A resposta à pergunta do título é, certamente, afirmativa. Sempre o foi. Há trabalhos tão perigosos que bastarão pequenos descuidos para que um ou mais trabalhadores percam a vida: desabamento de terras, queda de pontes em contrução, explosões em minas, etc. São acidentes, uns mais fortuitos do que outros, uns com elevada responsabilidade de quem dirige, outros com responsabilidade diminuta.
E pode o trabalho conduzir trabalhadores à morte através do suicídio? Embora aqui o número dos que perdem a vida seja muito inferior, bastaria o muito propalado exemplo da France Telecom, empresa na qual nos últimos 20 meses 25 trabalhadores não conseguiram resistir a pôr termo à sua própria vida, para obtermos uma resposta igualmente afirmativa. O stress sob o qual trabalham pode atingir proporções tais que a única saída entrevista por aqueles a quem os gestores contabilisticamente chamam "recursos humanos" é o de terminar com uma existência que ainda teria um longo caminho a percorrer, com direito a bons momentos de felicidade. Porque é que isso está a suceder na France Telecom - e igualmente noutras empresas em que os casos são menos mediáticos mas também extremamente stressantes?
Neste mesmo blog elogiei há tempos o livro de João Ermida intitulado Verdade, Humildade e Solidariedade. Os meus encómios não foram para o pendor literário revelado pelo autor, mas sim para a franqueza como expõs a sua experiência de gestor com a responsabilidade global da Tesouraria e Mercados Financeiros do Grupo Santander. O livro, como o autor afirma, terá sido a sua melhor terapia contra o stress que continuamente experimentava, ele que decidiu abandonar o seu trabalho aos 38 anos. Não é propriamente contra o Grupo que João Ermida se revolta, mas sim contra a metodologia usada pelas cúpulas naquela e noutras empresas semelhantes. É a este propósito que transcrevo um passo do seu livro: "Vivemos num mundo onde é exigido aos homens e mulheres que não adormeçam em nenhum momento, pois se não estiverem preparados para o próximo desafio, este pode passar por eles sem que eles reajam. É esse medo da oportunidade perdida que nos leva a sermos cada vez mais egocêntricos, e é precisamente este egocentrismo a causa de tanto desespero no mundo actual, levando-nos a viver duas vidas bem distintas: a profissional e a pessoal. Na primeira, tudo nos é exigido e exigimos tudo de todos; na segunda, ansiamos por chegar a casa para viver segundo o código de valores que aprendemos. Na nossa vida profissional, somos chamados a desenvolver capacidades de resposta a problemas e situações onde a nossa ética tem de ser posta de lado. Somos treinados para sermos ambiciosos, gananciosos e deixar de lado qualquer tipo de comportamento que revele complacência. Quando saímos do trabalho, tentamos recuperar os valores éticos que nos ensinaram desde crianças, mas esses já dificilmente conseguem aparecer. Disto se ressente cada vez mais o nosso casamento e as relações com os nossos filhos."
Noutro passo, que considero também significativo, João Ermida elucida-nos: "Aquilo de que me apercebo é que, no mundo de hoje dos negócios, a verdade foi perdendo interesse. É mais importante fazer promessas que nunca serão cumpridas do que tentar vender a realidade dura em que se vive. Este facto leva a que empregados sejam postos em situações de total insegurança no seu trabalho, devido aos enormes objectivos que lhes são impostos, os quais só por sorte serão cumpridos."
