Nos transportes colectivos, lastima-se que os lugares reservados a pessoas inválidas e a grávidas ou com bebés ao colo sejam frequentemente ocupados por humanos que aparentam óptima saúde. "Pois é! Por fora parece que estou bem. Mas só eu sei como me sinto!" Com mais uns ais de dores contidas, uma senhora de cinquenta e tal anos rapa do seu doloroso historial de três operações, dois panarícios e uma coluna que Deus-te-livre. E, impante no seu sindroma de auto-coitadinha, continua sentada, à espera que seja outro a dar o lugar ao homem que traz o bebé ao colo.
Num país com uma velhice galopante, seria natural que aqueles lugares permanecessem vagos, aguardando que fossem pessoas de muita idade a usá-los. Não parece ser esse o sentido das coisas. E que tal se houvesse multas para quem se sentasse indevidamente nesses lugares, tal como há multas para quem for apanhado a viajar sem bilhete?
12/29/2009
12/25/2009
Desejando a todos umas Boas Festas, não resisto a transcrever o poema "Dia de Natal", de António Gedeão. Vale a pena lê-lo, apesar de um bocadinho extenso...
Dia de Natal
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda~o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus,
doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
Dia de Natal
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda~o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus,
doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
12/24/2009
Boas Festas
12/20/2009
Vocês
Há dias recebi um e-mail de um velho amigo, que é inglês mas fala e escreve português praticamente como nós. É alguém que já vive há longos anos na Ásia, tendo no entanto morado alguns anos em Portugal, onde foi professor de línguas. Tem mantido contacto com o nosso país através de familiares e amigos que aqui possui e que visita sempre que lhe é possível. Colocava-me uma pergunta aparentemente simples: o plural de "tu" é "vocês"? O problema dele derivava de uma cartinha que tinha escrito para as suas pequenas netas. "Vós" não lhe soava bem, mas nenhuma das suas gramáticas lhe dizia que a forma correcta era "vocês", a qual no entanto era a que lhe vinha de pronto à mente.
Respondi-lhe que sim e acrescentei-lhe mais alguns pormenores. Mas admito que fiquei a pensar no assunto. O que vou adiante escrever são algumas dessas cogitações, que serão eventualmente confirmadas ou rejeitadas por leitores deste blog, tão portugueses como eu.
Quando nos lembramos dos nossos tempos de escola, recordamos que os pronomes pessoais que nos ensinavam eram: eu, tu, ele, ela – no singular - e nós, vós, eles, elas, no plural. O "você" não aparecia, nem tão pouco o "vocês". Consultei uma gramática da língua portuguesa editada há três anos e constato que não existem alterações relativamente ao que me foi ensinado. Contudo...
Contudo, o "você" é usadíssimo, e o "vocês" não será possivelmente menos. Lembro-me de ouvir os meus familiares dizerem-me que "você" era uma forma algo depreciativa. Por essa razão ou por outra, pessoalmente uso-a muito pouco, eliminando geralmente o pronome pessoal sujeito na conversa. Ao dizer "Como sabe," a uma pessoa, digamos que não a estou a tratar por tu, mas também não utilizo o "você". Elido-o. É o que muitos outros portugueses fazem. Recordo-me que quando passei a ter na família pessoas que não tinha tido até então – sogros - fiquei com um problema: como é que os vou tratar? Pelo nome e por tu pareceu-me abusivo. Por "pai" e "mãe" não me calhava nada. A história da possibilidade de um dia vir a ouvir "Vai chamar pai a outro!" ocorreu-me. Resolvi a questão através da elisão do pronome pessoal e passei a dizer coisas do género de "Como já vos disse", ou, dirigindo-me apenas a um deles, "Como lhe contei no outro dia". Já lá vão quase quatro décadas e devo dizer que não tenho tido quaisquer problemas. Nunca me passou pela cabeça dizer-lhes: "Como vocês sabem,..." Pareceu-me, talvez pela minha educação – também nunca chamei "velhos" aos meus pais – que o termo "vocês" soava algo depreciativamente. Mas será mesmo assim? Entretanto, com outras pessoas que não tutuo (este verbo não existe no meu dicionário com o significado de "tratar por tu", mas deveria existir), digo coisas como "Ó Manuela, não acha que...?" e a questão fica resolvida.
