3/06/2010

Vêem-se gregos!


A mentalidade alemã entra definitivamente em choque com a prodigalidade nos gastos demonstrada pelos gregos. Os alemães vêem-se a si próprios como aforradores e não como gastadores. Daí negarem em absoluto o empréstimo de dinheiro dos contribuintes aos endividados gregos.
Dois deputados alemães sugeriram no Parlamento que a Grécia devia proceder à venda de ilhas desabitadas que possui para abater as suas dívidas. Esta sugestão pode arrepiar, mas está longe de ser original. Ao que me lembro, no virar do século XIX para o XX a Inglaterra também pretendia Angola em pagamento da dívida portuguesa. Noutro caso, as Filipinas passaram para as mãos dos americanos para que os espanhóis não lhes tivessem de pagar mais dinheiro como indemnização da guerra pela posse de Cuba na década de 1890.
Vender ilhas! Tudo me lembra uma ideia-base de castigo ao uso inconveniente pela Grécia do conceito "Enjoy now, pay later!". Agora, tendo em consideração o seu enorme défice, dir-se-ia que a Grécia ouve alguém dizer: "Se queres ficar com a moto, tens que vender o sidecar!"
E quanto a Portugal? Deve começar a pôr as suas barbas de molho?

3/03/2010

Espiões mais ou menos célebres

E agora, como os Monty Python diriam, algo completamente diferente. E curtinho. Começo pelo R.B. De entre os muitos professores de Inglês que admiti no instituto em que trabalhei ao longo de dezenas de anos, destaco o R.B. Não um que foi meu colega durante mais de vinte anos e de quem ainda hoje sou amigo, mas outro R.B. que, após uma entrevista para o lugar de professor que iria dentro em breve ficar vago, entrou pelas melhores razões. Tinha boa cultura, alguma experiência de ensino, possuía um curso de uma boa universidade inglesa e falava com grande clareza, numa pronúncia de que todos os alunos gostam. O seu português não era por aí além, mas fazia-se compreender. Pois, o R.B. não desiludiu. Os alunos apreciavam-no. Quando aos seus colegas, atentavam nele principalmente pela sua extraordinária capacidade de controlo de meditação. Na sala de professores, conseguia invariavelmente descansar de olhos fechados durante os cerca de dez minutos de pausa. Notável. Pouco após ter renovado o seu contrato por mais um ano, digamos um mês ou dois depois, o R.B. subitamente desapareceu. Deixou-me uma breve nota, que não dizia muito mas era suficiente: um compromisso inadiável obrigava-o a sair do país. Ia para a Ásia. Mais não disse. Através de um amigo comum, consegui confirmar aquilo de que não só eu por vezes suspeitava: o R.B. era um secret agent. O lugar de professor de Inglês era uma maneira de encobrir o seu verdadeiro papel. Estava ao serviço de Sua Majestade britânica, qual James Bond.
O R.B. foi o primeiro e único agente secreto que conheci pessoalmente. O curioso é que durante as nossas conversas calhámos a falar de Ian Fleming. Este, como todos sabemos, foi um famoso escritor inglês. Terá sido baseado num outro espião (de nome Popov)que, nos tempos da 2ª Grande Guerra, frequentava tal como ele a sociedade ociosa mas bem informada que se juntava no velho Casino Estoril, que Ian Fleming criou a figura do mais célebre espião inglês de todos os tempos: James Bond. Ao saltar para a tela cinematográfica, Bond ganhou uma nova dimensão, que isto de ser espião tem naturalmente os seus riscos. A contra-espionagem é séria. Mas um bom espião escapa sempre; às vezes até faz jogo duplo.
Vamos conhecer mais uns nomes de espiões famosos.
Robert Baden-Powell, militar inglês que faleceu em 1941 e ficou famoso por ter sido o fundador dos Escuteiros (Boy Scouts) exerceu a actividade de espião. Com todo o gosto, ao que se sabe. Fê-lo primeiro na África do Sul. Secretamente, desenhou mapas importantíssimos para os seus superiores. Oficialmente, trabalhava como correspondente de um jornal. Depois de ter actuado como espião das actividades dos alemães e dos russos, foi nomeado responsável por toda a zona do Mediterrâneo. Dos muitos disfarces que utilizou durante a sua vida, o mais engenhoso terá sido o de coleccionador de borboletas. Era nos seus artísticos desenhos das asas das borboletas que ele lograva esconder pormenores vitais sobre fortificações e armas do inimigo.
Outro escritor bem conhecido, mais antigo, que trabalhou também como espião para a coroa inglesa foi Daniel Defoe. O nome pode dizer pouco, mas se se disser que a sua obra mais famosa foi Robinson Crusoe, o desconhecimento passa para segundo plano. E como escondia ele a sua missão? Passando por caixeiro-viajante. Estávamos no início do século XVIII e Defoe deu regularmente informações importantes ao governo de Sua Majestade, fosse ele composto por Whigs (liberais) ou por Tories (conservadores).
Um último nome para o cestinho dos espiões: Somerset Maugham. O autor de Servidão Humana, O Fio da Navalha e múltiplos contos interessantíssimos, era médico e um incansável globetrotter. A sua actividade de fachada foi sempre a de repórter free-lance que escrevia para várias publicações americanas. Faleceu em 1965, um ano depois de Ian Fleming.
Quanto a espiões portugueses, creio que pouco se sabe, embora tenha havido vários ao serviço dos nossos reis em terras de França e certamente também em Madrid. Aliás, em matéria de informadores ficámos até demasiado bem servidos ao longo do século XX...

