10/30/2007

Petróleo alumia ou cega?

Se imaginarmos um mapa-mundo como um grande campo de futebol com um jogo a ser disputado, chegaremos possivelmente à conclusão de que, como seria normal, a América é um país que não gosta de sofrer golos e que, em conformidade, defende estratégica e inteligentemente longe da sua baliza, fazendo o chamado pressing alto.
É neste sentido que o dólar americano circula por todo o mundo em larguíssimas quantidades, o que faz com que a sua eventual vulnerabilidade seja sentida não só na América, mas também em múltiplos países que possuem títulos americanos nos seus bancos nacionais e nos privados. Com isto resguarda-se a América, como é óbvio, pois ocasionais acções contra o dólar constituem de certo modo um tiro-no-pé para quem o tentar.
A estratégia de defender longe da sua baliza faz com que os Estados Unidos detenham, astutamente, bases em quase toda a parte. Dos Açores à Alemanha, de Diego Garcia ao Paquistão, os americanos possuem bases militares em 70 países do globo, sendo que 13 dessas bases são novas, criadas depois de 11 de Setembro de 2001.
Curiosamente, até a sua principal prisão de segurança - Guantánamo - foi colocada em território exterior aos EUA, em Cuba.
Por outro lado, contradizendo-se relativamente ao muro de Berlim que a América tanto criticou e que apodou de "muro da vergonha", não só a Administração americana apoia a construção do muro-barreira de Israel, como está a erguer um enorme muro-barreira ao longo da sua vasta fronteira com o México.
Os americanos têm, ainda, agentes da CIA e personalidades importantes das cenas nacionais de várias nações a trabalharem para si em muitos pontos do globo e a fornecerem preciosos dados. A este núcleo de informações, juntam-se as dos satélites que giram ininterruptamente em volta da Terra. Pressing alto, também.
Na linha das suas protecções a distância, os americanos criaram, juntamente com os europeus, a NATO - a que De Gaulle gostava de chamar North American Treaty Organization em vez de North Atlantic -, a qual, embora fundamentalmente de defesa, já serviu para atacar Belgrado e outros pontos, tendo além disso sido invocada pelos EUA imediatamente a seguir aos ataques a Nova Iorque em 2001.
Mais recentemente, os EUA pretendem criar postos de "defesa anti-míssil" tanto na República Checa como na Polónia.
Esta listagem de casos de pressing alto não podia deixar de fora o controle semi-paranóico nos voos para os Estados Unidos, país que há muito vive o complexo da segurança. Foi na base dessa segurança que os norte-americanos criaram as suas próprias histórias, em filme e banda desenhada, de Superhomens para defenderem a super-fortaleza, fonte e farol do Bem.
Foi por este conjunto de factos que o ataque do 11 de Setembro de 2001, bem dentro do seu território, foi tão sentido pelos americanos! Lembra muito a história de Roma, que só construiu muralhas à volta da cidade séculos depois de ter criado o seu grandioso império. A construção das muralhas e a transformação de Roma em cidade-bunker marcou o início do seu declínio.
Tudo isto vem a propósito da presente situação de paranóia americana perante o Irão. Como se não bastasse o mal que os americanos andam há muito a infligir à população iraquiana para conseguirem sacar o seu petróleo, eis que agora escolhem outro alvo, rico em petróleo e gás. Na semana passada, segundo informa a Newsweek, o Presidente Bush disse numa conferência de imprensa que "se estamos interessados em evitar uma Terceira Guerra Mundial, deveremos impedir que o Irão alcance o know-how necessário para produzir armas nucleares." Por outras palavras, Bush declarou que o Irão poderia provocar uma 3ª Guerra Mundial. Um dos seus conselheiros escreveu mesmo que o Presidente iraniano é semelhante a Hitler, na medida em que se trata de um revolucionário cujo objectivo é o de desestabilizar a actual ordem internacional e substituí-la por uma nova, dominada pelo Irão e governada pelo fascismo muçulmano.
Não esquecendo que, antes de lançarem bombas atómicas sobre o Japão no final da 2ª Guerra Mundial, os EUA declararam, mentirosamente, fazê-lo em nome dos 500.000 militares americanos que operavam naquela zona do Pacífico quando na realidade tinham apenas 46.000, atente-se nos dados fornecidos pelo comedido director da citada revista. Segundo Zakaria, o Irão tem uma economia semelhante à da Finlândia em termos dimensionais, sendo o seu orçamento anual de defesa da ordem dos 4,8 biliões de dólares. Desde o século XVIII que o Irão não invade nenhum país. Por seu lado, os EUA possuem um PIB 168 vezes maior e as suas despesas com a defesa ultrapassam 110 vezes as do Irão. Anote-se que Israel e todos os países árabes - com excepção da Síria e do Iraque - são contra o Irão. Pois mesmo assim devemos acreditar que Teerão está prestes a desestabilizar a ordem mundial? Valha-nos Deus!

