (pelo menos), como também que haja nos corredores e outras dependências os sinais convencionais indicativos de saídas e outras direcções ou então as palavras correspondentes em português e em inglês. Na manhã seguinte à minha chegada, resolvi dar uma mirada à piscina exterior. Desci umas escadas que indicavam o caminho para a swimming pool, abri uma porta e, passados dois minutos ou três, cheguei à dita piscina. Como a temperatura às oito da manhã não estivesse óptima para dar umas braçadas, limitei-me a tirar umas fotografias e regressar. Ao chegar à porta que mostro na foto acima, deparei com uma indicação algo embaraçante: Empurre Puxe. Aí, hesitei. Deveria empurrar a porta ou puxá-la? São movimentos exactamente opostos. Uma segunda mirada fez-me crer no entanto que devia empurrar a porta: não havia maçaneta nem outro puxador. Então, o que estava aquele "Puxe" ali a fazer?
Na recepção confirmaram as minhas suspeitas. Na realidade, o portuguesíssimo "Puxe" pretendia ser o Push inglês, que de facto significa empurrar. O que eu não acredito é que muitos britânicos ou americanos cheguem imediatamente a essa conclusão, mas não deixa de ser curioso querer obrigar estrangeiros a ler as suas próprias palavras através da nossa ortografia.
Enfim, é um pormenorzito, facilmente corrigível. Mais importante foi sem dúvida verificar que, na generalidade, a unidade hoteleira tem todo o conforto que possamos esperar e é servida por pessoas afáveis e competentes.

