3/13/2010

Bullying

Há muitas pessoas que, na sua infância, na sua adolescência ou mesmo mais tarde, por vezes sonham que estão a ser perseguidas por um touro e que, para seu desespero, não conseguem correr, os pés como que grudados ao chão. Acabam por acordar. O pesadelo termina, mas pode ser recorrente. As pessoas em questão sentem um aperto de qualquer coisa que as oprime. É de angústia que se trata.
Porquê um touro, pode perguntar-se, e não um gato, por exemplo? Porque o touro é um símbolo de força, ameaçador e amedrontador. Dele temos medo. Dum gato, não. Touro diz-se bull em inglês. Um bully é alguém que usa a sua força ou poder para magoar ou aterrorizar outros. À acção dos bullies chama-se bullying.
Com este nome ou com outro, trata-se de um fenómeno relativamente comum. No reino animal é frequente. Com os humanos, o bullying acontece a muitos níveis, nomeadamente no meio laboral, no mundo político e também no ambiente estudantil. Os mais fortes tentam mostrar por que razão são os mais poderosos. Dos mais fracos pretendem a submissão e, por vezes, mesmo a humilhação. As praxes universitárias têm o seu lado de bullying, embora esta faceta possa durar basicamente apenas um dia ou dois.
No mês passado, José Couto Nogueira lembrava no jornal em que colabora que "é um mito o que Locke e Rousseau disseram: o homem no seu estado selvagem é bom e é a sociedade que o torna mau. É precisamente o contrário: o homem selvagem é o animal na luta pela sobrevivência. A necessidade de se associar a outros homens (por razões emocionais e materiais) é que leva a um comportamento "civilizado". Sujeita-se a restrições para ter as vantagens da sociedade organizada." Acho que, basicamente, Couto Nogueira tem razão. Existe muita perversidade intrínseca nas pessoas, incluindo crianças, que depois tende a ser mais ou menos sublimada. Todos nós já vimos miúdos de escola a chamarem nomes a outros ou a terem atitudes provocatórias para testarem a reacção desses outros. Se estes reagem, podem facilmente chegar a uma cena de pancadaria. O grupo provocador, crendo-se mais forte, investe em jeito de touro bravo. Se os outros não respondem, recebem o epíteto de maricas e ficam marcados.
Após o aparente suicídio de um jovem estudante em Mirandela, o caso narrado esta semana pelos jornais do suicídio de um professor devido a um contínuo assédio provocatório (bullying) por parte de um determinado grupo de alunos impressionou-me por dois motivos principais: (1) tudo se passou no domínio da educação; e (2) terminou em suicídio.
Em princípio não deveria ter sucedido na área educativa. A educação tem, entre outras finalidades, a de levar os alunos a atitudes “civilizadas”, próprias de seres humanos. A insensibilidade que os elementos gozadores mostram perante os sentimentos dos gozados mostra até que ponto a educação não cumpre a sua finalidade.
Na minha experiência de professor, recordo-me de vários casos que poderiam cair neste domínio. Dentro de uma acção de praxe realizada numa escola superior em que leccionei, houve um aluno que lançou umas gotas de ácido à cara de uma sua colega. Esta ficou com o rosto marcado e perdeu o emprego que tinha na altura: trabalhava numa perfumaria. Felizmente, alguns meses depois a acção do ácido desvaneceu-se. Quanto ao aluno, foi, primeiramente, alvo de um processo e, depois, expulso.