Peço desculpa pela extensão das citações, mas sei que elas dizem mais do que aquilo que eu, felizmente sem esta experiência, poderia alguma vez descrever. Flexibilidade no trabalho e adaptabilidade a novas funções são dois conceitos muito comuns na gestão dos dias de hoje. Eles destroem equipas de trabalho como se isso fosse insignificante para os trabalhadores. Estes sentem-se obrigados pelas circunstâncias a entrar em concorrência com os seus colegas para evitar um despedimento que pode chegar a qualquer hora. Um ambiente inquisitorial é propício a denúncias pouco leais da parte de colegas. É o salve-se quem puder, "a corrosão do carácter", como Richard Sennet lhe chamou. O trabalhador não sabe geralmente quais são os verdadeiros objectivos da empresa em que labora, embora de antemão compreenda que o aumento dos lucros é o objectivo número um. Sabe também que é controlado nas suas pausas de trabalho e admoestado – ou alvo de delação – se eventualmente as excede por necessidade de descanso cerebral. Sabe também que existe no ar um clima de medo, de ausência de solidariedade, de humilhação. Sabe que a sua liberdade desapareceu. A auto-estima de que os livros teoricamente falam esvaiu-se também. Se ele sente que é a sua própria identidade que está em jogo, que apego pode ter à vida?
Apercebemo-nos de que muitos gestores de topo esqueceram a maior parte dos valores da sua cultura. Semelhantemente à maneira como vêem capitais serem aplicados de forma quase esclavagista em países asiáticos como a China, a Índia, o Paquistão e a Indonésia, pretendem impor na Europa sistemas que são por demais aviltantes para quem há muito deixou a selva para viver na urbe. Estamos a voltar a tempos e práticas que se julgavam mortas, enterradas pelo tempo e para sempre ultrapassadas pela civilização. Que tudo isto seja aceite sem grandes movimentos de revolta é também claramente um sinal dos tempos.
Os ricos devem tratar dos pobres, para que não sejam os pobres a tratar dos ricos.
10/31/2009
10/30/2009
Desemprego na União Europeia
Aqui em Portugal ouvimos todas as semanas – quando não é em dias seguidos – notícias de grandes, médias ou pequenas empresas que encerram as suas portas, ou dispensam fatias maiores ou menores do seu pessoal. Numa comparação que é chocante mas por isso mais reveladora da realidade, se hoje sentássemos todos os desempregados nas bancadas dos vários estádios de futebol do nosso país em que se jogou o EURO2004 há pouco mais de cinco anos, todos os lugares estariam preenchidos com desempregados portugueses. É impressionante imaginarmos esse conjunto de homens e mulheres, jovens e velhos, que perderam os seus empregos e agora procuram o auxílio de um Estado também ele depauperado pelos muitos milhões concedidos a empresas, principalmente da área financeira.
"O dia-a-dia de um desempregado é como estar preso em liberdade" foi a cruciante mensagem que um desempregado transmitiu a um jornalista que recolhia depoimentos sobre o desemprego.
Curiosamente, há mais de 15 anos (12 de Fevereiro de 1994), Ernâni Lopes escrevia o seguinte no semanário Expresso: "Há, no mundo actual, um bilião e 200 milhões de pessoas dispostas a trabalhar por 45 contos/mês, em média, enquanto na Europa e nos Estados Unidos existem 250 milhões de pessoas que, em média, não aceitam trabalhar por menos de 150 contos/mês." Hoje em dia, diz-vos alguma coisa esta informação de um dos nossos melhores economistas?
As últimas notícias indicam-nos que na União Europeia-27 há países como a Letónia e a Espanha que se aproximam perigosamente dos 20 por cento de desempregados (19,7% e 19,3%, respectivamente). A Lituânia, a Estónia e a República da Irlanda encontram-se também num escalão bem alto (entre 13 e 14 por cento). Os países com taxas de desemprego mais baixas são a Holanda (3,6%) e a Áustria (4,8%). Portugal aproxima-se dos 10 por cento, se é que não atingiu já essa marca.
Se contabilizarmos exclusivamente a zona onde o euro circula como moeda (16 países), encontramos 15,3 milhões de desempregados, enquanto na UE27 esse número sobe para 22,12 milhões. Na zona euro, o desemprego entre os jovens situa-se em 20,1 por cento!
Estes são números respeitantes a pessoas. Tal como ao ouvirmos uma ambulância não nos devemos impressionar com o som da sirene que a ambulância lança para o ar mas sim com o doente que segue lá dentro, aqui também é essencial que pensemos em termos humanos e não em estatísticas. São vidas que estão em jogo!