10/28/2007

Exposição na Gulbenkian




Uma das actuais exposições da Gulbenkian chama-se "Um Atlas de Acontecimentos" e encerra o programa "O Estado do Mundo" incluído nas comemorações do meio século de existência da Fundação. Sem ser uma exposição enorme, ocupa dois amplos espaços do edifício e exibe trabalhos de 28 artistas de vários países. Algumas das obras foram especificamente feitas para a mostra agora exibida.
Por gostar muito do presente, com toda a multiplicidade de ângulos sob os quais ele pode ser visto, deu-me gosto apreciar as várias formas como as diferentes disciplinas de arte se expressam, de facto multidisciplinarmente. Foi bom vaguear pelas duas salas, quase desertas de público no dia em que as visitei, voltando aqui e ali atrás.
Não se esperem maravilhas. Nada há de arte tradicional, nem Kandinsky, nem Magritte, nem Warhol. Tão pouco Mondrian, a cabeça de Nefertitis ou um busto de Péricles. O número de obras não é muito significativo, mas isso não impede que possamos ter uns bons momentos de reflexão e que nos encontremos a sorrir perante certeiras irreverências. Para mim, valeu a pena.
(Numa das fotos, vê-se uma imagem do Iraque durante a Guerra do Golfo, com palmeiras abatidas a lembrarem destroços armados do conflito, como se fossem canhões ainda apontados para tudo e para nada. Na outra, um simpático crocodilo olha como um basbaque para um aparelho de televisão e dá o mote para a evolução do seu cérebro - uma explicação sobre o fundamentalismo que está patente na parede ao lado. A explicação diz o seguinte: "Fundamentalism: the rise of the crocodilian brain. Sun radiation, alcohol and fat consumption, talk radio and sports on TV overstimulate the hypothalamus. If high degree of activity in the crocodilian brain expands into the lonely system it activates the "God" spot and automatically blocks most of the rational functions of the neo-cortex. Gland secretions are geared toward systematic destruction and reproduction. Territorial reflexes and other self-preservation instincts govern all emotions: predatorial sex and cannibalism are justified. Religious ecstasy is achieved by war. The crocodile’s brain rises to fundamentalism by interpreting its own compulsions as "God’s" direct orders.")

10/26/2007

Educacão

Onde deveria haver rigor, porque o desrigor já grassa há demasiados anos, existe facilitismo. E nunca mais pára!
No princípio do ano soube-se que muitos dos cursos do Ensino Superior Politécnico que incluem Matemática e disciplinas afins no seu plano de estudos deixaram de exigir aquela disciplina nas respectivas provas de acesso ao ensino superior - e os cursos são de Contabilidade e de Gestão ou áreas semelhantes! Se se tratasse de ensino privado, talvez a admiração não fosse grande. Mas como é ensino superior público...
Sabe-se do desejo expresso por parte do Ministério da Educação de fazer exames do 12º Ano que cubram apenas este ano, deixando de fora as matérias leccionadas no 10º e 11º. Pasma-se!
Lê-se agora que chumbos por faltas vão deixar de existir no ensino básico e secundário. Trata-se de um verdadeiro convite à falta. Num país já de si com mentalidade que acusa grande falta de rigor, esta é mais uma machadada. Em vez de governo, temos desgoverno!

10/24/2007

Substância e forma

Às vezes, um exemplo pode facilitar uma explicação que, em teoria, é possível que não seja entendida à primeira.
Qual é a diferença entre substância e forma?
Um exemplo: o que pesa mais? Um quilo de algodão ou um quilo de chumbo? Formalmente, pesam ambos o mesmo. Substantivamente, porém, quem os deixar cair em cima da cabeça verá imediatamente como é!