Num outro caso, bem diferente, contratei uma nova professora para umas aulas de História da Arte. A pessoa em questão possuía um mestrado naquela área, mas não tinha ainda experiência de ensino. Terminara o referido mestrado havia pouco tempo e com boa classificação. Estava desejosa de começar a ensinar. Era uma pessoa algo tímida mas simpática, de trinta e sete anos, bonita e de família abastada. Após conversar detidamente com ela como coordenador do curso, levei-a a uma das duas turmas que ela iria leccionar. As primeiras aulas correram aparentemente bem, embora ela não tenha gostado do número de alunos, que lhe pareceu demasiado elevado – e era, de facto. Na terceira ou quarta semana, voltei a falar com ela. Não aparentava grande satisfação. Um dia faltou. Telefonei-lhe. Confessou-me que, nos dias de aulas, logo de manhã se sentia com vómitos só de pensar que tinha que enfrentar aquelas turmas. Não o conseguia evitar. Falámos com calma no gabinete onde eu trabalhava. Ouvi-a. Percebi que ela não conseguia obter silêncio na sala e tinha dificuldade em manter a disciplina com uma turma grande. Auscultei os delegados dos alunos, que me falaram com franqueza. Havia ali um problema de facto, mas não era de conhecimentos. Dada a situação, voltei a falar com a professora e ambos concordámos que aquela não era, infelizmente, a experiência que ela esperava. Culpei o número excessivo de alunos pelo sucedido, numa tentativa de a salvar na sua auto-estima, ela que tinha mostrado tanto entusiasmo por ensinar. Encorajei-a a tentar uma experiência diferente, mas noutros termos. Aqueles vómitos de que ela me falara representavam uma recusa total. Não havia saída possível. Sem qualquer zanga de parte a parte, ela abandonou. Como era proprietária de uma loja de antiguidades, continuou à frente do seu estabelecimento. Procurei-a mais tarde. Não tinha esquecido a situação, mas o mau tempo já tinha passado.
Num caso ocorrido há mais de quatro décadas comigo próprio, recordo-me que cheguei na altura a confessar a amigos meus: "Se eu tivesse apenas este colégio para leccionar, diria que não tinha o mínimo jeito para o ensino." Era o meu terceiro ano de leccionação, após dois outros bem sucedidos. Uma determinada turma de alunos com 14 ou 15 anos revelou-se especialmente difícil. Tratava-se de filhos de algumas das mais conhecidas famílias de Portugal e, quais imperadores adolescentes, julgavam poder fazer tudo o que lhes apetecia. Digamos que, por razões diplomáticas, a Direcção não actuava com a disciplina que se impunha. Se bem me lembro, cheguei a desesperar. No final do ano saí para uma outra instituição privada, aliás pertencente à mesma organização, mas agora de ensino superior. Foi um alívio tremendo. Nessa nova instituição trabalhei depois durante trinta e cinco anos, sem quaisquer problemas de ordem disciplinar.
E quando os fracassos e o bullying, seja este da parte de alunos, da Direcção, ou de colegas, levam ao suicídio, como ocorreu com o professor de Música da Escola de Rio de Mouro? Isso é mesmo o fim. O suicídio resulta de um conflito insanável connosco próprios. É o desespero total, e desespero significa esperança zero. É todo um futuro vazio, sem rosto, que assoma ao espírito do suicida. A certa altura, a ideia torna-se fixa. Sem amparos verdadeiros, o suicida não resiste.
Já aqui abordei o caso dos suicídios por motivos laborais em França e na Bélgica. Alguns terão igualmente acontecido em Portugal. No domínio da educação torna-se especialmente penoso, porque educar é construir e não destruir, é edificar, instruir. Tudo o que não seja isto é obviamente aberrante. O caso do professor de Música que não aguentou a pressão de uma das suas turmas e aparentemente nem recebeu amparo de ninguém, nem viu os provocadores serem advertidos, é trágico também por isso. A falta de pulso para punir quem prevarica faz a indisciplina grassar em muitas das nossas instituições. Existe um clima de hipertolerância e correspondente hiperimpunidade. É um péssimo serviço prestado à nobre causa da educação e uma desatenção por vezes irreparável, como neste caso aconteceu.

