12/26/2011

A alocução natalícia do primeiro-ministro

Por mero acaso – continuo a ver muito pouca televisão – presenciei ontem à noite a mensagem natalícia de Passos Coelho. Os políticos já raramente me surpreendem, mas por vezes ainda me revoltam. Com Portugal metido numa camisa de onze varas, na qual foi cair ao fim de décadas de governos menos bons ou mesmo maus, este primeiro-ministro bem-parecido e teleponticamente bem-falante, surge-nos vestido de forma irrepreensível, de gravata verde de esperança, a falar-nos nada mais, nada menos do que de confiança.
Numa linguagem que só não é novilíngua por ser usada por tantos outros como ele e que faria George Orwell pelo menos sorrir, usou um sem-número de palavras e expressões abstractas ou indefinidas, vagas, do tipo das que dão-para-tudo: “democratização da economia”, “reformas estruturais”, “privilégios injustificados”, “criatividade”, “dedicação”, “injustiças e iniquidades”, “transformação do país”, etc. Por exemplo: o que se poderá entender por democratização da economia? Que os ricos, que até aqui têm sido altamente beneficiados e por isso têm conseguido aumentar cada vez mais o fosso entre o seu bem-estar e o mal-estar dos outros, vão ser sujeitos a mais impostos para compensar os “privilégios injustificados” de que têm gozado nas suas empresas e nos seus investimentos? Ou uma ordem económica que combata as desigualdades, como o Cardeal-Patriarca pede?
Repare-se na beleza da seguinte frase, apropriada para um cartão de boas-festas: o governo de Passos Coelho propõe-se “criar as condições para que todos os portugueses, cada um dos portugueses, nas suas escolhas, com o seu trabalho, com as suas capacidades, construa o seu próprio futuro e, em conjunto, o futuro de todos!”
Em minha opinião, é um desplante tremendo que estas palavras saiam da boca de um primeiro-ministro que ainda há pouco recomendou aos professores desempregados que procurassem fora do seu país, junto de populações de língua portuguesa, o trabalho que não conseguem encontrar no país de que ele próprio é o chefe do governo. Constitui um afrontoso descaramento que um primeiro-ministro faça numa semana a proclamação de grandes sacrifícios que temos pela frente e na semana seguinte fale desta maneira.
E, contudo, não é nada surpreendente. Ao apodar, aliás justificadamente, de mentiroso o seu antecessor, ele procura eventualmente com isso camuflar as mentiras que ele próprio pregou ao povo português antes das eleições de que saiu candidato vencedor. Só que, conseguida dessa forma mentirosa, a legitimidade da sua aprovação pelo povo ficou definitivamente comprometida.
Pois agora é esta mesma pessoa que do alto do seu cavalo de candidatura logrou enlaçar o povo português através de promessas que não está a cumprir que vem pedir o estabelecimento de laços de confiança! Atente-se nas suas palavras: “A confiança é um activo público, é um capital invisível, é um bem comum, determinante para o desenvolvimento social, para a coesão e para a equidade.” “...são os laços de confiança que formam a rede que nos segura a todos numa mesma sociedade.” Lindo, não é? Fukuyama, que escreveu uma obra notável exactamente com o título Confiança, não o diria melhor. Só que ele nunca foi primeiro-ministro de Portugal.
Já agora, prestemos atenção ao próximo dia 29, data em que está prevista a publicitação da nova Lei das Rendas do governo. Pessoalmente, concordo com uma revisão da lei das rendas, mas sou declaradamente contra uma liberalização total do sector da habitação. Uma casa não é um bem como qualquer outro. Vamos a ver o que dali sai.

12/25/2011

Poesia de A a Z

Para a letra P, a poetisa Maria do Rosário Pedreira:


Ficou vazio o teu lugar à mesa

Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nos

que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.

E, desde então, as nossas feridas têm a espessura

do teu silêncio, as visitas são desejadas apenas

a outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapete

continua engelhado, como à tua ida.

Provavelmente fiará assim para sempre.



No outro Natal, quando a casa se encheu por causa

das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,

não cheguei a saber

se era para tornar a festa menos dolorosa,

se para voltar a sentir o quente do teu colo.


in "A Casa e o Cheiro dos Livros"

12/12/2011

"All (dis)quiet on the Western Front"

Os dias sombrios que a Europa vive trazem-nos a todos preocupados. Algumas semelhanças com os tempos que antecederam 1939 são preocupantes e dão que pensar.

No seu livro “Pós-guerra – História da Europa desde 1945” Tony Judt relembra:
«Foi para impedir o regresso dos velhos demónios (o desemprego, o fascismo, o militarismo alemão, a guerra, a revolução) que a Europa Ocidental encetou aquela nova via com que estamos hoje familiarizados. A Europa pós-nacional, do Estado-providência, cooperativa e pacífica, não emergiu do projecto optimista, ambicioso e aberto ao futuro que hoje, retrospectivamente, os euro-idealistas imaginam com orgulho. Ela é uma filha insegura da ansiedade. Sob o espectro da História, os seus líderes implementaram reformas sociais e ergueram novas instituições como medida profiláctica para manter o passado à distância».

Que os tempos são de grande ansiedade em relação ao futuro, ninguém nega. Que as medidas então tomadas para assegurar a paz social estão a ser completamente desmanteladas, é uma evidência.
O Estado-providência é hoje visto como uma fonte de despesismo, um mal para as finanças dos países.
Muitos são já os países à beira do colapso económico, quando é sabido que nos anos entre as duas guerras mundiais os conflitos internos e entre Estados foram exacerbados, quando não provocados, por esse mesmo colapso económico.
O desemprego grassa assustadoramente em variadíssimos países europeus; a insegurança social, intimamente ligada a todos estas situações, alastra.
A Alemanha volta a mostrar a sua arrogância em termos de supremacia política. Subjacente a tudo isto, o espectro do fascismo paira sobre as nossas cabeças, graças em grande parte à inépcia dos políticos dos regimes democráticos, que não têm sido capazes de impor ideais políticos à tirania dos poderes financeiros.

Em resumo, «as medidas profilácticas para manter o passado à distância» de que Judt fala estão em vias de desaparecer. Estamos a assistir ao esboroar do salto civilizacional que a Europa pós-guerras deu.

Que nos reserva o futuro?