10/21/2007

A imagem reflectida

Acho que para lá do primeiro reflexo que todos nós vemos, que é possivelmente a nossa imagem e a de outros num espelho, um outro reflexo que não nos escapa é o do céu espelhando-se nas águas do mar ou de um lago. Talvez tenha sido esta imagem que inspirou ordens religiosas como a dos cistercienses a conceptualizar uma ordem divina lá em cima no céu, que os monges tentavam reproduzir na Terra o mais fielmente possível. Assim, baseados nessa visão celestial, os conventos e mosteiros terrestres da Ordem de Cister seguiam sempre o mesmo tipo de construção nos vários países em que foram erguidos. Respeitavam o plano original.
Lembro-me que, quando aprendi este facto, dei por mim a pensar de maneira mais reflexiva, no sentido literal da palavra. Recordo-me que ao ir pela primeira vez a Évora com olhos de ver, depois de encontrar nas terras do Alentejo próximas da cidade vastos latifúndios, imaginei que o reflexo dessas propriedades tinha de ser visível nas casas que iria encontrar na cidade. Como seria natural, a ideia confirmou-se com a existência de algumas casas amplas, não altas, mas sempre com um fresco átrio e numerosas divisões.
Da mesma forma, é normal que se pense nos muitos zeros de conta bancária que os proprietários de luxuosas vivendas, automóveis espectaculares, iates e aviões privados têm necessariamente de possuir. É mais uma vez o reflexo, aquilo a que o fiscalista chama "sinais exteriores de riqueza".
Numa outra versão do mesmo tema, encontro frequentemente um reflexo notório nos transportes públicos lisboetas, dos autocarros ao metro, e nalgumas zonas da cidade. Não se trata aqui de casos de pobreza ou de riqueza, mas algo de ordem histórica e cultural. A percentagem de pessoas de cor não branca na cidade de Lisboa é hoje em dia bastante elevada. Angolanos, cabo-verdianos, brasileiros, moçambicanos, guineenses, são-tomenses, goeses, timorenses são às dezenas, às centenas, aos milhares. Nada tenho contra eles, obviamente, mas não posso deixar de entrever aqui o reflexo bem nítido de uma sociedade portuguesa que foi colonialista durante séculos. Os efeitos dessa longa colonização por outras terras mais tropicais acabam por reflectir-se no dia-a-dia de hoje. Também Londres, dado que o império britânico se espalhou por todo o mundo, oferece um reflexo semelhante, embora aí a percentagem maior seja de indianos, paquistaneses e nigerianos.
Em contrapartida, se formos, por exemplo, a Viena, a Berlim, a Praga, Budapeste ou Zurique, constatamos que a percentagem de pessoas de cor não branca é muitíssimo mais reduzida. A não-existência de um passado colonial do tipo do nosso ou do inglês explica imediatamente o fenómeno.
No jogo da vida, é interessante pensarmos nos aspectos em que somos apenas o reflexo, contrastando com outros em que somos eventualmente agentes de imagem-espelho.
A propósito do reflexo colonial, permito-me recordar o início do interessante ensaio A Stranger in the Village do escritor negro americano James Baldwin, publicado há cerca de 50 anos: "From all available evidence no black man had ever set foot in this tiny Swiss village before I came. I was told before arriving that I would probably be a "sight" for the village; I took this to mean that people of my complexion were rarely seen in Switzerland, and also that city people are always something of a "sight" outside of the city. It did not occur to me – possibly because I am an American – that there could be people anywhere who had never seen a Negro."

10/19/2007

Catalina, Rodrigues dos Santos et al.

