A primeira destas saudações vai para o governo deste país que, finalmente, teve o juízo suficiente para rever o timing das grandes obras previstas e considerar mesmo a sua reavaliação. Ver a casa a arder e continuar como se nada se passasse era algo que não fazia qualquer sentido.
A segunda saudação vai para uma efeméride que o jornal Público não se esqueceu de registar: a passagem do 50º aniversário do aparecimento da pílula. Longe de ser apenas um assunto feminino, como todos sabemos, a pílula teve um efeito extraordinário na evolução da sociedade e de muitos dos seus costumes. Curiosamente, há pouco tempo li um artigo sobre a pílula originalmente escrito para a revista The New Yorker e agora incluído em What the Dog Saw, um bom livro de Malcolm Gladwell. O mais interessante do artigo é o facto de um dos inventores da pílula, o médico e investigador John Rock, ter sido profundamente católico e estar plenamente convencido de que, devido à regularização do período menstrual que a pílula provocava, ela poderia e deveria ser considerada um método natural. Porém, a Igreja Católica não esteve pelos ajustes em aceitar o argumento.
Pessoalmente, recordo-me que quando nos anos 60 a pílula foi introduzida em Portugal havia uma natural cautela da parte feminina em analisar os prós e os contras. E correram os mais diversos boatos sobre os efeitos negativos da pílula. A sociedade estava ainda tão obcecada com a virgindade feminina que havia mulheres que, naturalmente, se sentiam acanhadas e consequentemente sem grande vontade de entrar numa farmácia a pedir que lhes aviassem a receita. Esta era absolutamente essencial. Recordo-me muito bem desse facto porque numa determinada altura – eu era solteiro e assim continuaria por mais uns bons anos – tive de pedir a um médico conhecido se me passava em nome de uma amiga várias receitas para a dita pílula. E era eu depois que as aviava! Mas que o comprimido era importante, isso sem dúvida. E uma novidade, também. Na casa dessa minha amiga, o grande espelho do quarto de banho tinha na parte superior uma linha escrita em letra bem grande com bâton vermelho: "Não esquecer tomar a pílula!"
Outros tempos.
5/09/2010
5/07/2010
Cui bono?
Esta é uma clássica expressão latina que continuou até aos nossos dias, especialmente em linguagem jurídica. Sempre gostei daquilo que a pergunta implica: É para benefício de quem? Serve a quem? Cui bono implica a existência de uma utilidade ou um interesse próprio como valor primordial de uma determinada acção.
O homem não muda tanto quanto por vezes se pensa. A tecnologia à sua volta e ao seu dispor, sim. O homem sempre sonhou em voar como as aves, num exemplo como tantos outros, mas faltava-lhe a tecnologia. Homens a voar como o SuperHomem de ficção, o mitológico Ícaro, ou a mais real Passarola do Padre Bartolomeu de Gusmão são de tempos mais ou menos remotos. Mas os aviões só apareceram há pouco mais de cem anos. Tal como os aviões, tantos outras novidades do mundo tecnológico. E mudaram o homem? Certamente que lhe deram novas perspectivas e alargaram o seu mundo de ideias, mas em questões de estrutura psicológica, de euforia e tristeza, vingança e perdão, verdade e mentira, desejos e frustrações, invejas e ciúmes, não terão alterado muito as coisas. De onde a presença da questão "Cui bono?" se manter perfeitamente actual.
Quando a oposição parece rejubilar com os problemas reais da economia e finanças de Portugal, cui bono?
Quando o primeiro-ministro e o presidente do governo regional da Madeira se reconciliam, cui bono?
Quando as agências de rating afundam a realidade portuguesa e a espanhola, depois de terem feito algo semelhante com a grega, cui bono?
Quando, em 1945, o governo dos EUA antes de mandar lançar as bombas atómicas sobre o Japão referiu como argumento que estava a defender cerca de 500 mil tropas americanas estacionadas no Pacífico embora o verdadeiro número fosse de apenas 46 mil, cui bono?
