7/09/2010

AS SUGESTÕES DO JOÃO MIGUEL

Sugiro a consulta do site do El Corte Inglês (www.elcorteingles.pt) onde estão anunciados os cursos com início em Setembro (Cinema (!), Escrita, Ideias Religiosas, Poesia e História da Música). Inscrições (grátis) no “Ponto de Informação”, Piso 0, junto aos elevadores.

Até dia 10, às 22h00, no jardim do MNAA, Mostra do Cinema Ibero-Americano (detalhes: http://www.ica-ip.pt/detalhe.aspx?newsid=812 )

Até dia 11, no Casino do Estoril, Estoril Jazz 2010

Até dia 11, na FIL (Parque das Nações), 23ª FIA-Lisboa – Feira Internacional de Artesanato

Até dia 18, 27º Festival de Teatro de Almada (detalhes: http://www.ctalmada.pt/festivais/2010/ )

Até dia 18, em Óbidos, Mercado Medieval

Até dia 22, nos jardins do Instituto Alemão, JiGG (Jazz im Goethe-Garten)

Até dia 25, de terça a domingo às 20h00, nos jardins do Palácio do Beau Séjour, na Estrada de Benfica, 368, comédia O Burguês Fidalgo (0€)

Até dia 26, no Largo de São Carlos, Festival ao Largo 2010 (http://www.festivalaolargo.com/)

Até dia 30, no Convento dos Remédios em Évora, Música nos Claustros (XI Ciclo de Concertos)

Até dia 31, no Centro de Artes das Caldas da Rainha, Simppetra (13º Simpósio Internacional de Escultura em Pedra)

Quinta-feira, dia 8

às 6h25, na ARTE, Andy Warhol (30’)

às 18h00, no Anfiteatro ao ar-livre da Gulbenkian, concerto do Coro e Orquestras Geração

às 19h00, nos jardins do Instituto Alemão, JiGG (Jazz im Goethe-Garten) 2010: Faustino | Roder | Eberhard | Neuser

às 21h35, na ARTE, Joan Baez (85’)

às 21h45, na Quinta das Conchas, ao Lumiar, CineConchas 2010, cinema ao ar-livre: Crepúsculo, de C. Hardwicke

às 22h00, na Casa da América Latina, concerto ao ar livre pelos mexicanos El Gran Silencio (5€€=1 bebida)

às 22h00, na Cafetaria Quadrante do CCB, Jazz às 5ªs: Lackner | Franco | Lencastre Project

às 22h30, na Cinemateca, Cinema na Esplanada: Peggy Sue Casou-se

o Projecto 5ªs à Noite nos Museus Verão 2010 contempla actividades fora d’ horas no Palácio da Ajuda e nos Museus Soares dos Reis, Alberto Sampaio, Machado de Castro e de Évora (http://www.imc-ip.pt/pt-PT/noite_museus/ContentList.aspx)

Sexta-feira, dia 9

às 17h00, no CAM (Centro Arte Moderna da Gulbenkian), Encontros ao Fim da Tarde: Jorge Barbi: 41° 52’ 59” Latitude N/8° 5’ 12” Longitude 0

às 18h30, na Biblioteca-Museu República e Resistência (Espaço Cidade Universitária), conferência do ciclo Ateísmo, Laicismo e Anticlericalismo em Portugal: Ateísmo em Portugal, por Luís Ferreira Rodrigues

às 21h45, na Quinta das Conchas, ao Lumiar, CineConchas 2010, cinema ao ar-livre: Amadeus, de M. Forman

às 22h00, no Largo de São Carlos, Festival ao Largo 2010: Sonho de Uma Noite de Verão, pela Orquestra Sinfónica Portuguesa e Coro do Teatro de São Carlos

às 22h00, no Casino do Estoril, Dee Dee Bridgewater Quintet (30 €)

às 22h00, no Chapitô, Pat Silva

às 22h30, na Cinemateca, Cinema na Esplanada: Desesperadamente Procurando Susana

às 22h00, na Fábrica da Pólvora de Barcarena, Eugenio Bennato (concerto integrado no Festival 7 Sóis 7 Luas)

Sábado, dia 10

às 15h00, no Largo do Palácio da Vila de Sintra, recriação histórica de Torneios Medievais a Cavalo (repete no dia seguinte)

às 17h00, no Porto de Recreio de Oeiras, Merci Bien (artes de rua)