Assistimos de vez em quando a revelações públicas que, submersas por outras notícias entretanto vindas a lume, acabam por desaparecer na (de)voragem do tempo. Ultimamente, sucederam três casos: o de Catalina Pestana sobre a Casa Pia, o do conhecido locutor Rodrigues dos Santos sobre a administração da RTP e um outro em que o líder do PS-Madeira fala de promiscuidade entre magistrados e o poder político regional, tendo sido entregue pelo PS um dossier ao Procurador-Geral da República. Estes são assuntos que nos fazem pensar em (aparentes) verdades simples de resolução complexa. E porquê de resolução complexa? Porque o mal está profundamente enraizado e propagou-se a um número muito grande de "plantas".
Os que se manifestaram até agora - e isso não quer dizer que os que não se manifestaram sejam menos numerosos - foram bastante contra Catalina por não ter prestado anteriormente as suas informações, mostraram-se geralmente a favor de Rodrigues dos Santos e, quanto ao caso da Madeira, encolheram os ombros porque "isso é música consabida".
O que os três casos têm em comum é a luta entre uma alegada verdade dos factos feita por figuras de 2º plano e a resistência de poderes fortes a revelações deste tipo. Popularmente, fala-se da panela de barro, que pode ter razão, mas perde sempre na sua luta contra a panela de ferro - por razões óbvias de superioridade do ferro sobre o barro.
Catalina Pestana é acusada de só ter dado esta informação depois de ter deixado o seu lugar. Que admiração é essa? Quantas pessoas não são cilindradas exactamente por denunciarem algo inconveniente? Quantos mensageiros de más notícias não são trucidados pela máquina que lhes está por cima? Essas pessoas são sempre panelas de barro. A vantagem dos poderes fortes consiste precisamente nas benesses que distribuem e nos conluios que estabelecem, os quais acabam por amarrar indivíduos em princípio honestos mas que, pressionados a determinada altura para, por exemplo, passarem uma factura falsa sob pena de perderem o lugar ou de nunca serem promovidos, acabam por fazê-lo. Julgam-se custodiados pelos que lhes estão acima, mas esses deixam-nos frequentemente cair depois de estarem servidos. Mais: em tribunal, acusam-nos de falsear a verdade se eles, pressionados por um juiz, ousam contá-la.
Tal como tanta gente em tanto sítio, Catalina Pestana soube defender-se. A verdade que a atormentava atirou-a cá para fora, mas na altura em que já não lhe podiam mover um processo disciplinar. Um processo disciplinar poderia acarretar-lhe problemas imensos e arrastar-se por anos e anos. Assim, acabou por fazer aquilo que o sistema e o seu bom-senso a obrigaram a fazer. Não houve uma outra senhora antes dela, salvo erro de apelido Macedo, que fez algo semelhante?
Quanto a Rodrigues dos Santos, ele terá feito um jogo mais perigoso, possivelmente mal medido pelo próprio. A opinião pública pode estar a favor dele. Só quem nunca trabalhou em lugares de responsabilidade em empresas é que pode acreditar que não há pressões por parte de uma direcção ou administração. Se fossem totalmente legais, essas pressões assumiriam a forma escrita; como o não são e ocultam uma verdade que não se quer revelada, elas não passam por prova documental. São feitas durante conversas, eventualmente no decorrer de um telefonema interno - pelas mesmíssimas razões que levam determinados pagamentos a serem feitos em notas de banco e não por cheque.
Nesta luta entre Rodrigues dos Santos e a administração da RTP, não vai, portanto, ser fácil ao acusador provar as suas acusações. Talvez uma apenas: a de um concurso, relativamente ao qual haverá de facto provas documentais. Mais por isso, e porque o caso representa para ele uma pedra no sapato, ele tê-lo-á levantado. E aqui põe-se a questão: será que ele quer ganhar a guerra da corrupção em Portugal? Veja-se o que sucedeu ao projecto do Cravinho na Assembleia. Certamente que não será ingénuo a esse ponto. Se não se retratar publicamente e disser que afinal foi mal interpretado, o mínimo que lhe pode suceder é arrastar-se durante alguns anos na empresa, já sob outra administração, e ocupar lugares de importância relativamente subalterna. Como sabemos, não basta ter a verdade. Só nos filmes de Frank Capra, com o velho Jimmy Stewart, é que o barro ganhava ao ferro.
No caso da alegada promiscuidade madeirense, com as cedências de toda a ordem que ocorreram no passado dos Governos ao actual Presidente da Região Autónoma, existem centenas de telhas de vidro por parte de personalidades e de partidos. O que se espera? Inevitavelmente, teremos proclamações de existência de normalidade total num assunto que é politicamente muito complicado.
Com isto, não pretendo dizer que não se deve fazer o que Catalina, Rodrigues dos Santos e o líder do PS-Madeira fizeram. Que outros resultados não brotassem dos seus actos, estes já valeriam a pena pelo acordar das consciências de muitos que andam a dormir. Além disso, assim consegue-se entrever melhor a importância da existência de um verdadeiro estado de direito em Portugal. É sempre altura de dizer "basta!".

10/17/2007

Relembrando, ou aprendendo

A RTP1 passou ontem o primeiro episódio de uma série que se prolongará até Dezembro sobre a guerra colonial portuguesa. A série, realizada por Joaquim Furtado e apresentada todas as terças-feiras logo a seguir ao Telejornal, promete. O primeiro episódio, chocante em muitos aspectos, terá sido uma surpresa para muitas pessoas, atendendo pelo menos às reacções a que já assisti. As imagens foram espantosas e os comentários muito elucidativos. Tive, entretanto, pena que uma coisa não tivesse sido dita com toda a clareza, apesar de se ter falado da Igreja e das reuniões em igrejas. É que se tratava das missões protestantes americanas e inglesas, as quais fomentavam claramente a revolta, ao serviço dos seus respectivos países. Tanto durante o meu trabalho como oficial miliciano especializado nos assuntos de Angola na secção de Informações do Estado-Maior do Exército, como meses mais tarde no próprio terreno, tive provas muito claras da actividade dessas missões, que aliás desempenharam bem o seu papel.
Aguardo com interesse os próximos episódios, esperando que seja mencionado o extraordinário relatório que o General Beleza Ferraz teve a coragem de escrever após uma visita ao norte de Angola para o seu Ministro da Defesa, Botelho Moniz. É que nunca vi as 17 páginas desse relatório referidas fosse onde fosse, apesar de as ter lido atentamente e aprendido imenso com a sua leitura. Foi o documento mais sincero que li sobre o que de facto se passava em Angola em 1960/61.