"O dia-a-dia de um desempregado é como estar preso em liberdade" foi a cruciante mensagem que um desempregado transmitiu a um jornalista que recolhia depoimentos sobre o desemprego.
Curiosamente, há mais de 15 anos (12 de Fevereiro de 1994), Ernâni Lopes escrevia o seguinte no semanário Expresso: "Há, no mundo actual, um bilião e 200 milhões de pessoas dispostas a trabalhar por 45 contos/mês, em média, enquanto na Europa e nos Estados Unidos existem 250 milhões de pessoas que, em média, não aceitam trabalhar por menos de 150 contos/mês." Hoje em dia, diz-vos alguma coisa esta informação de um dos nossos melhores economistas?
As últimas notícias indicam-nos que na União Europeia-27 há países como a Letónia e a Espanha que se aproximam perigosamente dos 20 por cento de desempregados (19,7% e 19,3%, respectivamente). A Lituânia, a Estónia e a República da Irlanda encontram-se também num escalão bem alto (entre 13 e 14 por cento). Os países com taxas de desemprego mais baixas são a Holanda (3,6%) e a Áustria (4,8%). Portugal aproxima-se dos 10 por cento, se é que não atingiu já essa marca.
Se contabilizarmos exclusivamente a zona onde o euro circula como moeda (16 países), encontramos 15,3 milhões de desempregados, enquanto na UE27 esse número sobe para 22,12 milhões. Na zona euro, o desemprego entre os jovens situa-se em 20,1 por cento!
Estes são números respeitantes a pessoas. Tal como ao ouvirmos uma ambulância não nos devemos impressionar com o som da sirene que a ambulância lança para o ar mas sim com o doente que segue lá dentro, aqui também é essencial que pensemos em termos humanos e não em estatísticas. São vidas que estão em jogo!
10/28/2009
A atracção da água
Embora sem sol forte, o penúltimo sábado deste Outubro esteve bonito. Fui-me a ver o mar, que é como quem diz apenas o rio Tejo, que de mar apenas tem o sal que entra por ele adentro. O Parque das Nações, com a sua passarela de madeira entre o Tejo e o laguinho do Oceanário, é um dos meus passeios favoritos. Daí, o rio é suficientemente largo para me dessedentar do Atlântico e a zona é no geral muito aprazível. A temperatura estava um pouco mais elevada do que eu esperava, o que me levou a sentar uns minutos à sombra na bancada de pedra que corre ao longo do laguinho. Pus-me a ler um artigo interessante da Newsweek. Pouco tempo depois, sentou-se no mesmo muro uma moça de 19 ou 20 anos, que trazia pela trela um cão preto, peludo, de tamanho médio. Retirou a trela da coleira do bicho e deixou-o andar à solta por ali. Gostei do gesto. Porém, ela não demorou a levantar-se de um salto. “Núria!”, gritou. Percebi que afinal ela era dona não de um cão mas de uma cadelita. “Núria!” A moça não conseguia descobrir o animal. Correu entretanto para a direita e para a esquerda, até que divisou a sua Núria... dentro de água. (Está ali postado um aviso informando que é proibido tomar banho, mas não está escrito em linguagem que cão perceba. E, se for um cão de água, como Núria era, então a atracção do elemento líquido pode ser fatal.)
