6/05/2010

Cenas de rua


Para quem passa na rua onde moro, o que mais salta à vista são decerto os automóveis. Estacionados correctamente em espinha, ou em segunda fila quase tão compacta como a anterior, os automóveis e as carrinhas dão frequentemente origem a engarrafamentos, apitadelas monstras ou a simples vozes alteradas. Conseguir arrumar o carro na rua é hoje em dia uma sorte extraordinária. Os dois postos da EMEL que aqui foram colocados estão perfeitamente inoperantes: drogados entretiveram-se durante meses e meses a caçar moedas com um engenhoso arame, retorcido à medida e com ganchinho na ponta. Hoje, como nenhum funciona, o estacionamento para os residentes deixou de ser prioritário. A contribuírem substancialmente para esta situação há na rua, que é relativamente curta, duas oficinas e dois stands de automóveis. Porém, contamos também com uma utilíssima e simpática farmácia, uma escola básica que chilreia de miúdos, uma casa de gelados que é dos poucos sobreviventes dos antigos sorvetes caseiros, além de quatro pequenos cafés-pastelaria, cada um deles com a sua esplanada. Uma papelaria, dois cabeleireiros (um deles para homens) e um dentista compõem o ramalhete. Os prédios são geralmente de cinco andares e datam de há 70 anos, mais coisa, menos coisa. A maioria das pessoas já aqui vive há um ror de anos.
O Sr. Romão é um desses. Conheço-o desde que vim para aqui morar. Não nos falamos mais do que bom dia, boa tarde, mas cumprimentamo-nos. O Sr. Romão está reformado. Como todo o pensionista que ainda tem saúde suficiente para sair de casa, tem na sua rotina a compra do jornal. O seu favorito é o Correio da Manhã. Antes de levar o periódico para casa, passa pelo menos uma hora dentro do seu automóvel, que possivelmente conseguiu estacionar estrategicamente durante um fim-de-semana e no qual nunca mais mexeu. Durante anos, o Sr Romão teve um velhíssimo Volkswagen Golf, já comprado em terceira ou quarta mão, que se apresentava com vários pontos de ferrugem e bastante despintado no capot e no tejadilho. Por volta das 9 e meia da manhã ele sentava-se no seu carrito e, sempre receoso que a bateria se tivesse ido abaixo durante a noite, punha o motor a trabalhar e assim o deixava enquanto ia lentamente folheando e saboreando o seu jornal, possivelmente antegozando as novidades que iria contar à patroa que entretanto estava na cozinha a preparar o almoço. Cheguei a vê-lo às 11 horas ainda dentro do carro, sempre com a janela do seu lado aberta. O motor continuava a trabalhar. Aquela bateria iria durar uma vida. Há dias fui surpreendido. O Sr. Romão lá estava dentro da viatura a folhear o seu Correio da Manhã que, como sempre, tinha comprado na papelaria da rua, mas o automóvel era outro! Em vez do descorado VW, agora tinha um Peugeot preto. Deve dar-lhe bastante gozo, a ele que nunca vi tirar o carro da rua, ter mudado de viatura! O carro não é exactamente novo, mas sim de 2004. O Sr. Romão não se pode dar ao luxo de comprar carros novos, mas agora este tem a pintura impecável, o leãozinho da marca atrás e à frente, e, vantagem das vantagens, já não é preciso gastar gasolina a carregar a bateria! Agora, é em silêncio que o Sr. Romão lê sobre as traficâncias políticas e os crimes que se cometem por aí fora. As viagens paradas, com as rodas do carro a tocarem no passeio, mantêm-se as mesmas, mas deve ser para ele uma extraordinária sensação poder usufruir do prazer de estar dentro do seu novo carrito!
Deixemos o Sr. Romão em paz. Ele é um homem pacífico e não o vejo a falar a muita gente. Entretanto, a propósito de falar, achei interessante uma cena que pude observar esta manhã, também aqui na minha rua. Ia eu a caminhar pelo passeio para fazer umas compras na frutaria ali em baixo quando surgiu no mesmo passeio um rapaz alto, de óculos escuros, a falar aparentemente sozinho. De facto, não vinha ninguém com ele. É cena que já foi presenciada por muita gente e que coloca as cidades como locais de muito Fala-Só. É claro que ele estava a falar ao telemóvel, mas como este não se via e o rapaz tinha apenas um auscultador no ouvido, a coisa surgia algo estranha. Entretanto, ele sentou-se à mesa de uma das esplanadas da rua. O contraste dificilmente poderia ser maior: na outra única mesa ocupada estava um casal também aqui residente. Certamente porque já estão casados há muitos anos e conhecem de cor e salteado as conversas um do outro, tanto ela como ele estavam em silêncio, cada um a ler para si uma parte do jornal que tinham comprado. Entretanto chegou o Fala-Só e sentou-se. Fisicamente sozinho à mesa, ele falava exuberantemente, com imensos gestos. Discutia em voz alta os termos de um negócio com um invisível interlocutor. Mantinha uma animadíssima conversa que nem o homem, nem a mulher sentados na mesa ao lado, já conseguiam ter. Quando, minutos depois, passei de volta no mesmo local, ele continuava a falar. O casal, possivelmente ofuscado por tanto paleio e perturbado nas suas leituras silenciosas, tinha debandado.
São cenas triviais, eu sei, mas dão cor e alguma graça ao quotidiano da nossa rua.