Quando o Brasil convence os países de língua oficial portuguesa a usar uma nova ortografia, cui bono?
O homem não muda tanto quanto por vezes se pensa. A tecnologia à sua volta e ao seu dispor, sim. O homem sempre sonhou em voar como as aves, num exemplo como tantos outros, mas faltava-lhe a tecnologia. Homens a voar como o SuperHomem de ficção, o mitológico Ícaro, ou a mais real Passarola do Padre Bartolomeu de Gusmão são de tempos mais ou menos remotos. Mas os aviões só apareceram há pouco mais de cem anos. Tal como os aviões, tantos outras novidades do mundo tecnológico. E mudaram o homem? Certamente que lhe deram novas perspectivas e alargaram o seu mundo de ideias, mas em questões de estrutura psicológica, de euforia e tristeza, vingança e perdão, verdade e mentira, desejos e frustrações, invejas e ciúmes, não terão alterado muito as coisas. De onde a presença da questão "Cui bono?" se manter perfeitamente actual.
Quando a oposição parece rejubilar com os problemas reais da economia e finanças de Portugal, cui bono?
Quando o primeiro-ministro e o presidente do governo regional da Madeira se reconciliam, cui bono?
Quando as agências de rating afundam a realidade portuguesa e a espanhola, depois de terem feito algo semelhante com a grega, cui bono?
Quando, em 1945, o governo dos EUA antes de mandar lançar as bombas atómicas sobre o Japão referiu como argumento que estava a defender cerca de 500 mil tropas americanas estacionadas no Pacífico embora o verdadeiro número fosse de apenas 46 mil, cui bono?
Quando o Brasil convence os países de língua oficial portuguesa a usar uma nova ortografia, cui bono?
5/02/2010
Os grandes projectos
A verdade da situação económica e financeira de Portugal acabou por vir ao de cima. E não é brilhante. A partir de agora, sempre que Portugal pedir mais dinheiro emprestado ao estrangeiro, pagará um juro consideravelmente mais alto por ele.
A gravidade da situação actual, que até poderá levar o país a sair do euro, pode ser menos má do que a da Grécia, mas dentro da Eurolândia pior só encontramos mesmo esse país do Mar Egeu. Neste sentido, convirá porventura recordar algumas das medidas que irão recair sobre os gregos, numa factura social que já foi negociada com a União Europeia e com o FMI: supressão dos 13º e 14º meses no salário dos funcionários públicos; idem em todas as pensões de reforma; a idade da reforma elevada para os 67 anos; revisão da lei dos despedimentos; o aumento do IVA.
Ora, a supressão dos 13º e 14º meses para os trabalhadores no activo e para os pensionistas significa para cada um deles uma quebra na ordem dos 14 por cento (um pouco mais, de facto). Em termos reais, quem ganha 100 passa a receber ao fim do mês apenas 85 e uns pozitos mais.
Quando se vêem as barbas do vizinho a arder, é natural que olhemos para as nossas e as ponhamos de molho, porque barbas molhadas custam mais a pegar fogo. Seria, em princípio, lógico que Portugal deixasse o mais possível de pedir dinheiro emprestado ao estrangeiro e vivesse mais com a prata da casa. Pareceria uma medida de bom senso. Sucede que os dois grandes projectos portugueses - a construção do novo aeroporto de Lisboa e o projecto ferroviário geralmente conhecido por TGV – parece irem seguir em frente, a despeito de o senso comum ir contra algo que está muito longe de ser urgente. Possivelmente serão projectos com alguma urgência política – para atender a promessas feitas – mas neste momento sem lógica económico-financeira. Dizia Brecht que as derrotas e as vitórias de quem está no topo não são necessariamente derrotas e vitórias para quem está abaixo, e este parece-me ser um caso ao qual esta reflexão se aplica. Por outro lado, uma ideia pode ser correcta em 2004 e desajustada em 2010. Saber corrigir-se e pensar em defender os interesses da Nação acima de tudo é característica de um verdadeiro homem de Estado. Insistir, contra ventos e marés, em mais auto-estradas e mais aeroportos e o TGV parece ser nesta altura um erro tremendo. Errar é humano, todos sabemos, mas errar muito, como alguém dizia, é desumano. Basta!
