7/29/2010

Tréguas



Pela minha parte, o azweblog vai dar umas tréguas aos seus leitores, em princípio até aos finais do mês de Agosto. Espero, naturalmente, que os meus companheiros mantenham a sua escrita, sendo certo que o João Miguel já cumpriu a sua missão com uma edição XXL das suas habituais Sugestões.

A todos, votos de um bom mês, seja ele de um bem merecido descanso ou de trabalho necessário e inadiável.

Até já!

7/23/2010

Qualidade e felicidade

Tal como decerto muitas outras pessoas, associo frequentemente qualidade a felicidade. Suponho que o faço devido a factores que me parecem comuns.
A qualidade não depende apenas de um produto ou de um serviço. Ela está muito dependente do juízo que o seu utilizador faz. Posso eu próprio considerar de qualidade um automóvel Volkswagen que comprei; porém, é inegável que para determinadas pessoas abastadas um Volkswagen não possui qualidade suficiente. Qualidade para elas será a de um Ferrari ou de um Rolls-Royce, com uma série de requisitos que o VW em questão não oferece. O limiar das expectativas e consequente satisfação das pessoas condiciona muito a sua noção de qualidade. A um limiar baixo corresponde, naturalmente, um produto ou um serviço de qualidade absoluta menos elevada. Assim é que para muitos indivíduos um hotel de duas estrelas, bem localizado, asseado, com quartos aprazíveis, um bom pequeno-almoço e preços razoáveis, preenche os requisitos de qualidade. Haverá outros indivíduos para quem mesmo um hotel de cinco estrelas poderá não possuir qualidade suficiente, por uma razão ou por outra.
Daqui se concluirá, de maneira sintética mas não muito distante da realidade, que a qualidade de um produto ou serviço está directamente relacionada com a expectativa da pessoa que o adquire ou utiliza.
Ora, suponho que com o conceito de felicidade se passa algo muito semelhante. (Gostaria de acentuar que considero a felicidade o objectivo mais importante da vida do homem, seja essa felicidade atingida em momentos mais ou menos fugidios, seja em períodos mais prolongados, daqueles que são imensamente gratificantes quando a memória no-los traz em retrospectiva.) Tal como a qualidade, a felicidade depende do indivíduo. Quem está invariavelmente insatisfeito não pode, em meu entender, ser uma pessoa feliz. Uma das razões é porque, muito possivelmente, conjuga a felicidade mais com o "ter" do que com o "ser". A insatisfação depende do limiar de expectativas. Concordo quando se diz que a verdadeira felicidade consiste em apreciar o que temos e não em sentirmo-nos mal por aquilo que não temos. Ou, se se pretender numa variante, a felicidade não depende daquilo que nos falta mas sim do bom uso que fazemos daquilo que possuímos.
Existe uma enorme tendência para medir a inteligência de uma pessoa pelo dinheiro que ela consegue fazer. Inteligente será quem consegue fazer muito dinheiro. A raiz do mal residirá no facto de se insistir demasiado que é no êxito da competição que está a principal fonte da felicidade. O êxito pode ser um dos vários elementos da felicidade, mas o seu preço será demasiado elevado se a ele se sacrificarem todos os outros elementos.
Uma vez, ao ler um jornal parei para ler melhor a frase de alguém que tinha escrito uma carta à redacção. Dizia basicamente isto: "Basta ser feliz. Não é necessário ser mais feliz do que os outros." Considero esta uma observação pertinente. Numa sociedade de keeping up with the Joneses, em que se pretende competir com todos para ser o melhor – receita tremendamente eficaz para o envenenamento da alma – é um erro pretender verificar se se é mais ou menos feliz do que os outros. É uma inadvertida (ou consciente?) auto-flagelação.
Fernando Pessoa perguntava "Porque é que, para ser feliz, é preciso não sabê-lo?". Acho que a resposta é sensivelmente coincidente com o facto de, quando fazemos um esforço para nos mantermos alerta a fim de detectarmos o exacto momento em que vamos cair no sono, não conseguirmos adormecer.
No seu Elogio da Loucura, Erasmo sugere que quanto maior for a sabedoria, menos feliz será a vida. Pessoalmente, atrevo-me a considerar que embora a felicidade possa eventualmente ser menos prolongada e mais intervalada para o sábio do que para o ignorante, quando ela surge é muito mais profunda, além de mais conscientemente percebida.