A rapariga sentia-se perdida. O que fazer? Ligou o telemóvel para casa, mais a contar a sua aflição do que a pedir auxílio. Implorou a uma pessoa que passava por ali para avisar os responsáveis do Parque. Entretanto, a sua Núria já tinha nadado por debaixo da passarela de madeira e passado para o rio aberto. Crescia a angústia da rapariga, talvez na razão inversa do prazer que a sua Núria sentia por se poder deliciar naquelas águas. Estava no seu elemento. Os chamamentos "Núria!", "Núria!" mantinham-se incessantes. O bicho virava a cabeça de vez em quando, mas continuava no seu feliz vaivém. Até que, passados uns largos minutos, resolveu chegar-se de novo à amurada. Sucede que esta amurada, relativamente alta e bem construída para resistir às marés mais elevadas, possui uma notória inclinação e corre ao longo de mais de um quilómetro. A Núria tentou subir. Em vão. As patas não aderiam devidamente ao escorregadio da pedra. Em busca de um sítio mais acessível para trepar, o animal foi nadando ao longo do muro, sempre com a dona, que entretanto saltara o gradeamento para o lado do rio, a chamá-la. Após mais uma tentativa infrutífera, o bicho regressou, sempre a nado, à zona da passarela de madeira. Aí, a rapariga pensou em atirar-lhe a trela para que o animal a abocanhasse e conseguisse subir. O bicho pegou-lhe, de facto, mas depressa a largou. Então a moça, sempre do lado de fora do gradeamento, agarrou-se a uma das barras deste e tentou chegar-lhe. Estava muito longe. Veio então o bonito socorro. Um rapaz brasileiro que passeava na zona com um amigo saltou depressa o gradeamento e, como era alto, agarrou na mão da moça para descer mais perto da água. Nem mesmo assim lá chegou. Só que a cadeia humana aumentou. Uns terceiros braços estenderam-se ao rapaz, enquanto a moça descia ela própria já para bem perto da água, segura por um braço. Aí, o cão de água fez um grande esforço para sair do seu elemento natural e a dona logrou apanhá-lo pela coleira. Depois de um enorme abraço e beijos num pêlo molhado, ela passou a cadelita para a pessoa acima e um outro rapaz colocou o bicho em terra firme. A dona estava exausta: depois daquela auto-injecção de adrenalina, teve literalmente que ser içada por braços solidários. Tinha tido uma pequena aventura e um enorme susto. Ficou, além disso, a saber o que é isso de crença natural de uma cadelinha como a sua Núria. No restante, foi bom ver a solidariedade activa das pessoas. Nem sempre tudo é mau na vida, nem acaba mal.
A rapariga sentia-se perdida. O que fazer? Ligou o telemóvel para casa, mais a contar a sua aflição do que a pedir auxílio. Implorou a uma pessoa que passava por ali para avisar os responsáveis do Parque. Entretanto, a sua Núria já tinha nadado por debaixo da passarela de madeira e passado para o rio aberto. Crescia a angústia da rapariga, talvez na razão inversa do prazer que a sua Núria sentia por se poder deliciar naquelas águas. Estava no seu elemento. Os chamamentos "Núria!", "Núria!" mantinham-se incessantes. O bicho virava a cabeça de vez em quando, mas continuava no seu feliz vaivém. Até que, passados uns largos minutos, resolveu chegar-se de novo à amurada. Sucede que esta amurada, relativamente alta e bem construída para resistir às marés mais elevadas, possui uma notória inclinação e corre ao longo de mais de um quilómetro. A Núria tentou subir. Em vão. As patas não aderiam devidamente ao escorregadio da pedra. Em busca de um sítio mais acessível para trepar, o animal foi nadando ao longo do muro, sempre com a dona, que entretanto saltara o gradeamento para o lado do rio, a chamá-la. Após mais uma tentativa infrutífera, o bicho regressou, sempre a nado, à zona da passarela de madeira. Aí, a rapariga pensou em atirar-lhe a trela para que o animal a abocanhasse e conseguisse subir. O bicho pegou-lhe, de facto, mas depressa a largou. Então a moça, sempre do lado de fora do gradeamento, agarrou-se a uma das barras deste e tentou chegar-lhe. Estava muito longe. Veio então o bonito socorro. Um rapaz brasileiro que passeava na zona com um amigo saltou depressa o gradeamento e, como era alto, agarrou na mão da moça para descer mais perto da água. Nem mesmo assim lá chegou. Só que a cadeia humana aumentou. Uns terceiros braços estenderam-se ao rapaz, enquanto a moça descia ela própria já para bem perto da água, segura por um braço. Aí, o cão de água fez um grande esforço para sair do seu elemento natural e a dona logrou apanhá-lo pela coleira. Depois de um enorme abraço e beijos num pêlo molhado, ela passou a cadelita para a pessoa acima e um outro rapaz colocou o bicho em terra firme. A dona estava exausta: depois daquela auto-injecção de adrenalina, teve literalmente que ser içada por braços solidários. Tinha tido uma pequena aventura e um enorme susto. Ficou, além disso, a saber o que é isso de crença natural de uma cadelinha como a sua Núria. No restante, foi bom ver a solidariedade activa das pessoas. Nem sempre tudo é mau na vida, nem acaba mal.