P.S. A fotografia acima foi tirada a um domingo. A presença de um carro da polícia e os respectivos agentes nada tem a ver com distúrbios. Tem tudo a ver, porém, com a casa de gelados mencionada no texto e que fica do lado direito da rua. Ela até polícias atrai nos dias mais quentes!

6/01/2010

Candidaturas ao Ensino Superior

Com uma regularidade que já se tornou habitual, há vários órgãos da imprensa que publicam nesta altura do ano um guia nacional de candidatura ao ensino superior. É um serviço informativo que se justifica: a escolha da instituição certa por alguém que termina os seus estudos no secundário nem sempre é uma tarefa fácil. Comparar as médias de entrada do ano anterior de entre as áreas e cursos que se pretende é útil para um aluno verificar se tem probabilidades ou não de admissão na escola X ou Y.
O que este guia invariavelmente mostra é um discutível enviesamento, chamemos-lhe assim, no encaminhamento dos dinheiros públicos no ensino superior. Tentemos analisar por partes esta questão, que não é nova.
A educação em Portugal, tal como sucede em muitos outros países, tem uma componente pública e uma outra que é privada. Estas duas componentes existem desde a pré-primária até ao ensino superior. Quem reside numa cidade tem geralmente as duas hipóteses de escolha. Quem vive em centros mais pequenos, por vezes só conta com o serviço público. Como este é pago pelo Estado até à altura em que o ensino é obrigatório por lei, as famílias de menores recursos encaminham os seus filhos para escolas estatais. Quanto às famílias mais abastadas, elas preferem geralmente estabelecimentos privados, se estes existirem nas localidades onde residem. Tanto na pré-primária como no ensino básico e no secundário os pais com mais posses preferem pagar mais, mas ter aquilo que em princípio será uma educação mais produtiva e disciplinada para os seus filhos. Entende-se porquê. Em tempos hoje já bastante recuados, não eram todos os rapazes e raparigas que prosseguiam os seus estudos depois do chamado exame da 4ª classe. A natural selecção que se fazia entre os mais aptos fazia com que as escolas secundárias públicas tivessem um bom nível, tanto no que respeita ao ensino como à aprendizagem. Com a obrigatoriedade do ensino – amplamente justificada – deu-se uma massificação que, aos poucos, preteriu a qualidade em favor da quantidade. A tendência para igualar por baixo, que é um produto do facilitismo que ainda hoje impera, acabou por prejudicar os melhores. Os pais destes alunos foram gradualmente retirando os seus filhos das escolas públicas. Hoje em dia, dificilmente haverá um filho ou uma filha de ministro a frequentar escolas públicas desde a pré-primária até ao final do secundário. O mesmo se aplica a filhos de médicos, engenheiros, arquitectos, advogados, professores do ensino superior, farmacêuticos, gestores, empresários ricos, etc.
Devido a este facto, ocorreu uma inevitável clivagem na sociedade, que anteriormente também existia mas não era tão pronunciada. Os filhos de pais com nível cultural mais elevado e correspondentes ganhos materiais têm hoje a possibilidade de proporcionar viagens no país e no estrangeiro aos seus filhos, que outras famílias não possuem. Boas bibliotecas em casa, excelentes computadores, cuidados extra de alimentação e saúde, além de conversas e ensinamentos em casa e com os amigos proporcionam aos filhos desses casais um nível que não está ao alcance de todos. É verdade que nem todos aproveitam, mas esses casos, não sendo raros, são também produto de uma aptidão menor dos estudantes e de menor interesse pelo estudo, que às vezes é, mesmo assim, compensado por "explicações", as quais estão também fora do alcance de quem não tem posses suficientes.
Em face desta situação, a maioria dos alunos que acaba por entrar no ensino público superior, que é quase totalmente pago pelo Estado – as propinas nas escolas estatais são sempre muito mais baixas do que as de uma escola privada – é constituída por estudantes com maiores posses. E é aqui que se pode levantar a questão: é justo que sejam os alunos oriundos de famílias mais abastadas a usufruir dos pagamentos do Estado? É que os que obtêm médias mais baixas de admissão ao ensino superior vêem-se frequentemente forçados a recorrer ao ensino superior privado. Sucede, entretanto, que aqui ocorre uma situação inversa relativamente ao ensino secundário: as escolas superiores públicas oferecem um grau de credibilidade e exigência que as escolas superiores particulares não se podem dar ao luxo de oferecer (a Universidade Católica é um caso especial, porque se insere num regime à parte). Por outro lado, seria justo que o Estado preterisse os melhores alunos que se candidatam e admitisse os que têm classificações mais baixas? Existe nesta situação aquilo que para algumas pessoas representa uma perversa utilização dos dinheiros públicos e, para outras, uma situação perfeitamente normal: o Estado premeia os melhores, independentemente da forma como eles se tornaram os melhores.
Mesmo assim, dentro do ensino superior público existe uma diferença notória entre a generalidade dos admitidos pelas universidades – nível mais elevado - e pelos institutos politécnicos, salvo cursos especiais que só existem no ensino politécnico.
O Guia Nacional de Candidatura ao Ensino Superior 2010-2011, tal como vem transcrito na imprensa, espelha mais uma vez realidades diversas, de que salientarei apenas três, embora acrescente alguns considerandos:

1. Enquanto os estabelecimentos públicos revelam, quase sem excepção, as notas mínimas de entrada no ano anterior, as escolas privadas abstêm-se de o fazer. (Uma vez que existe uma boa credibilidade das escolas superiores públicas, todos tentarão escolhê-las, a não ser que nelas não encontrem os cursos que especificamente pretendem frequentar. Por seu lado, as escolas superiores privadas pretendem basicamente preencher os seus numeri clausi, porque sem alunos ou com um número muito baixo não conseguem sobreviver.)
2. Enquanto as notas mínimas de entrada em cursos públicos como os de Medicina, Arquitectura, Direito, Biologia e Farmácia requerem notas elevadas ou relativamente altas (respectivamente, mais de 18, 16/17, 14/15, 13/14, mais de 16), outros cursos há, igualmente públicos, em que as notas mínimas de entrada são baixas, por vezes mesmo ligeiramente abaixo de 10. Aqui há vários factores a ter em conta, sendo um deles o da elevada procura e do numerus clausus. Sempre que o numerus clausus aumenta, as notas mínimas de entrada descem, como seria previsível. (A informação dos jornais não fornece o número máximo de alunos por curso, o que prejudica a informação correcta.)
Existe, por outro lado, um factor muito importante e que é geralmente ignorado: o do elenco das disciplinas de acesso, isto é, das disciplinas de exame que são incluídas na média de acesso. Relativamente a este caso, há numerosas escolas públicas que fazem aquilo que para alguns será batota e, para outros, um processo perfeitamente legal, uma vez que é autorizado pela autonomia de que as escolas superiores desfrutam: introduzem nas disciplinas de exame de acesso cadeiras que não serão, à vista desarmada, nem as mais difíceis, nem as mais indicadas. O exemplo mais notório é o dos cursos que contêm no seu elenco disciplinas com uma vasta componente numérica. Ora, em princípio a Matemática deveria ser disciplina obrigatória de acesso. Não o é sempre. Numerosos cursos públicos, não no sub-sector universitário mas sim no sub-sector politécnico, colocam a Matemática como disciplina opcional nos seus exames de acesso. O resultado é que esses cursos poderão depois apresentar notas mínimas de acesso relativamente elevadas, sendo no entanto verdade que pouco contêm da componente de Matemática que, a ser obrigatória, faria baixar drasticamente as notas mínimas ou, então, reduziria substancialmente o número de alunos com acesso. Neste sentido, estabelece-se em vários cursos do ensino superior uma clara distinção entre universidades e politécnicos.
O número de cursos superiores com designações diferentes é impressionante. Pelas minhas contas são 758 (!), regidos quantitativamente por esta ordem: universidades públicas, institutos politécnicos públicos, institutos politécnicos privados e universidades privadas. Dos cursos-base que eram comuns no passado, como os de Agronomia, Biologia, Direito, Engenharia, Farmácia, Física, Gestão de Empresas, Línguas, Matemática, Medicina, Psicologia, Química e Sociologia, evoluiu-se para uma imensa variedade que inclui licenciaturas em Aconselhamento Psicossocial, Administração e Gestão Desportiva, Animação Digital, Animação e Intervenção Sociocultural, Artes Performativas, Ciência dos Alimentos, Ciências da Ecologia e Desenvolvimento Sustentado, Ecologia e Paisagismo, Gerontologia Social, Línguas e Estudos Editoriais, etc. etc. Há conteúdos de cursos que têm necessariamente de ser muito idênticos mas que, pelas suas diferentes designações, pretendem dar uma ideia de inovação que possivelmente é mais aparente do que real. Em nome da verdade e defesa dos estudantes que serão futuros diplomados, deveria haver uma maior uniformização na nomenclatura.

5/27/2010

Emigração/Migração

Mote: (Do comentário de AJMS a um texto deste blogue): O dono de um restaurante exótico, imigrante pleno de iniciativa, dizia-me que Portugal proporciona poucas oportunidades de investimento, não cria perspectivas, tem uma população escassa, que definha e desaproveita capacidades! Como solução, aconselhava um programa de imigração a sério. Achei a ideia óptima e lembrei-me logo dos níveis de crescimento que outros países, noutras épocas, conseguiram à custa de intensos e bem planeados programas de imigração, dinamizando a economia e a comunidade em geral.