A gravidade da situação actual, que até poderá levar o país a sair do euro, pode ser menos má do que a da Grécia, mas dentro da Eurolândia pior só encontramos mesmo esse país do Mar Egeu. Neste sentido, convirá porventura recordar algumas das medidas que irão recair sobre os gregos, numa factura social que já foi negociada com a União Europeia e com o FMI: supressão dos 13º e 14º meses no salário dos funcionários públicos; idem em todas as pensões de reforma; a idade da reforma elevada para os 67 anos; revisão da lei dos despedimentos; o aumento do IVA.
Ora, a supressão dos 13º e 14º meses para os trabalhadores no activo e para os pensionistas significa para cada um deles uma quebra na ordem dos 14 por cento (um pouco mais, de facto). Em termos reais, quem ganha 100 passa a receber ao fim do mês apenas 85 e uns pozitos mais.
Quando se vêem as barbas do vizinho a arder, é natural que olhemos para as nossas e as ponhamos de molho, porque barbas molhadas custam mais a pegar fogo. Seria, em princípio, lógico que Portugal deixasse o mais possível de pedir dinheiro emprestado ao estrangeiro e vivesse mais com a prata da casa. Pareceria uma medida de bom senso. Sucede que os dois grandes projectos portugueses - a construção do novo aeroporto de Lisboa e o projecto ferroviário geralmente conhecido por TGV – parece irem seguir em frente, a despeito de o senso comum ir contra algo que está muito longe de ser urgente. Possivelmente serão projectos com alguma urgência política – para atender a promessas feitas – mas neste momento sem lógica económico-financeira. Dizia Brecht que as derrotas e as vitórias de quem está no topo não são necessariamente derrotas e vitórias para quem está abaixo, e este parece-me ser um caso ao qual esta reflexão se aplica. Por outro lado, uma ideia pode ser correcta em 2004 e desajustada em 2010. Saber corrigir-se e pensar em defender os interesses da Nação acima de tudo é característica de um verdadeiro homem de Estado. Insistir, contra ventos e marés, em mais auto-estradas e mais aeroportos e o TGV parece ser nesta altura um erro tremendo. Errar é humano, todos sabemos, mas errar muito, como alguém dizia, é desumano. Basta!
4/29/2010
Mais dois casos, estes da guerra colonial em Angola
Estes dois casos datam do já remoto ano de 1963. Reproduzo as palavras que na altura escrevi.
"Tomar a nuvem por Juno" é uma expressão muito vulgar que, na maioria dos casos, significa que nos iludimos e supomos que uma coisa é diferente daquilo que de facto é. Aconteceu-me hoje aqui na Fazenda Tentativa algo que, pela segunda vez num espaço de tempo relativamente curto, constitui um bom exemplo do significado daquela expressão.
