11/18/2009

A droga de que raramente se fala



Ouvir alguém falar de heroína ou de cocaína como droga é normal. O vinho em excesso é igualmente considerado uma droga viciante. O tabaco idem. Intoxicante. No entanto, a droga mais recente, da qual raramente se fala como droga, é o uso excessivo do telemóvel. Sim, já sei que o telemóvel não é em si uma droga, mas o falar ao dito pode tornar-se tão viciante para determinadas pessoas que cedo verificamos que se tornaram dependentes do aparelho. Mais mulheres do que homens? Sim, certamente. E de longe! Há muita mulher que detesta o silêncio. Precisa de ouvir-se a falar. Vai daí, volta e meia enceta conversa ao telefone com uma amiga. Cheia de banalidades, no geral.
Experimente-se analisar o comportamento de mulheres sozinhas a viajarem num comboio. Um número significativo delas, mais jovens ou menos jovens, volta e meia rapa do seu telemóvel e aí vai embalada, debitando conversa de encher minutos enquanto o comboio vai papando mais uns tantos quilómetros. A certa altura, finalmente desliga. Mais duas estações passadas e ei-la que volta a abrir a mala para tirar de lá a sua droga e dar-lhe mais uma passa. Se anteriormente tinha falado com a Marina, agora é com a Teresa. Ficam ainda em stock a Olga e a Vanda.
Com a vinda de brasileiras para Portugal aumentou a frequência dessas conversas. Falam, falam, falam. Por seu lado, não é nada raro que a pessoa com quem um homem está numa determinada ocasião passe mais tempo a falar com alguém de fora, que lhe ligou, do que propriamente connosco. Essa pessoa está ali e não está. Depois, pedirá desculpa. Se ela recorreu a uma amiga anteriormente, agora não vai deixar de ouvi-la também. Homem ao lado pega no jornal e lê. Se for homem de negócios, talvez ligue a um colega a planear qualquer coisa, mas não é normal que faça a ligação apenas para dizer olá.
A experiência mais longa que me foi dado ver do uso do telemóvel por alguém foi uma vez que tomei parte num passeio pedestre nocturno. Andámos durante cerca de duas horas. Durante esse mesmo tempo, uma das participantes que se tinha inscrito sozinha foi sempre andando com o telemóvel junto ao ouvido, andando e falando. Quando chegámos ao fim, naturalmente desligou. E disse que tinha sido muito interessante calcorrear caminhos que tinham como iluminação apenas a luz da lua.
Que estupendo negócio que as várias empresas do ramo arranjaram!

11/16/2009

Justiça e Partidos

Fala-se muito, e justamente, no financiamento dos partidos políticos, que pode ser um verdadeiro cancro para a democracia, beneficiando uns tantos, poucos, em detrimento de muitos. Então, e a partidarização da justiça? Por que motivo haveremos de ter tanta justiça partidarizada, com vários dos seus agentes indigitados pelos partidos? Ou bem que a justiça depende da competência e honestidade dos juízes, ou bem que temos juízes que estão claramente enfeudados a partidos. Nenhum partido deveria poder indigitar este ou aquele magistrado para órgãos de justiça, fossem estes quais fossem. É um enorme contra-senso do regime democrático e de uma justiça que se quer isenta. Mas quem sabe o que é isso de justiça isenta em Portugal?

11/14/2009

Justiça célere

Vai hoje a leilão uma série de objectos pessoais do confesso burlão americano Bernard Madoff e de sua mulher. É um leilão algo estranho, onde estarão, lado a lado com peças de arte, pranchas de surf, casacos, blazers, malas e jóias, num total que ronda as 200 peças. A empresa que vai conduzir o leilão estima que conseguirá arrecadar perto de meio milhão de dólares. Não é muito, e é certamente muito pouco para indemnizar as vítimas da maior fraude financeira de todos os tempos. Calcula-se que Madoff recebeu, ao longo de 20 anos, 65 biliões de dólares.
Seja como for, o que me interessa salientar neste caso é a relativa celeridade com que tudo se está a processar em termos de justiça. Madoff foi preso a 11 de Dezembro de 2008. Menos de 365 dias depois, a mulher de Madoff já concordou em entregar bens no valor de 80 milhões de dólares ao Estado. Só uma casa que o financeiro possuía numa praia está avaliada em 9 milhões.
Entretanto, Madoff não mais sairá da situação de preso em que se encontra. Foi condenado a um cúmulo de 150 anos. É possível que algumas das suas vítimas financeiras tenham já recebido alguma compensação pelos danos sofridos. Sabem, pelo menos, que alguma coisa irão receber. A isto chama-se justiça rápida, principalmente se compararmos com o andamento da justiça no nosso país. Estamos perante uma questão de boa governação, algo que naturalmente se reflecte na produtividade da vida no seu geral. Fica o registo.

