Há verdades que estão fora do seu tempo e que, por essa razão, não pegam. A este propósito, lembro-me do filme "O homem que matou Liberty Valance". No argumento do filme há um jornalista que pretende saber da boca de um senador que nasceu na terra em que o filme decorre o que se passou para fazer dele um herói. Ele conta-lhe, e do seu relato verídico resulta uma verdade diferente da história que habitualmente se ouve. No final, o jornalista decide não narrar no seu jornal a verdade que acabou de ouvir e prosseguir com o mito: "This is the West, Sir. When the legend becomes fact, print the legend." Por outras palavras, quando o mito é mais interessante do que a realidade, é ele que acaba por prevalecer.
Porquê?
Na minha carreira pessoal de professor, recordo-me sempre do que se passava com os meus alunos, todos maiores de idade e na generalidade educados em famílias tradicionais e respeitadoras dos valores da Pátria. Quando eu lhes dava versões da História de Portugal algo diferentes das convencionais, não me chamavam mentiroso, mas desconfiavam do meu patriotismo, que para muitos era uma importante pedra de toque.
Ora, entre a visão patriótica, deliberadamente manipuladora de alguns factos, e a verdade documentada e objectiva pode existir um enorme abismo. O patriotismo torna-se, a certa altura, como um acto de fé, que não se explica racionalmente mas no qual se acredita piamente. E se a visão patriótica nos torna felizes, enquanto que uma outra, possivelmente mais verídica, nos esfria a alma, tem de compreender-se que a natureza humana, tão recheada de amor-próprio e adulante de si mesma, mantenha a primeira e despreze ou deliberadamente ignore a segunda.
É claro que tudo isto tem o seu tempo. Uma visão patriótica constrói-se frequentemente através de uma memória que tanto serve para recordar como para esquecer. Ao ocultar determinados aspectos mais indecorosos para as nossas cores e ao realçar outros que nos são claramente favoráveis, a visão patriótica faz-nos sentir orgulhosos dos nossos antepassados e de pertencermos à mesma pátria daqueles que tanto se distinguiram. Indirectamente, deles possuiremos uma costela, que poderá a qualquer momento ser accionada.
Destruir esta óptica causa uma natural perturbação em quem a possui e provoca uma inclinação para destruir aquele que se apresenta como mensageiro de uma outra verdade. Este é um dos motivos pelos quais as novas verdades só vingam quando à sua volta existe o ambiente próprio para elas vingarem.
Relativamente a este assunto, vem-me quase sempre à mente um cidadão idoso e até simpático e afável que uma vez me interpelou após uma comunicação que apresentei num simpósio. Entre outras coisas que não foram minimamente contestadas, considerei como relevante na educação dos príncipes da denominada Ínclita Geração a influência da educação inglesa, fornecida por tutores da realeza de Inglaterra, especialmente vindos a Portugal a convite da Rainha, que era inglesa de nascimento (Filipa de Lencastre). Dessa educação, que terá permeado os infantes de ideias inovadoras em termos de horizontes e de ambição relativamente à tradicional cultura portuguesa, teria resultado o brilhantismo dessa geração (Infante D. Henrique, rei D. Duarte, Infante D. Pedro, D. Isabel de Borgonha, etc.). O cidadão idoso, que era um dos meus anfitriões, falou com voz de orgulho ferido. Atribuir uma parte importante das facetas dos príncipes ao lado materno, estrangeiro, parecia-lhe menos correcto. Por meu lado, eu tinha-me limitado a usar a voz da minha verdade, documentada. Aquele era um choque normal. Contudo, o meu ponto de vista não tinha, naquele contexto, qualquer possibilidade de vingar. Embora talvez tenha semeado algo diferente na mente de um outro espectador, decerto que a minha maior objectividade não contribuía para a felicidade da maioria.