12/11/2011

O selo e o euro


Desde miúdo que colecciono selos. É uma coisa que tem graça, embora para muitos pareça simplesmente ridícula. Hoje em dia, admito que a filatelia se alterou bastante com a introdução de novos meios de comunicação, os quais acabaram por substituir o processo convencional. Este é bem conhecido: escreviam-se cartas, que se metiam num envelope. Sobre este colocava-se, e ainda se coloca mas já bastante menos, uma marca que atesta que o respectivo porte está pago (por isso, em alemão “selo” se diz Briefmarke, sendo Brief a palavra para carta).
Esta brevíssima introdução é, no entanto, apenas para despistar, pois aqui o assunto principal não é o dos selos, mas sim o do euro. De facto, digamos que coleccionar selos, como digo acima, até está actualmente um pouco fora de moda.
Fiz uma pequena reprodução de dois selos que aparecem acima. São ambos portugueses, como se pode ver. O primeiro é do período imediatamente posterior à proclamação da República, o segundo é anterior. Poderá estranhar-se ou considerar-se uma verdadeira ironia que um selo com a tarjeta "República" a vermelho acabe por atravessar a efígie do rei D. Manuel II. Então o rei foi para o exílio e é o seu rosto que continua a circular nas cartas que se enviam dentro do país? Que revolução foi essa?
Bem, são as contingências da vida que obrigam a que assim seja. Nos dias e meses que se seguiram à vitoriosa revolução republicana ainda não estava naturalmente impresso qualquer selo emitido pela nova República. Havia que esperar. Existia no entanto uma solução que era simples e expedita e que, vista de outro ângulo, até constituía uma afronta para os monárquicos: verem o rei D. Manuel atravessado pela palavra "República". A solução foi económica e acabou por ser eficaz.
Bem, mas o que tem isto a ver com o euro? Possivelmente, muito. As vicissitudes por que o país está a passar e os problemas internos da União Europeia para solucionar uma crise que, sem margem para dúvidas, afecta a sua moeda circulante, permitem pensar, com algum grau de probabilidade, que alguns países acabem mais tarde ou mais cedo por terem de sair do euro. Como se irá possivelmente processar essa acção? O Jornal de Negócios online avançou muito recentemente com um artigo em que referia os diversos passos que poderiam ocorrer quando e se Portugal saísse do euro. Transcrevo o que me parece ser relevante: "Depois de um anúncio de fronteiras controladas e de levantamentos de dinheiro igualmente controlados, com proibição de movimentos de capitais, quando os bancos reabrirem as notas de euros estarão carimbadas. Dirão que valem por escudos, se assim se chamar a nova moeda. Impede-se desta maneira que o dinheiro físico saia do país, enquanto se produz e e coloca em circulação notas da nova moeda. Concluída a produção dessa nova moeda, os portugueses trocam os "euro-escudos" por "escudos". O Banco de Portugal assume a política monetária e o país pode imprimir notas e moedas sem limitações. A estreia da nova moeda no mercado cambial seria marcada por uma desvalorização de grande dimensão, da ordem dos 50 por cento ou superior."
Como se pode constatar, a solução não é muito diferente daquela que os republicanos de 1910 adoptaram para o uso continuado dos selos da Monarquia. O pior é o resto.

12/08/2011

A minha rua continua a contar histórias

A minha rua, da qual tenho já aqui falado mais do que uma vez, poderia ser vista como um pedaço de estrada alcatroada com uns 300 metros de comprimento e com prédios dos dois lados. São os prédios que flanqueiam a estrada que a tornam "rua". No entanto, essa não será a grande diferença. Creio que esta reside principalmente no facto de que enquanto uma estrada tem viajantes, uma rua tem residentes. E são sempre as pessoas que mais contam.
Dela já aqui falei da existência de uma casa de gelados à moda antiga, das oficinas de automóveis e garagens que muitas vezes a entopem, de uma típica papelaria de bairro com gente simpática e de uma escola de ensino básico. Hoje permito-me informar que, infelizmente, a farmácia que aqui existia há várias décadas fechou as suas portas. Tratou-se de uma questão de negócio para o proprietário do alvará, não de falta de negócio.
Mas sendo as pessoas o que mais conta, forçoso é que eu volte a falar no Nolasco. O Nolasco não será má pessoa de todo, mas é decerto um sério candidato à classificação de "o indivíduo mais chato que conheço". Pegamasso. Vê-lo ao longe já significa um perigo. Se ele nos apanha ao virar da esquina, porém, sem termos tempo de sorrateiramente nos escaparmos para o passeio oposto, então podemos considerar fatal o ataque que o Nolasco desencadeia. Homem dos seus 70 anos, adora cultura. À sua maneira, entenda-se. Mas, principalmente, venera-se a si próprio. Costumava escrever artigos para o jornal da sua terra, o que possivelmente ainda hoje faz. Pois trazia sempre um desses artigos no bolso, dobrado com algum cuidado já que se tratava de propriedade sua. Quando me encontrava – possivelmente faria o mesmo com outros vizinhos - retirava do bolso o papel e começava a lê-lo, com trejeitos de voz e um arquear de sobrancelhas indagante "está a perceber?".
No mês passado estive fora durante os dias. Calhou mal para o Nolasco, que tinha voltado da terra com uma poesia nova, um canto louvando o local onde nasceu, algures na Beira. Tão pressuroso estava relativamente à exibição dos seus versos – oito quadras ao todo – que ousou bater à minha porta. Atendeu-o uma senhora que cá estava. Reconhecendo-o da rua, abriu-lhe a porta. Vinha entregar-me aquela sua nova composição. Na capa, via-se o castelo do torrão natal do Nolasco. Mas era lá dentro que estava o mel, as tais oito quadras. Como eu não estivesse, deu em mão o papel – uma folha A4 dobrada ao meio – para me ser entregue. Porém, de súbito ocorreu-lhe que estava ali uma potencial ouvinte das suas composições de vate inspirado. Zás, pespegou-lhe com os primeiros versos recitados como só ele sabe. A senhora disse-lhe polidamente que gostaria muito de ouvir o resto, mas que infelizmente não tinha tempo. Tinha as suas horas e o seu trabalho para fazer.
Quando regressei a Lisboa, encontrei os versos sobre a minha secretária. Li-os, naturalmente. Os versos são sinceros, estilo naïf. O poeta fala à sua terra como se de sua mãe se tratasse e narra para o leitor parte da sua história já antiga.
Foi só ontem que o Nolasco me encontrou. Eu estava sem escape possível. Como seria lógico, desfechou-me a pergunta sacramental: "Já leu?" Que sim, respondi. Acrescentei que tinha gostado e achado interessante. Ocorreu então aquilo com que eu nem sonhava: o Nolasco não só sabia os seus versos de cor, como num repente ele aí estava a cantar-mos em plena rua, como se de um fado de Coimbra tipo-Hilário se tratasse. Senti-me perdido. Iria ele cantar-me as oito quadras? Ali? Fiz um gesto com a mão e ele decidiu parar. Mas depois insistiu tanto, que ainda cantou a segunda quadra. Perante a minha surpresa pela cantoria, comentou "Então não viu que era A minha terra que eu canto?" Sim, tinha lido a palavra "canto", mas não imaginava…
Tenho algum temor, confesso, de que numa próxima vez o Nolasco me queira cantar as restantes seis quadras. Sentidamente, como só ele sabe.
De facto, a minha rua é bem diferente de uma estrada por onde apenas se passa. Adoro viver aqui.