Glosa (ma non troppo): Há cerca de 40 anos, uma funcionária da instituição de ensino onde eu então trabalhava, pediu-me ajuda. O marido e ela estavam a pensar em emigrar para a Austrália. A ajuda que me era pedida consistia na tradução dos requisitos necessários para a emigração e também, em certa medida, algum aconselhamento. Falámos mais do que uma vez sobre o assunto, conheci o marido dela, que era serralheiro mecânico e me pareceu um bom profissional. Ajudei com uma carta de recomendação pessoal, outra do director da escola e, como não poderia deixar de ser, no preenchimento do formulário em inglês. Ao ler as várias alíneas deste último, constatei que existia toda uma série de especificações. Estas especificações só podiam resultar de um plano bem elaborado pelas autoridades australianas. O plano era real – e realista. A especialidade de serralharia do indivíduo português era uma das carências que o país tinha. O casal, com a sua filha ainda pequena, foi aceite. Quando chegaram à Austrália, foram encaminhados para uma determinada povoação. A miúda foi integrada no ensino básico, o homem arranjou trabalho, a mulher ficou mais a zelar pela casa. Cerca de dez anos depois, vieram a Portugal e visitaram a instituição onde eu continuava a trabalhar. Contaram-me maravilhas do seu novo país. Gostavam da sua vida, sentiam-se felizes e, o que é mais, tinham a sensação concreta de que em Portugal nunca poderiam ter atingido o nível de vida de que lá desfrutavam.
Sei de várias histórias semelhantes relativas ao Canadá, onde conheço um número razoável de indivíduos portugueses.
Chegado aqui, o leitor dir-se-á: "mas o que estamos a tratar é de emigração e não de imigração." Pois, é tudo uma questão de prefixos: ex-, para sair, em "emigração" e in-, para entrar, em "imigração". Emigra-se para um país, mas do ponto de vista desse país é-se imigrante.
Nos Estados Unidos a situação é bastante semelhante à mencionada acima. Para obter um documento I-20 (suponho que ainda se mantém) que autoriza a imigração, é necessário responder a uma boa série de perguntas e preencher formulários específicos. E isto não é burocracia por amor da burocracia: é planeamento puro e duro.
Note-se que até aqui falei de três países de língua inglesa, que possuem na sua génese um background cultural semelhante. São países que gostam de regras, embora sejam democráticos na sua atitude. São nações que possuem uma estratégia de Estado, a qual mantêm e prosseguem, com ligeiras alterações consoante os tempos e um tanto independentemente dos governos. O que esses países procuram é qualidade que ajude o país a melhorar. Pense-se nisto: mais de 50 por cento dos doutoramentos que se realizam nos Estados Unidos são de estudantes ou profissionais não-americanos. Vêm de todo o mundo, desde a Arábia Saudita à China, de Portugal à Alemanha e Nigéria. Muitos dos doutorados (PhDs) acabam por ficar nos EUA e constituem uma óbvia mais-valia. Deram provas do seu valor intelectual, estão integrados. O Estado americano só os conheceu já adultos, pelo que não teve que custear a sua educação básica e secundária, nem o primeiro degrau do ensino superior. Os EUA não despenderam quaisquer subsídios com eles. Quando os acolheu, recebeu-os prontos a produzir. Isso é como ter logo desde o primeiro ano pereiras a dar peras e sobreiros a dar cortiça. É só ganho. Líquido.
Pensemos nalguns nomes de famosos emigrantes/imigrantes nos Estados Unidos (entre parênteses os respectivos países de origem): Amarthya Sen (Índia), Billy Wilder (Áustria), Bertolt Brecht (Alemanha), Einstein (Alemanha), Fareed Zakaria (Índia), Hayek (Áustria), Alfred Hitchcock (Inglaterra), Aldous Huxley (Inglaterra), António Damásio (Portugal), John Woo (China), Ernst Lubitsch (Alemanha), Anthony Quinn (México), Zsa Zsa Gabor (Hungria), Otto Preminger (Áustria), Roman Polanski (França), Sean Connery (Escócia), Schumpeter (Checoeslováquia), V. S. Naipaul (Caraíbas), Werner von Braun (Alemanha).