2/26/2010

As faixas do CD



Há determinadas expressões que por vezes começam como meras tiradas de humor e, mais tarde, se revelam não só bastante certeiras como também não necessariamente aplicáveis apenas ao alvo original. Dentro das milhares de expressões de humoranónimo, recordo-me agora especialmente de uma. Diz o seguinte: "A mulher é como um CD de música. Por causa de uma ou outra parte boa, acabamos por ficar com tudo."
Dando de barato que a piada provém de um homem, admito que, no presente caso, não seja a já habitual provocação masculina à mulher que me interessa particularmente. Parece-me muito mais importante a aplicabilidade da frase a muitas outras coisas.
Qualquer um de nós sabe que possui facetas que agradam a uns tantos e desagradam a outros. Essas facetas, que num CD são faixas de música, sempre se revelaram importantes para uma catalogação que tendemos a fazer dos outros e os outros tendem a fazer de nós. Apesar de sermos tão variados como as tais faixas musicais, criamos empatias com umas pessoas e antipatias por outras, porque determinadas faixas, positivas ou negativas, se tornam predominantes para nós. É nessa base que nos apressamos a classificar e a catalogar as pessoas que, de uma forma ou doutra, encontramos na nossa vida. Escolhemos as facetas que nos são mais queridas ou, pelo contrário, seleccionamos as outras a que somos avessos, e assim rotulamos A ou B, apenas por causa de duas ou três facetas. Em última análise, tomamos a parte pelo todo. Dentro deste âmbito, catalogamos sinteticamente as pessoas como falsas, bondosas, comunistas, socialistas, pretas, leais, ciganas, gays, engraçadas, velhas ou solteironas.
Os governantes, que naturalmente situamos num pedestal mais elevado relativamente a nós, são geralmente pessoas que a sociedade analisa, escrutina e sujeita depois ao seu veredicto. Das personalidades que estão no alto vêem-se melhor as várias facetas devido à sua maior exposição mediática. Examinamo-las friamente? Não. Na realidade, tendemos a classificá-las entre boas ou más, óptimas ou detestáveis. Sempre? Não. A verdade histórica é como o mar: anda ao sabor das marés. Vejamos alguns exemplos.
Lyndon Baines Johnson foi o 36º Presidente dos Estados Unidos, de 1963 a 1969. Anteriormente, entre 1961 e 1963, fora o Vice-Presidente de John F. Kennedy. LBJ, como era geralmente chamado, teve a seu favor o grande impulso que deu à Grande Sociedade norte-americana através de legislação apropriada que conferia direitos cívicos a quem os não possuía ainda. Lutou também contra a pobreza. Contudo, foi com Kennedy primeiro e depois com ele que o envolvimento americano na Guerra do Vietname, que já vinha de trás, triplicou. O resultado foi o enorme e progressivo descontentamento que surgiu na juventude americana, e não só. Em Washington e noutros pontos dos EUA, gigantescas manifestações e cantores-activistas como Joan Baez e Bob Dylan conseguiram retirar de Lyndon Johnson as facetas que lhe davam crédito. Substituíram-nas por frases deste tipo, cantadas em coro pela multidão contra a guerra no Vietname: "Hey, hey, L.B.J., how many kids did you kill today?" e por slogans que ficaram célebres, como "Draft Beer not Boys".
A Tony Blair sucedeu algo idêntico. Da coluna do Haver do ex-primeiro-ministro, uma substancial maioria da população britânica rasurou os lados positivos da paz conseguida na Irlanda, da ajuda a África, do combate ao crime, do impulso à educação e ao Serviço Nacional de Saúde. Ignorou a chamada 3ª Via. Hoje, para muitos britânicos, Tony Blair é aquele que mentiu sobre a intervenção britânica na guerra do Iraque, o His master’s voice do americano George W. Bush. A falta de apoio da rectaguarda inglesa já lhe custou a possibilidade de ocupar o lugar de Presidente da Comissão Europeia, ao qual acabou por não concorrer. Em Inglaterra tornou-se popular o trocadilho Bliar com as letras do seu nome, sugerindo as gravosas mentiras que ele terá forjado. Eis uma faixa negativa que cobre todas as positivas. Este é um CD que a população britânica hoje se recusa a comprar.
Mas será sempre assim? Poderá Blair ser um dia reabilitado? Só o futuro o dirá, mas nem sempre é fácil. Olhemos para três casos portugueses.