Com um entardecer de sonho, uma temperatura amena e as palmeiras da Fazenda recortando-se no horizonte contra um céu rubro, fui dar um passeio por esta imensa propriedade, sorvendo com o olhar as várias dádivas que a natureza magnífica me ia oferecendo. A dada altura, divisei ao longe um grupo relativamente grande. Pareciam-me mulheres. Confirmei-o ao aproximar-me um pouco mais. Todas de preto. Ajoelhadas num local do palmar que nada parecia ter de especial. Mantive-me a alguma distância para não perturbar. Ciente da possibilidade, nunca de excluir, de ver mulheres a servir de alguma maneira interesses de eventuais rebeldes, observei a cena. Mantiveram-se ajoelhadas e recolhidas em silêncio enquanto o sol se ia pondo. Era uma cena estranha, muito bela. De filme. Que significado teria? O que estariam aquelas mulheres a fazer ali? Formou-se-me uma dúvida no espírito, dúvida que só ao jantar, com um dos funcionários da Fazenda, consegui esclarecer. "O sr. alferes viu mesmo essas mulheres junto ao palmar? Exactamente em que sítio?" Dei-lhe a localização precisa. "Isso é muito interessante. Que dia é hoje? Pois, tem de ser isso. Foi mais ou menos por esta altura que há dois anos vários homens que trabalhavam aqui na Fazenda foram considerados suspeitos de estar a maquinar algo cá dentro. Interrogados pela tropa e também pela polícia, uns terão feito declarações que os comprometeram, outros não terão aberto a boca. Não sei dizer com rigor o que se passou porque não assisti a nada. Mas sei que, para cortar o mal pela raiz, foram todos mortos. Mortos e enterrados numa larga vala comum, que um tractor abriu aqui na Fazenda. As mulheres desses homens ficaram por cá, bem como os filhos, se os tinham. O que viu hoje, porque foi esse o local que me indicou, foi uma romaria das mulheres ao lugar dessa vala comum, no meio dos palmares. Possivelmente faz anos que eles lá foram enterrados!"
Não sei o que dizer desta triste e comovente história da guerra de Angola. Ela fala por si.
Tenho, entretanto, uma outra nuvem em forma de Juno. Também recente. Passou-se no Libongo, antes de eu vir aqui para a Tentativa. Junto à Fazenda, existe a sanzala Terra Nova, onde fui muitas vezes. É uma sanzala com uma população simpática, mas bem mais suspeita do que esta da Tentativa relativamente a contactos com núcleos de nativos armados, por ficar mais a norte e, por conseguinte, ter maiores probabilidades de estabelecer contactos com rebeldes. Nas minhas visitas por ali e mesmo na Fazenda Libongo, notei em mais do que uma rapariga algo que me intrigou: um fio vermelho na parte da frente da T-shirt que usavam, do lado do coração. Que significado teria aquele fio de lã vermelho? Perguntei a colegas meus, que não souberam dar-me uma resposta cabal e concreta. "Não será um sinal combinado?" "Não faço a mínima ideia!" A questão arrastou-se. Até que um dia, vendo uma moça sozinha, desenvolta, talvez com 19 ou 20 anos e com o tal fio vermelho na T-shirt, decidi-me. Abeirei-me dela. Recuou um pouco. Dei dois dedos de conversa primeiro. Perguntei-lhe amigavelmente se era dali e como se chamava. A moça respondeu-me sem quaisquer problemas. Mas para mim o importante era outra coisa. Disparei então de chofre, embora no mesmo tom cordial: "Ouve lá, para que é o fio de lã vermelho aí do lado esquerdo?" Ficou muda. Senti que ela não corava pela simples razão de que a sua cor não permite ver o sangue aflorar à face. Mas não estava muito à vontade. Um flash de satisfação perversa passou-me pela mente: "Apanhei-a! Apanhei-os! Ela não vai poder fugir e irá ter que confessar que sinal é este para os homens que estão na mata e se juntaram aos terroristas." Insisti. "Então, para que é esse fio vermelho?" A resposta lá veio finalmente, algo gaguejada por causa do embaraço, mas totalmente sincera e bem explícita: "É para avisar o meu namorado de que estou com o sangue. Estou no período!"
São as raparigas que são suspeitas, ou sou eu que estou a precisar de ir ao médico, de tão contaminado que estou, devido à guerra, de uma desconfiança absolutamente exagerada nas pessoas?
"Tomar a nuvem por Juno" é uma expressão muito vulgar que, na maioria dos casos, significa que nos iludimos e supomos que uma coisa é diferente daquilo que de facto é. Aconteceu-me hoje aqui na Fazenda Tentativa algo que, pela segunda vez num espaço de tempo relativamente curto, constitui um bom exemplo do significado daquela expressão.
