1/24/2010

RAÍCES



Por preciosa sugestão de um amigo, assisti ontem a um espectáculo diferente de tudo aquilo que até agora tinha visto.
Tratou-se de uma apresentação do grupo espanhol “RAÍCES” interpretando cantos tradicionais judéo-espanhóis com o mui sugestivo título de “Palavricas de amor, canticas y romanzas sefardíes”.
Música fabulosa e a simpatia e boa voz da vocalista do grupo (na fotografia, sentada ao meio) fizeram da hora e tal de espectáculo um encantamento. Devo confessar que não tinha conhecimento da música sefardita, e que a que ontem ouvi me transportou para um mundo de beleza, ora alegre, ora melancólica, mas sempre muito bonita. Senti-me nalguma festa de corte do século XV (enquanto houve judeus em Portugal os reis não dispensaram os seus cantos e danças nas festas palacianas), ou numa das típicas cenas de casamentos judeus que vemos em filmes americanos.
A cada música, a vocalista do grupo dava uma pequena explicação do que se ia ouvir: a origem (marroquina, turca, argelina...) e as circunstâncias em que a mesma era cantada (casamento ou outra cerimónia)
Os restantes cinco elementos do grupo tocavam todos eles instrumentos de cordas: uma bandúrria, um laúd (ambos tìpicamente espanhóis com origens na Idade Média), um violino, uma guitarra acústica e outra semi-acústica.
Sinto-me mais rica, hoje!
Quando souber de outra digressão por Portugal, além de garantir lugar para mim, avisarei quem agora ficou com pena de não ter ido.

1/22/2010

Um argumento de peso


Creio que todos nós achamos perfeitamente justificado que um excesso de bagagem transportada de avião seja sujeito a um pagamento extra. Se não fosse assim, em breve os passageiros quereriam que os aviões onde viajam transportassem este mundo e o outro. Tudo bem com a bagagem, portanto. E se a questão se colocar com os próprios passageiros? Será que o Obélix, devido ao seu peso, deverá pagar mais pelo bilhete do que o seu amigo Astérix? Ou deverá comprar um segundo bilhete, na medida em que poderá vir na realidade a ocupar dois lugares?
Esta é uma questão que, se foi já várias vezes colocada pelas companhias de aviação nas suas reuniões de trabalho, nunca transpirou cá para fora. Nunca, isto é: até esta semana. A Air France que, em associação com a KLM, forma a maior companhia de aviação europeia, anunciou esta semana que iria oferecer um lugar vago a passageiros obesos. Como? Passageiros com peso considerado excessivo podem a partir de agora comprar um segundo assento com o desconto especial de 25 por cento. Se o voo não estiver cheio, o dinheiro pago será posteriormente reembolsado.
O porta-voz da companhia informou que, em consonância com o praticado por outras linhas aéreas, existe sempre a possibilidade de passageiros obesos serem impedidos de embarcar. Por que razão? Porque "as companhias querem ter a garantia de que um avião pode ser totalmente evacuado no tempo máximo de 90 segundos".
Acrescentou o mesmo porta-voz que, no caso de um passageiro obeso não ter adquirido um bilhete extra, o pessoal do check-in não levantará qualquer objecção. Por sua vez, já dentro do aparelho os assistentes de bordo tentarão encontrar uma solução, uma vez que "em 99 por cento" dos casos os aviões não esgotam a sua lotação.
Um pormenor importante para evitar discriminações absolutas: qualquer outro passageiro sem problemas pessoais de peso poderá igualmente adquirir um segundo bilhete com os mesmos 25 por cento de desconto. Neste caso, porém, não terá direito a qualquer reembolso depois de efectuada a viagem.