Sebastião José de Carvalho e Mello, que sem ter sido o único Marquês de Pombal é aquele a quem nos referimos quando falamos do "Marquês", foi um homem de grande poder no nosso século XVIII. Braço direito do rei Dom José, tomou numerosas medidas para reformar a sociedade portuguesa, tanto em Portugal como no Brasil. Ganhou a admiração de muitos e, digamos, a aversão de outros tantos. Quando a estátua equestre de Dom José foi colocada no Terreiro do Paço em 1775, ela continha na parte central do seu pedestal virado ao Tejo um medalhão de homenagem ao Marquês. Alguns anos depois, com o cair em desgraça de Sebastião de Carvalho e Mello e o seu exílio para Pombal, a rainha D. Maria ordenou a retirada do medalhão e a sua destruição. O filho do artista que o tinha esculpido retirou-o, mas não o destruiu. Escondeu-o em sua casa. Quando décadas mais tarde, já com os liberais, o Marquês foi reabilitado, o medalhão reapareceu e foi recolocado no seu lugar primitivo. As graças e desgraças históricas vogam ao sabor das marés. E só em 1934 é que o Marquês teve a sua própria estátua na praça de Lisboa que tem o seu nome.
Um caso mais recente é o de Oliveira Salazar. O seu CD teve, como geralmente todos os discos têm, várias faixas. Governante austero, restaurou a princípio a lei e ordem no país após um período muito conturbado. Gradualmente, deu estabilidade à moeda nacional, o escudo. À sua maneira, com disciplina, autoridade e repressão de liberdades, criou aquilo a que chamou o Estado Novo. Foi um estratega durante a 2ª Guerra Mundial, tendo evitado a entrada de Portugal no conflito, embora à custa de notórios sacrifícios da população. Por outro lado, avançou para um conflito no Ultramar que duraria 13 longos anos e causaria um elevado número de mortos. Aderiu à EFTA. Manteve durante longos anos uma odiada polícia política, a PIDE. Ora bem, quando ocorreu a revolução de Abril de 1974, Salazar, que tinha já morrido 4 anos antes, foi considerado, juntamente com Marcelo Caetano e todo o regime, o grande ditador fascista. De toda a política da União Nacional se falava então como "a pesada herança" de 48 anos de fascismo. Todas as faixas do seu CD estavam reduzidas a uma. A estátua de Salazar em frente ao Domus Justitiae de Santa Comba Dão, sua terra natal, foi entaipada.
Hoje, mais de 35 anos após a revolução dos cravos de Abril, têm sido publicados numerosos livros sobre Salazar e ele próprio foi consideradoem 2007, num controverso programa da RTP intitulado "Os grandes portugueses", "o maior português de sempre". Dos 159 mil votos válidos recebidos, Salazar logrou obter uma generosa fatia de 41 por cento. O segundo classificado, Álvaro Cunhal, quedou-se pelos 19 por cento. Por seu lado, o Marquês de Pombal não chegou a recolher 2 por cento dos votos. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Poder-se-á dizer que a vitória póstuma de Salazar foi mais uma reacção por contraste com a indisciplinada, conflituosa, livre mas corrupta sociedade pós-25 de Abril. É possível que tenha sido um cartão amarelo mostrado à sociedade actual. Note-se, entretanto, como a tendência é para o muito bom ou para o muito mau. Compra-se o CD ou destrói-se aquele que temos cá em casa?
O terceiro caso com que avanço é o do actual primeiro-ministro, José Sócrates. Começou por conquistar por larga margem a maioria absoluta após o desastre de Santana Lopes. Mostrou-se voluntarioso, optimista. O seu disco parecia um CD quase só com música agradável. Com as suas reformas, v.g. Segurança Social, Sócrates desagradou a muitos, mas mostrou-se um hábil comunicador. Sarkozy elogiou-o precisamente por ter conseguido reformar sem grandes problemas a Segurança Social (ainda hoje, a reforma de idêntico sistema no seu país está a causar ao Presidente francês grandes engulhos). Sócrates fez, como todo o político faz, numerosas promessas, a lembrar a cínica mas quase sempre correcta frase de Schlegel "As promessas de ontem dos políticos são os impostos de hoje". Marcou pontos na Europa e foi "Porreiro, pá!" na aprovação em Lisboa do tratado da União Europeia com o nome daquela cidade. Entretanto, os adversários que foi ganhando não lhe pouparam críticas quanto à forma pouco clara como terá obtido a licenciatura em engenharia; lançaram dúvidas sobre um eventual recebimento de luvas no caso do licenciamento do Freeport, em Alcochete, já há vários anos. Reformas na educação revoltaram os professores. As aplaudidas reformas iniciais já estão esquecidas, as faixas positivas do seu CD só lhe deram uma maioria não absoluta nas novas eleições. Hoje é acusado de tentar amordaçar os media que não lhe são favoráveis. Os números do desemprego são os mais altos de sempre em Portugal, parcialmente como resultado da crise mundial, mas quem está a governar é que paga. É a lei da vida.
Como irá a História vê-lo um dia? Como um Pinóquio mentiroso? Como um azarento no final do seu primeiro mandato? Como um poluítico? Como um mediático orador? Tudo depende de quem escrever essa História e do momento político que se viver. Para já, não existem presentemente muitas pessoas interessadas em ouvir todas as faixas do seu CD.