Com um entardecer de sonho, uma temperatura amena e as palmeiras da Fazenda recortando-se no horizonte contra um céu rubro, fui dar um passeio por esta imensa propriedade, sorvendo com o olhar as várias dádivas que a natureza magnífica me ia oferecendo. A dada altura, divisei ao longe um grupo relativamente grande. Pareciam-me mulheres. Confirmei-o ao aproximar-me um pouco mais. Todas de preto. Ajoelhadas num local do palmar que nada parecia ter de especial. Mantive-me a alguma distância para não perturbar. Ciente da possibilidade, nunca de excluir, de ver mulheres a servir de alguma maneira interesses de eventuais rebeldes, observei a cena. Mantiveram-se ajoelhadas e recolhidas em silêncio enquanto o sol se ia pondo. Era uma cena estranha, muito bela. De filme. Que significado teria? O que estariam aquelas mulheres a fazer ali? Formou-se-me uma dúvida no espírito, dúvida que só ao jantar, com um dos funcionários da Fazenda, consegui esclarecer. "O sr. alferes viu mesmo essas mulheres junto ao palmar? Exactamente em que sítio?" Dei-lhe a localização precisa. "Isso é muito interessante. Que dia é hoje? Pois, tem de ser isso. Foi mais ou menos por esta altura que há dois anos vários homens que trabalhavam aqui na Fazenda foram considerados suspeitos de estar a maquinar algo cá dentro. Interrogados pela tropa e também pela polícia, uns terão feito declarações que os comprometeram, outros não terão aberto a boca. Não sei dizer com rigor o que se passou porque não assisti a nada. Mas sei que, para cortar o mal pela raiz, foram todos mortos. Mortos e enterrados numa larga vala comum, que um tractor abriu aqui na Fazenda. As mulheres desses homens ficaram por cá, bem como os filhos, se os tinham. O que viu hoje, porque foi esse o local que me indicou, foi uma romaria das mulheres ao lugar dessa vala comum, no meio dos palmares. Possivelmente faz anos que eles lá foram enterrados!"
Não sei o que dizer desta triste e comovente história da guerra de Angola. Ela fala por si.
Tenho, entretanto, uma outra nuvem em forma de Juno. Também recente. Passou-se no Libongo, antes de eu vir aqui para a Tentativa. Junto à Fazenda, existe a sanzala Terra Nova, onde fui muitas vezes. É uma sanzala com uma população simpática, mas bem mais suspeita do que esta da Tentativa relativamente a contactos com núcleos de nativos armados, por ficar mais a norte e, por conseguinte, ter maiores probabilidades de estabelecer contactos com rebeldes. Nas minhas visitas por ali e mesmo na Fazenda Libongo, notei em mais do que uma rapariga algo que me intrigou: um fio vermelho na parte da frente da T-shirt que usavam, do lado do coração. Que significado teria aquele fio de lã vermelho? Perguntei a colegas meus, que não souberam dar-me uma resposta cabal e concreta. "Não será um sinal combinado?" "Não faço a mínima ideia!" A questão arrastou-se. Até que um dia, vendo uma moça sozinha, desenvolta, talvez com 19 ou 20 anos e com o tal fio vermelho na T-shirt, decidi-me. Abeirei-me dela. Recuou um pouco. Dei dois dedos de conversa primeiro. Perguntei-lhe amigavelmente se era dali e como se chamava. A moça respondeu-me sem quaisquer problemas. Mas para mim o importante era outra coisa. Disparei então de chofre, embora no mesmo tom cordial: "Ouve lá, para que é o fio de lã vermelho aí do lado esquerdo?" Ficou muda. Senti que ela não corava pela simples razão de que a sua cor não permite ver o sangue aflorar à face. Mas não estava muito à vontade. Um flash de satisfação perversa passou-me pela mente: "Apanhei-a! Apanhei-os! Ela não vai poder fugir e irá ter que confessar que sinal é este para os homens que estão na mata e se juntaram aos terroristas." Insisti. "Então, para que é esse fio vermelho?" A resposta lá veio finalmente, algo gaguejada por causa do embaraço, mas totalmente sincera e bem explícita: "É para avisar o meu namorado de que estou com o sangue. Estou no período!"