1/20/2010

Conferência sobre a Índia de Gandhi




A conferência que ontem teve lugar na Fundação Gulbenkian podia, como tudo sempre pode, ter sido melhor. Para alguns, terá mesmo sido algo desapontante. Tal como sucede noutros casos, porém, não é tanto o que a conferência nos disse que importa, mas sim aquilo que ela acabou por evocar. A conferencista era Tara Gandhi, neta de Mahatma Gandhi.
Do seu avô, um brevíssimo resumo biográfico: nascido em 1869, cursou Direito em Londres e regressou à Índia, onde não teve grande sucesso como advogado. Mudou-se para a África do Sul, onde existia uma larga comunidade hindu. Aos poucos, Gandhi tornou-se o advogado defensor dessa comunidade. Era mal visto pelos brancos, que chegaram a espancá-lo. Gandhi recusou processá-los. Os seus princípios impunham-lhe a não-violência e o respeito pelos direitos das pessoas. A sua luta foi sempre pela verdade e pela igualdade de direitos. A sua política de manifestações e marchas ordeiras que não ofereciam qualquer resistência às autoridades criou dificuldades ao regime sul-africano. Neste sentido, Gandhi inspirou Nelson Mandela e, nos Estados Unidos, Martin Luther King. Vinte anos depois, regressou à Índia, ainda dominada pelos ingleses. Depressa se tornou um ídolo que controlava as multidões e causava dores de cabeça aos colonizadores europeus. Jejuns prolongados e marchas pacíficas com uma multidão de pessoas abalaram a jóia da coroa dos britânicos. Quit India! tornou-se slogan. Os ingleses, que nunca estiveram interessados em mudar a Índia, mas apenas em controlá-la para dela sacarem o máximo que podiam, tinham mantido os ricos marajás para controlar as enormes massas de gente. Fizeram o mesmo com Gandhi. Em 1948, a Inglaterra concedeu a independência à Índia. Poucos meses depois, Gandhi foi assassinado por um seu compatriota.(Foto do túmulo simbólico de Gandhi, em Delhi.)
A Índia, e isto é um lugar comum dizer-se, é como que o símbolo de uma cultura asiática que os antigos colonizadores ingleses repetidamente frisaram ser muito diferente da nossa, ocidental. E isto não são meras palavras. São factos. Gandhi não teria sido tão apelativo na Europa como o foi na Índia. Aqui, poderia facilmente ter sido preso, como na África do Sul. A sua política de activa não-violência, de resistência contínua à manutenção da cultura própria do seu povo, cultura menos interessada no usufruto dos bens materiais do que dos prazeres espirituais, teria ela mesmo encontrado uma forte resistência na nossa Europa. Em Portugal, por exemplo, a noção do dever e de missão que muitos dos indianos ainda hoje inerentemente sentem depararia com forte oposição na nossa luta permanente por mais e mais direitos, que nós confundimos frequentemente com os nossos desejos.
Ora, se a Índia fosse assim, a confusão reinaria por todo o lado. Com uma população de mil e cem milhões de pessoas, num país que é vasto mas está também algo gasto pela exploração que ao longo de milénios as pessoas vêm fazendo dele, a Índia tem obrigatoriamente de possuir outra filosofia de vida. A religião ajuda. As diferentes religiões, aliás. A maioria da população é hindu, mas com notórias variantes. Os muçulmanos, por seu lado, são mais de 120 milhões. Parafraseando a visão de Alberto Morávia, que nos deixou as suas impressões sobre o continente indiano que eu também já tive a felicidade de visitar, direi que a nossa Europa personifica o continente onde o homem está convencido de viver no centro do mundo, onde o passado se chama história e a acção é preferida à contemplação; na Europa pensa-se que a vida vale a pena ser vivida. Foi na Europa que André Malraux disse "Uma vida nada vale, mas nada vale tanto como uma vida", uma frase da qual um grande número de europeus não discordaria. Contrastantemente, na Índia existe como que uma desvalorização completa da vida, a qual surge como coisa um tanto absurda e dolorosa. Prevalece a convicção de que o homem não deve agir para melhorar o mundo mas para dele sair e alcançar a realidade supra-sensível ou verdadeiramente espiritual. A religião está, assim, imbuída de uma concepção negativa quanto à realidade dos sentidos, mas é francamente positiva quanto à realidade espiritual. Daqui advém toda uma paciência e resignação com aquilo que, inversamente para nós, são as agruras da vida e que nos tornam ansiosos por alcançarmos mais e mais bens concretos "enquanto cá estamos". Visitar Benares (Varanasi), peregrinar pela longuíssima margem do rio Ganges e assistir a peripatéticos passeios solitários de idosos ao longo da amurada, a funerais onde o corpo é incinerado e as cinzas deitadas às águas do rio, é uma visão inesquecível para quem possui uma cultura bem diferente daquela. Ali, a morte é aceite como naturalidade. É amiga e desejável.
Também nas questões do amor se nota um enorme contraste entre indianos e ocidentais. Revendo as clássicas pinturas europeias de Adão e Eva, notamos todo um pudor cristão e ocidental em mostrar os corpos e, nomeadamente, os órgãos sexuais. Tudo se resume ao simbolismo do fruto proibido. Pelo contrário, em numerosos templos indianos, e com especial realce para os mais de vinte que existem em Khajuraho, encontramos, a par do horror ao vazio nas paredes exteriores, que são preenchidas por uma imensa profusão de estatuária, a expressão do amor carnal. No Ocidente, seria absolutamente impensável encontrarmos este tipo de amor explícito (ver fotos acima) na decoração das nossas igrejas ou mesmo em quadros de museu. Morávia nota que entre nós "o acto sexual é empurrado para fora do mundo humano, na medida em que contradiz a idealização da pessoa humana que é procurada no Ocidente desde o paganismo até aos nossos dias. Adão e Eva, na Índia, são, pelo contrário, representados no acto da ligação carnal, porque o acto sexual não está banido do mundo humano, mas sim incluído e recuperado como êxtase cósmico, como comunicação total."
Sob o ponto de vista económico, no importante sector dos tecidos da Índia, a roca de fiar de que Gandhi tanto falava mantém-se ainda, como foi referido por Tara Gandhi na sua exposição. Na Índia existe uma preocupação natural e justificada em manter as pessoas ocupadas com trabalho. Daí que, a par de avançada tecnologia que naturalmente penetrou no continente indiano, se tenham mantido costumes mais antigos e tradicionais que permitem a ocupação de um maior número de pessoas em algo de útil. Como Tara Gandhi frisou: "Não pretendemos ser um país de produção em massa, mas sim um país de produção pelas massas (da população)".
Num aparte, foi curioso ouvir a neta de Gandhi notar o facto de que muitos ocidentais usam na sua língua os nomes de animais em sentido depreciativo e os conotam com qualidades negativas do homem. De facto, para um ser humano ser apodado de cão ou de cadela não é nada lustroso; tão pouco ser uma vaca ou um boi, uma baleia ou um tubarão, um porco ou um burro.
De alguém vindo de um país como a Índia, que adora o silêncio e a meditação, e onde se compreende profundamente que a simplicidade é a essência da universalidade, não é de estranhar ouvir dizer que as vibrações do silêncio são a linguagem suprema, como Tara Gandhi referiu.
Parece-me poder dizer que a conferência foi útil como motivo de reflexão para muitos, entre os quais me incluo.