10/17/2009

Arejando




Uma breve escapada da cidade pode ser extremamente salutar. Em Lisboa, rotinamo-nos por demais em vistas curtas e conversas só aparentemente longas e profundas. Limitados que estamos por ruas e corredores do Metro, encafuados que vivemos em escritórios, centros comerciais, cafés ou bares, esquecemos frequentemente a outra vida que não é assim. Na tradicional província que todos conhecemos, metade rural, metade urbana, o tempo tende a assumir uma outra dimensão, a correria é mais suave, embora muitas das tarefas não sejam menos duras. Respira-se um outro ar. Ao citadino sabe-lhe bem variar e encontrar um outro mundo em que se fala a mesmíssima língua, se ouvem provérbios que por vezes já tínhamos esquecido e, principalmente se vêem usos e costumes que podem parecer de outros idades do tempo. Contudo, o calendário é o mesmo, o ano, o mês e o dia não são diferentes. Nem diferentes são as pessoas. Mas têm outros pontos de vista. Se o hábito faz o monje, também a terra faz a mente.
Na minha curta saída da cidade por três dias, fui dar um pulinho até à Beira Interior. Por um lado, interessava-me rever coisas que já conhecia, por outro estava curioso relativamente a algumas novidades. Nada foi decepcionante, embora nem tudo tivesse agradado, como é natural. O saldo final foi claramente positivo.
Dias depois da realização das eleições para as autarquias, foi um prazer encontrar tantas melhorias na maior parte das povoações que visitei. Democraticamente, a concorrência entre vilas funciona mesmo e faz com que o nível geral de qualidade do equipamento à disposição das populações esteja muito mais elevado do que num passado não muito distante. Estive em Miranda do Corvo, na Lousã, em Góis, Arganil, Côja, Mangualde, Penalva do Castelo e Viseu. Curiosamente, encontrei muitos pontos comuns. Digamos que toda a povoação que se preze possui, para condicionamento do trânsito, um número maior ou menor de rotundas mas, certamente mais interessante do que isso, é a constatação de que praticamente todas as vilas possuem zonas pedonais, o que, para além de representar um enorme alívio para quem está saturado do mundo dos escapes dos automóveis, permite compras descontraídas ou um almoço ao ar livre numa esplanada quando o tempo está bom, como foi o caso. Para além de possuírem edifícios modernos ou restaurados na Câmara Municipal e no Domus Justitiae, frequentemente alindados com fontes ou repuxos nas proximidades, quase todas estas povoações dispõem de uma biblioteca municipal, museus com características diversas, amplas áreas reservadas para escolas básicas e secundárias – geralmente equipadas com bons campos de jogos e ginásios -, um posto de informação turística que funciona, jardins floridos, higiene nas ruas e, ainda, Centros de Dia, Lares para Idosos e parques infantis. Nalguns casos encontrei teatros restaurados. Algumas das povoações possuem curiosos painéis de azulejos com a heráldica respectiva e os pontos de maior interesse na terra e zonas circundantes. Fontes e lavadouros públicos restaurados também são frequentes. Em terras que são de montanhas e ficam a alguma distância do mar, algo que me chamou a atenção foi a existência de praias fluviais, geralmente com acolhedores jardins relvados à beira-rio. (Tenho pena de não poder incluir aqui alguns dos muitos slides que fiz, mas terei muito gosto em enviá-los a quem lhes queira dar uma mirada.)
Como seria previsível, nesta altura encontrei múltiplos cartazes dos diversos partidos políticos, predominantemente dos principais (PSD e PS). Atendendo aos bons resultados que os partidos-ampulheta CDS e BE alcançaram nas legislativas, talvez se esperasse proeza semelhante nas autárquicas. Existe, no entanto, uma enorme diferença não só entre a estrutura tanto do PSD como do PS, mais o PCP, e os outros dois acima referidos. Estes, CDS e BE, farão uma decente oposição palavrosa no Parlamento, mas quanto a obras verdadeiras, à criação do bem-estar acima descrito, os eleitores parecem preferir claramente os fazedores aos faladores: res non verba. A obra conta.
Por último, gostaria obviamente de recomendar a zona para quem eventualmente a não conheça ainda. As aldeias de xisto da Lousã e de Góis, a excepcional aldeia do Piódão (tomar a estrada Vide-Piodão, 11 quilómetros apenas, em vez da mais moderna que não é recomendável a quem sofra de vertigens), em Penalva do Castelo a Casa da Ínsua recentemente inaugurada como hotel de charme com os seus belos jardins e solar, o Santuário de Nossa Senhora das Preces a uns quilómetros da Ponte das Três Entradas, a casa tristemente em ruínas da família de Aristides de Sousa Mendes em Cabanas de Viriato, a igreja moçárabe de Lourosa e outros pontos de interesse são recomendáveis, sempre em locais muitos florestados, com rios e arroios a ziguezaguearem por ali. Quanto à comida, é farta e bem cozinhada. E é sempre bom trazer para casa umas tantas garrafas de vinho do Dão, preferencialmente compradas nas Adegas Cooperativas, onde são mais em conta.