12/05/2011

O nosso fado levanta a crista

À semelhança do que julgo ter sucedido a quase todos os portugueses, fiquei radiante com o muito aguardado reconhecimento que deram ao nosso fado como património imaterial da humanidade. Foi bonito e justo. Cá dentro e lá fora a canção que nos fala do destino e da saudade ("a presença da ausência"), de amores frustrados e paixões sentidas, e que abarca uma vasta gama de facetas da vida, passa a ser vista de outra forma. Comercialmente, este acto é também importante: trata-se de uma credencial validada por um órgão das Nações Unidas. Acresce que, dentro do actual ambiente de incerteza e depressão existente na sociedade portuguesa, este galardão veio em óptima altura.
Dito isto, questionemo-nos: por que razão surgem estas oportunidades? Porquê agora? Quais são os países mais interessados em verem aspectos ditos "imateriais" da sua cultura reconhecidos internacionalmente?
Estas questões parecem-me relevantes. A UNESCO já existe há imensos anos. Por que razão só começou em 2008 esta designação de Património Cultural Imaterial da Humanidade e de onde vem o interesse por esse reconhecimento?
Na minha resposta geral a este tipo de questões, admito que tudo me leva à globalização. Como já tem sido várias vezes referido neste blog, a globalização alterou, ou tentou alterar em muito o relacionamento no mundo. Ao considerarem o conceito de globalização mais relevante do que o propositadamente esquecido espírito de pátria, as nações dominantes têm-se entretido a realizar um jogo – o PIBismo - que não é inocente: como medida da importância dos países, comparam os respectivos PIBs com a facturação de grandes empresas multinacionais. De uma penada, privatizam assim a ideia de nação, que fica reduzida a aspectos meramente económicos. Facetas culturais, a existência de um património nacional e a já aludida noção de pátria são liminarmente ignoradas.
Como que a substituir a língua materna de cada indivíduo, as nações dominantes, nomeadamente as de língua inglesa, impõem o seu idioma. Os seus monoglotas governantes não têm que falar qualquer língua estrangeira; são os outros, todos eles, que terão de falar a sua língua.
Globalização e colonização andam de mãos dadas. Relativamente aos países mais poderosos, os outros tendem a ser vistos e tratados como colonizados. Quando antigamente os brancos portugueses e os brancos ingleses chegavam pela primeira vez de barco aos seus territórios coloniais, parecia-lhes que todos os nativos eram iguais. Praticamente indiferenciados. Só gradualmente é que alguns começaram a compreender que havia diferenças tão grandes entre eles como entre os brancos. Gente boa e gente má. Uns argutos, outros pouco inteligentes, uns carinhosos, outros rudes, uns falsos, outros tremendamente leais e sinceros.
É contra esta visão de um mundo pretensamente igual que muitas nações levantam a crista e cantam à maneira do galo as suas diferenças. Elas não são iguais a todas as outras. Têm as suas características próprias. Possuem uma identidade nacional, quer os poderosos queiram ou não queiram. É deste sentimento de revolta, creio eu, que nascem as candidaturas deste tipo. Contra as injustiças da globalização, as nações menos mediáticas pretendem um reconhecimento que seja igualmente global – através de um órgão representativo dos múltiplos países do mundo, como é a UNESCO.
Este ano, lado a lado com Portugal e o seu fado, estiveram, entre outros, os mariachi do México, a poesia ao desafio típica de Chipre, o teatro de sombras chinês, artes marciais da Coreia, canções da Croácia e rituais da Colômbia. A marcarem a diferença. Não competem entre si. Procuram apenas mostrar-se, exibir a sua especificidade própria perante um mundo que não pretendem ver estandardizado.
Curiosamente, as grandes potências de língua inglesa, v.g. Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Canadá, nem sequer ratificaram a convenção que sustenta a eleição para Património Imaterial da Humanidade. Não precisam. Entrar nestes domínios de características específicas até as faria perder a sua força total.
A terminar, alguns dados que retirei de uma notícia do Público: em 2009 houve 76 reconhecimentos oficiais, em 2010 foram aprovadas mais 47 candidaturas e este ano apenas 19, entre as quais a do nosso fado. Nesta luta pela identidade na era da globalização, viva o fado português!

12/02/2011

Cristianismo, marxismo e marktismo

Quando, há oito anos, um pequeno grupo de amigos pensou em criar este blog e dar-lhe um nome, achámos todos que "azweblog" poderia ser uma boa designação, na medida em que nos permitiria abordar assuntos de A a Z. É dentro deste amplo leque que hoje me proponho abordar de forma muito sucinta algo que terá certamente a ver com a sociedade dos nossos dias.