10/14/2007

Ouro e Platina

Tenho um apontamento datado de 1996 em que me classifico como truth-seeker. É mais uma naiveté da minha parte. Leio nesse escrito que - perdoem-me a longa transcrição - "o que mais me toca é o desvirtuar deliberado da verdade para servir causas próprias. Incluo dentro deste desvirtuamento a propositada ocultação de factos, o que conduz, pelo desconhecimento objectivo das situações na sua globalidade, a um conhecimento truncado, frequentemente a servir a causa de determinados interesses. É contra esta situação que luto, seja a nível de notícias claramente manipuladas na imprensa ou na televisão, seja a nível da educação transmitida oficialmente nas escolas. O amante da verdade que sou não se importa de ir contra valores pré-estabelecidos e virtualmente intocáveis. Assim, posso aparentemente ir contra a noção de pátria, contra um membro do clã familiar, contra o meu próprio clube desportivo, contra a empresa em que trabalho. Na realidade, não estou contra uma coisa; estou apenas a favor da verdade, e esta é que pode ser incompatível com certas noções geralmente aceites no seio do clube, da empresa, da família ou da nação. Daí que a minha posição seja sempre de um certo distanciamento, de recusa absoluta de ser incondicionalmente por uma pessoa, por uma coisa. Admito como lógico e natural que várias pessoas me considerem, devido a isto, frio para com as instituições. Contudo, a minha posição é, a meus olhos e muito pelo contrário, de ardente defesa, pois só com uma base sólida, assente na verdade, se pode caminhar em frente. Tanto a instituição como eu. (Que a verdade se divulgue ou não é um aspecto diferente, que pode ter a ver com estratégias; há, como é óbvio, segredos militares, por exemplo, que não podem ser divulgados pois serviriam uma parte contrária; mas, fora estes casos que são do senso comum, que não se minta deliberadamente, enganando a sociedade e preparando-a defeituosamente para o futuro.)"
Isto era aquilo que eu escrevia e verdadeiramente sentia. Continuo a senti-lo, e por isso reproduzi aqui este passo. Nas duas instituições onde mais tempo trabalhei procurei sempre encontrar o máximo de verdade no campo da pedagogia. Produzi relatórios onde estudei ambas as escolas, embora mais a privada do que a pública. Os relatórios que produzi continham dados interessantes, que proporcionavam visões de conjunto alicerçadas em informação concreta e real. Recordo-me que o director da instituição particular, que era sempre a primeira pessoa a ler o relatório que eu fazia motu proprio com periodicidade anual, me dizia frequentemente: "Não se esqueça de que estes relatórios são confidenciais". Por outras palavras: eu fazia os estudos, retirava as ilações, e depois não deveria divulgar nada. De facto, eu não divulgava tudo, mas por uma razão que era diferente da do director: não estava interessado em criar conflitos institucionais, que inevitavelmente acarretam custos bastante onerosos para todos. Aquilo que divulgava em reuniões nada tinha de confidencial. A lição maior que retirei foi a de que alguma da informação contida naqueles apanhados de cento e tal páginas, com vários quadros, cruzamento de dados, resultados de sondagens a centenas de alunos, etc. era preciosa. Mas em que medida era preciosa para o director? Na exacta medida em que ninguém mais conhecesse na íntegra o seu conteúdo. "Esta informação é ouro", chegou a dizer-me. E eu concluí que o controlo dessa informação era platina.
Recordo, a este propósito, a importância da confissão na Igreja católica. O padre fica na posse de informação valiosa em muitos aspectos. Pode usá-la? Não, pelo menos teoricamente. Existe a proibição de revelar os segredos da confissão. No passado, o cargo de confessor do rei, assim como o de confessor da rainha, eram deveras importantes. Pelo menos um desses confessores (Frei Miguel Contreiras) passou para a história. E cá temos o mesmo: informação e respectivo controlo.
Sem o controlo, a informação de pouco vale. Tudo aquilo que é acessível a todos tem pouco ou nenhum valor. Recordemos a história do pai que dá ao filho uma série de conselhos avisados para ele ter sucesso, incluindo alguns truques inteligentes. Depois de lhe ensinar aquilo que julga ser vital e que é fruto da sua experiência, adverte o filho: "Agora não vás contar a outros o que te disse! Se o fazes, o efeito destas técnicas que te ensinei é nulo.” Cá temos mais do mesmo: informação importante, logo seguida do seu controlo.
O post recente que intitulei "imperdível" fala-nos destas coisas. O julgamento do caso de pedofilia popularmente conhecido como "da Casa Pia", a história da forma como a licenciatura de Sócrates terá sido obtida, o aparente conluio, há uns anos, entre o Ministério do Ambiente, o Banco Espírito Santo e o CDS para a obtenção de favores especiais, a que se junta a informação que veio a lume de Rui Pereira e Abel Pinheiro (CDS) serem membros do mesmo grupo maçónico, mais a pretendida demissão de Souto Moura e a alegada intervenção de Sócrates - tudo nos traz informação de valor, que a lei recentemente revista tenta controlar. Os homens de confiança de uns são cada vez mais os homens de desconfiança dos demais. É aqui que a democracia exige transparência de processos, dirá o naïf. Então e a segurança, a necessidade de manter as coisas secretas, porque o segredo é a alma do negócio?, dirá o político experiente.
Ora, é aqui que entram os checks e os counterchecks característicos de um bom sistema democrático. Ter uma pessoa a verificar uma coisa não chega. É necessário que haja alguém independente a checar a forma como a verificação foi feita. É neste domínio que uma imprensa livre e com capacidade de investigação é essencial. É também por isso que manter-lhe a boca tapada pode ser muito conveniente.
Dizia Bertrand Russell já não sei onde que o famoso oráculo de Delfos que nós tínhamos aprendido no liceu como sendo o grande conselheiro do governo de Atenas era, afinal, manipulado pelos lobbies. Tudo bate certo. Convém não abrir a caixa de Pandora para que os segredos não voem com o vento. Entende-se melhor assim. A partir de agora, graças às novas disposições legais, não vamos ter mais reprodução de conversas telefónicas nos jornais como até aqui. Everything is under control. O ouro e a platina. Tudo me lembra uma ilustração clássica que mostra um indivíduo a dizer para outro, que está amordaçado: "És livre de dizer aquilo que quiseres. Fala!"