2/21/2010

Olhar e ver




Creio que todos nós já sentimos, intuitivamente, que olhar e ver não são exactamente a mesma coisa. Passeemos um bocadinho pelo tema.
Recordo-me de, numa manhã límpida e já relativamente quente de Maio, ter visto na praia um homem a brincar com o seu cachorro. O indivíduo estava a fazer uma experiência interessante, sobre a qual, aliás, acabámos nós os dois por vir a falar posteriormente: tinha andado a recolher pauzinhos e pedaços de cana praticamente iguais e tinha-os depois colocado sobre a areia. Depois, com um pauzinho idêntico aos outros – com a única diferença de ele lhe ter feito um pequeníssimo traço - chamou o cão para a brincadeira. O bicho não o largou mais e corria entusiasmado atrás dele. Com o cão excitadíssimo a correr à sua volta e a saltar a ver se lhe conseguia tirar o que ele tinha na mão, o homem deixou cair o pauzinho no meio dos outros e continuou a correr. O cão estancou imediatamente ao ver cair aquilo que procurava alcançar. Começou a olhar e a farejar. Do meio daquele montículo retirou um pauzito e foi, de rabo a abanar, levá-lo ao dono. Quando este lho tirou da boca, o cão ladrou de contentamento. O homem examinou o pau e constatou aquilo de que já suspeitava: o seu cão tinha-lhe trazido o pauzinho certo. Não fôra, obviamente, pelo traço quase invisível que o animal reconhecera o pedacito de madeira. O cheiro deixado pela mão do homem na madeira possibilitou ao animal a identificação da peça correcta. Ora, em princípio, nenhum de nós chegaria lá. E certamente não da maneira rápida que o cão conseguiu. No meio dos pauzitos todos, não seríamos capazes de descortinar aquele que era especial. O cão descobriu-o, porém, porque aprendeu a ver de outra forma, com a combinação de sentidos.
Será que esta combinação de sentidos é inata também no homem, ou somos nós que a desenvolvemos e melhoramos? Tudo isso. Mas o cão tem a vantagem especial de ver, para além dos olhos, com o nariz. Como sabemos, o seu olfacto, vulgo "faro", é muito apurado. Também no nosso caso, a própria existência dos sentidos, uns mais desenvolvidos do que outros, possibilita a sua combinação. Mas onde podemos começar a ver mais é através da educação e/ou da experiência, que pode e deve ser entendida como uma componente da educação. Um engenheiro vê coisas numa torre que possivelmente me passam despercebidas, um arquitecto descobre pormenores menos correctos numa casa que, para mim, não seriam exactamente defeitos mas para ele são; um matemático delicia-se com números da mesma maneira que um linguista com palavras, e ambos descobrem coisas que outros não vêem. Um médico vê coisas numa radiografia de que eu nem suspeito, assim como um músico pode deliciar-se com um simples olhar para uma partitura que, infelizmente, nada diz à esmagadora maioria das pessoas.
Por outro lado, da mesma maneira que temos a razão lógica e a emoção a controlar e marcar as nossas decisões, também temos a nossa razão e a nossa sensibilidade a definir os nossos gostos. Do seu apuramento, geralmente através da educação e da experiência – education and training, em certa medida – podem nascer sensibilidades brilhantes que produzem obras que surpreendem o ser humano comum. Não é necessário que sejam coisas complicadas. O importante é que se consigam ver coisas que não são aparentes numa primeira leitura para a maioria das pessoas.