3/10/2010

Nós?

"Olhar para o governo de um país que é o nosso pode constituir um espectáculo deprimente. Os políticos dão-se a si próprios ares de importância e discutem uns com os outros – e não se vêem grandes avanços. A coisa está tão má – ou pelo menos assim parece – que os cidadãos começam a interrogar-se se o sistema faliu estruturalmente ou se está com necessidade de uma enorme reparação geral.
Mas o problema não é o sistema em si. Somos nós e a nossa cultura de direito ao venha-a-nós. Os políticos, que são pessoas que nunca se celebrizaram pela sua coragem, representam o povo com exactidão. Os nossos governantes ficam paralisados ante a simples ideia de pedir aos seus concidadãos sacrifícios temporários para benefícios a longo prazo. Não conseguem decidir-se pela subida dos impostos sobre a classe média ou pelo corte nas despesas da Segurança Social para os mais idosos. Nas eleições seriam cilindrados. E assim, a cada dia que passa e as decisões se adiam, a dívida cresce e aumenta.
Nas últimas três décadas, vivemos como se o amanhã não existisse. Acumularam-se dívidas pessoais, gastou-se mais do que se poupou, e pediu-se muito dinheiro emprestado."

Concordam com o teor deste texto? É um retrato fiel do nosso país? Pessoalmente, achei-o bastante razoável. Traduzi-o de um artigo incluído no penúltimo número da Newsweek, revista que assino há longos anos. O texto é sobre os americanos e os Estados Unidos. Parafraseando um amigo meu, "qualquer coincidência entre este texto americano e a situação portuguesa é mais do que coincidência: é azar."

3/06/2010

Vêem-se gregos!


A mentalidade alemã entra definitivamente em choque com a prodigalidade nos gastos demonstrada pelos gregos. Os alemães vêem-se a si próprios como aforradores e não como gastadores. Daí negarem em absoluto o empréstimo de dinheiro dos contribuintes aos endividados gregos.
Dois deputados alemães sugeriram no Parlamento que a Grécia devia proceder à venda de ilhas desabitadas que possui para abater as suas dívidas. Esta sugestão pode arrepiar, mas está longe de ser original. Ao que me lembro, no virar do século XIX para o XX a Inglaterra também pretendia Angola em pagamento da dívida portuguesa. Noutro caso, as Filipinas passaram para as mãos dos americanos para que os espanhóis não lhes tivessem de pagar mais dinheiro como indemnização da guerra pela posse de Cuba na década de 1890.
Vender ilhas! Tudo me lembra uma ideia-base de castigo ao uso inconveniente pela Grécia do conceito "Enjoy now, pay later!". Agora, tendo em consideração o seu enorme défice, dir-se-ia que a Grécia ouve alguém dizer: "Se queres ficar com a moto, tens que vender o sidecar!"
E quanto a Portugal? Deve começar a pôr as suas barbas de molho?