A imigração de cada um destes indivíduos representou uma mais-valia para os Estados Unidos. Em contrapartida, a imigração de um indivíduo que é transportado, juntamente com outros, numa carrinha conduzida por um mafioso que ganha com o seu negócio de vidas humanas, pode ser uma mais qualquer coisa, mas com pouca valia. Num caso, estamos a falar de qualidade, no outro de quantidade.
Pessoalmente, considero que o primeiro sistema é melhor, mas não digo que o segundo não tenha também as suas vantagens. Um exemplo sempre interessante diz respeito à diferente colonização que foi feita em territórios da América Latina e da América do Norte. Tomemos o exemplo do contraste num detalhe que é so aparentemente menor entre (1) os portugueses e o Brasil e (2) os ingleses e o actual território dos Estados Unidos. Para além das condições de trabalho para os escravos negros, existiram normas respeitantes a música na América do Norte. Já no Brasil essas normas foram inexistentes. Enquanto que o jeito puritano dos americanos autorizou os negros a tocarem música desde que usassem instrumentos “brancos” (saxofone, piano, trompete, etc.), os escravos do Brasil tinham carta branca para usar os instrumentos que quisessem (tambores, reco-reco & Cª). Daqui resultou a significativa diferença entre o jazz americano e a música brasileira.
Ora, existe algo de semelhante entre este exemplo e as práticas de imigração. Em Portugal, tanto quanto sei, aquilo que basicamente se discute é qual o número-limite de imigrantes por ano. Não se fala em seccionamento por qualidade. E isto porque não é verdadeiramente o Estado que planeia. As pessoas entram e vão-se desenvencilhando como podem. Com esta atitude, por vezes alguns imigrantes acabam por ser mais perniciosos do que úteis, na medida em que os ilegais não só prejudicam o emprego dos nacionais como não representam grande valor acrescentado para o Estado. Milhares de imigrantes em Portugal que não estão legalizados não pagam impostos porque os patrões não querem pagar a sua parte à Segurança Social. Esses patrões refugiam-se no facto de os seus trabalhadores estarem ilegais. Por seu lado, os imigrantes muitas vezes não se queixam para não perderem o seu emprego e ficarem, depois, "marcados" e com dificuldade de arranjar um outro local onde possam trabalhar.
Perguntar-se-á: e a fiscalização? Os fiscais do trabalho queixam-se de que o seu departamento tem poucos elementos e de que não têm mãos a medir. Para piorar as coisas, vários deles ficam desmotivados quando levantam autos e depois constatam que esses autos não receberam o seguimento devido com uma multa forte ao empregador. Não é muito de estranhar que haja alguns agentes que prefiram receber algum dinheiro por fora vindo do empresário - e fechar os olhos. Ora, isto não sucede nem no Canadá nem na Austrália, nem nos Estados Unidos. Existe uma disciplina mais rigorosa – tanto na admissão como eventualmente na punição.
O Estado português é grande, mas está longe de ser organizado e, principalmente, de ser disciplinado, justo e pouco corrupto. Já nos longínquos tempos da Índia, muitos dos particulares faziam os seus próprios negócios à sombra do Estado. A justiça ou não veio ou foi tardia. O parágrafo da carta que o infante D. Pedro escreveu a seu irmão e rei, D. Duarte, na primeira metade do século XV, é bem elucidativo: "A Justiça, senhor, que é outra grande virtude, me parece que não reina no coração daqueles que têm o encargo de julgarem a vossa terra. Parece-me, senhor, que a Justiça tem duas partes, uma de dar a cada um o que é seu, e a outra dar-lho sem delonga. Aqueles que tarde vencem, ficam vencidos."
O assunto teria muitíssimo mais para dizer, mas a costumeira extensão de um texto no blogue já foi excedida. Fico-me por aqui, acreditando ter tocado nalguns pontos que me parecem essenciais.