O "você", tal como terei aprendido, deriva de uma forma hoje perfeitamente antiquada: "Vossa Mercê". Daqui terá passado a "vossemecê" e, posteriormente, a "você". De há várias décadas a esta parte, a influência do Brasil telenovelado terá contribuído fortemente para a divulgação do "você" em Portugal.
E será que "você" se usa com a mesma pessoa verbal de “tu”, i.e. a segunda do singular? Não. E não poderia ser de outra maneira, pois sempre que eliminássemos o pronome as formas do verbo sairiam iguais. "Você" usa-se com a terceira pessoa do singular. Por seu lado, "vocês" usa-se com a terceira pessoa do plural. A segunda pessoa do plural, v.g. "sabeis", "sois" está em vias de extinção e só se usa com "vós", que está igualmente moribundo, se exceptuarmos as palavras de membros eclesiásticos e de algumas pessoas do interior do país. (É interessante notar que, no decorrer da missa, se opera entre o padre e a congregação um algo inesperado "vós" e "tu", em latim: Dominus vobiscum (Que o Senhor seja convosco!) Et cum spiritu tuo (e com o teu espírito).
Entretanto, a (con)fusão do plural com o singular é algo que nos faz pensar um pouco na estratificação da sociedade em classes, umas mais elevadas do que outras. Se repararmos em Vossa Majestade e Vossa Alteza, em Vossa Senhoria e na mencionada Vossa Mercê já em desuso, mas também no Vossa Excelência ainda hoje muito frequente, notamos que o "vossa" é pedido emprestado ao pronome possessivo com características de plural – "o vosso pai" ou "a vossa mãe" geralmente implica que se está a falar para mais de uma pessoa. Mas é um facto que poderei estar a dirigir-me apenas a uma pessoa que tenha muita idade e/ou por quem eu nutra muito respeito e tenha alguma hesitação em usar o mais comum "o seu pai" ou "a sua mãe". Isto implica que a consideração que um rei ou uma princesa nos merece, ou alguém que ocupa um importante cargo político pode levar-nos a olhá-los como mais do que uma pessoa. Por isso, Papas, Reis, Presidentes da República e quejandos usarão o plural majestático: "Parece-nos que..." (Se eu, ao dar a minha opinião a um amigo, lhe disser "Parece-nos que..." ele dir-me-á de pronto: "Parece-nos a quem? A ti e à bicha solitária que tens aí dentro?", no que terá toda a razão).
Ora, aqui coloca-se a pergunta: esta estratificação de classes também entrará no uso de "vocês"? Estou em crer que sim. Imaginemos uma casa de gente rica e algo snob que contrata uma empregada para tomar conta da Filipinha e da Inês, meninas pequenas como são as netas do meu amigo inglês. Se a mãe das pequenitas ouve a empregada a repreendê-las "Vocês não podem fazer isso!" poderá chamar-lhe a atenção para que não use o "vocês" (ela não é suposta tratá-las por "tu"), mas sim "A Filipinha e a Inês não podem fazer isso" ou "As meninas não podem fazer isso!"
O que digo aqui para uma casa rica é também verdade, creio eu, em jardins de infância, nomeadamente naqueles em que casais com mais posses depositam os seus filhotes. "Os meninos e as meninas" será a forma correcta. "Vocês" não deve ser usado.
E aqui entramos na última forma que me proponho abordar, que está ligada também ao sentido de superioridade de classe de uma determinada pessoa, um género de "o menino" ou "a menina", mas agora na versão adulta. Quando o menino se forma em Engenharia e a menina em Direito passam a ser, respectivamente, "o senhor engenheiro" e "a senhora doutora". A partir daí, o protocolo continua a exigir que, com excepção de familiares chegados, quando alguém se lhes dirige deva dizer "Como está o Senhor Engenheiro?", ou "A senhora doutora vai de férias em Agosto?", isto é: embora esteja na presença do engenheiro e da advogada, quem se lhes dirige fala com eles como se estivesse por exemplo a falar com a mãe deles. É a grande distância hierárquica que impera na sociedade portuguesa ainda a funcionar. Aliás é a distância hierárquica que leva casais de famílias "bem" a usarem entre si "você" em vez de "tu", para se distinguirem dos mais comuns mortais, como se não fossem para a cama juntos. Mas isso seria outra história.
Já agora, em inglês é tudo you, não é verdade?
Para finalizar, espero que vocês desculpem a lenga-lenga. E Boas Festas para todos vós!