Há verdades cuja aceitação ou rejeição dizem muito sobre a natureza da sociedade que as rejeita ou aceita. Na vida política do dia-a-dia, o contributo para a sua felicidade acaba por ser decisivo para numerosos eleitores. Estes tendem a perdoar eventuais faltas a um candidato que fez claramente obra mas de quem se diz que cometeu igualmente várias ilegalidades. Compreende-se: aquele candidato fez coisas que nos alegram. Contribuiu efectivamente para uma melhoria do concelho, da região, ou do país. Se esse candidato for condenado nos tribunais, isso significa apenas "mais uma condenação", o que não se traduz em algo de especialmente positivo para os eleitores. Estes sabem de muitas outras pessoas que, diz-se, cometeram vários actos ilegais e não foram minimamente punidos. É por isso que darmos o nosso voto ao candidato acusado é apostarmos na continuação do nosso bem-estar, que certamente preferimos ao acto eventual de uma justiça que, ela própria, está longe de ser justa para com todos.
No caso de Portugal, assim se entendem melhor as reeleições de Isaltino Morais e de Valentim Loureiro, por exemplo, de Alberto João Jardim e de José Sócrates. Porém, logo que a economia no local em que esse candidato vai a eleições comece a correr mal, com elevados níveis de desemprego, não se pode estranhar que, congruentemente, a sua faceta menos legal venha ao de cima e ele acabe por perder a reeleição. É a vida.
Dizia o candidato brasileiro Tiririca que o Brasil consigo "pior também não fica". É essa a tónica certa num país que tem atravessado um bom momento nestes últimos anos. Já não seria correcta se o país se estivesse a afundar, em vez de, felizmente, encontrar cada vez mais petróleo nos fundos da sua costa.
Ficam também claras, creio eu, pelo menos duas coisas: 1. Quem sabe por que razão vota num determinado candidato é o eleitor local e não as pessoas que vivem noutros lugares, inclusivamente no estrangeiro. Quando George W. Bush foi reeleito pelos americanos, a Europa perguntou-se por que motivo estariam os Estados Unidos a cometer tamanho erro. Muitos americanos, no entanto, que andavam a ser verdadeiramente manipulados e intoxicados por vários meios de comunicação, não tiveram dúvidas. Além disso, na altura da eleição havia apenas ameaças de má evolução da economia, e o 11 de Setembro ajudava o Presidente. Na mesma linha, também sempre que Alberto João Jardim é reeleito na Madeira, os portugueses do Continente perguntam-se: porquê? Os eleitores locais sabem-no melhor do que quem lá não vive. 2. Nem o Brasil nem Portugal são países muito rigorosos quanto aos valores que defendem. De verdadeiro puritanismo religioso há aqui muito pouco. "Deus disse-nos para sermos bons, mas não para sermos parvos" é o princípio geralmente seguido.
10/06/2010
10/02/2010
Turista em Lisboa
.jpg)
.jpg)
.jpg)
Para atirar para trás das costas conversas sobre a crise e as politiquices do costume, vesti este fim-de-semana a pele de turista na (minha) cidade de Lisboa. O tempo continua magnífico e esta luminosidade, embora frequente entre nós, está longe de ser comum por essa Europa fora. Nos finais de Setembro e durante grande parte do mês de Outubro, Lisboa e o seu casario costumam adquirir uns tons especiais, que são uma maravilha para os olhos. Para todos os olhos que param para a admirar.
Uma primeira impressão foi a de que Lisboa está cheia de turistas estrangeiros. Espanhóis são em grande número, mas também italianos, suecos, holandeses, suíços, franceses, ingleses. Com a presença dos muitos imigrantes que cá vivem e trabalham, o cosmopolitismo da cidade aumentou enormemente. Por vezes é preciso escutarmos com atenção para ver que língua as pessoas perto de nós estão a usar. Eu não diria que o português se tornou língua rara por estas paragens, mas chega a ser já saudada com alguma satisfação pela alma lusa que percorre as ruas, anda no metro, salta para o autocarro ou mesmo para o eléctrico. A propósito, se o eléctrico for o 15, que percorre a zona ribeirinha até Algés, eu diria que ao fim-de-semana cerca de 50 por cento dos passageiros são estrangeiros. E se for o 28, que começa nos Prazeres e dá a volta pela Baixa e sobe as encostas do Castelo, atrevo-me a dizer que a percentagem é ainda superior.