O cristianismo é, tal como o judaísmo e o islamismo, uma religião monoteísta que procura salvar o homem, impondo-lhe um conjunto de regras que o ajudem a viver melhor em sociedade. As religiões reconhecem que o ser humano é possuidor de uns tantos instintos básicos que precisam de ser combatidos a fim de permitir que a sociedade em que as pessoas vivem seja tão justa quanto possível e, principalmente, pacífica. O decálogo que encontramos para os judeus e para os cristãos abarca uma série de mandamentos que procura cercear o mau uso dos instintos humanos – a parte mais animal do homem, por assim dizer – a fim de proporcionar uma sociedade sem grandes problemas. No cristianismo ordena-se algo que considero bonito, embora perfeitamente utópico - "Amar o próximo como a nós mesmos." É imposto, por outro lado, todo um conjunto de "nãos", de que são exemplos os conhecidos "não matarás", "não roubarás", "não cobiçarás os bens do próximo", "não levantarás falsos testemunhos" e, ainda, "guardarás castidade nos teus pensamentos e desejos".
Por seu lado, uma oração fundamental dos cristãos, o Padre-Nosso, pede ao Senhor para perdoar os nossos pecados, "assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido".
Ora, diga-se o que se disser, todos estes mandamentos e ditames constituem uma violência para a natureza humana. Qualquer humano tem mais probabilidade de não respeitar um destes princípios e assim cometer pecados do que uma moeda atirada ao ar tem de ficar em pé.
Pessoalmente, como aliás digo acima, considero irrealista pretender que amemos o próximo tanto como a nós próprios. Se o que nos acompanha na rua é a nossa própria sombra e não a de outrem, se o sofrimento quando vem é sofrido por nós mesmos, como se poderá pretender que eu goste tanto do meu vizinho como gosto de mim mesmo? Só se me retorcer todo é que conseguirei cumprir este desígnio. Contudo, depois desse esforço titânico, é altamente provável que não responda por mim.
E como se poderá compreender que eu deva perdoar aos outros o mal que me fazem? Conhecendo a humanidade, se eu perdoar ao infractor, ele continuará a infringir as regras do bom-viver. Mais: se eu declarar previamente que lhe perdoo qualquer mal que ele faça, existem sérias probabilidades de ele não só continuar a cometer o mal como também de não sentir qualquer peso na sua consciência.
Se seguido à letra, o que o cristianismo preceitua é, pelo menos em minha opinião, muito contranatura, conquanto nos indique um caminho por assim dizer santificado e utopicamente desejável.
O cristianismo reconhece sete pecados mortais: a gula, a avareza, a luxúria, a ira, a inveja, a preguiça e a soberba ou vaidade. A gula é em princípio o desejo insaciável por comida e bebida, mas está também directamente relacionada com a cobiça, com o querer ter sempre mais e mais, o que a faz ligar à avareza ou ganância, que como todos sabemos demonstra um prazer excessivo por bem materiais. Os outros pecados capitais são, aliás como os anteriores, facilmente identificáveis, mas principalmente reconhecíveis como característicos do ser humano. Precisamos, em numerosos casos, de nos controlarmos firmemente ou nos "domesticarmos" para não incorrer neles. Fazem parte da nossa natureza, uns mais do que outros. A religião, e a educação que com ela vem, tenta denodadamente corrigi-los. Ainda que com bons propósitos, a sua acção corresponde a uma certa violentação de reacções nossas que consideraríamos normais e que assim nos esforçamos por reprimir.
Tanto o cristianismo como o marxismo – embora este seja não uma religião como o cristianismo mas sim uma doutrina política – advogam a justiça social. Karl Marx enraivece-se com a desigualdade social existente, manifesta-se contra a crueldade de uns possuírem muito enquanto outros passam fome e padecem de uma miséria atroz. Pretendeu criar um sistema que tornasse possível na Terra algo que o cristianismo messianicamente prenuncia e defende. Na base dos enunciados do marxismo reside uma exaltação do altruísmo e um sentimento profundo contra o egoísmo.
Inquirir se, quer o cristianismo, quer o marxismo genuínos são praticáveis é outra questão.É, porém, uma questão altamente relevante. O cristianismo e o marxismo apelam à natureza do homem, ao ser. É legítimo perguntar se ao ser humano bastará o ser. E onde fica o ter?
A pergunta tem toda a razão de existir, já que é um facto que ao comunismo se seguiu o consumismo. Passámos do ideal comunista à realidade consumista. Foi um compositor americano dos nossos dias quem enunciou bem a questão e de uma forma extremamente simples: "O comunismo não resulta, porque as pessoas gostam de ter coisas."
E é aqui que presentemente entra em grande força o marktismo. (Crio o neologismo utilizando como base a palavra alemã Markt (mercado) em vez do inglês market a fim de permitir uma sonoridade mais aproximada à de "marxismo", mas escrever "marketismo" é perfeitamente possível também.) Se o marxismo constitui, afinal, tal como o cristianismo, uma tentativa de controlo da besta humana que há dentro de nós, por seu lado o marktismo explora a libertação dessa bestialidade. Serve-se dos instintos menos controlados e mais ansiosos de prazer das pessoas para lhes apresentar uma doutrina aparentemente libertadora que é simultaneamente uma prática altamente lucrativa para os seus mentores. Com isto cria a evidente crise de valores de que muitos se queixam. É a política do vale-tudo. Enquanto cristianismo e marxismo aspiram a uma maior igualdade social, o marktismo combate-a, na medida em que a acha contranatura. Não só aceita a libertação do animal que está dentro de nós como a fomenta. Se aceita ajudar um pouco os mais pobres, fá-lo apenas como manta ilusória e por razões de conveniência social, para sua própria segurança.
Para o marktismo, o desemprego constitui apenas um fenómeno natural; o cumprimento de objectivos dos que desempenham um lugar numa empresa ou na administração pública transforma-se no objectivo número um. A acumulação de riqueza por uns poucos, que se tornam extraordinariamente poderosos em comparação com o que sucedia num passado ainda recente, isenta de julgamentos de valor esses mais poderosos porque a fortuna os torna "predestinados". Não consideram falta de ética mas sim um mero uso do seu poder o facto de manipularem a justiça e usarem os seus lobbies para conseguir legislação que os favoreça. Rotulam de invejosos os que os contestam. Eventualmente apodam-nos de "velhos do Restelo" também (em vez de rebaterem argumentos, atacam os mensageiros). O mundo é seu. O poder inebria-os. A globalização deu-lhes a volta à cabeça, os meios tecnológicos serviram-lhes às mil maravilhas para escapar a realidades que fariam reduzir os seus réditos.
O que daqui resulta é um extraordinário sentimento de revolta na população que fica de fora e que, pelos princípios actuais, é considerada “redundante”: os “indignados” manifestam-se exuberantemente, a maioria permanece silenciosa e igualmente receosa: revoltar-se contra o poder pode custar caro.
Não é impossível que este marktismo seja de longa duração – fazer previsões é quase sempre errar – mas não lhe auguro bons resultados. Onde prevalece actua ditatorialmente apesar de consentir umas tantas liberdades, entre elas a de voto, mas a farsa não pode durar sempre. Confiemos na revolta da humanidade contra o presente statu quo.

12/01/2011

Poesia de A a Z

Para a letra O, a dificílima tarefa de escolher apenas um poema de Alexandre O' Neill. Depois de grande hesitação, aqui fica o incontornável «Portugal»:


Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...


Alexandre O'Neill in Feira Cabisbaixa

11/23/2011

Democracia...

A bem dizer, já muito pouca gente em Portugal acredita numa democracia a sério, seja por estar contra o seu funcionamento, seja porque ainda crê que democracia consiste fundamentalmente no direito de colocar um voto numa urna.

Um exemplo bem frisante de como uma parte da democracia à portuguesa funciona chega-nos agora da Madeira – uma ilha que possui a qualidade de alguns políticos na proporção inversa da sua beleza natural: sob proposta do PSD, foi ontem aprovado na Assembleia Regional, com os votos contra de toda a oposição, que nas sessões plenárias “os votos de cada partido presente são contados como representando o universo de votos do respectivo partido ou grupo parlamentar.”

Segundo o jornal Público, o PSD, cuja maioria absoluta está presentemente assegurada por uma diferença de apenas dois deputados, garante assim que nenhuma proposta da oposição venha a ser aprovada quando tiver algumas ausências na sua bancada. Como garantia adicional, os sociais-democratas fizeram aprovar pela sua maioria uma alteração ao regulamento onde se estipula que o voto do presidente e demais membros da mesa “são contados como incluídos no partido a que pertencem”.

Esta é uma alteração que me lembra, por semelhança, uma reflexão que Arthur Koestler faz no seu livro O Zero e o Infinito sobre o comunismo na antiga União Soviética (cito de cor): “Um indivíduo corresponde à consciência de um milhão dividida por um milhão”.

E, por contraste, traz-me à memória uma outra citação, muito conhecida, desta vez do deputado britânico Edmund Burke (1729-1797): “Uma vez eleito, um deputado passa a representar mais a nação do que os cidadãos que o elegeram. Pertencer ao Parlamento de um país significa, acima de tudo, representar os interesses da Nação.”

11/18/2011

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11/15/2011

Poesia de A a Z

Para a letra N, uma poesia de Joaquim Namorado:


Legenda para a vida de um vagabundo

Nasci vagabundo em qualquer país,
minhas fronteiras são as do mundo.
Esta sina vem-me no sangue:
não me fartar! Um desejo morto,
mais de dez a matar.

O caminho é longo!…
— Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente…
E nunca o cansaço é tão grande
que um passo mais se não possa dar.

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

11/14/2011

Dívida pública e dívida privada

Porque o link abaixo, enviado por um amigo, me pareceu especialmente importante e esclarecedor sobre o tema em título, decidi partilhá-lo:

Clique aqui

11/01/2011

Poesia de A a Z

Para a letra M, um poema da autoria de Sidónio Muralha:


Se caráter custa caro, pago o preço.

Parar, não paro.
Esquecer,
esquecer não esqueço.
Se caráter custa caro,
pago o preço.
Pago, embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra
eu comparo à força do arremesso.
Um rio, só se for claro.
Correr sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro,
não paro, nem mereço.
E que ninguém me dê amparo,
nem me pergunte se padeço.
Não sou, nem serei avaro.
Se caráter custa caro,
pago o preço.