10/11/2007

Palavras

Esta é uma secção com apontamentos diversos, que em princípio não fazem nem bem nem mal a ninguém. São meras curiosidades. Têm a vantagem de poder dar origem a outras curiosidades da parte de algum leitor, no sistema aqui várias vezes enunciado de comunicação e partilha.
Não resisto a contar-vos algo que desconhecia até há meia-dúzia de dias: o significado de "emérito". Para mim, emérito era um adjectivo que me dizia algo como "ilustre" ou "insigne", v.g. O emérito professor brindou-nos com uma aula magnífica. O que me escapava era o outro significado da palavra: jubilado. E então, dirão, o que tem isso? Se achei interessante, foi porque aprendi - com o emérito José Leite de Vasconcellos - que os "emeriti" eram as pessoas que no antigo Império Romano tinham direito à reforma pelos altos serviços prestados. A certa altura, o Imperador Augusto fundou na Península Ibérica uma colónia para esses reformados de luxo. Daí nasceu Emerita Augusta, que é hoje a cidade de Mérida. Assim compreendemos melhor a existência do belo teatro e de tantas outras construções romanas que a cidade outrora possuiu. E também compreendemos que as reformas de luxo já vêm de muito longe.
Mas este foi apenas um parágrafo introdutório a que não consegui resistir. O pequeno apontamento de hoje levanta uma questão, que nunca vi formulada. Falando de marcas comerciais, lembram-se de um automóvel alemão conhecido pela abreviatura DKW? Nunca encontrei ninguém que me explicasse por que motivo lemos essa marca como DêKáVê, mas em BMW lemos BêEmeDoubleyou e não BêEmeVê. ("belle merde vendue" costumavam dizer os franceses, com o seu ódio a tudo o que não é gaulês, principalmente se vem da Alemanha ou da Inglaterra).
A questão das marcas é engraçada. Pronunciamos Colgate muito bem, mas depois dizemos a marca italiana Chicco como se fosse um diminutivo de Francisco (Chico) (originalmente é Kiko). Chamamos Levi’s (lévis) aos jeans que originalmente são Livaize, lemos Maggi como se tivesse apenas um -g- , a marca alemã Miele sai da boca dos portugueses como "mil" (originalmente soa como Mila) e dizemos Volkswagen sem pronunciar o V- inicial como "f" (como muitos sabem, Volk está presente na palavra portuguesa "folclore" - as tradições, usos e costumes de um povo - e também no "that’s all folks" que conhecemos dos desenhos animados). OK, OK, tudo isto está muito bem. Entende-se. Quem manda são os homens do marketing e eles é que consideram qual é a melhor forma de o público comprar o seu produto. Period!
Entretanto, tudo isto vem a propósito de uns novos anúncios que estão agora a enxamear Lisboa com a filha do Luandino Vieira, a Cláudia, a mostrar o seu corpo, tapado aqui e ali com umas peças mais ou menos eróticas da Triumph. Meus caros amigos: por que razão é que a mesmíssima palavra, inglesa, se pronuncia aportuguesadamente (triunfe) quando se trata de lingerie e recebe a pronúncia original (traiânf) se nos referimos aos automóveis Triumph?