Isto de transportes na cidade não é pura conversa. Para sermos turistas lisboetas mais a sério, devemos deixar o carro estacionado algures e não pensar nele uma única vez. Os transportes da cidade são muito razoáveis. Não só as estações do Metropolitano são quase todas muito apelativas, como também tanto os autocarros como a maioria dos eléctricos possuem ar condicionado e assentos confortáveis. A rede do Metro é já suficientemente ampla para nos levar rapidamente a diversos sítios, onde poderemos tomar outro meio de transporte ou deambular pelas ruas.
Algo que se nota ultimamente no turismo estrangeiro de Lisboa é uma forte dose de juventude. Digamos que todas as idades estão, naturalmente, representadas, mas a camada jovem parece-me sobressair. Os voos low cost contribuem poderosamente para isso. Mas não admira que haja tantos jovens. Tal como se oferece, com a sua variada vida nocturna contrabalançada com calma e sossego durante o dia, a sua cor e os seus altos e baixos de onde tão depressa se vê o rio como temos que adivinhá-lo, Lisboa tem um encanto muito próprio. Para a juventude, é especialmente atraente deixar-se perder num bairro pitoresco, escadinhas abaixo ou acima, ainda com um certo cheiro à vida do antigamente. Os mais idosos não se aventuram por esses lados, que as pernas já lhes pesam e as bengalas não dão muito jeito num empedrado como o das calçadas de Alfama ou vielas da Mouraria. Para os mais jovens, porém, é toda uma descoberta. A baixa criminalidade da cidade ajuda. E os costumes portugueses no geral. Não é por coincidência nem devido a cunhas que Lisboa acabou de conquistar ontem pela segunda vez consecutiva o título de Melhor Destino para City Breaks na Europa, numa cerimónia que decorreu na Turquia. Entre outros destinos nomeados estavam Londres, Madrid, Paris, Praga, Roma, Veneza, Istambul, Oslo e Tallin.
Também no dia de ontem, depois de uma breve saltada ao meu bem conhecido Parque das Nações com um passeio à beira-rio, fui visitar uma das várias exposições que celebram o centenário da República. Fui ver a Viajar, para ter uma ideia mais concreta de como o turismo atravessou estes últimos cem anos, com especial incidência nos seus primórdios. Sem ser uma exposição excelente, dá alguma informação. Realce-se o facto de serem oferecidos tantos dados informativos num espaço bastante exíguo (nada que se compare com o da Cordoaria). No regresso, por ruas animadas, uma paragem para um repousado batido na esplanada da Suiça, do lado da Praça da Figueira, e uma meia-de-leite com torrada para quem estava comigo. A encosta de casas do lado do Castelo recebia todo o sol do fim-de-tarde. A cidade mais tradicional era mais uma vez a grande artista de strip-tease que sempre foi: só a pouco-e-pouco é que se vai despindo e revelando. Arrelia e atrai o turista que, para a conhecer melhor, tem de ir vê-la de perto, mergulhar nela. A cidade não facilita. É exigente.
Entretanto havia música no Rossio. Perto de minha casa já está igualmente montado um enorme palco para a noite de 4 para 5 de Outubro. Aliás, a cidade está cheia de música, desde as estações do Metro até à rua.
Hoje, sábado, foi um dia obviamente diferente, mas com novas cenas de cidade. O amigo autor das Sugestões que este blog regularmente inclui escreveu-me a falar de uma regata de canoas no Tejo. E ainda de um concerto dado em frente ao Museu de Marinha pela Banda da Armada. Não resisti. Com a tarde ensolarada e uma temperatura amena, foi um prazer dar um salto à zona de Belém, onde havia centenas e centenas de pessoas. Imensos estrangeiros também. O Tejo estava lindo. As canoas que participaram na regata não têm, infelizmente, muita cor, mas estão aparentemente bem conservadas e com isso ofereceram um espectáculo atraente, até porque no mesmo Tejo velejavam vários barquinhos mais pequenos, creio que da classe Optimist, a cirandar por ali e a rasar as canoas que competiam em festa amigável incluída nas comemorações do 5 de Outubro.
O clima era de festa, a juventude imperava, embora junto à Banda da Armada houvesse muitos cabelos brancos, de saudade. Não se falava de coisas que fossem menos alegres, gozava-se o momento. O contrário seria ofender o óptimo clima e todo o ambiente de que desfrutávamos. Não ouvi ninguém discutir, mas vi crianças a correr e a andar de bicicleta, casais jovens a passearem bebés nos seus carrinhos, e também um ou outro casal de mais idade sentado a gozar o sol.