Respondi-lhe que sim e acrescentei-lhe mais alguns pormenores. Mas admito que fiquei a pensar no assunto. O que vou adiante escrever são algumas dessas cogitações, que serão eventualmente confirmadas ou rejeitadas por leitores deste blog, tão portugueses como eu.
Quando nos lembramos dos nossos tempos de escola, recordamos que os pronomes pessoais que nos ensinavam eram: eu, tu, ele, ela – no singular - e nós, vós, eles, elas, no plural. O "você" não aparecia, nem tão pouco o "vocês". Consultei uma gramática da língua portuguesa editada há três anos e constato que não existem alterações relativamente ao que me foi ensinado. Contudo...
Contudo, o "você" é usadíssimo, e o "vocês" não será possivelmente menos. Lembro-me de ouvir os meus familiares dizerem-me que "você" era uma forma algo depreciativa. Por essa razão ou por outra, pessoalmente uso-a muito pouco, eliminando geralmente o pronome pessoal sujeito na conversa. Ao dizer "Como sabe," a uma pessoa, digamos que não a estou a tratar por tu, mas também não utilizo o "você". Elido-o. É o que muitos outros portugueses fazem. Recordo-me que quando passei a ter na família pessoas que não tinha tido até então – sogros - fiquei com um problema: como é que os vou tratar? Pelo nome e por tu pareceu-me abusivo. Por "pai" e "mãe" não me calhava nada. A história da possibilidade de um dia vir a ouvir "Vai chamar pai a outro!" ocorreu-me. Resolvi a questão através da elisão do pronome pessoal e passei a dizer coisas do género de "Como já vos disse", ou, dirigindo-me apenas a um deles, "Como lhe contei no outro dia". Já lá vão quase quatro décadas e devo dizer que não tenho tido quaisquer problemas. Nunca me passou pela cabeça dizer-lhes: "Como vocês sabem,..." Pareceu-me, talvez pela minha educação – também nunca chamei "velhos" aos meus pais – que o termo "vocês" soava algo depreciativamente. Mas será mesmo assim? Entretanto, com outras pessoas que não tutuo (este verbo não existe no meu dicionário com o significado de "tratar por tu", mas deveria existir), digo coisas como "Ó Manuela, não acha que...?" e a questão fica resolvida.
O "você", tal como terei aprendido, deriva de uma forma hoje perfeitamente antiquada: "Vossa Mercê". Daqui terá passado a "vossemecê" e, posteriormente, a "você". De há várias décadas a esta parte, a influência do Brasil telenovelado terá contribuído fortemente para a divulgação do "você" em Portugal.
E será que "você" se usa com a mesma pessoa verbal de “tu”, i.e. a segunda do singular? Não. E não poderia ser de outra maneira, pois sempre que eliminássemos o pronome as formas do verbo sairiam iguais. "Você" usa-se com a terceira pessoa do singular. Por seu lado, "vocês" usa-se com a terceira pessoa do plural. A segunda pessoa do plural, v.g. "sabeis", "sois" está em vias de extinção e só se usa com "vós", que está igualmente moribundo, se exceptuarmos as palavras de membros eclesiásticos e de algumas pessoas do interior do país. (É interessante notar que, no decorrer da missa, se opera entre o padre e a congregação um algo inesperado "vós" e "tu", em latim: Dominus vobiscum (Que o Senhor seja convosco!) Et cum spiritu tuo (e com o teu espírito).
Entretanto, a (con)fusão do plural com o singular é algo que nos faz pensar um pouco na estratificação da sociedade em classes, umas mais elevadas do que outras. Se repararmos em Vossa Majestade e Vossa Alteza, em Vossa Senhoria e na mencionada Vossa Mercê já em desuso, mas também no Vossa Excelência ainda hoje muito frequente, notamos que o "vossa" é pedido emprestado ao pronome possessivo com características de plural – "o vosso pai" ou "a vossa mãe" geralmente implica que se está a falar para mais de uma pessoa. Mas é um facto que poderei estar a dirigir-me apenas a uma pessoa que tenha muita idade e/ou por quem eu nutra muito respeito e tenha alguma hesitação em usar o mais comum "o seu pai" ou "a sua mãe". Isto implica que a consideração que um rei ou uma princesa nos merece, ou alguém que ocupa um importante cargo político pode levar-nos a olhá-los como mais do que uma pessoa. Por isso, Papas, Reis, Presidentes da República e quejandos usarão o plural majestático: "Parece-nos que..." (Se eu, ao dar a minha opinião a um amigo, lhe disser "Parece-nos que..." ele dir-me-á de pronto: "Parece-nos a quem? A ti e à bicha solitária que tens aí dentro?", no que terá toda a razão).