10/09/2007

Elites políticas

Este assunto já foi abordado aqui no blog, embora haja um ponto que tem escapado e me parece importante. Após o 25 de Abril, perfilaram-se na nossa cena política algumas personalidades bem conhecidas, de que hoje não vemos continuidade. É um facto. São geralmente os seus nomes que temos em mente quando falamos em elites políticas. Em vagas sucessivas, entraram no mundo dos partidos, com assento na Assembleia da República e noutros órgãos, pessoas como Henrique Barrilaro Ruas, Natália Correia, Salgado Zenha, Mota Pinto, Maria de Lurdes Pintasilgo, Sottomayor Cardia, Magalhães Mota, Sousa Franco – infelizmente todos já falecidos -, mas restam outros nomes de pessoas ainda válidas e que só muito remotamente se pressente que voltarão à ribalta política. São nomes como os de Freitas do Amaral, Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, Manuela Ferreira Leite, António Guterres, Vítor Constâncio, Rui Machete, Pacheco Pereira, Ernâni Lopes, Ângelo Correia, Rui Vilar, João Salgueiro, Álvaro Barreto, Dias Loureiro e vários outros que sobressaíram na cena partidária e parlamentar ou ministerial e que depois se "encaixaram" no mundo das empresas, da banca, e em instituições de índole diversa. A pergunta que se deverá fazer não é "Por que razão não voltam?", mas sim "Que motivação terão eles para voltar?". Olhando do ponto de vista dessas pessoas que estão mais out do que in, a pergunta é pertinente. Seria lógico que Vítor Constâncio se retirasse do governo do Banco de Portugal para se embrenhar na selva política? Que motivo suicida tiraria Rui Machete da Fundação Luso-Americana para se misturar na turba dos poluíticos? Será que a obrigatoriedade de muitos detentores de cargos oficiais declararem o seu património - que poderá depois ser consultado, v.g. por jornalistas, e discutido na praça pública - constitui um incentivo ou um desincentivo a que eles regressem? Quem vai deixar o cómodo pelo incómodo? Em nome de um regime fortemente desacreditado?!
Creio que estava a faltar este breve apontamento para a discussão.

10/07/2007

A terceira estação florida de Lisboa


Parte das árvores ainda estão jovens, mas se os paisagistas quiserem plantar mais e as autoridades concordarem, elas podem criar uma terceira estação florida de uma cidade que já tem as olaias cronologicamente como a primeira estação, os jacarandás como segunda, e está a mostrar desejo de ter a Chorizia speciosa como a terceira. Se ter a cidade a florir em Fevereiro/Março/Abril e depois em Maio/Junho já é espectacular, conseguir floração bem visível em Outubro/Novembro torna-a ainda mais atraente. A Chorizia é uma árvore da família do embondeiro e pode ser de grande porte. O seu habitat natural é na parte sul do Brasil e no nordeste da Argentina. O tronco, com picos, tem a forma de um frasco mais bojudo na parte de baixo. As flores são vermelhas e brancas. Lisboa já está há muitos anos embelezada com exemplares destas árvores, v.g. no Jardim Botânico, na Praça da Alegria, no largo do Museu Vieira da Silva, na parte lateral dos Jerónimos, no Parque Eduardo VII, junto à Casa dos Bicos, e agora, já a florirem, em frente ao Centro Cultural de Belém. Dado que o CCB tem quinze anos, as cerca de 20 corízias que foram plantadas ao longo da sua fachada são relativamente recentes, mas vão constituir uma álea muito atraente no futuro, a dar o verdadeiro mote para a terceira estação de árvores em flor na cidade.
Pessoalmente, admiro os arquitectos paisagistas pelos seus conhecimentos e elevado sentido estético, sobretudo quando têm de jogar com a componente temporal. Quem planeia um grande jardim com uma mansão situada no topo de um terreno de encosta não pode gizar algo que vá encobrir a paisagem aos proprietários passados alguns anos. Todas as árvores crescem, como é óbvio, mas umas crescem mais, ou mesmo muito mais do que outras. Saber a altura média que essas árvores irão atingir de forma a embelezar a paisagem sem perturbar a vista inicial faz parte do engenho do arquitecto. Igualmente, todo o paisagista que se preze deve procurar que o jardim que planeia tenha flores praticamente todo o ano. Umas serão de canteiro, outras de arbustos como os hibiscos ou os aloendros, e outras de espécies arbóreas como as olaias, os jacarandás e as corízias, com tempos de floração claramente marcados e espaçados ao longo do ano.