às 19h30, na Cinemateca, Luís II, Rei da Baviera

às 20h00, na ARTE, Tosca (em directo do Festival de Munique, encenação de Luc Bondy, 145’)

às 21h30, no Convento dos Remédios em Évora, Música nos Claustros (XI Ciclo de Concertos): recital, por Ana Madalena Moreira (soprano) e Quarteto Lacerda

às 21h45, na Quinta das Conchas, ao Lumiar, CineConchas 2010, cinema ao ar-livre: A Princesa e o Sapo, de R. Clements

às 22h00, no C. C. Olga Cadaval, Sintra, Freddy Cole Quartet (20 €)

às 22h00, no Largo de São Carlos, Festival ao Largo 2010: Sonho de Uma Noite de Verão, pela Orquestra Sinfónica Portuguesa e Coro do Teatro de São Carlos

às 22h30, na Cinemateca, Cinema na Esplanada: Selvagem e Perigosa

Domingo, dia 11

às 6h25, na ARTE, A Crucificação (1930), de P. Picasso (32’)

às 12h00, no CAM (Centro Arte Moderna da Gulbenkian), Domingos com Arte: Jorge Barbi: 41° 52’ 59” Latitude N/8° 5’ 12” Longitude 0

às 17h30, no Odessa (Av. Infante D. Henrique, Armazém B,Loja 9,Cais da Pedra, Sta Apolónia), Rio Jazz: Sara Serpa (voz) e André Matos (guitarra)

às 18h00, na Capela de Nª Sr.ª da Conceição e St.º Amaro, em Oeiras, Temporada de Música Antiga Conde de Oeiras: concerto para 2 cravos, por Marcos Magalhães e João Paulo Janeiro

às 18h30, no Palácio Foz, recital de flauta e piano, por Ana Van Zeller e Saúl Picado

às 20h30, no Palácio Foz, recital de piano A Century in Paris (Chopin, Ravel e Debussy), por Olga Kleiankina – repete dia 13, às 19h00, no Museu da Música (Metropolitano Alto dos Moinhos)

às 22h30, na RTP2, Câmara Clara; tema: Fernão Mendes Pinto; convidados Maria Alzira Seixo e Rui Loureiro

às 23h00, na Mezzo, James Brown no Festival de Montreux 1981, (60’)

Segunda-feira, dia 12

às 21h30, na Casa da Achada (Rua da Achada, nº11), cinema ao ar livre: Aniki-Bobó, de Manoel de Oliveira

às 21h35, na ARTE, Heitor Villa-Lobos, l'âme de Rio (52’)

às 22h00, no Museu do Oriente, Paula Sousa (10€)

Terça-feira, dia 13

às 6h25, na ARTE, a Virgem, o Menino Jesus e Santa Ana, Léonard da Vinci (29’)

às 19h00, na Cinemateca, Há Lodo no Cais

às 19h00, nos jardins do Instituto Alemão, JiGG (Jazz im Goethe-Garten) 2010: Júlio Resende Quarteto

às 19h30, na Mezzo, Carmen, gravada em 2009 na Opéra Comique de Paris (168’)

às 22h00, no Largo de São Carlos, Festival ao Largo 2010: Noite Juvenil, pela Orquestra Sinfónica Juvenil e Jovens Vozes de Lisboa (?)

Quarta-feira, dia 14

às 18h00, na Sala Polivalente do Centro de Arte Moderna, ciclo Cinema e Mente (13x) Mais que a Vida: Shock Corridor, de Samuel Fuller (0€)

às 22h00, no Largo de São Carlos, Festival ao Largo 2010: Noite Donizetti : Traídos & Traidores, por Jovens Intérpretes do Teatro N. de São Carlos (?)