1/19/2010

Google vs. China


É interessante ver o braço-de-ferro que presentemente se dirime entre a Google e a China. Na base de uma interferência considerada inadmissível pela Google, levada a efeito por técnicos informáticos em e-mails de alguns dos seus muitos clientes chineses, a empresa americana admitiu retirar-se da China, um mercado importante principalmente em termos futuros, sobretudo para uma companhia como a Google que pretende oferecer os seus serviços a nível mundial.
Anteriormente, para entrar no mercado a Google já tinha cedido perante o governo chinês ao não admitir determinadas palavras que foram consideradas "perigosas" pelas autoridades chinesas em textos a circular através da rede da empresa. Essa cedência, já com algum tempo, mereceu severas críticas por parte do Ocidente.
Este é um braço-de-ferro em que a China não vai obviamente ceder. A presença da Google é favorável à China até certo ponto, por mostrar perante outros países do mundo, muitos deles clientes dos seus produtos, uma certa abertura que favorece a sua imagem e consequentemente o seu comércio. Mas existe, e tem mesmo que existir uma mão-de-ferro na condução da política chinesa. Governar um país vastíssimo, com 1350 milhões de pessoas, de várias etnias e com características e tradições naturalmente diversas, é algo muito diferente de administrar uma quinta ou uma empresa como a Google. É de admitir que esta abandone mais tarde ou mais cedo o mercado chinês. Assim, sempre salva a sua face.