São as raparigas que são suspeitas, ou sou eu que estou a precisar de ir ao médico, de tão contaminado que estou, devido à guerra, de uma desconfiança absolutamente exagerada nas pessoas?
4/26/2010
Três casos não-ficcionados
Para variar um pouco, pensei que talvez fosse relativamente interessante dar a conhecer três historietas reais, das muitas que cada um de nós tem da sua vida profissional. O cenário comum a todas elas é uma instituição de ensino.
A professora que acompanhava o grupo de alunos finalistas de um curso de turismo, todos eles entre os 21 e os 28 anos, era uma profissional competente, com larga experiência. O grupo fazia uma viagem de autocarro com a duração de 11 dias pelo Centro e Norte do país. O objectivo principal da viagem era dar a conhecer melhor Portugal, visitando monumentos, fazendo no autocarro e nas visitas prática de guia-intérprete ao mesmo tempo que faziam o reconhecimento de itinerários. Estabeleciam-se, ainda, contactos com autarquias e serviços oficiais de turismo.
Nas suas indicações à partida, a professora distribuiu algumas tarefas por vários alunos e, nas suas recomendações, salientou que o facto de aqueles jovens estarem vários dias fora de casa não deveria significar que iriam todas as noites a discotecas, com o correspondente regresso ao hotel a altas horas, passando depois as manhãs a dormir no assento do autocarro. Nos hotéis onde iam ficar, todo o barulho deveria ficaria cá fora, já que os restantes hóspedes tinham todo o direito de descansar. Acentuou que era a instituição onde os alunos estudavam que seria posta em causa na eventualidade de surgir algum comportamento menos correcto.
Se nos primeiros dias, nas Beiras, tudo correu bem, a certa altura os jovens alunos e alunas não quiseram deixar de dar à noite uma saltada a algumas discotecas mais conhecidas. Em Guimarães, no hotel em que estavam instalados, a professora notou que havia quem estivesse a exagerar. No dia de partida, ao fazer o check-out, recebeu das mãos do chefe da recepção uma carta, em envelope fechado, endereçada ao director do Instituto. Não teve qualquer dúvida: ainda no hotel reuniu o grupo e mostrou-lhes o envelope. Sem saber o que a carta dizia porque não lhe tinha sido endereçada a ela, considerou naturalmente o facto muito grave.
A partir daí, nas restantes três noites o comportamento do grupo foi bem diferente. Sentiram todos a responsabilidade de um puxão de orelhas.
O grupo regressou a Lisboa. No dia seguinte à chegada, a professora veio fazer-me um breve relatório da viagem. Eu era o coordenador do curso. Entregou-me em mão a tal carta do hotel. Fiz-lhe notar que o envelope estava endereçado ao director da instituição. Piscou-me o olho e insistiu para que eu o abrisse. Abri. Lá dentro estava uma folha A-4, dobrada da forma tradicional. Dizeres: zero. Absolutamente nada, uma folha em branco. A experiente professora tinha concebido todo o esquema. Depois, pedira na recepção para meterem a folha num envelope do hotel, endereçado ao director.
Conclusão: com um pouco de imaginação, é possível encontrar formas não-dispendiosas e eficientes de resolver problemas. Foi um típico caso de boa gestão e prevenção de conflitos.
A segunda historieta envolve também uma carta e passou-se com outra professora, que entrou um dia no gabinete onde eu trabalhava. Gostaria de fazer uma viagem de dois dias a Coimbra para refrescar os seus conhecimentos da cidade, com vista a melhorar as suas aulas. Como não possuía automóvel, iria em princípio de autocarro ou de comboio, mas preferiria certamente que a instituição cobrisse o custo da viagem e do hotel. Sem refeições. Ouvi. Disse-lhe que esse era um assunto que apenas a Administração poderia resolver. Concordou. E, como colega e amiga, pediu-me se eu não me importava de escrever uma carta ao administrador para ela depois assinar. Admitiu que não tinha muito jeito para escrever coisas dessas. Teclei rapidamente uma carta ao computador, que lhe mostrei. Concordou com tudo e, depois de feita a respectiva impressão, assinou e meteu a carta num envelope, que entregou na Secretaria.