10/26/2009
Puxando a brasa à minha sardinha...
Eis-me a demonstrar a minha alegria pelo número de mulheres no novo Governo!
Assim mesmo: pelo valor de cada uma, pela competência, não por quotas.
É cedo para dizer se foram bem ou mal escolhidas, se irão cumprir bem a sua missão. Para já, o que me traz grande satisfação é a chegada progressiva de cada vez maior número de mulheres às várias sedes de poder. O que significa, por um lado, o acesso à formação profissional (não esqueçamos que no tempo das nossas avós as mulheres “não precisavam” de estudar) e, por outro lado, as condições familiares mais facilitadoras da disponibilidade das mães de família que também são.
Devagarinho, mas de modo irreversível, uma metade da humanidade vai-se colocando a par da outra metade, como é normal.
Como diria o Zé Mário Branco, “o que eu andei para aqui chegar!”
Assim mesmo: pelo valor de cada uma, pela competência, não por quotas.
É cedo para dizer se foram bem ou mal escolhidas, se irão cumprir bem a sua missão. Para já, o que me traz grande satisfação é a chegada progressiva de cada vez maior número de mulheres às várias sedes de poder. O que significa, por um lado, o acesso à formação profissional (não esqueçamos que no tempo das nossas avós as mulheres “não precisavam” de estudar) e, por outro lado, as condições familiares mais facilitadoras da disponibilidade das mães de família que também são.
Devagarinho, mas de modo irreversível, uma metade da humanidade vai-se colocando a par da outra metade, como é normal.
Como diria o Zé Mário Branco, “o que eu andei para aqui chegar!”
10/23/2009
A Igreja Católica e a liberdade de interpretação
O último livro de José Saramago tem desencadeado uma inegável celeuma na sociedade portuguesa. O próprio autor tem proferido umas tantas frases características de livre-pensador, que chocam com o marasmo de pensamento de uma cultura católica tradicionalista – a qual foi, aliás, a que Saramago teve a rodeá-lo como criança.
Curiosamente, um vasto número de pessoas que se vêem apanhadas na sua crença sem terem lido a Bíblia acusam Saramago de estar meramente a fazer publicidade ao seu livro. Pessoalmente, não vejo grande mal nisso, numa sociedade de consumo que gosta de identificar a existência de publicidade com a existência de liberdade. Mas se é um facto que as intervenções de Saramago acabam na realidade por publicitar o livro, não é menos verdade que são as televisões que o convidam para entrevistas e debates – porque isso atrai audiências (o que permite maior publicidade nesse canal). Entretanto, porque é que quem diz, com certo cinismo, que Saramago está a fazer publicidade do seu livro, o qual ainda por cima se lê num dia ou dois, não diz também que Saramago acaba por incentivar muitas pessoas a, finalmente, lerem a Bíblia, o tal livro que poucos portugueses leram? Quantas pessoas mais não irão comprar a Bíblia para lerem várias das estórias que lá estão? Convinha que quem falasse de publicidade a uma obra, que consideram má, lembrasse também a publicidade a uma outra obra, que decerto consideram boa.
Da Igreja Católica tem vindo, como grande argumento contra a interpretação de Saramago da história de Abel e Caim, a afirmação de que a Bíblia não é para ler literalmente. Isso significa o quê? Que cada um pode interpretar a Bíblia à sua maneira? Se sim, como se concilia essa possibilidade com a existência de um Papa, que é infalível, como todos os que frequentaram aulas de catequese aprenderam?