10/26/2011

A lição dos clássicos


Onde quer que se vá nesta cidade de Lisboa, independentemente das pessoas com quem se esteja, a crise estará presente nas conversas, na maneira triste dos olhares que nos fitam, na lamúria que escapa ao mais leve trejeito. Francamente, sinto-me cansado e, como eu, muitos dos meus concidadãos. Não admira que os últimos textos que escrevi para este blog tenham exactamente sido sobre a crise. Intoxicados nós todos, escrevemos ou falamos para nos desintoxicar – esquecendo que com isso estamos a contribuir para uma maior intoxicação de quem nos lê ou ouve.
É por ter consciência deste facto que me sinto hoje particularmente feliz por ter assistido a algo bem diferente e, sem dúvida, muitíssimo mais interessante do que todo o palavreado político.
O que foi? Em princípio, seria apenas mais uma conferência do ciclo "Antiguidade versus Contemporaneidade", que as Sugestões do João Miguel não deixaram de assinalar. Semanalmente, à terça-feira no ISCTE, tenho assistido a conferências sobre Arquitectura, Pintura e Cinema. Desta vez era sobre Literatura. Como professor que leccionou montes de anos e que portanto tem uma ideia do que é uma boa aula, eu daria uma nota muito próxima de 20 valores à Dra. Maria Cristina Pimentel, da Faculdade de Letras. A sua mais-valia começou pela escolha do material, que teve o cuidado de mandar fotocopiar para todos os presentes. Depois, continuou pela forma simples e alegre, entusiástica e entusiasmante, como o apresentou. Falar dos clássicos do mundo da literatura e ver como eles são ou foram transportados para o mundo actual pode ser fastidioso. Nos tempos que correm, de mil tecnologias, de imagens por tudo e por nada, falar com e para uma assistência desconhecida sem praticamente nenhum dos inúmeros gadgets existentes implica um certo risco mas mostra a segurança de quem sabe construir uma empatia com os presentes e domina o assunto com excelência. Falar-nos com vivacidade de obras de Homero, de Vergílio, de Tácito, das Metamorfoses de Ovídio, repescando com singeleza e extraordinária facilidade imensas histórias da mitologia grega e romana, proporcionou à assistência uns surpreendentes "momentos" (aparentemente breve, a aula-conversa durou quase duas horas, mas ninguém olhava para o relógio).
Qual era a declarada intenção da oradora? Mostrar aos seus ouvintes o quanto perdem em numerosos poetas portugueses que eles estejam a ler, de António Ferreira e Camões a Correia Garção e Bocage, de Miguel Torga e Sophia a Eugénio de Andrade e Fiama, de Manuel Alegre e Nuno Júdice a José Mário Silva e Pedro Mexia, se não conhecerem com razoável detalhe o mundo clássico.
Passámos por histórias como a de Píramo e Tisbe (o Romeu e Julieta da antiguidade), a tragédia de Cassandra e o drama não menor de Dido e Eneias, ouvimos falar da maçã que Páris deu a Vénus e que se prolongou até aos nossos dias como "o pomo da discórdia", voltámos ao sempre interessante mito de Narciso, fizemos um desvio para recordar o Minotauro e o fio de Ariadne ("o fio da meada"), relembrámos Orfeu e Eurídice, Apeles, pintor oficial de Alexandre Magno, o suplício de Sísifo, as sereias que originalmente eram metade-mulher e metade-ave (o canto das aves), etc. etc.
Cristina Pimentel tem toda a razão. Sem conhecer em detalhe a mitologia clássica não se captam muitas das referências dos nossos poetas e prosadores. Lemos, olhamos, mas não vemos. Permito-me fazer a transcrição de uma composição recente de José Mário Silva, incluída nas notas que nos foram dadas:

Está na cozinha, a sopa ao lume, os pratos na
mesa, talheres para dois, como se ele viesse. Hoje.
Ele não volta, anda embarcado há muitos anos num
navio com sal e ferrugem nos porões. Mas ela espera,
sabe que ele pode chegar a qualquer momento. Às
vezes espreita a telenovela ou as ervas a crescer junto
ao muro do quintal. No resto do tempo, faz e desfaz
o mesmo naperon, para enganar as horas, o frio,
a solidão e um corpo esquecido do que é o amor.

Que título deu o autor à sua composição? Penélope, Meio-Dia. Quem não tiver presente a aliás bem conhecida história de Penélope entenderá o porquê do título e a razão do fazer e desfazer o naperon?
Aliás, num outro exemplo famoso, como se poderá entender completamente o Ulysses, de James Joyce (1922), sem ter lido a Odisseia, com as referências a Calipso, a Circe, a Cila e Caríbdis, a Ítaca, etc. (O quadro acima é de Primaticcio e representa Ulisses e Penélope.)

Por mera coincidência estou presentemente a ler um livro de George Steiner, onde ele faz significativas referências aos clássicos. Diz coisas cheias de interesse: "Eu defino um clássico, seja na literatura, na música, nas artes ou na filosofia, como uma forma significante que nos lê. Lê-nos mais do que nós o lemos. (…) De cada vez que entramos nele, o clássico questiona-nos. (…) O clássico perguntar-nos-á: "compreendeste?", "estás preparado para agir sobre as transformações, sobre as possibilidades de uma outra existência, mais enriquecida, que eu formulei?" (…) Enquanto "o atributo da vulgaridade, da obra efémera é precisamente o de poder ser classificada e compreendida de uma vez por todas" "o clássico esquiva-se a qualquer decidibilidade definitiva."

Valeu muito a pena ter ido à conferência. Apreciei imenso a qualidade de uma óptima profissional do ensino. Transmitiu mensagem. Eficientemente.

10/20/2011

À guisa de resposta a uma pergunta

Um "convidado" não imediatamente identificável, o que para o caso nada importa, formulou recentemente uma pergunta, que muito agradeço, na área reservada aos comentários a um texto meu ("Paraísos fiscais & Cª Ilimitada") publicado em 6/10: "Mas será que a riqueza de uns tem mesmo que gerar a pobreza de tantos? ou será apenas possível "à custa" da pobreza de tantos?" A questão levantada é interessante e, dado que o espaço reservado para comentários e respectivas respostas acaba por ser muito reduzido, resolvi ensaiar uma resposta num novo post:


Embora não se trate de um mero jogo de palavras, dizer que a riqueza de uns tem de gerar a pobreza de tantos ou afirmar que a riqueza de uns tantos será apenas possível à custa da pobreza de muitos acaba por incluir conceitos e factos que não andam muito distantes uns dos outros. Em meu entender, a famosa frase do século XIX que nos fala da "exploração do homem pelo homem" contém muito de verdade.
O rico tende a colocar-se num pedestal muito superior ao dos outros, pelo que também a sua ética tende a não ser a ética comum. Nos Estados Unidos, país em que desde sempre existiu um número significativo de homens riquíssimos, ainda hoje os ricos conferem a si próprios um estatuto social diferente. No século XIX, as teorias de Darwin sobre a evolução das espécies serviram-lhes às mil maravilhas na combinação entre religião e filosofia que lhes foi oferecida pelo pensador inglês Herbert Spencer. Como seria previsível, Spencer teve muito mais eco nos Estados Unidos do que na própria Inglaterra. Ao aplicar as teorias de Charles Darwin à sociedade, Spencer colocou os ricos no topo de uma pirâmide – o darwinismo social -, o que foi subtilmente associado ao protestantismo calvinista: ser rico é a prova de que se está nas boas graças de Deus. Os ricos habituaram-se a considerar-se mortais-imortais, já que podem continuar a viver após a morte através das fundações que criam. Eles podem assim continuar a influenciar o mundo após a sua morte. Cheira a imortalidade!
Esta é, aliás, uma das mais importantes razões que explicam a existência de tantos mecenas nos Estados Unidos, ajudados por uma fiscalidade que naturalmente os beneficia.
Quando, devido às lutas liberais em Portugal, Almeida Garrett se viu forçado a abandonar a pátria e a exilar-se em Inglaterra, ele apercebeu-se bem do que era a exploração, por ele descrita nas suas Viagens na Minha Terra de forma contundente: "Andai, ganha-pães, andai: reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?"
Ou seja: segundo Garrett, os ricos geram pobreza e vivem à custa dos pobres. Nos países nórdicos da Europa, como se pode ver através do índice de Gini e dados estatísticos de diversa ordem, existe uma maior igualdade e uma consciência social que impede a existência das percentagens elevadas de pobres que se vêem noutros países ditos desenvolvidos. Os religiosos desses países acreditam num Deus justo e justiceiro. Em inglês bíblico diz-se God giveth, and God taketh away; em Portugal, país católico, o que se ouve frequentemente é algo muito diferente: "Quem dá e torna a tirar, ao inferno vai parar".