3/03/2010

Espiões mais ou menos célebres

E agora, como os Monty Python diriam, algo completamente diferente. E curtinho. Começo pelo R.B. De entre os muitos professores de Inglês que admiti no instituto em que trabalhei ao longo de dezenas de anos, destaco o R.B. Não um que foi meu colega durante mais de vinte anos e de quem ainda hoje sou amigo, mas outro R.B. que, após uma entrevista para o lugar de professor que iria dentro em breve ficar vago, entrou pelas melhores razões. Tinha boa cultura, alguma experiência de ensino, possuía um curso de uma boa universidade inglesa e falava com grande clareza, numa pronúncia de que todos os alunos gostam. O seu português não era por aí além, mas fazia-se compreender. Pois, o R.B. não desiludiu. Os alunos apreciavam-no. Quando aos seus colegas, atentavam nele principalmente pela sua extraordinária capacidade de controlo de meditação. Na sala de professores, conseguia invariavelmente descansar de olhos fechados durante os cerca de dez minutos de pausa. Notável. Pouco após ter renovado o seu contrato por mais um ano, digamos um mês ou dois depois, o R.B. subitamente desapareceu. Deixou-me uma breve nota, que não dizia muito mas era suficiente: um compromisso inadiável obrigava-o a sair do país. Ia para a Ásia. Mais não disse. Através de um amigo comum, consegui confirmar aquilo de que não só eu por vezes suspeitava: o R.B. era um secret agent. O lugar de professor de Inglês era uma maneira de encobrir o seu verdadeiro papel. Estava ao serviço de Sua Majestade britânica, qual James Bond.
O R.B. foi o primeiro e único agente secreto que conheci pessoalmente. O curioso é que durante as nossas conversas calhámos a falar de Ian Fleming. Este, como todos sabemos, foi um famoso escritor inglês. Terá sido baseado num outro espião (de nome Popov)que, nos tempos da 2ª Grande Guerra, frequentava tal como ele a sociedade ociosa mas bem informada que se juntava no velho Casino Estoril, que Ian Fleming criou a figura do mais célebre espião inglês de todos os tempos: James Bond. Ao saltar para a tela cinematográfica, Bond ganhou uma nova dimensão, que isto de ser espião tem naturalmente os seus riscos. A contra-espionagem é séria. Mas um bom espião escapa sempre; às vezes até faz jogo duplo.
Vamos conhecer mais uns nomes de espiões famosos.
Robert Baden-Powell, militar inglês que faleceu em 1941 e ficou famoso por ter sido o fundador dos Escuteiros (Boy Scouts) exerceu a actividade de espião. Com todo o gosto, ao que se sabe. Fê-lo primeiro na África do Sul. Secretamente, desenhou mapas importantíssimos para os seus superiores. Oficialmente, trabalhava como correspondente de um jornal. Depois de ter actuado como espião das actividades dos alemães e dos russos, foi nomeado responsável por toda a zona do Mediterrâneo. Dos muitos disfarces que utilizou durante a sua vida, o mais engenhoso terá sido o de coleccionador de borboletas. Era nos seus artísticos desenhos das asas das borboletas que ele lograva esconder pormenores vitais sobre fortificações e armas do inimigo.
Outro escritor bem conhecido, mais antigo, que trabalhou também como espião para a coroa inglesa foi Daniel Defoe. O nome pode dizer pouco, mas se se disser que a sua obra mais famosa foi Robinson Crusoe, o desconhecimento passa para segundo plano. E como escondia ele a sua missão? Passando por caixeiro-viajante. Estávamos no início do século XVIII e Defoe deu regularmente informações importantes ao governo de Sua Majestade, fosse ele composto por Whigs (liberais) ou por Tories (conservadores).
Um último nome para o cestinho dos espiões: Somerset Maugham. O autor de Servidão Humana, O Fio da Navalha e múltiplos contos interessantíssimos, era médico e um incansável globetrotter. A sua actividade de fachada foi sempre a de repórter free-lance que escrevia para várias publicações americanas. Faleceu em 1965, um ano depois de Ian Fleming.
Quanto a espiões portugueses, creio que pouco se sabe, embora tenha havido vários ao serviço dos nossos reis em terras de França e certamente também em Madrid. Aliás, em matéria de informadores ficámos até demasiado bem servidos ao longo do século XX...