11/10/2009

Taxas do Multibanco

Há anos que oiço falar da apetência da banca portuguesa pela imposição de taxas pelo uso do Multibanco. Sempre me custou a acreditar que essa medida fosse avante, dado que o sistema permitiu uma substancial redução do número de funcionários por agência, com o consequente aumento de produtividade. As simples operações de levantamento ou de depósito, além das transferências e dos muito usados pagamentos das compras nos supermercados e outras lojas tornaram-se imensamente comuns e obrigam, naturalmente, à existência de uma conta bancária com saldos que, somados, dão quantias razoáveis, o que favorece a banca, a qual cobra às empresas pela instalação e uso do Multibanco.
Agora, contudo, começo a acreditar que a medida vai mesmo ser posta em vigor. Por um lado, porque já foi publicada a legislação correspondente, por sinal mais permissiva para os comerciantes e a banca do que sucede na maioria dos países europeus. Mas o que me atemoriza verdadeiramente é a garantia (verbal) do Ministro das Finanças de que vai fazer todo o possível para que a situação não se altere. É que me vem imediatamente à cabeça um dos mais famosos conselhos de Sir Humphrey na clássica série Sim, Sr. Ministro: "Nunca devemos acreditar numa coisa até ouvirmos o respectivo desmentido oficial."

11/08/2009

Alcateias

Costuma dizer-se, a respeito dos filhos de um casal, que não são tanto as palavras de recomendação e conselho que os seus progenitores lhes dão as que verdadeiramente contam, mas sim o exemplo prático que os pais lhes revelam através dos seus actos. Traduzido em sabedoria popular, temos o "Bem prega Frei Tomás: faz o que ele diz, não o que ele faz."
Ora, o facto de esta situação se encontrar na sabedoria popular ilustra bem a frequência do abismo que não raramente existe entre as palavras e os actos das pessoas. Quando essas pessoas ocupam lugares de poder, a distância entre aquilo que lhes sai dos lábios e a sua acção concreta tende a aumentar. A revelação pública de actos pouco próprios é sempre chocante, pelo que constitui inegavelmente uma boa notícia. Um elevado número de leitores da notícia ou de ouvintes regozija-se por duas razões principais: (1) eles não estão envolvidos, o que lhes dá alguma superioridade moral e um posicionamento de juízes a distância e (2) os indivíduos que são postos em causa não são membros do seu grupo social, entendendo-se este "social" no sentido lato de família política, empresarial ou clubista (os leitores e ouvintes que são do mesmo grupo sentem-se chocados e tristes).
O que se tem registado em Portugal, à semelhança de outros países,é que os agentes de poder envolvidos actuam em cadeia de ética de favores, a qual tem a sua lógica mas está em clara oposição com a muito mais recomendável ética de valores. Por seu lado, constituindo o segredo a alma do negócio, todos os praticantes da ética de favores tendem naturalmente a confiar mais no amigo do seu próprio agrupamento social do que em qualquer outra pessoa não arregimentada. Daí surgirem escândalos que, quando são de natureza política, não só incidem sobre indivíduos como abrangem os partidos ao mostrarem a natureza dos tentáculos que unem os seus elementos.
Praticamente todos os partidos que em Portugal têm sido poder foram alvo de escândalos desta ordem a vários níveis, mas invariavelmente com aspectos de negócios materiais englobados. Infelizmente, as correspondentes punições ficaram geralmente adiadas para as calendas. Ora, pancadas em número excessivo no edifício democrático provocam naturais fissuras, que tendencialmente alastram a brechas e depois a buracos maiores que podem causar a queda de toda a estrutura. Para o público que é governado, as palavras dos seus governantes passam a soar a falso e a tentação de fugir aos impostos aumenta na exacta medida em que os cobradores desses impostos não se revelam exemplares no seu comportamento.
Se a justiça não actuar inexorável e celeremente, ou, pior ainda, se ela se mostrar envolvida na rede tentacular de interesses, a corrupção alastrará descontroladamente e o Estado de Direito passará a ser uma farsa. Res non verba é o que, mais uma vez, se pede. Antes que seja demasiado tarde.