5/24/2010

Águas pantanosas

Quando passo na A5 junto ao Estádio Nacional ocorrem-me por vezes os tempos em que pratiquei atletismo naquela zona, geralmente nas tardes de 4ª feira e nas manhãs de sábado. Eu tinha na altura 15 ou 16 anos. O atletismo era não só uma prática desportiva que me agradava, como também representava uma forma gratificante e pragmática de escapar à bafienta Mocidade Portuguesa, que de outra forma me obrigaria a sessões de ordem unida e de prelecções, algo que se assemelhava dolorosamente a um pré-serviço militar. Ora, fazer atletismo nos campos de treino do Estádio e nas áreas circundantes junto ao rio Jamor era óptimo. O local tinha imensa vegetação, sabia bem correr ao ar livre e ginasticar o corpo, os treinadores eram competentes e excelente o convívio com os amigos e colegas. No Inverno e na Primavera, fortes bátegas de água não eram raras, mas também isso servia para enrijar o corpo.
Um dos mais frequentes percalços dos atletas são as distensões musculares. O esforço de um salto, de um arranque súbito ou de um sprint mais longo quando os músculos ainda não estão suficientemente quentes pode causar uma forte dor, geralmente na barriga da perna, e… já está! A partir daí não se consegue correr. O "estaleiro" aguarda-nos durante um mínimo de três semanas. Precisamente para evitar que isso ocorresse, os nossos treinadores levavam-nos para uns terrenos pantanosos ou pelo menos muito encharcados, nas proximidades do rio Jamor e na baixa de Linda-a-Velha. As sapatilhas com que corríamos ficavam literalmente cobertas de barro, mas a sensação geral era boa. Tínhamos que correr no meio da água e do lodo. Não víamos o fundo, mas sentíamo-lo perfeitamente quando nos enterrávamos até ao joelho. Esse enterranço, naturalmente primeiro com uma perna, fazia com que nos víssemos obrigados a fazer bastante força para sair dali... apenas para enterrar a outra perna da mesma forma. Mais esforço, mais afundamento de uma das pernas, mais levantamento, etc. faziam com que os nossos músculos se tornassem muito mais imunes às distensões musculares. Aliás, durante o tempo em que lá estive nunca sofri nenhuma. Muito mais tarde, sim.
E qual é a imagem que presentemente me evoca esta cena do passado de correr para a frente e para trás nas águas pantanosas? Sem dúvida que é o atolar em dívida do nosso Estado e Governo para honrar os compromissos tomados com a Nação e o seu esforço para sair do atoleiro, o qual leva a novo enterranço da dívida, o qual, infelizmente, não tem a consolação de servir de prevenção para problemas que poderão ocorrer no futuro. A subida dos juros da dívida é um problema enorme para Portugal, como para qualquer outro país, mas não se pode dizer que foi uma questão de puro azar. Já andamos a caminhar neste tipo de águas lodosas há muito tempo, embora geralmente fora do alcance das câmaras fotográficas oficiais que dão conta das acções governamentais.