1/16/2010

Desigualdades gritantes


No dia seguinte àquele em que ocorreu a tragédia no Haiti, fui a uma conferência sobre desenvolvimento a nível mundial. A conferência estava há muito planeada e não era, obviamente, o Haiti o seu tema principal. De resto, o nome deste pequeno país das Caraíbas nem sequer lá foi mencionado. E, contudo...
Na referida conferência, que se baseava no Panorama Económico e Social do Mundo, havia apenas um orador convidado, que preparou cuidadosa e até humildemente o que ia dizer, não se importando de ser menos correcto politicamente nalguns apartes que provinham da sua já longa experiência profissional. Estava a falar para uma pequena plateia maioritariamente constituída por engenheiros e economistas. No início da sessão, cada um dos presentes pôde recolher exemplares de uma síntese em português do World Economic and Social Survey 2009.
Ora, é deste relatório que retiro o gráfico acima. Creio que o que ele nos mostra é bastante elucidativo. As enormes disparidades económicas e sociais a nível mundial são bem visíveis. A propósito do muito badalado problema do ambiente e do aquecimento do planeta, o fracasso da cimeira de Copenhaga ocorreu em grande medida porque as desigualdades de desenvolvimento são tão acentuadas. Note-se que, desde 1950, em termos ambientais os países avançados têm sido responsáveis por aproximadamente 75 por cento do aumento das emissões de dióxido de carbono, apesar de representarem menos de 15 por cento da população mundial. O desenvolvimento económico continua a ser o principal desafio. Ora, esse desenvolvimento é importante não só para conseguir a erradicação da pobreza como também para reduzir gradualmente as enormes diferenças de rendimento entre os dois grupos de países. A ideia de manter inalterado o actual nível de desigualdade, enquanto o mundo procura resolver o problema do clima, não só é eticamente inaceitável como seria um factor de desestabilização política (estive a citar partes do relatório, que está na Net na sua versão integral).
No gráfico acima, verifica-se que a linha de paridade de poder de compra dos países do G7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Canadá, Reino Unido, França e Itália) só foi ultrapassada há poucos anos pelo restrito grupo asiático a), que inclui Hong Kong, a Coreia, Singapura e Taiwan. Note-se que todos os outros países aqui referidos têm mantido uma linha que se afasta cada vez mais da do G7. A conversa do Produto Interno Bruto (PIB), isoladamente por país, é um bocado de treta, como todos sabemos. O PIB por habitante já dá uma ideia mais correcta. Simplificadamente, poderá dizer-se que a paridade de poder de compra entra aqui. Ora, repare-se como nos últimos 27 anos a situação se tem degradado substancialmente em matéria de desigualdade social (apesar da constante balela que apregoa exactamente o contrário).
E onde cabe o Haiti, cuja situação hoje toda a gente lamenta? O importante é que não nos esqueçamos que antes do tremor de terra a sua situação não era única. E também não era nada brilhante. Não se verificava, por exemplo, uma intensa procura por interruptores de electricidade, pois esta era – e é – inexistente em muitíssimas casas. O analfabetismo grassa entre a população. Mais de 50 por cento não sabe ler, nem escrever, nem fazer contas a sério. Porquê?, perguntar-se-á. É assim mesmo. Para que uns enriqueçam, outros têm de permanecer pobres. Assim como para que os governantes dos países subdesenvolvidos permaneçam nos seus postos eles têm de agradar aos investidores internacionais. Ora, o propósito do investidor não é o de ensinar o povo a ler, mas sim o de sacar dinheiro através de mão-de-obra barata e benefícios fiscais. É assim no Haiti, na Índia, na China. Os indivíduos mais letrados destes países há muito que o entenderam. É aqui que constitui uma enorme hipocrisia falar da situação do povo do Haiti como se fosse apenas o resultado de uma catástrofe natural e de agora. Celebridades do mundo do espectáculo e da arte oferecem uns milhões das suas contas pessoais, mas sabem antecipadamente que isso lhes é vantajoso: não só o Estado reconhece oficialmente as suas entregas em termos fiscais, como a sua imagem ganha ao nível da opinião pública. E a imagem conta muito. Sempre é melhor dar aos pobres do Haiti, que é um acto altruísta, do que entregar impostos ao Estado, algo que pode causar inveja pelo que dá a entender dos vultosos rendimentos auferidos.
Contou alguém na sessão acima referida que quando trabalhou num determinado banco internacional viu ser alocado um milhão de euros a um projecto dinamarquês apenas para a realização de um estudo que permitisse que a cor de uma ponte se mantivesse congruente com a paisagem. Para uma empresa em Moçambique terão ido três milhões de euros para construir uma torre anti-poluente numa zona onde, garantidamente, o ar era puríssimo. Quando um país oferece a outro subsídios é sempre sob uma cláusula de contratos com empresas nacionais: assim, em última análise, os subsídios revertem mais a favor de quem os dá do que de quem os recebe.
E agora, em termos de Copenhaga, como é que se pode levar países, que estão habituados a "colonizar" outros, a contribuir com elevados montantes, dentro de planos bem estruturados, mas sem qualquer retorno que não uma melhoria social a médio prazo e um melhor ambiente, tudo em termos globais? Que políticos são capazes, numa altura de sério desemprego para muitos países ocidentais, de levar os seus concidadãos a concordar com contribuições mais ou menos vultosas? Dado que a democracia depende imenso da opinião pública devido aos necessários votos dos eleitores, que políticos potencialmente ganhadores conseguirão levar o povo a fazer sacrifícios para o bem mundial? Será mais fácil dar um sinal contrário - o de proteger os nacionais - através de acções que dificultem a vida a trabalhadores estrangeiros, à semelhança do exemplo que a Itália nos está a oferecer.
A situação é complexa. No Haiti ainda houve um tremor de terra que, de forma politicamente correcta, leva com as culpas todas. A verdade é bem diferente. O brasileiro Gilberto Gil já a cantou, e bem, há uns anos atrás. Por sinal, exactamente em relação ao Haiti.