Com alguém que me é muito caro – uma mulher - recordo-me de uma brincadeira, por sinal também numa praia, que costumava deliciar-me. Na areia ainda molhada mas já não assaltada pelas ondas, eu riscava uns traços à toa. Dez, doze, quinze traços. O que eu riscava não fazia qualquer sentido para mim, mas constituía um repto agradável para a pessoa com quem eu estava. Ela iria tentar "ver" alguma coisa ali. Estonteava-me ver o que a minha companheira fazia: geralmente depois de dar uma ou duas voltas àquele conjunto de traços sem sentido, lograva ver aquilo que eu nem por sombras via. Ela nada me dizia, não falava. Mas estava visivelmente contente por ser capaz de ver mais longe. Juntava mais um traço aqui, outro ali, uma forma arredondada além e, de repente, aquele desconchavado amontoado de traços que eu tinha deixado na areia começava a fazer sentido: estava ali uma figura perfeitamente identificável, que anteriormente já existira em embrião, por assim dizer. Essa figura podia ser uma paisagem, uma criança a transportar um cesto, um animal, ou outra coisa qualquer.
Ressalvadas as devidas proporções, aquela situação trazia-me à memória a bem conhecida, e bela, peça literária do padre jesuíta António Vieira, no seu Sermão do Espírito Santo: "Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a fazer um homem, - primeiro, membro a membro, e depois feição por feição, até à mais miúda; ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama; e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar."
Por vezes podemos estranhar a inteligência de pessoas sem grande educação para solucionar problemas. Nunca me esquecerei da vez em que, durante o meu período de serviço militar em Angola, fui chamado para socorrer o condutor e ajudante de um enorme camião que se tinha virado na picada estreita, com uma enorme carga de sacos de café. Levei comigo duas viaturas militares equipadas com potentes guinchos, e vários soldados. Foram ligados cabos à camioneta e accionámos os guinchos, com o máximo de força. Nada. Ao fim de mais duas tentativas que fizemos, sem resultado, um dos soldados, rapaz inventivo e inquestionavelmente inteligente, por vezes algo sujeito a perturbações mentais, explicou que os guinchos não estavam na posição correcta relativamente ao camião. Pediu-nos para fazermos da forma que ele indicava. Assim se fez, e a camioneta, com a sua pesada carga, levantou-se gradualmente até ficar na posição devida, apta para prosseguir viagem. O facto de o soldado, sem nunca propriamente ter estudado Física, ter "visto" qual a posição correcta para exercer a força foi para mim uma experiência interessantíssima.
Pessoas sem grande educação revelam frequentemente um apurado sentido prático das coisas. Há tempos, dava eu um pequeno passeio pelo campo com um conhecido meu. A certa altura, ele perguntou-me se não precisava de umas fisgas. "Fisgas? Já não tenho idade para isso", respondi-lhe. “Não é dessas para se porem elásticos. Estou a falar de ramos de árvore, forquilhas,com a forma de um "v", que servem, por exemplo, para escorar os ramos de uma planta que tenha em casa." Nunca me tinha ocorrido tal coisa. Como havia, de facto, necessidade de algumas dessas "fisgas" para as plantas de interior lá de casa, arranjou-me num instante umas três ou quatro. Ainda hoje estão a cumprir a sua útil missão. Naquele dia, porém, eu não as tinha visto. Olhava sem ver.