É interessante, neste aspecto, compararmos o que foi feito entre nós com o comportamento governamental de um outro país europeu, a Noruega. A Noruega possui petróleo. Ora, poderia ter considerado isso uma benesse dos céus e dos mares, tipo jogo de roleta de Casino que nos corre bem. Assim, poderia ter usado esse dinheiro para baixar impostos, construir auto-estradas e coisas do género. Não fez nada disso. Continuou praticamente como se essa riqueza não existisse, limitando-se a assegurar a manutenção do bom nível de vida e a assistência social dos cidadãos noruegueses e a precaver-se contra eventuais problemas económicos e financeiros a que qualquer país está sujeito neste mundo globalizado. O fundo soberano que a Nortuega constituiu é notável e um garante de sustentabilidade do país. Na presente crise, a Noruega não entrou em recessão.
Em Portugal, não existe petróleo, como sabemos. Mas mesmo sem ele, preferiu-se outra via. Somos aquilo a que alguém chamou "um país de pobres com mentalidade de ricos". Sendo que os verdadeiros ricos, como Eduardo Lourenço um dia escreveu, se habituaram de há muito, na senda dos nobres senhores feudais, a não trabalhar. Após a Idade Média, com o advento dos Descobrimentos, descobriu-se a fórmula mágica para que tudo continuasse igual: a colonização. Não trabalhavam os ricos, trabalhavam os pretos. Durante séculos foi o que se fez. Agora que esses pretos colonizados acabaram, continua a colonizar-se o povo: aqui nascido ou vindo de outras partes. E tentou-se colonizar a União Europeia, chupando fundos e mais fundos, trocando barcos de pesca e plantações agrícolas por dinheiro. Só que negociar com brancos não é o mesmo que negociar com povos colonizados.
Presentemente, com Portugal a pagar juros altíssimos quando tem de pedir dinheiro emprestado – se compararmos os nossos os juros com aqueles que os alemães, por exemplo, terão de pagar por empréstimos similares -, esta corrida por terrenos pantanosos não augura nada de bom. E o governo, diga-se em abono da verdade, não se portou como devia. Escondeu esta realidade durante tempo de mais. Terá eventualmente sido um problema de democracia mais afirmada do que praticada, de gestão deficiente dos dinheiros públicos, ou de promessas feitas que ficaram demasiado longe da sua efectiva concretização. O facto, indesmentível, é que águas lodosas nunca foram transparentes.