Ora, aqui coloca-se a pergunta: esta estratificação de classes também entrará no uso de "vocês"? Estou em crer que sim. Imaginemos uma casa de gente rica e algo snob que contrata uma empregada para tomar conta da Filipinha e da Inês, meninas pequenas como são as netas do meu amigo inglês. Se a mãe das pequenitas ouve a empregada a repreendê-las "Vocês não podem fazer isso!" poderá chamar-lhe a atenção para que não use o "vocês" (ela não é suposta tratá-las por "tu"), mas sim "A Filipinha e a Inês não podem fazer isso" ou "As meninas não podem fazer isso!"
O que digo aqui para uma casa rica é também verdade, creio eu, em jardins de infância, nomeadamente naqueles em que casais com mais posses depositam os seus filhotes. "Os meninos e as meninas" será a forma correcta. "Vocês" não deve ser usado.
E aqui entramos na última forma que me proponho abordar, que está ligada também ao sentido de superioridade de classe de uma determinada pessoa, um género de "o menino" ou "a menina", mas agora na versão adulta. Quando o menino se forma em Engenharia e a menina em Direito passam a ser, respectivamente, "o senhor engenheiro" e "a senhora doutora". A partir daí, o protocolo continua a exigir que, com excepção de familiares chegados, quando alguém se lhes dirige deva dizer "Como está o Senhor Engenheiro?", ou "A senhora doutora vai de férias em Agosto?", isto é: embora esteja na presença do engenheiro e da advogada, quem se lhes dirige fala com eles como se estivesse por exemplo a falar com a mãe deles. É a grande distância hierárquica que impera na sociedade portuguesa ainda a funcionar. Aliás é a distância hierárquica que leva casais de famílias "bem" a usarem entre si "você" em vez de "tu", para se distinguirem dos mais comuns mortais, como se não fossem para a cama juntos. Mas isso seria outra história.
Já agora, em inglês é tudo you, não é verdade?
Para finalizar, espero que vocês desculpem a lenga-lenga. E Boas Festas para todos vós!
12/17/2009
Uma prenda de Natal emprestada
Ao contrário do que sucede quando nos oferecem uma coisa, sempre que algo nos é emprestado temos obrigação de proceder à respectiva devolução tão depressa quanto possível. Acabo de receber um soit disant "empréstimo" que me alegra e que, dada a quadra que atravessamos, me permito incluir nas minhas prendinhas natalícias.
Leio no título principal do jornal Público que a "entrada em vigor do acordo ortográfico nas escolas não ocorrerá antes de 2011/2012". Sem ser óptima, é uma notícia satisfatória. E satisfatória pelo menos por três motivos: primeiro, porque os responsáveis entendem que deve haver um período de reflexão anterior à entrada do dito acordo, com preparação conveniente por parte dos professores; segundo, porque durante esse período preparatório e de reflexão pode acontecer que finalmente se descortine o tremendo disparate que o acordo representa e a falta de discussão democrática que ele registou; terceiro, porque a notícia não fixa uma data para a entrada em vigor do acordo nas escolas – sabemos apenas que não será antes de 2011/2012. Esperamos que fique adiado para as calendas.
O meu sapatinho de Natal ficou mais confortado.
Leio no título principal do jornal Público que a "entrada em vigor do acordo ortográfico nas escolas não ocorrerá antes de 2011/2012". Sem ser óptima, é uma notícia satisfatória. E satisfatória pelo menos por três motivos: primeiro, porque os responsáveis entendem que deve haver um período de reflexão anterior à entrada do dito acordo, com preparação conveniente por parte dos professores; segundo, porque durante esse período preparatório e de reflexão pode acontecer que finalmente se descortine o tremendo disparate que o acordo representa e a falta de discussão democrática que ele registou; terceiro, porque a notícia não fixa uma data para a entrada em vigor do acordo nas escolas – sabemos apenas que não será antes de 2011/2012. Esperamos que fique adiado para as calendas.
O meu sapatinho de Natal ficou mais confortado.
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