Porque este problema não é novo, decidi fazer copy&paste de alguns itens de uma colectânea que eu próprio elaborei há pouco tempo. Os autores das citações vão devidamente assinalados.
"Desde cedo a Igreja decidiu que apenas pessoas qualificadas, certos clérigos, por exemplo, deviam conhecer a Bíblia, que, com as suas leis e moral igualitárias e reprimendas proféticas ao poder e exaltação dos humildes, convidava à indisciplina entre os fiéis e ao desentendimento com as autoridades seculares. Só depois de censurada e suavizada poderia a Bíblia ser dada a conhecer aos leigos. Foi assim preciso aguardar o aparecimento de seitas heréticas, tais com os Lolardos (Wiclif, ca. 1376), os Luteranos (a partir de 1519) e os Calvinistas (meados do século XVI), com a sua ênfase na religião pessoal, e a tradução da Bíblia para vernáculo, para que a tradição judaico-cristã ingressasse explicitamente na consciência política europeia, ao lembrar aos soberanos que era de Deus que recebiam a riqueza e o poder, mas na condição de se portarem bem. Uma doutrina inconveniente." David S. Landes, A Riqueza e a Pobreza das Nações (1998)
"Os ensinamentos de Cristo, tal como aparecem nos Evangelhos, tiveram pouco que ver com a ética dos cristãos. A coisa mais importante sobre o Cristianismo do ponto de vista social e histórico não é Cristo mas sim a Igreja, e, se quisermos considerar o Cristianismo uma força social, não é nos Evangelhos que devemos procurar o nosso material; Cristo ensinou que deveríamos dar os nossos bens aos pobres, que não deveríamos fazer guerra, que não deveríamos ir à igreja e que não deveríamos punir o adultério. Nem os católicos, nem os protestantes demonstraram qualquer desejo forte de seguir os Seus ensinamentos a qualquer destes respeitos.
(...) Nada há de acidental quanto à diferença entre uma Igreja e o seu fundador. Logo que se supõe que a palavra de certos homens contém a verdade absoluta, surge um corpo de especialistas para interpretar os seus ensinamentos, e esses especialistas adquirem infalivelmente poder, já que possuem a chave da verdade. Como qualquer outra casta privilegiada, usam do seu poder em seu próprio benefício." Bertrand Russell (1872-1970)
"O que realmente leva os indivíduos a acreditar em Deus não é nenhum argumento intelectual. A maioria das pessoas acredita em Deus porque lhes ensinaram, desde tenra infância, a fazê-lo. Essa é a principal razão." Bertrand Russell (1872-1970)
"Como queres tu tirar com argumentos da razão ideias que o povo aprendeu sem razões?" F. Nietzsche (1844-1900)
"Gostaria de ver um mundo em que a educação tivesse por objectivo antes a liberdade mental do que o encarceramento do espírito dos jovens numa rígida armadura de dogmas, que tem em vista protegê-los ao longo da vida contra os dardos das provas imparciais. O mundo precisa de corações e de cérebros abertos, e não é mediante sistemas rígidos, quer sejam velhos ou novos, que isso pode ser conseguido." Bertrand Russell (1872-1970)
"Os católicos e os comunistas são parecidos ao acreditarem que o seu opositor não pode ser honesto e inteligente." George Orwell (1903-1950)
Curiosamente, um vasto número de pessoas que se vêem apanhadas na sua crença sem terem lido a Bíblia acusam Saramago de estar meramente a fazer publicidade ao seu livro. Pessoalmente, não vejo grande mal nisso, numa sociedade de consumo que gosta de identificar a existência de publicidade com a existência de liberdade. Mas se é um facto que as intervenções de Saramago acabam na realidade por publicitar o livro, não é menos verdade que são as televisões que o convidam para entrevistas e debates – porque isso atrai audiências (o que permite maior publicidade nesse canal). Entretanto, porque é que quem diz, com certo cinismo, que Saramago está a fazer publicidade do seu livro, o qual ainda por cima se lê num dia ou dois, não diz também que Saramago acaba por incentivar muitas pessoas a, finalmente, lerem a Bíblia, o tal livro que poucos portugueses leram? Quantas pessoas mais não irão comprar a Bíblia para lerem várias das estórias que lá estão? Convinha que quem falasse de publicidade a uma obra, que consideram má, lembrasse também a publicidade a uma outra obra, que decerto consideram boa.