Passados uns dias, o administrador veio ao meu gabinete falar de assuntos diversos, como era seu hábito, e pedir-me também uma opinião: deveria ou não custear aquela pretensão da professora? Pedi-lhe para dar uma vista de olhos à carta. Li-a com encenada pausa e, quando acabei, respondi afirmativamente. A professora em questão era uma pessoa muito briosa e merecia certamente aquilo que pedia. Achei que não constituía precedente para outros casos. Logo ali à minha frente o administrador assinou o respectivo deferimento. Tudo foi justo, não houve nada de errado, mas confesso que eu próprio não esperava ter de ir ver a minha própria carta uma segunda vez e opinar sobre o seu despacho.
Na mesma instituição, havia uma outra professora de um curso diferente. Por ela, apesar de algumas boas qualidades que também possuía, eu não poria muito as mãos no fogo. Era uma criativa. Forjava histórias com uma verosimilhança notável, que às vezes chegavam a causar embaraços. Dentro do seu currículo, contava-se um período de tempo em que fizera parte de um pool de secretárias de um determinado ministro. Havia já uns três ou quatro anos que não estava nesse ministério, mas essa tinha sido para ela a sua coroa de glória. Chegou a dar-me um cartão, já algo amarelado, com o seu nome e a posição que ocupara. Pelo menos com algumas das suas alunas, mantinha porém a versão de que continuava ligada ao ministério, o qual, por assim dizer, não a podia dispensar.
Um dia, foi ela própria que me contou que nas suas turmas costumava dar, por especial deferência, o seu número de telefone directo do ministério. Pedia-lhes para ligarem para lá sempre que tivessem algum problema sério que não conseguissem resolver. É evidente que, por ser para o ministério, não havia muitas alunas que lhe ligassem. Porém, salvo uma ou outra vez em que as alunas ouviam o telefone tocar e não obtinham qualquer resposta, o directo funcionava mesmo. Era a professora, ela mesma, que as atendia. Tinha-lhes dado o número de telefone da sua própria casa. Directíssimo.
A professora que acompanhava o grupo de alunos finalistas de um curso de turismo, todos eles entre os 21 e os 28 anos, era uma profissional competente, com larga experiência. O grupo fazia uma viagem de autocarro com a duração de 11 dias pelo Centro e Norte do país. O objectivo principal da viagem era dar a conhecer melhor Portugal, visitando monumentos, fazendo no autocarro e nas visitas prática de guia-intérprete ao mesmo tempo que faziam o reconhecimento de itinerários. Estabeleciam-se, ainda, contactos com autarquias e serviços oficiais de turismo.
Nas suas indicações à partida, a professora distribuiu algumas tarefas por vários alunos e, nas suas recomendações, salientou que o facto de aqueles jovens estarem vários dias fora de casa não deveria significar que iriam todas as noites a discotecas, com o correspondente regresso ao hotel a altas horas, passando depois as manhãs a dormir no assento do autocarro. Nos hotéis onde iam ficar, todo o barulho deveria ficaria cá fora, já que os restantes hóspedes tinham todo o direito de descansar. Acentuou que era a instituição onde os alunos estudavam que seria posta em causa na eventualidade de surgir algum comportamento menos correcto.
Se nos primeiros dias, nas Beiras, tudo correu bem, a certa altura os jovens alunos e alunas não quiseram deixar de dar à noite uma saltada a algumas discotecas mais conhecidas. Em Guimarães, no hotel em que estavam instalados, a professora notou que havia quem estivesse a exagerar. No dia de partida, ao fazer o check-out, recebeu das mãos do chefe da recepção uma carta, em envelope fechado, endereçada ao director do Instituto. Não teve qualquer dúvida: ainda no hotel reuniu o grupo e mostrou-lhes o envelope. Sem saber o que a carta dizia porque não lhe tinha sido endereçada a ela, considerou naturalmente o facto muito grave.