Permito-me sugerir a quem lê estas linhas que dê um passeio pela cidade, deitando uma olhadela para as corízias em flor. Estas (jovens) do CCB, nas quais admito nunca ter reparado anteriormente, acabaram de ser para mim uma agradável surpresa.

10/05/2007

Labirinto da Saudade

Embora não seja meu hábito fazer transcrições, hoje transcrevo um passo do Labirinto da Saudade, pedindo que o comentem:
"Empiricamente, o povo português é um povo trabalhador e foi durante séculos um povo literalmente morto de trabalho. Mas a classe historicamente privilegiada é herdeira de uma tradição guerreira de não-trabalho e parasitária dessa atroz e maciça "morte de trabalho" dos outros. Não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza e quando, como na Europa futuramente protestante, o trabalho se converte por sua vez em sinal de eleição, nós descobrimos colectivamente a maneira de refinar uma herança ancestral transferindo para o preto essa penosa obrigação. É mesmo essa a autêntica essência dos Descobrimentos. O resto, embora imenso, são adjacências.” (O Labirinto da Saudade, Eduardo Lourenço)

10/01/2007

Imperdível

Este "imperdível", a melhor tradução que conheço para "um must," refere-se às páginas 18 e 19 do Público de hoje, sob o título "Conversas privadas antes da guerra". Muitos de nós já assistimos a manobras de bastidores. Diferente é ter participado nelas. Recordo-me, na minha experiência pessoal, de ter presenciado ou sabido de combinações entre colegas numa instituição de ensino superior, quer para colocar em órgãos de gestão quem eles queriam - lançando simultaneamente alguns boatos sobre os concorrentes -, ou na manipulação de transcrições de cassetes com sessões gravadas, de forma a comprometer alguém considerado persona non grata. Essas coisas fazem-se... São faits divers muito feios, mas mesmo assim faits divers num mundo onde outras coisas muito mais sérias se resolvem de maneira semelhante.
O que o Público transcreve - e honra seja feita ao seu director claramente pró-americano ao aprovar a transcrição - é a acta de uma sessão privada entre Bush e o espanhol Aznar, um mês antes da invasão do Iraque. A chantagem de caça ao voto exercida pelos EUA sobre Angola e sobre o Chile na ONU devido a "favores" dos EUA para com esses países mostra, mais uma vez, que não há jantares grátis.
Na conversa, nota-se uma certa hesitação e receio por parte de Aznar: "O que estamos a fazer é uma mudança muito profunda para Espanha e para os espanhóis. Estamos a mudar as políticas que o país tem seguido nos últimos 200 anos." Quando Aznar pergunta a Bush se é possível o exílio de Saddam, Bush confirma, e adianta que "até pode ser assassinado". A uma nova questão de Aznar se o exílio de Saddam teria alguma garantia, Bush contrapõe com um brutal "Nenhuma garantia. É um ladrão, um criminoso de guerra. Comparado com Saddam, Milosevic seria uma Madre Teresa." E quando Aznar se mostra preocupado com o optimismo manifestado por Bush, este afirma: "Estou optimista porque acredito que estou certo. Coube-nos fazer frente a uma séria ameaça contra a paz. Irrita-me muitíssimo ver a insensibilidade dos europeus face ao sofrimento que Saddam Hussein inflige aos muçulmanos." Depois, conclui "Quanto mais os europeus me atacam, mais forte eu fico nos Estados Unidos."
Há mais, bastante mais, numa acta que, obviamente, não se destinava a ser publicada. Talvez só daqui a uns cinquenta anos. Está no jornal de hoje.