10/12/2009

Obama nobelizado


Foi com uma certa surpresa que eu, admirador confesso da inteligência e do estilo de Barack Obama, ouvi o anúncio da distinção do Nobel para a Paz que o comité norueguês lhe atribuiu. Não pude deixar de considerar algo extemporânea esta distinção. Quando esse mesmo prémio foi conferido a Nelson Mandela, certamente que achei absolutamente justo. Toda a vida do dirigente da África do Sul e o modo sereno mas firme como saiu do seu longo cativeiro em prisões estatais constituíam um hino à paz. Quando os líderes de Timor-Leste receberam idêntica distinção, houve uma "lição política para o mundo", tal como no caso de Mandela, mas existia muita obra feita, e também muita por fazer. O prémio constituiu um reconhecimento pelo passado e um incentivo para o futuro.
No caso de Obama é diferente. É certo que ele restituiu a América ao mundo, quebrando muito do anti-americanismo que se sentia em todo o lado, mas está muito longe de ter resolvido problemas graves na própria América e de ter encontrado soluções efectivas noutros locais do globo em que os americanos se atolaram ao longo dos anos. É natural, aliás: tem pouco mais de um ano de governação.
O principal dos problemas situa-se, sem sombra de dúvida, nas intermináveis disputas bélicas entre Israel e os palestinianos, com evidente superioridade militar da parte de Israel, país que tem repetidas vezes desrespeitado as decisões da ONU. Ainda recentemente Obama expressou, brilhantemente como sempre, as suas ideias sobre o conflito. Os israelitas deixariam de construir mais colonatos em terra palestina. Pouco tempo depois, o parlamento de Israel aprovou a construção de mais umas centenas de colonatos. Qual foi a reacção da Administração americana? Silêncio, tanto quanto me recordo. E não se pode dizer que a América se coíbe de intervir num estado soberano; de facto, já o fez tanta vez noutros países! Que se saiba, o governo americano não cortou quaisquer apoios a Israel. Terá sido este um notável contributo para a paz?
Gostei do que Obama fez relativamente às bases anti-mísseis projectadas em dois países do leste europeu. Mas isso dará para Nobel?
Pagar uma obra antes que ela seja feita não é geralmente visto como boa política. A atribuição daquele que é o maior prémio mundial do género não deve ser encarado como mero incentivo para o Presidente dos EUA. Ele tem mostrado à evidência que é uma pessoa extremamente consciente, que defende valores que são partilhados por milhões de pessoas em todo o mundo. Portanto, não é de incentivos que ele precisa. Pergunte-se, entretanto, se Obama mandou retirar as tropas americanas estacionadas no Iraque? Ainda não. Não é um facto que pensa reforçar os efectivos que estão a lutar no Afeganistão? É. E envolver-se mais no Paquistão? Parece que sim. Tudo somado, digamos que encontramos um novíssimo estilo, uma pessoa muito carismática com a qual, se não somos conservadores americanos, simpatizamos a sério, mas faltam concretizações dos seus planos e declarados anseios. Vamos aceitar, justificadamente, que um ano é um tempo curtíssimo para fazer muita obra. Em que medida é que o que já fez será suficiente para a atribuição do Prémio Nobel da Paz? Este pode soar como homenagem ao primeiro presidente não-branco dos Estados Unidos, mas também pode surgir como o oposto do res non verba. Ora, numa instituição que estuda cuidadosamente obras já realizadas, como fez este ano por exemplo no campo da Física e da Medicina, o que Barack Obama concretamente já fez, se descontarmos o importante desanuviamento através do diálogo que tem praticado com algum sucesso, é demasiado pouco para um Nobel. Mas esta é apenas uma opinião.