Constatamos aqui a existência de duas atitudes diferentes perante a vida e perante Deus. Do Deus justiceiro dos países protestantes, que pode dar mas depois pode igualmente tirar se a pessoa não se mostrar, através do seu comportamento, à altura do que lhe foi concedido, passamos por assim dizer à mentalidade dos direitos adquiridos para sempre. Quanto ao papel do Deus católico, quero crer que ele é, por assim dizer, visto como o de um passa-culpas, que perdoa através da confissão feita por um representante seu na Terra – um padre - os pecados que vão sendo cometidos pelos humanos. Daqui derivam duas atitudes bem distintas: uma maior responsabilização do lado protestante, com a consciência de cada um a desempenhar um papel importante; e, do lado católico, uma francamente maior desresponsabilização e um facilitismo mais abrangente. Estamos assim em presença (aqui simplificada) de dois modos de ver o mundo, que depois se reflectem substancialmente no comportamento, na produtividade do trabalho, na iniciativa e inovação e até na honestidade das pessoas para com os seus concidadãos.
Vejamos ainda um outro aspecto nada despiciendo: os media. Eles constituem um verdadeiro poder, como todos sabemos. Influenciam iniludivelmente a opinião pública. Manipulam notícias e não raramente oferecem informações e visões truncadas daquilo que se passa. De governo para governo em países que respeitem eleições democráticas, os meios de comunicação social regra geral mantêm-se. Ora, para que uma revolução dos mais fracos tenha sucesso, algo que é fundamental é o domínio imediato dos órgãos de comunicação. Se os media continuam nas mãos dos ricos, que são os seus habituais proprietários, a revolução acaba mais tarde ou mais cedo por soçobrar.
Para continuarmos um pouco mais este arrazoado, onde de resto caberia este mundo e o outro, veja-se o caso actual dos Estados Unidos, conforme analisado no artigo da Time por Jeffrey D. Sachs, com a exploração que os ricos vêm fazendo do restante da população. Com uma pitada de óbvio exagero, a sociedade americana presentemente em revolta (os Occupy Wall Street, por exemplo, que já tem mais adeptos do que o Tea Party) adoptou um determinado número: o 99. Representa 99 por cento. Porquê? Porque simbolicamente deixa 1 por cento para os ricos e vê que eles mesmo assim dominam a sociedade dado que a diferença material entre ambas as partes é abissal.
Por mero acaso, o último número da mencionada Time, publicação que é propriedade maioritária de pessoas ricas e influentes dos Estados Unidos, traz na capa em grandes letras o seguinte título: Why the U.S. will never save Afghanistan. As perguntas que um europeu normal colocará são relativamente simples: "E porque é que os Estados Unidos deveriam salvar o Afeganistão? Será que o Afeganistão pediu para ser salvo? E salvo de quê? Não estaremos a ver nos Estados Unidos apenas a aplicação do clássico conceito germânico do Lebensraum, i.e. espaço vital, que "força" os Estados Unidos a aumentar o espaço que possuem na América para apanhar grande parte do mundo? A chamada globalização não será a expressão prática desse conceito e desejo?"
E por que razão sentem os Estados Unidos que devem ser os salvadores do mundo, incluindo naturalmente o Afeganistão? Porque eles são a Nova Jerusalém, o país do Superhomem, do Rambo, do Batman, heróis de ficção que poderão ter tido as suas primeiras grandes aventuras dentro do espaço norte-americano, mas que há muito passaram para Paris, para a Ásia e para todos os locais que para eles sejam fonte de injustiça, i.e. não partilhem das ideias queridas à parcela abastada e mais influente da sociedade americana. São heróis que vão na senda desse outro mais antigo herói Tarzan, símbolo da "indiscutível" superioridade do homem branco na África negra.
Na verdade, existe uma diferença substancial entre explorar o território nacional, embora este território seja enorme no caso dos Estados Unidos, e explorar todo o mundo. A alegação feita pelos ricos através dos seus lobbies mediáticos é a oposta à noção de exploração, como seria de prever: contrariamente aos que pensam que a América está a explorar pessoas, ela está a salvar milhões de pobres da pobreza extrema.
Na realidade, ao colocarem a salvo muitos dos seus lucros em fundos geridos por companhias offshore que baralham os fiscos nacionais, os ricos descapitalizam os Estados em que nasceram e com isso contribuem grandemente para afundar os seus países, i.e. acabam por gerar mais pobres. A ética neste caso preocupa-os pouco, porque a sua classe está à parte de todas as outras e não tem que respeitar os tribunais normais. A sua justiça especial é divina. É que eles estão nas boas graças de Deus, como a sua fortuna comprovadamente atesta.
Ora, o que torna dificilmente suportável o comportamento ou porte dos ricos é o facto de eles se auto-alcandorarem a um patamar que os isenta do cumprimento de obrigações, legais mas também éticas, que são em princípio válidas para todos os membros da sociedade. Através do seu poder material, financiam partidos, colocam nos governos homens e mulheres da sua cor, navegam praticamente em quaisquer águas. Financiam o oceano em que os seus barcos singram, exactamente para com isso conseguirem que a sua fortuna e poder aumentem e, com isso, cresça a décalage que nas suas mentes existe relativamente ao cidadão médio.
Ora, isto que é afinal de todos os tempos, está presentemente a chegar a um extremo tal que perverte de maneira quase insanável a própria democracia e acaba, pela sua crueldade, por minar toda a sociedade. A livre expressão que hoje se vive por meio da Internet permite, por um lado, dar voz a sentimentos que de outra forma ficariam apenas contidos no íntimo das pessoas; mas, por outro, fornece dados que possibilitam a avaliação do grau de revolta que invade uma camada substancialmente representativa da população.
O clássico slogan americano dos anos 70 – "Os pobres não estão contra os ricos. Querem apenas ser tão ricos como eles" – foi uma mensagem inteligente num país capitalista como os Estados Unidos. Transformar a riqueza em desígnio de vida constitui sempre um contra-argumento de peso para todos aqueles que a odeiam. Além disso, combate a inveja, transferindo o ónus para os pobres e ilibando os possuidores de grandes fortunas. Contudo, hoje em dia, é uma mensagem que já não pega, da mesma forma que muitos anúncios publicitários das décadas de 60, 70, e mesmo 80 ou 90 do século passado são presentemente já irrepetíveis e teriam possivelmente um efeito de boomerang.
A sociedade está em grande transformação. Em minha opinião, faz cada vez mais sentido um aviso que o católico e inteligente António Guterres nos deixou há uns anos: "Os ricos devem tratar dos pobres, para que não sejam os pobres a tratar dos ricos."