Lisboa ficou bem na fotografia. Passou no teste com nota elevada. Amanhã há mais.
9/27/2010
O colchão

Hoje acabou por ser um dia especial para mim. Confesso que não esperava. Tínhamos combinado despejar o sótão de coisas que já não fizessem falta. Muitas vezes um sótão torna-se um mero depósito de antiguidades, objectos que já ninguém usa e que ultrapassaram completamente o seu prazo de validade funcional. Não são necessariamente peças de museu. Uma grafonola que já não trabalha, um velho televisor a preto-e-branco a que faltam alguns comandos mas mantém o seu écran impecável. Um carrinho de bebé já com alguma ferrugem nas rodas que todavia mantém um estilo galante, embora certamente apenas para passear em desfiles de Donas Elviras especialmente organizados para carrinhos deste tipo. Algo utópico. Dois colchões de palha que seriam a primeira coisa a arder se por acaso o sótão pegasse fogo. Livros tão velhos e esfarrapados, com páginas amarelíssimas, das quais algumas rasgadas, que não despertariam o mínimo interesse de quem quer que fosse. Cabides de arame, que ficaram amontoados naquele sótão na vã esperança de que um dia poderiam voltar a ser úteis. Bem, no meio de tanta tralha houve ainda coisas que decidimos guardar: uma tenda de campismo completa e sacos-cama bem confortáveis. Um velho banjo que pertenceu ao meu sogro e ainda hoje toca. E mais umas tantas curiosidades.
Foi então que ele apareceu. O colchão. Este não era como os de palha, que esses já tinham sido levados escadas abaixo direitinhos para o lixo. Este era "o colchão". De borracha. E que memórias ele me suscitava! Tinha duas faces, uma vermelha, a outra azul. E uma elevação muito ergonómica do lado da cabeça. Insuflável, enchia-se em dois tempos: um para a parte do corpo propriamente dito, naturalmente maior; o outro para a cabeceira. Será que aquele meu velho amigo também iria para o lixo?
O que é que tem o colchão de especial, pai?, perguntou-me a Isabel. No meio daquela limpeza do sótão, ela não via qualquer motivo para conservar uma coisa que já ninguém iria usar, até porque tinha um remendo num dos lados. Lixo com ele, foi a sua proposta. A mãe concordou. Se vamos começar a deixar aqui coisas sem qualquer utilidade, acabamos por não arranjar o espaço de que precisamos. Era isso! Só a mim é que o colchão dizia qualquer coisa. E não era pouco. De repente, perpassaram-me pela cabeça cenas de um filme antigo em que o colchão era o protagonista número um. Objecto, sim, mas amigo. Inegavelmente.
Comprei-o em Luanda em Julho de 1961, no mesmo dia e na mesma loja em que
finalmente encontrei a cama de rede que já procurara noutros locais. Ainda hoje me lembro do nome dos armazéns: Quintas & Irmão (com a má-língua habitual dos portugueses, chamávamos-lhe Quintas & Ladrão devido aos preços algo elevados). Os produtos eram bons, no entanto. A cama de rede, algo por que ansiava ainda em Lisboa antes de partir para a guerra colonial – via-me em África mais a balouçar na rede entre duas árvores do que propriamente a disparar tiros – deu-me uma enorme alegria encontrar. E a cama serviu-me, de facto, embora menos vezes do que eu julgava. O colchão, devo dizê-lo, não era sequer o meu objectivo quando entrei na loja. Porém, como estava ali na mesma secção e eu via nele alguma eventual utilidade, levei-o também. Experimentei-o primeiro. Deitei-me sobre ele para ver se o meu metro e oitenta e três cabia lá dentro. Parecia feito à medida. Não hesitei.