A partir daí, nas restantes três noites o comportamento do grupo foi bem diferente. Sentiram todos a responsabilidade de um puxão de orelhas.
O grupo regressou a Lisboa. No dia seguinte à chegada, a professora veio fazer-me um breve relatório da viagem. Eu era o coordenador do curso. Entregou-me em mão a tal carta do hotel. Fiz-lhe notar que o envelope estava endereçado ao director da instituição. Piscou-me o olho e insistiu para que eu o abrisse. Abri. Lá dentro estava uma folha A-4, dobrada da forma tradicional. Dizeres: zero. Absolutamente nada, uma folha em branco. A experiente professora tinha concebido todo o esquema. Depois, pedira na recepção para meterem a folha num envelope do hotel, endereçado ao director.
Conclusão: com um pouco de imaginação, é possível encontrar formas não-dispendiosas e eficientes de resolver problemas. Foi um típico caso de boa gestão e prevenção de conflitos.
A segunda historieta envolve também uma carta e passou-se com outra professora, que entrou um dia no gabinete onde eu trabalhava. Gostaria de fazer uma viagem de dois dias a Coimbra para refrescar os seus conhecimentos da cidade, com vista a melhorar as suas aulas. Como não possuía automóvel, iria em princípio de autocarro ou de comboio, mas preferiria certamente que a instituição cobrisse o custo da viagem e do hotel. Sem refeições. Ouvi. Disse-lhe que esse era um assunto que apenas a Administração poderia resolver. Concordou. E, como colega e amiga, pediu-me se eu não me importava de escrever uma carta ao administrador para ela depois assinar. Admitiu que não tinha muito jeito para escrever coisas dessas. Teclei rapidamente uma carta ao computador, que lhe mostrei. Concordou com tudo e, depois de feita a respectiva impressão, assinou e meteu a carta num envelope, que entregou na Secretaria.
Passados uns dias, o administrador veio ao meu gabinete falar de assuntos diversos, como era seu hábito, e pedir-me também uma opinião: deveria ou não custear aquela pretensão da professora? Pedi-lhe para dar uma vista de olhos à carta. Li-a com encenada pausa e, quando acabei, respondi afirmativamente. A professora em questão era uma pessoa muito briosa e merecia certamente aquilo que pedia. Achei que não constituía precedente para outros casos. Logo ali à minha frente o administrador assinou o respectivo deferimento. Tudo foi justo, não houve nada de errado, mas confesso que eu próprio não esperava ter de ir ver a minha própria carta uma segunda vez e opinar sobre o seu despacho.
Na mesma instituição, havia uma outra professora de um curso diferente. Por ela, apesar de algumas boas qualidades que também possuía, eu não poria muito as mãos no fogo. Era uma criativa. Forjava histórias com uma verosimilhança notável, que às vezes chegavam a causar embaraços. Dentro do seu currículo, contava-se um período de tempo em que fizera parte de um pool de secretárias de um determinado ministro. Havia já uns três ou quatro anos que não estava nesse ministério, mas essa tinha sido para ela a sua coroa de glória. Chegou a dar-me um cartão, já algo amarelado, com o seu nome e a posição que ocupara. Pelo menos com algumas das suas alunas, mantinha porém a versão de que continuava ligada ao ministério, o qual, por assim dizer, não a podia dispensar.
Um dia, foi ela própria que me contou que nas suas turmas costumava dar, por especial deferência, o seu número de telefone directo do ministério. Pedia-lhes para ligarem para lá sempre que tivessem algum problema sério que não conseguissem resolver. É evidente que, por ser para o ministério, não havia muitas alunas que lhe ligassem. Porém, salvo uma ou outra vez em que as alunas ouviam o telefone tocar e não obtinham qualquer resposta, o directo funcionava mesmo. Era a professora, ela mesma, que as atendia. Tinha-lhes dado o número de telefone da sua própria casa. Directíssimo.
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