Numa outra ocasião, com mais uma dessas pessoas para mim notáveis - o meu sogro -, calhou dar também um passeio pelo campo. Estávamos em 1975, numa ocasião em que se tornou moda construir parques infantis nas localidades. O meu sogro deteve-se, a certa altura: "E se levássemos aquele tronco além, que está caído? Vinha mesmo a calhar para fazer uma girafa para o parque!" Como?! Onde é que eu iria desencantar uma girafa ali no meio daquelas árvores caídas? No entanto, foi isso mesmo, desencantar uma girafa, que ele fez. Viu a cena. Mostrou poder de observação, imaginação, criatividade. Voltámos para arranjar uma serra manual, regressámos ao sítio e, passados uns minutos, já estávamos a carregar a "girafa" para o seu novo habitat. Foi uma alegria para a miudagem que estava a ver o parque a ser construído (foto). A improvisada girafa aguentou-se ao longo dos dois primeiros anos em que o parque permaneceu impecável. Uma noite, uns tantos vândalos saltaram o muro e destruíram tudo o que lhes apareceu à mão. A girafa não escapou, mas até lá portou-se valentemente. Graças ao meu sogro, que via coisas onde os outros nada viam.
Tal como muitas outras pessoas, a Joana Vasconcelos é uma artista muito interessante na sua criatividade. Os seus originais e inventivos sapatos Marilyn, artisticamente feitos de tachos e tampas, foram recentemente objecto de compra por um preço elevadíssimo na Christie’s, de Londres. O ano passado, tive ocasião de ver, na antiga casa pessoal de Calouste Gulbenkian em Paris, uma exposição da artista. Muito interessante! Bonecos de pano, coloridíssimos, que chegavam até ao tecto (foto). A juntar-se-lhes, grandes corações e peças da conhecida Fábrica Bordalo Pinheiro, devidamente cobertas por uma fina rede branca. Um espanto!
Ora bem. Não só a Joana Vasconcelos vê coisas onde outros se limitam a olhar como também não pára. Quem já deu uma vista de olhos a um relativamente pequeno jardim, integrado nos terrenos do Museu da Cidade, ao Campo Grande, não deu certamente por mal empregado o seu tempo. Matreira e artisticamente, a Joana Vasconcelos colocou lá muita da bicharada cerâmica que a Bordalo Pinheiro ainda fabrica. É uma animação ver aqueles gafanhotos (foto), macacos, sapos, lobos, sardões, cobras, caracóis, etc. a darem um novíssimo aspecto ao jardim. Há uns dois anos, ela foi até ao Museu. Viu o jardinzito. Visualizou-o diferente. Depois, foi só apresentar o plano, obter a devida aprovação, conseguir que as peças fossem fabricadas, e animar os arbustos, as fontes e as paredes. Mais uma vez, viu tudo onde outros apenas olhavam.
Já se terá entendido ao longo deste arrazoado que admiro estas pessoas. Por mim, possivelmente aquilo em que consigo ver algo mais do que a maioria dos meus amigos é nas palavras. Em várias línguas. Nas palavras que estão dentro e ao lado de outras palavras. Automaticamente sopeso-as, separo-as nos seus elementos, corto-as, reconstruo-as. Sei que não é nada de especial quando comparado com os casos que acima relato. Esta é uma das razões por que os admiro. Eles vêem o que os outros não vêem. Vêem muito para além do olhar. Aliás, "ver" é mesmo isso na linguagem comum: "Estás a ver a cena?"