7/21/2010

Meia-dúzia de citações

Estas são seis citações muito breves. A primeira é de Mencken, que morreu em meados do século passado. As duas seguintes são do antigo primeiro-ministro britânico Winston Churchill. O francês Clemenceau assina a quarta. A seguinte é de Amos B. Alcott, que viveu quase todo o século XIX. Da última citação lamento desconhecer a autoria, mas creio que todas elas valem a pena ser referidas aqui.

- Um político de coração puro é algo tão inconcebível como um ladrão honesto.

- Um bom político é aquele que é capaz de prever o futuro e que, depois, é igualmente capaz de explicar por que motivo as coisas não se passaram exactamente como ele tinha previsto.

- A política é mais perigosa do que a guerra. Na guerra, não podemos morrer senão uma vez. Na política, várias.

- A honra é como a virgindade: perdida uma vez, perdida para sempre.

- Ignorar a própria ignorância é a doença do ignorante.

- Um criativo ignorante no poder é a mistura mais explosiva que pode existir.

7/16/2010

Uma questão de género

Por vezes, o facto de um animal, um objecto ou um conceito serem expressos noutro idioma por uma palavra diferente da que usamos na nossa língua impressiona-nos menos do que se o género do vocábulo não for igual ao nosso. Isto quer dizer que a um masculino português nem sempre corresponde um masculino na língua estrangeira que estamos a usar, ou que um feminino nosso pode não ter o seu equivalente num outro feminino.
A este propósito, não posso deixar de me lembrar da atrapalhação e enorme embaraço que há anos vi numa amiga minha quando se deu conta de que numa edição oficial e dispendiosa de um livro em espanhol, da qual era responsável, tinha inadvertidamente colocado como título na bonita capa El mar em vez de La mar. Sucede...
Num caso sem qualquer relevância material como o da história acima, aconteceu comigo estar uma vez com uma amiga alemã num comboio entre Barcelona e Madrid. No compartimento da carruagem em que íamos seguiam praticamente só espanhóis. Entre nós falávamos alemão. A certa altura, ela, que ia para Madrid passar uns meses a aprender espanhol, começou de brincadeira a pedir-me a tradução de coisas que íamos vendo do comboio. Conforme sabia, eu ia traduzindo a resposta para um espanhol que nunca aprendi a não ser em canções, filmes, livros e revistas de banda desenhada. Os espanhóis à nossa volta acompanhavam o jogo com acenos aprovativos de cabeça quando eu dizia un coche para "automóvel", una carretera para "estrada" e coisas do género. Até que surgiu uma ponte. Aí, a minha amiga perguntou-me como se dizia. Puente, disse-lhe eu. Un puente?, perguntou-me ela. Não, disse-lhe eu, una puente! Ergueram-se os espanhóis do banco em frente e exclamaram em uníssono: un puente! Rimo-nos todos, claro. Eu acabava de fazer o erro que, muitos anos mais tarde, a minha outra amiga haveria de cometer com a palavra "mar".
Porquê? Porque a associação que na língua materna geralmente se faz entre um objecto e o género feminino ou masculino parece-nos fazer parte integrante desse mesmo objecto. Mudar essa característica arrepia-nos. Imaginemos der Mond e die Sonne, na língua alemã, que são respectivamente "a lua" e "o sol". Como em alemão der é o artigo definido masculino e die o feminino, verificamos que existe uma absoluta inversão relativamente à nossa maneira de pensar. Passando a lua a ser masculina e o sol a ser feminino, os conceitos que isso gera no nosso cérebro são totalmente diferentes.
Quando, em francês, o dente que nos dói passa a ser feminino (la dent), à dor de dentes acrescentamos uma dor de cabeça. Viajando a uns anos atrás, recordo que na preparação de alunos para guias-intérpretes numa escola em que leccionei, notava muitas vezes uma certa complacente impaciência por parte da minha colega de Francês quando, a propósito dos coches do Museu de Belém, os alunos diziam la carosse. Ao longo dos anos, ouvi-a vezes sem conta corrigi-los para le carosse. Nada de mais natural, porém. Forçar um português a aprender que um coche se traduz pela palavra que para nós é associada a carroça já não é fácil: um é da corte, o outro da província. Fazer depois com que o aluno português ainda por cima tenha que mudar o género da palavra...! Embora a verdade seja que tudo acaba por evoluir posteriormente para uma questão de automatismo, não há dúvida de que de início a coisa não é exactamente simples.
Tomemos a palavra "cor". Está-se mesmo a ver que é feminina: "as cores". Que outra coisa poderia ser? "Os cores" não faria qualquer sentido. Contudo, em espanhol é mesmo assim: los colores. Fácil de assimilar? Não.
Os próprios portugueses confundem frequentemente o género de algumas palavras no seu idioma. Tomemos como exemplo o substantivo "moral". Deveremos dizer "a moral" ou "o moral"? São duas coisas diferentes. "O moral" é o ânimo (v.g. levantar o moral), a moral é um conjunto de leis convencionado como de boa conduta (v.g. a moral cristã). Porém, quantas vezes não ouvimos dizer que "é preciso levantar a moral dos portugueses"? Talvez, inadvertidamente, com razão.
Imaginar que a cegonha, a tal que tradicionalmente nos traz os bebés, pode passar a ser uma ave masculina representa uma certa complicação. Os bebés vêm da mãe, logo se é a cegonha a trazê-los será um aparente contra-senso falar em "o cegonho". Contudo, é assim mesmo em alemão. Der Storch é visto mais como o elemento fertilizador do par. O seu grande bico simboliza o órgão sexual masculino. É todo o ponto de vista que é alterado.
Esta é uma das muitas razões por que aprender línguas estrangeiras significa conseguir olhar uma significativa parte do mundo de outra forma. Transferimo-nos para uma varanda bem diferente da nossa. Obtemos novas perspectivas. Alargamos a nossa formação.
A conversa poderia prolongar-se por muitas páginas, o que acabaria por não fazer muito sentido num texto ligeiro como este. Terminemos com o nome de mais um animal que, em inglês, é por natureza masculino: fox. A raposa. Imaginar que, em vez da matreirice e astúcia da raposa encontramos afinal um raposo manhoso não dá para contar as habituais histórias infantis da raposa e do lobo, em que ele tem mais força e ela mais manha... e é ela que acaba por vencer. De visões de homem e mulher passamos de repente a dois machos. Que graça tem isso? Contudo, são estes choques culturais, tão frequentes como tantas outras coisas que vemos e que nos impressionam quando viajamos e contactamos sociedades diferentes que nos fazem desdogmatizar as nossas ideias, relativizar o mundo, sair do nosso casulo pequeno e entender melhor a universalidade da nossa existência. Tudo junto representa um enorme enriquecimento.