10/11/2009

Vícios e Virtudes

Tem sido mil vezes repetida a frase de John F. Kennedy dirigida aos cidadãos americanos "Não perguntem O que é que o Estado pode fazer por mim?, mas sim O que posso eu fazer pelo meu país?" Porém, não creio que, apesar da insistência, ela tenha sido interiorizada em Portugal. É frequentíssimo encontrarmos portugueses que adoram dizer mal daquilo que vêem ser feito no seu país. Tipicamente, diz-se que eles encontram defeitos em tudo. O alvo das suas críticas situa-se principalmente ao nível daqueles que os governam, seja a nível nacional, seja municipal ("a culpa é do...").
Quem pretenda analisar o seu posicionamento, reparará que essas pessoas se comprazem em estabelecer um cotejo entre o que acham à sua volta e aquilo que as suas utópicas expectativas desejariam. Às vezes, mau-grado a sua idade e experiência de vida, esses indivíduos mantêm um discurso perfeitamente ingénuo relativamente à natureza humana. Embora saibam que não é assim, partem do princípio de que a natureza do homem é perfeita e acreditam que é possível moldar os homens para padrões de rectidão de princípios e práticas. Com essa alteração, tudo se transformaria num paraíso terreno. Ora, se uma parte significativa do seu desagrado provém da sua sã e bem intencionada imaginação, uma outra parte advirá duma impaciência natural da idade, que os faz desesperar pelo pouco tempo que têm para ver concretizados os seus anseios. Quanto mais tiverem a sensação de que o seu tempo está perigosamente a encurtar, tanto mais cresce a sua angústia e mais se encarniçam na sua luta feroz.
Há muito de naïveté nesta atitude. Ao não quererem admitir que a natureza humana inclui perversidade q.b. e ao não julgarem com objectividade o efeito do poder sobre quem o detém, incorrem nas suas investidas, geralmente bem sucedidas, de encontrarem erros na governação, as quais depois, ventilam com sinceridade para os outros.
Esquecem, natural e humanamente, todas as facetas boas. Ignoram as comparações com países ou regiões que estejam bem piores em termos de desenvolvimento. Não é para baixo que o seu pensamento se debruça. Os termos de comparação que procuram são sempre não só mais elevados, como estão utopicamente mitificados e perfeitos, como se isso fosse humanamente possível. Foi daqui que nasceram os grandes crentes na China maoista, na União Soviética estalinista, no Portugal de Salazar ou na imaculada América. Um conhecimento in loco destas paragens e desses tempos cedo dissiparia convicções profundamente arreigadas. Por todo o lado há homens e, como o ditado diz, "onde o homem põe a mão, tira Deus a virtude". Principalmente quando essa mão está no poder.
Logo que se contacta materialmente o sonho sonhado descobrem-se nuvens que nos sonhos não cabiam. Quanto mais aprofundamos os nossos conhecimentos, mais notamos que onde algo se tapa, há sempre uma parte que se destapa.
Ora, quem conhece bem o seu país se só o seu país conhece? Quem pode falar do seu Portugal sem conhecer os pontos negros, que também os há, da Holanda, da Suiça ou da Alemanha? Se Portugal é tão mau, por que motivo haverá alguns suecos que adoram viver neste país? Dir-se-á: porque levam uma vida boa. Porque são, por exemplo, engenheiros, e para eles não há dificuldade em comprar boa comida e óptima bebida, em ter uma casa aprazível e um bonito automóvel. De que se podem queixar?
Pois sim, mas os insatisfeitos, os que estão constantemente à espera de um Messias redentor, de um político salvador, desesperam invariavelmente e expressam o seu descontentamento com desusada frequência. Geralmente não notam, tão enebriados que estão no seu fundamentalismo, que ao dizerem repetidamente mal do seu país e ao fazerem pouco ou nada para corrigir esse mal, outra coisa não fazem do que contribuir para uma atitude negativa, algo que se dispensa em Portugal, que precisa mais de gente que o levante e faça coisas úteis.

P.S. Entretanto, parafraseando Benjamin Franklin, admito que a maioria dos portugueses procura nos outros mais os vícios do que as virtudes. E em si próprios, procuram os vícios? Também eu já me tenho apanhado a verberar impiedosamente contra uns tantos governantes. Desculpo-me, como todos nós afinal nos desculpamos, por estar a defender valores que vejo corrompidos. Ergo-me, mais do que contra pessoas, contra o mau exemplo que dão, contra a prática do compadrio, da fraude, da mentira – numa palavra, contra a sua falta de ética. É difícil, e até nefasto, ficar calado em casos desses. Serei também um desses ingénuos e bem-intencionados utopistas, apesar do que atrás escrevi?