2/26/2010

As faixas do CD



Há determinadas expressões que por vezes começam como meras tiradas de humor e, mais tarde, se revelam não só bastante certeiras como também não necessariamente aplicáveis apenas ao alvo original. Dentro das milhares de expressões de humoranónimo, recordo-me agora especialmente de uma. Diz o seguinte: "A mulher é como um CD de música. Por causa de uma ou outra parte boa, acabamos por ficar com tudo."
Dando de barato que a piada provém de um homem, admito que, no presente caso, não seja a já habitual provocação masculina à mulher que me interessa particularmente. Parece-me muito mais importante a aplicabilidade da frase a muitas outras coisas.
Qualquer um de nós sabe que possui facetas que agradam a uns tantos e desagradam a outros. Essas facetas, que num CD são faixas de música, sempre se revelaram importantes para uma catalogação que tendemos a fazer dos outros e os outros tendem a fazer de nós. Apesar de sermos tão variados como as tais faixas musicais, criamos empatias com umas pessoas e antipatias por outras, porque determinadas faixas, positivas ou negativas, se tornam predominantes para nós. É nessa base que nos apressamos a classificar e a catalogar as pessoas que, de uma forma ou doutra, encontramos na nossa vida. Escolhemos as facetas que nos são mais queridas ou, pelo contrário, seleccionamos as outras a que somos avessos, e assim rotulamos A ou B, apenas por causa de duas ou três facetas. Em última análise, tomamos a parte pelo todo. Dentro deste âmbito, catalogamos sinteticamente as pessoas como falsas, bondosas, comunistas, socialistas, pretas, leais, ciganas, gays, engraçadas, velhas ou solteironas.
Os governantes, que naturalmente situamos num pedestal mais elevado relativamente a nós, são geralmente pessoas que a sociedade analisa, escrutina e sujeita depois ao seu veredicto. Das personalidades que estão no alto vêem-se melhor as várias facetas devido à sua maior exposição mediática. Examinamo-las friamente? Não. Na realidade, tendemos a classificá-las entre boas ou más, óptimas ou detestáveis. Sempre? Não. A verdade histórica é como o mar: anda ao sabor das marés. Vejamos alguns exemplos.
Lyndon Baines Johnson foi o 36º Presidente dos Estados Unidos, de 1963 a 1969. Anteriormente, entre 1961 e 1963, fora o Vice-Presidente de John F. Kennedy. LBJ, como era geralmente chamado, teve a seu favor o grande impulso que deu à Grande Sociedade norte-americana através de legislação apropriada que conferia direitos cívicos a quem os não possuía ainda. Lutou também contra a pobreza. Contudo, foi com Kennedy primeiro e depois com ele que o envolvimento americano na Guerra do Vietname, que já vinha de trás, triplicou. O resultado foi o enorme e progressivo descontentamento que surgiu na juventude americana, e não só. Em Washington e noutros pontos dos EUA, gigantescas manifestações e cantores-activistas como Joan Baez e Bob Dylan conseguiram retirar de Lyndon Johnson as facetas que lhe davam crédito. Substituíram-nas por frases deste tipo, cantadas em coro pela multidão contra a guerra no Vietname: "Hey, hey, L.B.J., how many kids did you kill today?" e por slogans que ficaram célebres, como "Draft Beer not Boys".
A Tony Blair sucedeu algo idêntico. Da coluna do Haver do ex-primeiro-ministro, uma substancial maioria da população britânica rasurou os lados positivos da paz conseguida na Irlanda, da ajuda a África, do combate ao crime, do impulso à educação e ao Serviço Nacional de Saúde. Ignorou a chamada 3ª Via. Hoje, para muitos britânicos, Tony Blair é aquele que mentiu sobre a intervenção britânica na guerra do Iraque, o His master’s voice do americano George W. Bush. A falta de apoio da rectaguarda inglesa já lhe custou a possibilidade de ocupar o lugar de Presidente da Comissão Europeia, ao qual acabou por não concorrer. Em Inglaterra tornou-se popular o trocadilho Bliar com as letras do seu nome, sugerindo as gravosas mentiras que ele terá forjado. Eis uma faixa negativa que cobre todas as positivas. Este é um CD que a população britânica hoje se recusa a comprar.
Mas será sempre assim? Poderá Blair ser um dia reabilitado? Só o futuro o dirá, mas nem sempre é fácil. Olhemos para três casos portugueses.