7/13/2010

A saga da economia e da finança continua



Depois de ter passado os olhos por dois artigos sobre o euro em revistas americanas, de ter lido um pequeno artigo da BBC News sobre o défice da balança comercial dos Estados Unidos e ainda uma notícia sobre o sistema bancário europeu no Público de hoje, decidi dar um salto até ao Parque das Nações, que fica a dez minutos de Metro da minha casa. Necessitava de desanuviar, aclarar ideias e, ao mesmo tempo, gozar de um fim-de-tarde ameno e sempre bonito à beira-rio. Olhando para aquele conjunto imponente de edifícios, alguns de muito boa arquitectura, tive que me indagar: será que todo este núcleo foi construído à custa de crédito bancário? E, se sim, será que os bancos portugueses tiveram que contrair empréstimos no estrangeiro para obter o capital de que necessitaram?
A pergunta é apenas simbólica. Nem o Parque das Nações representa o país, nem são aqueles hotéis e empresas que estão em questão. Mas a razão da pergunta sim.
Está presentemente em curso uma análise detalhada de bancos representativos de toda a zona euro. A análise (stress tests), igual para unidades bancárias da Alemanha, Espanha, Bélgica, Portugal e os restantes países da moeda única, pretende verificar qual é a real situação da banca europeia. Processo semelhante foi conduzido nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha já em 2008, i.e. há dois anos. Daí resultou um saneamento importante. Por que motivo se atrasou tanto a Europa nesta análise de conjunto? Basicamente, ao que suponho, porque a União Europeia não é um país, mas sim um grupo de países. Que muitas vezes se degladiam. Na falta de instituições políticas que sejam suficientemente fortes para impor uma medida deste estilo, só o agravamento da situação económica europeia nalgumas nações levou o BCE a decidir-se de uma vez por todas. Outras medidas se seguirão, possivelmente.
Segundo os americanos, que naturalmente nunca viram o aparecimento do euro-concorrente-do-dólar com bons olhos, o segredo que a Europa tem mantido guardado é que o seu sector bancário está mais doente do que a própria Wall Street. Os bancos da Europa terão sido tão agressivos quanto os americanos no jogo com "produtos tóxicos". No seu conjunto, os bancos europeus canalizaram 2,5 triliões (!) de dólares para as cinco economias mais periclitantes da EU: a Grécia, a Irlanda, a Bélgica, Portugal e a Espanha. Mesmo depois do desencadear da crise, em 2008, os bancos franceses aumentaram os seus empréstimos à Grécia em 23 por cento, 11 por cento à Espanha e 26 por cento a Portugal!
Os Estados Unidos estão preocupados com o desenvolvimento da economia europeia por uma razão básica: a estratégia de recuperação elaborada por Obama baseia-se na duplicação do volume de exportações americanas até 2015. Ora, se não houver uma Europa fortemente compradora – como está a acontecer actualmente – os EUA não conseguirão de forma nenhuma atingir esse objectivo. Lembremo-nos que o Plano Marshall do pós-2ª Guerra Mundial teve como objectivo principal a recuperação económica da Europa após o conflito... para que a América pudesse escoar os seus produtos.
Por outro lado, a crise europeia tem feito baixar a cotação do euro relativamente ao dólar, o que não só torna os produtos europeus mais competitivos, como ainda sobe o preço das exportações americanas, o que naturalmente dificulta as suas vendas.