Quinta-feira, dia 15

às 6h25, na ARTE, F. Goya (30’)

às 18h00, na Sala do Arquivo dos Paços do Concelho, palestra Separação da Igreja do Estado, do ciclo A República Mês a Mês, por David Luna de Carvalho

às 19h00, nos jardins do Instituto Alemão, JiGG (Jazz im Goethe-Garten) 2010: Reto Suhner Quartet

às 21h45, na Quinta das Conchas, ao Lumiar, CineConchas 2010, cinema ao ar-livre: Volver, de P. Almodóvar

às 22h00, no Largo de São Carlos, Festival ao Largo 2010: Noite Germana Tânger, com Germana Tânger e João Grosso

às 22h00, nos jardins do Museu Nacional de Arte Antiga, Ciclo Noites do Atlântico: Yemmandala (5€=1 bebida)

às 22h00, na Cafetaria Quadrante do CCB, Jazz às 5ªs: Júlio Resende Quartet

às 22h00, na Alameda D. Afonso Henriques, concerto de encerramento das Festas de Lisboa

o Projecto 5ªs à Noite nos Museus Verão 2010 contempla actividades fora d’ horas na Casa Dr. Anastácio Gonçalves, Palácio de Queluz, Paço dos Duques (Guimarães) e nos Museus Soares dos Reis, Alberto Sampaio, Abade Baçal, Grão Vasco e de Évora (http://www.imc-ip.pt/pt-PT/noite_museus/ContentList.aspx)

A seguir:

de 17 a 31 de Julho, 36º Festival do Estoril/semanas de música do Estoril

de 19 a 25 de Julho, no São Luiz, Concurso Vianna da Motta

Não deixe de consultar a matriz de exposições (ficheiro anexo)