Sebastião José de Carvalho e Mello, que sem ter sido o único Marquês de Pombal é aquele a quem nos referimos quando falamos do "Marquês", foi um homem de grande poder no nosso século XVIII. Braço direito do rei Dom José, tomou numerosas medidas para reformar a sociedade portuguesa, tanto em Portugal como no Brasil. Ganhou a admiração de muitos e, digamos, a aversão de outros tantos. Quando a estátua equestre de Dom José foi colocada no Terreiro do Paço em 1775, ela continha na parte central do seu pedestal virado ao Tejo um medalhão de homenagem ao Marquês. Alguns anos depois, com o cair em desgraça de Sebastião de Carvalho e Mello e o seu exílio para Pombal, a rainha D. Maria ordenou a retirada do medalhão e a sua destruição. O filho do artista que o tinha esculpido retirou-o, mas não o destruiu. Escondeu-o em sua casa. Quando décadas mais tarde, já com os liberais, o Marquês foi reabilitado, o medalhão reapareceu e foi recolocado no seu lugar primitivo. As graças e desgraças históricas vogam ao sabor das marés. E só em 1934 é que o Marquês teve a sua própria estátua na praça de Lisboa que tem o seu nome.
Um caso mais recente é o de Oliveira Salazar. O seu CD teve, como geralmente todos os discos têm, várias faixas. Governante austero, restaurou a princípio a lei e ordem no país após um período muito conturbado. Gradualmente, deu estabilidade à moeda nacional, o escudo. À sua maneira, com disciplina, autoridade e repressão de liberdades, criou aquilo a que chamou o Estado Novo. Foi um estratega durante a 2ª Guerra Mundial, tendo evitado a entrada de Portugal no conflito, embora à custa de notórios sacrifícios da população. Por outro lado, avançou para um conflito no Ultramar que duraria 13 longos anos e causaria um elevado número de mortos. Aderiu à EFTA. Manteve durante longos anos uma odiada polícia política, a PIDE. Ora bem, quando ocorreu a revolução de Abril de 1974, Salazar, que tinha já morrido 4 anos antes, foi considerado, juntamente com Marcelo Caetano e todo o regime, o grande ditador fascista. De toda a política da União Nacional se falava então como "a pesada herança" de 48 anos de fascismo. Todas as faixas do seu CD estavam reduzidas a uma. A estátua de Salazar em frente ao Domus Justitiae de Santa Comba Dão, sua terra natal, foi entaipada.
Hoje, mais de 35 anos após a revolução dos cravos de Abril, têm sido publicados numerosos livros sobre Salazar e ele próprio foi consideradoem 2007, num controverso programa da RTP intitulado "Os grandes portugueses", "o maior português de sempre". Dos 159 mil votos válidos recebidos, Salazar logrou obter uma generosa fatia de 41 por cento. O segundo classificado, Álvaro Cunhal, quedou-se pelos 19 por cento. Por seu lado, o Marquês de Pombal não chegou a recolher 2 por cento dos votos. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Poder-se-á dizer que a vitória póstuma de Salazar foi mais uma reacção por contraste com a indisciplinada, conflituosa, livre mas corrupta sociedade pós-25 de Abril. É possível que tenha sido um cartão amarelo mostrado à sociedade actual. Note-se, entretanto, como a tendência é para o muito bom ou para o muito mau. Compra-se o CD ou destrói-se aquele que temos cá em casa?
O terceiro caso com que avanço é o do actual primeiro-ministro, José Sócrates. Começou por conquistar por larga margem a maioria absoluta após o desastre de Santana Lopes. Mostrou-se voluntarioso, optimista. O seu disco parecia um CD quase só com música agradável. Com as suas reformas, v.g. Segurança Social, Sócrates desagradou a muitos, mas mostrou-se um hábil comunicador. Sarkozy elogiou-o precisamente por ter conseguido reformar sem grandes problemas a Segurança Social (ainda hoje, a reforma de idêntico sistema no seu país está a causar ao Presidente francês grandes engulhos). Sócrates fez, como todo o político faz, numerosas promessas, a lembrar a cínica mas quase sempre correcta frase de Schlegel "As promessas de ontem dos políticos são os impostos de hoje". Marcou pontos na Europa e foi "Porreiro, pá!" na aprovação em Lisboa do tratado da União Europeia com o nome daquela cidade. Entretanto, os adversários que foi ganhando não lhe pouparam críticas quanto à forma pouco clara como terá obtido a licenciatura em engenharia; lançaram dúvidas sobre um eventual recebimento de luvas no caso do licenciamento do Freeport, em Alcochete, já há vários anos. Reformas na educação revoltaram os professores. As aplaudidas reformas iniciais já estão esquecidas, as faixas positivas do seu CD só lhe deram uma maioria não absoluta nas novas eleições. Hoje é acusado de tentar amordaçar os media que não lhe são favoráveis. Os números do desemprego são os mais altos de sempre em Portugal, parcialmente como resultado da crise mundial, mas quem está a governar é que paga. É a lei da vida.
Como irá a História vê-lo um dia? Como um Pinóquio mentiroso? Como um azarento no final do seu primeiro mandato? Como um poluítico? Como um mediático orador? Tudo depende de quem escrever essa História e do momento político que se viver. Para já, não existem presentemente muitas pessoas interessadas em ouvir todas as faixas do seu CD.