2/16/2010

Gatos na formação de líderes

Haverá certamente entre os leitores quem se lembre da história do alentejano que foi admitido pela CIA. Começa assim: a Polícia Secreta dos Estados Unidos, Central Intelligence Agency, vulgo CIA, resolveu recrutar um atirador para as suas fileiras. Após várias selecções, entrevistas e testes, foi elaborada uma short list com três candidatos apenas: um francês, um inglês e um português (alentejano). Para a prova final, decisiva, os agentes da CIA colocaram, um a um, os candidatos sozinhos numa sala, diante de uma porta metálica e entregaram a cada um deles uma pistola. "Queremos ter a certeza de que cumprem as instruções, quaisquer que sejam as circunstâncias."
Chamaram primeiro o candidato francês: "Por detrás da porta daquela sala, você vai encontrar a sua mulher sentada numa cadeira. Terá que a matar!" "Está a falar a sério? Eu jamais mataria a minha mulher!" "Então, lamento", diz-lhe o agente, "mas você não pode ser considerado apto."
Ao candidato inglês foram dadas exactamente as mesmas instruções. Ele pegou na arma e entrou calmamente na sala, onde ficou sozinho. Após cinco minutos em que tudo se manteve em total silêncio, o inglês voltou à sala onde estavam os agentes. Trazia lágrimas nos olhos. "Tentei, mas não consegui disparar. Não posso matar a minha mulher!"
"Em vista disso, não podemos apurá-lo. Você não está totalmente preparado para trabalhar na CIA. Lamentamos", disse-lhe um dos agentes. "Agradecemos que vá buscar a sua mulher."
Chegou enfim a vez do alentejano! O nosso homem recebeu as mesmíssimas indicações. Depois, entrou na sala, onde, tal como os outros, ficou apenas consigo próprio. Passado menos de um minuto ouviu-se uma detonação. Outra veio a seguir. E depois, o barulho de mobília a partir-se, um grito. Voltou a calma e o sossego. O alentejano regressou lentamente à sala onde antes tinha estado com os agentes. Limpava o suor da testa. "Vocês bem me podiam ter dito que os tiros eram de pólvora seca! Tive que a matar com a cadeira!"