O desemprego que assola alguns países europeus, nomeadamente a taxa de 20 por cento da Espanha e de 11 por cento de Portugal, é um problema gravíssimo. A aposta na construção imobiliária destes dois países e de outros, como a Irlanda, revelou-se imprudente. Graças a um juro baixíssimo, idêntico ao da Alemanha na medida em que estavam todas as nações na zona euro, os vultosos empréstimos contraídos por vários países sucederam-se. O resultado foi um aumento pouco cauteloso da dívida. Enquanto a Alemanha dispõe hoje de um saldo positivo gigante na sua conta corrente exportação-importação, países como a Espanha afundaram-se. Presentemente existem 800 mil casas em Espanha que não se venderam, o que deixou empresas e bancos a debater-se com enormes prejuízos. Entretanto, a falta de coesão da União é visível no facto de a Alemanha manter uma política económica de crescimento através das exportações e não através do desenvolvimento da economia interna. Deste modo, a Alemanha acaba por não ser o motor de que a União Europeia necessitava. Olha por si, e basicamente por si. Parcialmente tem razão: se a população fez sacrifícios e poupou, não estão agora dispostos a dar o produto dessa política a nações que foram mais cigarras do que formigas. Por outro lado, estão a actuar unilateralmente: por exemplo, ao contribuírem com empréstimos para a Grécia, acabam por ganhar dinheiro devido à sua taxa de risco ser menor. Igualmente com a venda de submarinos à Grécia e a Portugal, cuidaram mais das suas exportações do que da situação financeira dos países compradores, que são seus parceiros na União.
Em matéria de dívidas, é um facto que praticamente todos os países possuem dívidas consideráveis. Comparando com o seu Produto Interno Bruto (PIB), a percentagem da dívida grega é de 139 por cento! A da Itália vem logo a seguir (135 por cento)! São números incríveis, que mostram um enorme descalabro. Portugal está noutro escalão mais abaixo, mas também muito elevado: 99%, tal como a França. A Irlanda chegou aos 93% e a Grã-Bretanha aos 91 por cento. A Espanha está, neste aspecto, bastante melhor, "apenas" com 78 por cento. Quanto aos Estados Unidos, possuem também uma dívida muito alta: 95 por cento!
Conseguirão os países europeus e a América recuperar deste notório desequilíbrio? Essa é a grande questão. Será preciso fazer da União Europeia um bloco mais federado e menos nacional? Como resolver a questão do desemprego? Como impedir lutas sociais entre os privilegiados mais velhos e os trabalhadores precários mais jovens e menos protegidos? É importante que estejamos atentos às notícias.
A propósito, uma notícia de hoje diz-nos que o saldo negativo da balança comercial americana atingiu o valor mais elevado do último ano e meio. E o deficit nas trocas comerciais com a China chegou aos 22 biliões de dólares! Um dos grandes culpados da situação, segundo os americanos, é a subvalorização da moeda chinesa. No fundo, o grande problema para a América é que já não é ela que dita todas as leis, como antigamente. A estratégia de fixação de preços à escala mundial de commodities como o café, o cacau, o petróleo, o zinco, o cobre, etc., que os Estados Unidos usaram durante muitas décadas e que frequentemente estrangulava as finanças dos países produtores já fortemente endividados perante os EUA, acaba por ter efeitos semelhantes ao que a China faz agora com a não-valorização do seu yuan. A vida é assim: quem pode dita leis; quem não pode, amocha.