Da Igreja Católica tem vindo, como grande argumento contra a interpretação de Saramago da história de Abel e Caim, a afirmação de que a Bíblia não é para ler literalmente. Isso significa o quê? Que cada um pode interpretar a Bíblia à sua maneira? Se sim, como se concilia essa possibilidade com a existência de um Papa, que é infalível, como todos os que frequentaram aulas de catequese aprenderam?
Porque este problema não é novo, decidi fazer copy&paste de alguns itens de uma colectânea que eu próprio elaborei há pouco tempo. Os autores das citações vão devidamente assinalados.
"Desde cedo a Igreja decidiu que apenas pessoas qualificadas, certos clérigos, por exemplo, deviam conhecer a Bíblia, que, com as suas leis e moral igualitárias e reprimendas proféticas ao poder e exaltação dos humildes, convidava à indisciplina entre os fiéis e ao desentendimento com as autoridades seculares. Só depois de censurada e suavizada poderia a Bíblia ser dada a conhecer aos leigos. Foi assim preciso aguardar o aparecimento de seitas heréticas, tais com os Lolardos (Wiclif, ca. 1376), os Luteranos (a partir de 1519) e os Calvinistas (meados do século XVI), com a sua ênfase na religião pessoal, e a tradução da Bíblia para vernáculo, para que a tradição judaico-cristã ingressasse explicitamente na consciência política europeia, ao lembrar aos soberanos que era de Deus que recebiam a riqueza e o poder, mas na condição de se portarem bem. Uma doutrina inconveniente." David S. Landes, A Riqueza e a Pobreza das Nações (1998)
"Os ensinamentos de Cristo, tal como aparecem nos Evangelhos, tiveram pouco que ver com a ética dos cristãos. A coisa mais importante sobre o Cristianismo do ponto de vista social e histórico não é Cristo mas sim a Igreja, e, se quisermos considerar o Cristianismo uma força social, não é nos Evangelhos que devemos procurar o nosso material; Cristo ensinou que deveríamos dar os nossos bens aos pobres, que não deveríamos fazer guerra, que não deveríamos ir à igreja e que não deveríamos punir o adultério. Nem os católicos, nem os protestantes demonstraram qualquer desejo forte de seguir os Seus ensinamentos a qualquer destes respeitos.
(...) Nada há de acidental quanto à diferença entre uma Igreja e o seu fundador. Logo que se supõe que a palavra de certos homens contém a verdade absoluta, surge um corpo de especialistas para interpretar os seus ensinamentos, e esses especialistas adquirem infalivelmente poder, já que possuem a chave da verdade. Como qualquer outra casta privilegiada, usam do seu poder em seu próprio benefício." Bertrand Russell (1872-1970)
"O que realmente leva os indivíduos a acreditar em Deus não é nenhum argumento intelectual. A maioria das pessoas acredita em Deus porque lhes ensinaram, desde tenra infância, a fazê-lo. Essa é a principal razão." Bertrand Russell (1872-1970)
"Como queres tu tirar com argumentos da razão ideias que o povo aprendeu sem razões?" F. Nietzsche (1844-1900)
"Gostaria de ver um mundo em que a educação tivesse por objectivo antes a liberdade mental do que o encarceramento do espírito dos jovens numa rígida armadura de dogmas, que tem em vista protegê-los ao longo da vida contra os dardos das provas imparciais. O mundo precisa de corações e de cérebros abertos, e não é mediante sistemas rígidos, quer sejam velhos ou novos, que isso pode ser conseguido." Bertrand Russell (1872-1970)
"Os católicos e os comunistas são parecidos ao acreditarem que o seu opositor não pode ser honesto e inteligente." George Orwell (1903-1950)
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