Esta historieta ocorreu-me quando li, já há alguns dias, uma entrevista que mão amiga me fez chegar. A entrevista em questão, excelentemente conduzida, é da autoria de Ana Gerschenfeld, jornalista do Público, e veio, naturalmente, inserida nesse jornal. Devo admitir que não costumo já surpreender-me muito com o que leio. Aqui, mais do que isso, arrepiei-me. Horrorizei-me com o que li. É que não é uma mera história de alentejanos, mas sim a realidade crua. Demasiado crua, de facto. O entrevistado chama-se Christophe Dejours, é psiquiatra e psicanalista, além de Professor em Paris, no Conservatoire National des Arts et Métiers.
Dessa longa entrevista, vou transcrever uma parte, sobre o assédio no trabalho. Até este ponto a conversa tinha incluído outros assuntos, entre eles os numerosos casos de suicídio no local de trabalho na France Telecom e noutras empresas, não só em França como também na Bélgica.

"As pessoas que são alvo de assédio são justamente as que acreditam no seu trabalho, que estão envolvidas e que, quando começam a ser censuradas de forma injusta, são muito vulneráveis. Por outro lado, são frequentemente pessoas muito honestas e algo ingénuas. Portanto, quando lhes pedem coisas que vão contra as regras da profissão, contra a lei e os regulamentos, contra o código do trabalho, recusam-se a fazê-las. Por exemplo, recusam-se a assinar um balanço contabilístico manipulado. E, em vez de ficarem caladas, dizem-no bem alto. Os colegas não dizem nada. Já perceberam há muito tempo como as coisas funcionam na empresa, já há muito que desviaram o olhar. Toda a gente é cúmplice. Mas o tipo empenhado, honesto e um tanto ingénuo continua a falar. Não devia ter insistido. E como falou à frente de todos, torna-se um alvo. O chefe vai mostrar a todos que é impensável dizer abertamente coisas que não devem aparecer nos relatórios de actividade.
Um único caso de assédio tem um efeito extremamente poderoso sobre toda a comunidade de uma empresa. Uma mulher está a ser assediada e vai ser destruída, uma situação de total injustiça: ninguém se mexe, mas todos ficam ainda com mais medo do que anteriormente. O medo instala-se. Com um único assédio, consegue-se dominar todo o colectivo de trabalho. Por isso, é importante, ao contrário do que se costuma dizer, que o assédio seja bem visível para todos. Há técnicas que são ensinadas, que fazem parte da formação em matéria de assédio, com psicólogos a darem essa formação.
Uma formação para o assédio?
Exactamente. Há estágios onde se aprendem essas técnicas. Posso contar, por exemplo, o caso de um estágio de formação em França em que, no início, cada um dos 15 participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma semana e, durante essa semana, cada participante tinha de tomar conta do seu gato. Como é óbvio, as pessoas afeiçoaram-se ao bichano, cada um falava do seu gato durante as reuniões, etc. E, no fim do estágio, o próprio director deu a todos a ordem de... matar o seu gato.
Está a descrever um cenário totalmente nazi...
Só que aqui ninguém estava a apontar uma espingarda à cabeça de ninguém para o obrigar a matar o gato. Seja como for, um dos participantes, uma mulher, adoeceu. Teve uma descompensação aguda e eu tive que tratá-la – foi assim que soube do caso. Mas os outros catorze mataram os seus gatos. O estágio era para aprender a ser impiedoso, era uma aprendizagem do assédio.
Penso que há bastantes empresas que recorrem a este tipo de formação – muitas empresas cujos quadros, responsáveis de recursos humanos, etc., são ensinados a comportar-se desta maneira."