10/07/2009

Migração com E- e com I-

Apesar de todos sabermos que as migrações são de todos os tempos – por exemplo, por que razão têm os índios americanos o mesmo tipo de olhos dos asiáticos?, porque há tantos brancos em terras primitivamente habitadas por índios (v.g. Estados Unidos e Brasil)? – nunca a migração de pessoas atingiu as proporções dos dias de hoje. Em Portugal, qualquer dia começamos a habituarmo-nos a distinguir as pronúncias brasileiras de Minas Gerais das de Goiás ou de Mato Grosso.
Para nós, portugueses, é algo de estranho encontrarmos tantos estrangeiros a residirem em Portugal. Porquê? Porque o nosso hábito foi sempre o de emigrar. Comunidades portuguesas em Toronto, Montreal, New Jersey, Newark, San Diego, Rhode Island, na Venezuela, na África do Sul, em França, na Alemanha, no Luxemburgo, na Holanda, na Suiça, em Inglaterra é coisa que não falta. Emigra-se em busca de melhores condições de vida, emigra-se para fugir à pobreza, ao recrutamento para a guerra, a uma prisão iminente. Com três milhões de braços válidos a deixarem Portugal na década de 60 e início da de 70 do século passado, temos plena consciência do fenómeno.
Os anos 90 apresentaram-nos um pouco do reverso da medalha: a imigração. A guerra que se manteve em África no pós-1974 trouxe-nos largas quantidades de angolanos e angolanas. A seca e uma generalizada falta de trabalho em Cabo Verde fizeram desembarcar nestas paragens muitos caboverdianos. A desintegração da União Soviética e a situação precária de várias economias que entretanto procuravam mudar de agulha fizeram com que muitos ucranianos, moldavos e romenos arribassem a Portugal. Deu-se uma notória hemodiálise humana nos principais centros, grandes estaleiros de obras. De 0,4 por cento de emigrantes com que contávamos em 1960 passámos para 7,2 por cento em 2005. A percentagem já deve ter subido entretanto. As últimas levas têm sido de brasileiros, que hoje constituem já a comunidade estrangeira mais numerosa em Portugal. Do leste europeu, muitos regressaram aos seus países de origem, outros assentaram arraiais nesta terra, talvez para sempre.
Mas significará isto que parou a nossa emigração? De modo nenhum. Por cada 15 novos imigrantes que chegam, saem 100 portugueses para o exterior, informa-nos o Instituto Nacional de Estatística. (A situação é bem diferente daquela que o saudoso Raul Solnado costumava parodiar: "Nasci numa aldeia que tinha sempre a mesma população. Quando nascia uma criança, fugia um homem!")
Entretanto, a notícia chega-nos trazida pelo Relatório do Desenvolvimento Humano (RDH): "Portugal é o mais generoso entre todos os países do mundo em matéria de políticas de integração dos imigrantes." Distinção algo inesperada, sem dúvida, mas bem-vinda. Isabel Pereira, especialista em políticas do Gabinete do citado RDH, é franca e explica que a análise foi feita basicamente sobre o quadro jurídico. Muitas das iniciativas adoptadas datam 2007. "Como são muito recentes, é cedo ainda para avaliar a sua aplicação e a sua eficácia."
Fez bem Isabel Pereira em dizer o que disse. Foi honesta. É que as associações de emigrantes continuam a falar de um tipo de escravatura moderna que afectaria cerca de 50 mil imigrantes não legais. O grande Montesquieu (1689-1755) era um homem avisado. Legou-nos uma importante mensagem: "Quando visito um país, não verifico se nele existem boas leis, mas sim se as que existem são implementadas. Boas leis há-as em toda a parte." Ele aplaudiria as reservas de Isabel Pereira.
De facto, muito embora eu conheça pessoalmente imigrantes que estão perfeitamente integrados no nosso país e que se sentem felizes por viverem aqui, há outros que são francamente explorados. Recebendo, quando recebem, pouco dinheiro pelo seu trabalho, sem segurança social e com total precariedade, eles fazem a delícia de múltiplos empresários portugueses. Estes, conseguindo escapar-se de várias formas a uma fiscalização que é insuficiente ou pouco actuante, sentem-se orgulhosamente integrados no grandioso movimento conhecido por globalização e acabam por praticar o inverso da deslocalização das suas pequenas empresas para o estrangeiro. No seu caso, são os trabalhadores baratos que vêm até eles. E proporcionam-lhes bons lucros.