Um colchão daqueles é, em princípio, para usar na praia. Em Luanda, com mar calmo, poderia utilizá-lo. E, se bem me lembro, cheguei a fazê-lo. O seu grande uso, contudo, foi nas diversas camas que ao longo de dois anos e meio de campanha me couberam em sorte. Ter um colchão daqueles, naturalmente revestido por um lençol, representava a garantia de um sono bem dormido. Fosse numa aldeia quase desconhecida da Quiçama, fosse na Muxima, no Cabo Ledo, em Quipedro ou no Lué, o colchão acompanhou-me sempre. No Cabo Ledo, com a sua magnífica praia, ele cumpriu várias vezes a sua dupla função de conforto para dormir e cama flutuante para vogar naquelas águas quentes sobre as pequeníssimas ondas da praia. A fotografia que aqui coloco é ainda a preto e branco, portanto não se vislumbra nem o lado azul nem o vermelho, mas as cores estão lá. Dois amigos meus também. E desta vez até estamos a posar no areal e não dentro de água.
O mais curioso daquele meu quase inseparável amigo é que quando eu tinha alguns dias de férias em Luanda, o colchão era disputado pelos meus colegas, que o aproveitavam para dormirem mais confortavelmente. Tinha uso diário, como se vê.
E agora, 50 anos passados, ali estava ele. Filha e mãe já tinham ditado a sentença: lixo. Tinham a sua razão. Entendi que eu próprio não voltaria a usá-lo. Quanto aos vindouros, nem pensar! Em pensamento, falei para ele em jeito de despedida: se para mais ninguém interessas, velho camarada, vou pelo menos dedicar-te umas linhas. Sentidas. Hão-de saber que desempenhaste bem o teu papel. Este é o meu adeus definitivo a um velho amigo, que aliás já estava há talvez três décadas sem qualquer uso, a descansar do seu esforço na guerra africana. Obrigado. Requiescat in pace!
9/23/2010
A moeda

Constata-se há largos meses que há invariavelmente pelo menos um jornal, diário ou semanário, ou um canal televisivo, que fala de buracos financeiros existentes no nosso país em termos de finanças públicas. Uns falam em milhões por dia de aumento da dívida, outros entram na escala dos milhares de milhões em dívida total, outros ainda comparam a dívida pública com o PIB e/ou com dívidas soberanas de outros países. As perguntas que andam por aí no meio da população são geralmente deste teor: Como é que deixaram chegar isto onde chegou? Por que razão não tomam medidas a sério?
As perguntas são mais do que naturais. Quem é que gosta de ver o barco em que viaja ir ao fundo?
Fundamentalmente, os números que saem cá para fora devem estar mais ou menos certos. As projecções é que dependem do maior ou menor optimismo dos governantes e, naturalmente, do seu receio de perderem o poder.
A dimensão do Estado aumentou muito em Portugal após o 25 de Abril de 1974, nele incluindo o chamado Estado-Providência. A segurança social universalizou-se em termos de saúde e de pensões de reforma. Houve um substancial aumento do número de funcionários públicos. Multiplicaram-se as escolas, com o consequente acréscimo de professores e funcionários.
É óbvio que anteriormente já existiam múltiplas instituições que olhavam pela saúde. Portugal possuía hospitais com o respectivo corpo médico e de enfermagem, tinha Misericórdias e Casas do Povo, mas estava muito longe de possuir uma estrutura como a do actual Serviço Nacional de Saúde. As pensões de reforma também existiam. Inicialmente criadas a pensar na subsistência dos mais pobres, com o tempo transformaram-se muito. Hoje há reformas com cifras impensáveis. Digamos, em termos de metáfora, que o Estado-Providência substituiu o antigo "Se Deus quiser". Tomou a figura de um Deus que desceu à Terra para trazer benefícios (na verdade, muitas vezes mais prometidos do que efectivamente concedidos). Nunca houve tanta gente em Portugal a falar da situação de reforma como agora. Assim como nunca houve tanta gente a poupar tão pouco; mais, a gastar antecipadamente o que não possuía: gente geralmente endividada perante a banca durante muitos e muitos anos com a finalidade de compra de casa-e-carro.