10/16/2011

Poesia de A a Z

Para a letra L, a dificuldade da escolha entre os lindíssimos poemas da poetisa angolana Alda Lara. Como possivelmente recordarão, este "Testamento" foi cantado por Teresa Tarouca.


TESTAMENTO

À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu Amor...

Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...

10/15/2011

É fácil, é seguro, e dá milhões

Quase quarenta anos depois da Revolução de Abril, da esperança, da liberdade e dos cravos floridos, eis que surge a Revolução do Cravo Murcho. Está a ocorrer neste momento.
Quando, anteontem, o Primeiro-Ministro foi ler aos microfones da televisão e da rádio um comunicado relativo às linhas gerais a seguir no Orçamento para 2012, muitas pessoas aguardavam com ansiedade as medidas que o Governo iria tomar. Onde se iria cortar nas gorduras do Estado, tópico que o próprio PM tinha referido ainda como membro da oposição, era a expectativa número um. Milhares de portugueses que trocam entre si mails através da Internet tinham já expressado as suas preferências: organismos públicos que ninguém percebe para o que servem a não ser para receberem filiados em partidos, frotas de automóveis topo de gama a que políticos e determinados juízes têm direito, escandalosos pagamentos extra por serviços, fundações largamente subsidiadas pelo Estado, etc. Cortar na despesa e na consequente eliminação de gorduras seria aqui. E se não fosse?
Não foi. O ponto de vista do Governo não é necessariamente o do cidadão comum. Numa acção desta ordem, o Governo actuou de uma forma que me lembrou a guerra colonial em que participei. Durante esse período verifiquei amiúde que os guerrilheiros nossos inimigos nunca escolhiam sítios planos, nos quais tenderiam a perder no confronto. Eram sempre pequenas colinas que lhes serviam de local para lançar os seus ataques. Essas pequenas colinas serviam-lhes um propósito triplo:

1. O alvo que buscavam – as nossas tropas – era fácil de atingir.
2. O ataque era seguro, uma vez que podiam fugir pela contra-encosta e embrenhar-se na mata.
3. Quanto à eficácia, essa dependia da pontaria dos atiradores.

Não foi mais do que estes mesmos princípios que o Governo português usou no Orçamento para 2012: facilidade, segurança, eficácia. Ao concentrar o seu objectivo no funcionalismo público e nos pensionistas – aí incluindo também os da Segurança Social e não só os da Caixa Geral de Aposentações -, o Governo está na sua coutada. Tanto os pagamentos aos funcionários no activo como aos pensionistas dependem dele. É fácil atirar sobre este alvo, composto na sua esmagadora maioria por sitting ducks.
A segurança é total, ou quase. Só as forças militares e para-militares podem organizar manifestações de protesto, mas ao procurarem ficar de fora das medidas de sacrifício que também lhes são exigidas acabarão por sobressair como reclamantes de privilégios, o que não cairá nada bem junto de todos os restantes que são sacrificados.
E quanto a eficácia, estamos conversados. O Estado poupa, do lado da despesa e sem cobrar impostos, uma grossa maquia, superior a 3 biliões de euros. É que haverá aproximadamente 950 mil portugueses que ficarão em 2012 e 2013 (e depois?) sem o 13º e o 14º mês na totalidade; a acrescentar a estes, há cerca de 500 mil que sofrerão em média cortes parciais na ordem dos 50 por cento. Os funcionários públicos no activo serão ainda afectados por um corte médio de 5% nos seus salários. Para quem ganha acima de 1000 euros, o corte nos seus vencimentos anuais ascende a 14,2%.
Neste blog falou-se várias vezes na impossibilidade de desvalorização da moeda. Antigamente, com o escudo, era prática corrente proceder-se a desvalorizações. A desvalorização ajudava a competitividade das empresas e do Estado em matéria de exportações e de turismo, facto que era largamente propagandeado pelos serviços públicos. O extraordinário destas desvalorizações era o facto de elas provocarem muito poucas ondas, embora o seu impacto fosse enorme nos produtos importados e, consequentemente, nos preços. Uma das razões, creio, era o facto de que as desvalorizações atingiam a todos aparentemente por igual: os escudos do juiz e do político passavam a valer menos, tal como os escudos do operário. Se o político ou o juiz possuíam fundos noutras moedas, isso não era do domínio público.
Como é óbvio, as pensões de reforma eram igualmente atingidas. Isso mesmo sabiam os governantes, que por vezes elevavam os vencimentos dos funcionários públicos – sempre uma grande massa de eleitores – antes das eleições, baixando-os alguns meses depois através da desvalorização da moeda. Ora, como presentemente o Estado não podia fazer isso, estava a braços com um problema sério: o peso das reformas não só se mantinha, como aumentava devido ao número sempre crescente de reformados. Já agora: nos anos de 1977 e de 1983, a desvalorização que o escudo sofreu cifrou-se respectivamente em 15 e 14 por cento. Não será que os 14, 2% agora registados estão dentro dos mesmos parâmetros?
Para finalizar, perguntar-se-á: e os ricos? Porque ficam eles de fora? Bem, lembremo-nos da história dos guerrilheiros africanos e dos seus princípios básicos: facilidade, segurança e eficácia. Os ricos têm o seu dinheiro a bom recato, longe da vista dos guerrilheiros e demasiado envolvido em engenhosas manobras de manipulações monetárias em offshores para que seja fácil chegar lá. Logo…
E quanto aos Amorins, os Belmiros e os Soares dos Santos? Os dois últimos, ligados ao comércio de produtos alimentares, não se cansam de exaltar em anúncios publicitários a sua patriótica escolha de produtos portugueses de qualidade. Porém, como as taxas fiscais são substancialmente mais baixas em determinados países europeus, como a Holanda e a Irlanda, é nesses países que pagam os seus impostos, obviamente descapitalizando o Estado português e beneficiando os seus homónimos estrangeiros. Como diz o anúncio do Pingo Doce: "Sabe bem pagar tão pouco!" Apetece-me parafrasear Fernando Pessoa, e espero que ele me perdoe: "Meu dinheiro é a minha pátria."