5/22/2010

Ave, Obama! Europa te salutat!


Não respondo muito pelo meu barbaríssimo latim, mas todos entenderão o que quero dizer. Fui, como a esmagadora maioria dos portugueses, um inquestionável apoiante de Obama antes da sua eleição. Posteriormente, tive dúvidas, que manifestei, aquando do Prémio Nobel que lhe foi atribuído ainda sem grandes realizações conseguidas. Saúdo-o agora, e toda a Administração americana, por ter finalmente dado o passo em frente que era necessário em termos de finanças especulativas.
Entre outros posts, o azweblog questionou-se o ano passado em 7 de Fevereiro e em 27 de Julho sobre a regulação a impor aos poderosíssimos hedge funds, que continuam a varrer as bolsas de valores em praticamente todo o mundo. A grande notícia de ontem é que, finalmente, os hedge funds vão passar a ter algum controlo. A despeito de uma tremenda contra-campanha promovida por lobbies financiados por especuladores que nisso têm interesse directo ou indirecto, Obama conseguiu fazer passar no Senado uma série de medidas que, segundo os analistas, só é comparável às mudanças do New Deal, de FD Roosevelt.As medidas tomadas dizem apenas respeito aos Estados Unidos, mas espera-se que venham a contaminar positivamente a Europa. Nesta, o conservador David Cameron, recém-eleito primeiro-ministro do Reino Unido, é um natural defensor dos hedge funds, que têm 80 por cento do seu movimento na bolsa londrina.
As agências de rating, que tão mal se portaram antes do deflagrar da crise que se iniciou em 2008 e que está possivelmente ainda longe do seu fim, passam a ter um intermediário entre si e quem elas avaliam. Mais: os clientes passam a poder processar as agências.
Os derivados, que circulavam na sombra ou mesmo na escuridão e que tiveram igualmente papel preponderante na formação e desencadear da crise, passam a ter vigilância e regulação próprias. Por sua vez, os bancos deixam de poder investir directamente nos derivados e, significativamente, passam a não poder usar o dinheiro dos depósitos para aplicar em negócios como os dos hedge funds.
Na Europa, houve há poucos dias uma medida tomada isoladamente pela Alemanha que é igualmente de louvar: foi proibido o short selling (vendas a descoberto de títulos de dívida).
Ainda fica muita coisa de fora, nomeadamente a existência dos centros offshore que tanto prejudicam os Estados sob o ponto de vista fiscal, mas este novo passo dado é muito importante. Vai trazer alguma acalmia às bolsas financeiras, conquanto os Credit Default Swaps (CDS) continuem a deixar em aberto a possibilidade de se especular contra uma entidade ou um país.