Terá sido por motivos eleitoralistas que vários executivos consentiram o aumento dos salários e, com eles, o acréscimo das futuras pensões de reforma? Em parte, sem dúvida que sim. Manifestações de rua, de interesse corporativo, sucederam-se durante largos anos e, na generalidade, lograram alcançar pelo menos parte dos seus intentos. Ora, os aumentos salariais adquiridos foram um pouco como as vagas levantadas por um cargueiro que passa ao largo da costa e causa ondas perto desta. Tiveram uma natural repercussão futura. Esse futuro é já hoje.
Contudo, existe algo muito importante e de que pouco se costuma falar: a desvalorização da moeda. Vejamos o exemplo de Cavaco Silva. Ele foi um governante que, durante a segunda metade dos anos 80, concordou com um aumento significativo dos salários dos funcionários públicos. Devido a fins eleitoralistas, como é evidente. Bem ou mal, ele sabia no entanto que possuía uma arma que, embora sendo um pau-de-dois-bicos, serviria, se necessário, para resolver o problema. Essa arma era de facto a desvalorização do escudo. Se o escudo era desvalorizado em 15 por cento, por exemplo, as pessoas não sentiam imediatamente que estavam a perder dinheiro, na medida em que nominalmente tinham o mesmo. Se ganhavam 100 contos, continuavam a ganhar 100 contos. Passavam era a comprar apenas 85 por cento dos artigos que anteriormente adquiriam com o seu salário, nomeadamente se as suas compras incidiam sobre produtos estrangeiros. Havia inflação, para ajudar, o que representava que o Estado arrecadava nominalmente mais dinheiro. E quanto às pensões de reforma que o Estado tinha que pagar? Bem, essas mantinham o seu valor nominal, mas com elas também os reformados acabavam por comprar menos coisas, assim como o Estado lhes pagava comparativamente menos. O turismo para estrangeiros tornava-se mais barato, o que tendia a aumentar o número de turistas. Para os portugueses, o turismo no estrangeiro ficava mais caro, o que tendencialmente aumentava o turismo cá-dentro. As exportações portuguesas ficavam mais atractivas, na medida em que custavam menos em termos de dólares, marcos alemães ou francos suíços.
Poderia um governante como Cavaco Silva, homem de finanças, ter-se apercebido do risco do euro nos anos 80? Não. Nessa altura ainda não se falava em moeda comum europeia, e a possibilidade de abaixamento dos salários nacionais era sempre possível através da desvalorização cambial.
Em Maio de 1998 Portugal aderiu ao euro. De braço dado com o euro chegou o PEC, sigla que significa Pacto de Estabilidade e Crescimento. E sobreveio a impossibilidade de qualquer membro desvalorizar unilateralmente a moeda. O que tanto dava para a Alemanha como para Portugal. Os alemães ainda se debatiam com problemas financeiros relativos ao esforço de reunificação das duas Alemanhas, mas eles sempre foram um povo trabalhador e disciplinado. Portugal, pelo contrário, para ser disciplinado e rigoroso nas finanças públicas tinha precisado de um período de forte ditadura: o período de Salazar. Com larguíssimos inconvenientes também, como todos sabemos. Curiosamente, em alemão a pronúncia de Euro assemelha-se bastante à da palavra portuguesa "oiro". E a moeda tem sido realmente ouro para os alemães. Para os portugueses tem sido um teste, no qual Portugal não está a passar. Infelizmente.
Voltando ao Estado-Providência. Os reformados de 2000 para cá não têm perdido grande poder de compra. E os seus números são avassaladores. Os respectivos encargos para o Estado não diminuem e, pelo contrário, aumentam. Porquê? Porque o número de reformados cresceu em espiral e porque aquilo que poderia representar uma diminuição da despesa estatal com as reformas – uma desvalorização da moeda – se tornou impossível.
Pensou-se a curto prazo? Quem estava nos anos 70 ou 80 não podia imaginar que passaríamos um dia a ter a mesma moeda que a Alemanha. Mas quem administra as contas das finanças públicas após 1998, com a adesão de Portugal ao euro, devia ter prestado muito mais atenção à contabilidade. Essa indisciplina paga-se caro.