Bom fim-de-semana

JMiguel 8/Jul/2010

MatrizEXPO.xlsMatrizEXPO.xls

7/02/2010

Divagações banais sobre aspectos da natureza humana

Todos nós já certamente reparámos que é em face dos outros que nos definimos. As comparações entre bom e mau, alto e baixo, gordo e magro, inteligente e estúpido, diligente ou calão, habilidoso ou desajeitado, leal ou desleal resultam da nossa observação dos outros. É uma observação muitas vezes apressada e que, tendencialmente, nos é favorável.
Em termos colectivos fazemos o mesmo. Embora "a nossa terra" não seja melhor apenas porque nascemos lá e, objectivamente, possa não ser a mais bonita nem a que apresenta as melhores qualidades, tendemos a defendê-la; além do mais, é politicamente correcto sentir-se orgulho na terra onde se nasceu. Idem relativamente ao país.
Tomemos o caso de Portugal, que fica situado numa ponta da Europa, com o Oceano Atlântico a servir-lhe de fronteira a ocidente e a sul. Contamos apenas com um vizinho territorial: a Espanha. Ora, na mesma base da nossa análise a nível individual, também aqui tendemos a definir-nos exaltando as nossas qualidades face aos espanhóis. Desde a nossa língua aos nossos costumes, constatamos as diferenças. E, mais uma vez, tendemos a ser algo parciais na nossa observação.
De facto, no que diz respeito a Espanha, começamos por não estudar convenientemente a questão. Quantos portugueses estudaram verdadeiramente a História de Espanha, os seus heróis, os costumes e as tradições do povo espanhol? Dado que estamos basicamente interessados em nós, tendemos a ignorá-los. Criamos mitos, que preferimos ao confronto com a realidade. Dos espanhóis dizemos (1) que eles não nos entendem quando falamos ("porque são estúpidos"), (2) que têm que mexer nas coisas com as mãos e os dedos para as apreciarem ("não toques em tudo o que vês, não sejas como os espanhóis!"), (3) que um exército espanhol inteiro fugiu em Aljubarrota diante de uma corajosa padeira armada apenas com a pá do seu forno, (4) que a Espanha é terra de onde não vem nem bom vento, nem bom casamento, e assim por diante. É desta forma que nos vamos definindo, sempre favoravelmente: somos valentes (face aos cobardes), inteligentes (relativamente aos estúpidos), etc.
Não somos diferentes dos outros. Na mesma ordem de ideias, também os ingleses protestantes dizem coisas semelhantes relativamente (1) aos irlandeses católicos, (2) aos holandeses que em tempos antigos foram os seus grandes rivais, e (3) aos espanhóis, católicos, que contra eles lançaram a chamada "Armada Invencível", que acabou rapidamente destroçada. Assim também os franceses ridicularizam os belgas e, sobre os alemães, contam anedotas que os ridicularizam; os austríacos fazem o mesmo perante os germanos, assim como os católicos do ocidente europeu perante os comunistas do leste da Europa. A definição faz-se por contraste, subjectivamente vistos por um lado e pelo outro.
Nota-se aliás em Portugal esse mesmo efeito contrastante: o Norte vê-se como trabalhador e recrimina o Sul por ser gastador; o Alentejo entrou há umas décadas na berlinda por ter sido um bastião comunista num país católico.
Dentro da mesma linha e regressando ao plano individual, encontramos a má-língua. Uma mesa de café à volta da qual uns tantos amigos se reúnem regularmente congrega na generalidade pessoas com características afins e que comungam de ideias não muito dessemelhantes. Uma vez criada a sua identificação, trocam anedotas, piadas e farpas de toda a ordem em que o alvo é o adversário mais declarado e eventualmente o mais perigoso. Com isso, os confrades da távola saem da sua reunião bem dispostos: os ataques verbais ao inimigo serviram para alimentar as esperanças de melhores dias e para exaltar o ego de cada um.
Como é exaltado o ego? Facilmente: quem critica imagina-se sempre superior ao criticado, mais inteligente e sábio do que ele. Na crítica existe geralmente este elemento importante que traz felicidade ao crítico – ele sabe apontar os erros, o criticado não-presente só sabe cometer erros. Embora o crítico possivelmente sofra ou tenha medo de vir a sofrer com os "erros" do criticado, esse sofrimento fica compensado pela crítica mais ou menos feroz que ele faz. E se for secundado por amigos, tanto melhor: fica com testemunhas da sua superioridade.
Quando existe um problema colectivo, na medida em que o grupo tem muitas caras, a solução mais frequentemente encontrada para a crítica é arranjar um bode expiatório. A Santa Wikipédia informa-nos que em tempos antigos o bode expiatório era um animal que era apartado do rebanho e deixado só na natureza selvagem como parte das cerimónias hebraicas do Yom Kippur, o Dia da Expiação. Este rito é descrito no Levítico, capítulo 16. Daqui se passou rapidamente para uma técnica comportamental: se alguém lançar anátemas demonizando um indivíduo (ou um grupo de indivíduos), acusando-o de ser responsável por um problema real ou forjado, a existência desse indivíduo pode evitar que se fale dos verdadeiros responsáveis e assim impedir que o problema seja aprofundado.
Vamos tomar dois casos concretos e muito semelhantes, ocorridos no presente Campeonato do Mundo de Futebol. Tanto a selecção de Portugal como a do Brasil foram eliminadas antes das meias-finais. Acha-se geralmente que seria difícil criticar as equipas no seu todo; e acha-se geralmente que seria injusto. Por outro lado, a dor pela eliminação é grande. Reconhecer o valor das equipas que eliminaram Portugal e o Brasil seria em princípio objectivamente correcto, mas essa é a justiça que não se pretende, porque se a nação estrangeira é superior, nós passamos automaticamente a inferiores. Ora, quem faz a crítica não pretende ir para esse lado, porque ele próprio, englobado na selecção perdedora, ficaria também perdedor. Então, para evitar essa inconveniente objectividade, ele procura um bode expiatório. As soluções são sempre várias, mas as mais comuns andam geralmente à volta das seguintes, que podem ser usadas cumulativamente: 1. O árbitro (que favoreceu claramente a equipa contrária). 2. O treinador (que "desde o princípio eu disse que não era homem para aquilo"). 3. O lateral esquerdo e o avançado-centro (que nunca deveriam sequer ter sido seleccionados, "temos muito melhores do que eles"). 4. O azar ("Se aquela primeira bola tivesse entrado, o jogo teria sido completamente diferente e teríamos com certeza ganho").
É assim a nossa natureza. Ficamos sempre com a nossa honra salva. Não fomos objectivos, mas também porque deveríamos ser? Se nós não somos objectos mas sim sujeitos, não será natural que sejamos subjectivos?

Nota: O texto está algo confuso, mas fiquei sem tempo para o melhorar. As minhas desculpas. Entretanto, até dia 11 estarei fora de jogo relativamente ao blogue. Espero que os restantes bloguistas do A-Z dêem o seu contributo, como noutras ocasiões tem sucedido.

6/29/2010

Dom João II não está só



Posso estar muito enganado nesta minha congeminação. E, admito, não seria naturalmente a primeira vez que isso sucederia. Contudo, se neste momento não estivesse convencido do que penso, não traria o assunto aqui para o blogue; com fotografias e tudo, para que outros se possam pronunciar também. A transparência é assim.