Por que razão não toma o actual Governo medidas? Por exemplo, baixar em 20 por cento os salários de todos os funcionários públicos e de todos os reformados da função pública? (entre 1977 e 1995 houve 7 (sete) desvalorizações do escudo). Já se imaginou a revolução que isso poderia causar, o clima de instabilidade política e económica que uma medida dessa ordem provocaria? A grande diferença é que estamos nos tempos de hoje e não nos antigos, em que uma desvalorização do escudo em 20 por cento reduziria automaticamente as importações (que ficariam mais caras 20 por cento) e abrangeria todos. Pensemos: será fácil dizer aos membros das forças armadas, no activo e reformados, aos professores, aos médicos e enfermeiros públicos, às centenas de políticos - que vão sofrer uma redução de 20 por cento nos seus rendimentos mensais?
Quem está no poder, hesita em falar verdade. Porquê? Porque isso implica perder o poder. Talvez se for Bruxelas ou o FMI a impor um ultimatum a punição política seja mais suave. Por seu lado, a oposição não quer tomar agora o leme do barco. Compreende-se também porquê. Entretanto o barco voga, mais ao sabor das marés que dos marinheiros.
9/20/2010
Férias
.jpg)
.jpg)
Para o citadino, as férias passadas na praia revestem-se sempre de um aspecto peculiar. Não se trata apenas de quebra da rotina de sair para o trabalho a horas regulares ou levar os filhos à escola à hora certa, no meio de um trânsito que pode ser infernal. As férias na praia trazem-nos necessariamente à mente a importância do tempo, a alternância das condições climatéricas e, duma maneira mais geral, o contacto com a natureza.
Por esta razão fundamental, o tempo atmosférico é possivelmente o tema mais comum de conversa. Falamos da temperatura que se vive na cidade – "um verdadeiro forno" – e da relativa frescura de que gozamos junto à costa, geralmente com uma brisa suave. Há dias de sol pleno e outros de nuvens algo carregadas. Há dias em que a praia não se torna muito convidativa.
Esta alternância e uma certa imprevisibilidade da natureza contrastam com o horário regular dos comboios, do metro ou dos autocarros na cidade. Esta semana a praia está larga, muito ampla durante a parte da manhã. Encolhe nitidamente durante a tarde. Na semana que vem será o contrário. Aliás, cada dia é diferente. O mar tem a sua agitação constante, mas tanto pode ser açoitado pelo vento e mostrar ondas relativamente fortes como estar calmíssimo, com uma ondinha final que desliza pela areia, deixando um leve rasto de espuma que depressa se esvanece.
Também a sombra acolhedora da grande rocha, quase isolada no meio do areal, só é válida até determinada hora. Desaparece totalmente a certa altura, para ir incidir na outra parte do rochedo. As marés vão e vêm, as sombras recuam ou alongam-se, a praia encolhe ou alarga-se. O interessante é que os benefícios são distribuídos a todos por igual: àqueles que preferem a maré vazia para passear e jogar, aos outros que adoram a maré cheia para darem bons mergulhos ou surfar nas ondas. Tal como sucede com a sombra, beneficia-se agora um, para amanhã se favorecer o outro. Quando o sol nos rouba a luz no local em que nos encontramos e deixa cair a noiite, é garantido que ele já está a iluminar outras pessoas noutras bandas. E, depois delas, seremos nós outra vez os contemplados.
Na vida não é exactamente assim. Há os que tudo têm, e ainda mais querem. Há os que labutam arduamente e assim continuarão até ao fim da vida recebendo uma paga ínfima pelo seu suor – no fundo, para que aqueles que já quase tudo têm ainda com mais fiquem.
É uma situação anti-natural. Talvez na cidade se aceite melhor esta condição da vida humana. Talvez nos revoltemos menos porque sabemos existir uma determinada ordem nos arruamentos, no estado das casas, nas marcas dos automóveis junto aos passeios, no uso de diferentes meios de transporte, na maneira de vestir e de falar das pessoas.
Quando temos o pleno contacto com a natureza de sempre, como este com o mar e as arribas, o sol e a sombra, podem ocorrer-nos ideias simples como esta da diferença entre a vida na cidade e as férias numa praia. Talvez por momentos pensemos que a sociedade está cada vez mais anti-natural e desumanizada. Ou talvez enxotemos estas ideias para o lado. O nosso cérebro é como o mar. Enche e esvazia-se depressa.
Subscrever:
Mensagens (Atom)