Quando a estação do metropolitano da Alameda foi construída, foram feitas escavações bastante profundas para permitir a coexistência de duas linhas a níveis diferentes: a Linha Vermelha, até à Expo98 (altura em que foi inaugurada) e a Linha Verde do Cais do Sodré ao Campo Grande, já existente. O planeamento foi impecável, a encomenda aos artistas para a decoração final também. Salvo erro, um ou dois meses antes da inauguração da Exposição Mundial de 1998 já estava tudo pronto. As estações da nova Linha Vermelha surgiram magníficas, com a colaboração de artistas portugueses e estrangeiros. Adorei a das Olaias, concebida pelo arquitecto Taveira na sua decoração, com um notável espaço muito amplo e muito colorido, colunas que sobressaíam pelas suas dimensões, e azulejos. A Estação da Bela Vista, com azulejos da autoria de Querubim Lapa, estava um espanto. Chelas e Olivais não destoavam, a estação de Cabo Ruivo talvez tivesse um pouco menos de cor, mas se isso sucedia era apenas porque se queria realçar sobretudo a Estação do Oriente.

Sendo o tema da EXPO98 Os Oceanos, não admirou que as composições retratassem temas ligados ao mar e às descobertas. Na então estação inicial da Linha Vermelha – a da Alameda - a decoração foi entregue a Costa Pinheiro, um notável artista português que tem passado muito da sua carreira artística no estrangeiro, nomeadamente na Alemanha. Como artista, Costa Pinheiro executou na sua carreira pessoal, para além de notabilíssimos retratos dos vários heterónimos de Fernando Pessoa, uma série que considero excepcional - Os Reis -, onde retrata figuras bem conhecidas da História de Portugal. Para a decoração desta estação, Costa Pinheiro deveria apresentar, conjuntamente com instrumentos de navegação usados nos séculos XV e XVI, retratos de figuras proeminentes da saga dos descobrimentos portugueses. Como seria de esperar, lá estão representados o Infante D. Henrique, Fernão de Magalhães, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e o monarca que concebeu muito do plano da expansão marítima: Dom João II.

Ora é a representação deste rei Dom João II que me surge algo estranha. Olhando para o retrato de Dom João II segundo Costa Pinheiro, não me custa entrever uma segunda personagem. E, embora para isso eu pudesse e devesse fazer uma pergunta directa de esclarecimento ao pintor de Os Reis, avanço com uma suposição que me parece ter fortes possibilidades de ser correcta: a figura de Dom João II, um grande rei, está apresentada juntamente com a de um outro personagem do mundo actual que, exactamente junto à Fonte Luminosa, na Alameda em que a estação se situa, foi o grande líder de uma manifestação decisiva em 1975 contra o partido comunista, o qual, após o 25 de Abril, tinha tomado as rédeas do poder e controlava a maioria dos meios de comunicação social. A minha "tese" é a de que o retrato de Dom João II não representa uma única homenagem ao rei, mas também ao rei da liberdade proclamada bem alto ali na Alameda - alguém que, tal como D. João II, tinha tomado uma acção crucial para dar rumo à nau que é Portugal (e o mar estava bastante encapelado). Esse nome, para os que já não se recordem do acontecimento, é o de Mário Soares. Olhando para o retrato no azulejo é notória a parecença de um dos lados da figura representada com o antigo Primeiro-Ministro e Presidente Mário Soares, com as suas características bochechas plenas de bonomia. Os olhos da figura, se se reparar bem, são representados por duas pombas, símbolos de paz e liberdade. Toda a figura é dupla nos cambiantes de cor, mais escura na parte do rei (barbado) já há muito falecido, e mais clara para a outra alegada personagem. Terei razão?

Na próxima vez que passarem na estação da Alameda, dêem uma mirada mais atenta às personagens que Costa Pinheiro pintou em 1997. Esta a que particularmente me refiro está situada junto às portas de controlo automático de bilhetes que dão para as escadas junto à sucursal do Banco Millennium, na Alameda Afonso Henriques. Acho que vale a pena dar uma saltada até lá.

6/27/2010

No dia em que o Gana derrotou os Estados Unidos


(A foto é retirada de uma reportagem da BBC News.) Foi ontem. A alegria nas ruas de Acra, capital do Gana, foi indescritível. Porquê? Porque a selecção nacional ganesa bateu a equipa dos Estados Unidos e entrou nos quartos-de-final do campeonato do mundo de futebol que está a decorrer na África do Sul. É agora a única nação africana ainda a competir. Será que uma vitória destas merecia tanta celebração? Simbolicamente, acho que sim.

A história do Gana é, como toda a história de África, muito antiga, mas infelizmente só se começa a saber algo com um pouco mais de detalhe após os primeiros contactos com os europeus. No caso do Gana, esses primeiros europeus foram os portugueses. Em 1470 (22 anos antes de Colombo chegar à América). As explorações marítimas portuguesas interessavam-se por várias coisas, nomeadamente matérias-primas (as commodities de hoje) e escravos. Foram dividindo a costa ocidental de África segundo esse critério. Após a Costa dos Cereais, delimitaram uma Costa do Marfim, passaram para uma Costa do Ouro e terminaram esta série com a Costa dos Escravos. De todas, apenas se mantém com o mesmo nome a Costa do Marfim. A Costa dos Escravos é a actual Nigéria, cuja capital é Lagos, nome da cidade portuguesa onde desembarcavam os escravos africanos para serem vendidos. Quanto à Costa do Ouro, actual Gana, ela tinha um interesse especial, na medida em que o ouro é sempre moeda de troca para tudo. Os portugueses interferiram nessa altura no habitual fornecimento de ouro para a Europa, comerciando-o com os reis do Gana e desviando-o assim para a sua rota das Índias. (Uma curiosidade: devido à consequente escassez de ouro, ocorreu na Europa uma exploração maior de um metal alternativo: a prata. Da prata extraída da Boémia, hoje República Checa, nasceu o Thaler, que com a enorme emigração da Europa Central para a América veio a transformar-se no dólar.)
No Gana os portugueses fundaram uma feitoria: S. Jorge da Mina. No entanto, o ouro chama muita gente, e pelo Gana passaram ao longo dos séculos vários outros povos, que dominaram várias partes daquelas costas: suecos, dinamarqueses, holandeses, alemães e, como não podia deixar de ser, ingleses.
Finalmente, há 53 anos o Gana tornou-se um país independente. Da proclamação da independência saiu uma célebre frase: "É melhor sermos independentes e governarmo-nos sozinhos, bem ou mal, do que sermos governados por outros."(O dito popular diz mais ou menos o mesmo de outra forma: "Mais vale ser cabeça de rato que cauda de leão.") Uns tempos após a independência, foi publicada no Gana uma listagem de ordens honoríficas. De entre estas, a mais importante deu brado: a Real Ordem do Mosquito. Porquê? Porque se não fosse o mosquito, possivelmente ainda hoje seriam os brancos que estariam a dominar o Gana.
Presentemente, o Gana possui uma economia relativamente fraca, baseada nos seus recursos naturais, nomeadamente o ouro, que se mantém, embora em menor escala, madeira e cacau. O país possui também algum petróleo e diamantes.
No palco do mundo, com o jogo a ser transmitido para todo o globo por inúmeras cadeias de televisão, a vitória em futebol sobre os Estados Unidos – símbolo do ocidente colonizador que ocupa ambos os lados do Atlântico Norte – fez o Gana rejubilar. As sucessivas humilhações começam a ser engolidas pelo Ocidente.
No seu interessantíssimo livro Ébano, Kapuscinski faz notar uma realidade que eu próprio ainda parcialmente testemunhei em África: "A diferença de raça e de cor da pele foi o tema central, a raiz das relações entre europeus e africanos na época colonial. O branco era o senhor incontestável enviado por Deus para dominar sobre os negros. Aos africanos era dito que o branco era intocável e invencível. Era esta a ideologia que o sistema colonial defendia, na qual se baseava a convicção de que não fazia qualquer sentido pôr em causa o sistema ou revoltar-se contra ele."
Compreende-se agora talvez melhor a razão do nome dado à selecção do Gana – os Black Stars – e o orgulho e alegria que os jogadores e toda a população sentiram por esta vitória.

Três breves citações da Escrita de Referência

A primeira citação é sobre o item Castidade: "Senhor, dai-me a virtude da castidade e da continência. Mas ainda não!" O autor? Santo Agostinho, quando jovem.

A segunda é sobre dinheiro. Autoria de Sacha Guitry: Quando alguém diz que o dinheiro não traz felicidade, está com certeza a referir-se ao dinheiro dos outros."

A terceira e última é dos anarquistas. Foi muito popular em Portugal na segunda metade dos anos 70: "Putas ao poder, que os filhos já lá estão!"