10/13/2011

Quando um olho vale por mil

"Olho por olho" é uma velha referência da bíblia judaica, que tem a ver com o sentido de justiça: o ofendido deve ter direito a uma compensação idêntica à natureza da ofensa que sofreu. É a pena de talião. Relativamente às relações entre israelitas e palestinianos, temos assistido nas últimas décadas a uma supremacia tão díspar dos israelitas, seja a nível militar, seja em termos económicos e outros, que qualquer ofensiva dos israelitas tem causado muitas mortes mais e destruição de casas entre os palestinianos do que o inverso.
É neste sentido que em certa medida se estranha agora o anúncio de um acordo sobre troca de prisioneiros entre Israel e o Hamas para devolver a liberdade ao soldado israelita Gilad Shalit, que foi capturado por um comando palestiniano há mais de cinco anos – em Junho de 2006 - e que Israel não conseguiu, apesar de várias tentativas, recuperar até agora. Entretanto, a libertação de Shalit tornou-se uma causa nacional em Israel.
Em troca, vão ser libertados das prisões israelitas 1027 palestinianos (1000 homens e 27 mulheres). Os prisioneiros serão soltos em duas tranches: na primeira chegarão à Palestina 450; os restantes sairão dentro de aproximadamente dois meses. Como continuarão palestinianos nas prisões de Israel e só o soldado Shalit é reclamado, ficamos a saber que detidos israelitas em território palestiniano não existem, enquanto actualmente é bem superior a um milhar o número de prisioneiros palestinianos em Israel.
Entretanto, tendo por fundo o que se tem passado com o pedido à ONU do reconhecimento do Estado palestiniano, agora já sem o apoio declarado de Obama e com a direita israelita a condenar vivamente o acordo – "Os jovens palestinianos aprendem que podem matar judeus e ser libertados por via de uma negociata" – fiquemos atentos aos acontecimentos que provavelmente se vão seguir.

10/06/2011

Paraísos fiscais & Cª Ilimitada

Traduzo livremente do último número da revista TIME a introdução a um artigo intitulado Why America must revive its middle class:

"A América foi outrora a grande sociedade da classe média. Presentemente, está dividida entre ricos e pobres e conta com a maior desigualdade entre os países democráticos mais desenvolvidos. Um por cento das suas famílias mais ricas são detentoras de quase um quarto do rendimento de todas as famílias americanas – uma percentagem que não se via nos Estados Unidos desde a Grande Depressão de 1929. Uma economia assim tão desequilibrada não pode prosperar. Os pobres e as classes trabalhadoras estão esmagados. Os ricos estão cada vez mais desprendidos dos problemas do país. As suas empresas vendem produtos e externalizam empregos na China; as suas residências erguem-se atrás de muros altos; muitos dos seus lucros empresariais ficam domiciliados em paraísos fiscais."

O autor, Jeffrey D. Sachs, autor de um livro recente intitulado The Price of Civilization, é director do Instituto da Terra da Universidade de Colúmbia e conselheiro especial do Secretário-Geral das Nações Unidas.

Nada há de verdadeiramente novo nesta análise feita por J. D. Sachs, mas tenho de considerá-la uma síntese muito conseguida. A globalização, a deslocalização dos empregos para países asiáticos e a retenção de grande parte dos lucros em offshores tinham necessariamente de causar desemprego no Ocidente e consequente empobrecimento das populações. Refira-se que foi em 1973 que os salários médios americanos atingiram o seu nível mais elevado. Daí para cá têm vindo gradualmente a baixar, embora os vencimentos dos CEOs das grandes empresas, eles que trataram dos despedimentos, tenham aumentado muito. E quanto à colecta de impostos pelo Estado norte-americano, ninguém estranhará que ela tenha diminuído. Os paraísos fiscais, esses centros que são verdadeiros cancros da democracia, fizeram, entre outras coisas, com que presentemente o rácio colecta fiscal dos EUA / Produto Interno Bruto se situe muito abaixo do da Dinamarca, da Itália, Bélgica, Finlândia, Áustria, França, Noruega, Alemanha, etc. e mais sete países, entre eles a Espanha e a Irlanda. O clássico ideal americano de "rico e virtuoso" anda pelas ruas da amargura.

Neste brevíssimo apontamento, não posso deixar de mencionar aqui no blog o recentíssimo lançamento do livro Suite 605, da autoria de João Pedro Martins. É uma obra de investigação sobre o offshore da Madeira, mas vai muito além da análise daquilo que se passa nessa parcela do território nacional. A não perder por quem se interessa por este tipo de temas. É muito actual, com múltiplos dados e referências ao ano em que estamos, 2011.

10/04/2011

Mar calmo



Embora não seja amante do calor e prefira o fresco, acho que concordo com todos aqueles que se queixaram este ano de um Agosto pouco veraneoso. Mesmo os que rumaram ao Algarve lamentaram um tempo pouco consentâneo com a fama que o mês de Agosto ostenta.
Eis senão quando, Setembro surgiu mascarado de Agosto e brindou-nos com temperaturas inesperadas. O que é mais: Outubro prossegue na mesma senda. Temperaturas acima dos 30 º C têm sido perfeitamente comuns. Como ainda por cima não tem havido vento, quem vive na costa ou lá vai passar uns fins-de-semana consegue desfrutar de manhãs, tardes e noites de sonho, calmas e quentes.
A minha surpresa foi grande quando há dias, na praia que frequento desde miúdo e onde o mar, tipicamente Oceano Atlântico de ondas altas e fortes, me mandou muitas vezes de volta para terra verdadeiramente de escantilhão e me fez inadvertidamente beber uns tantos pirolitos bem salgados e não solicitados, encontrei aquela imensa massa de água literalmente como se tivesse sido passada a ferro. Dois homens faziam calmamente aquilo que eu suponho ser paddling, de pé sobre as não-ondas, gozando as delícias de um fim-de-tarde que é outonal apenas pelo calendário.
A memória levou-me num ápice até à imagem de um rio de Angola que conheci bem, o Cuanza, onde os indígenas ximbicavam de pé, dentro das suas canoas. A grande diferença entre os dois locais, pareceu-me na altura, era que, ao contrário do rio, o mar não tem margens que o encaixem. Praticamente sem limites e com aquela calmaria toda mesmo depois das habituais marés vivas de Setembro!

9/28/2011

Dever de lealdade, a quem?

Durante vários anos leccionei inglês em cursos de Secretariado. A preparação de jovens para trabalhar em empresas foi na generalidade bastante interessante. Por vezes, no ano final do curso eu criava algumas situações a nível empresarial em que se tornava necessário tomar uma posição. Questões de ética, afinal. Concretamente a propósito de lealdade, perante um determinado facto ocorrido e do nosso conhecimento, colocava-se uma pergunta no final: para onde vai a nossa primeira lealdade? Para o colega ou colegas, para o nosso superior imediato, ou para a empresa? Dependendo do caso, criava-se uma discussão acesa, com as opiniões a dividirem-se. A discussão acesa interessava-me particularmente não só como professor de línguas mas também como fonte de conhecimento mais aprofundado das pessoas que estavam à minha frente. Por um lado, não somos todos iguais, por outro, não existe um posicionamento que se aplique universalmente.
A não ser que... A não ser que deixemos que seja a nossa consciência a funcionar. Aí, falamos com total franqueza e explicitamos a nossa opinião. Tem o inconveniente de poder trazer consequências pouco agradáveis para nós; por outro lado, pode grangear-nos o respeito da maioria. Mesmo se respeitarmos a nossa consciência, podemos estabelecer o nosso posicionamento apenas para nós próprios e não emitir nenhuma opinião. É uma atitude algo cinzenta mas eventualmente sensata. Se falarmos incontidamente, poderemos errar por falta de dados confirmados; além disso, há sempre diferentes interpretações possíveis.
No geral, embora dependendo de casos concretos, tenho pessoalmente a tendência para defender mais aquilo que considero ser a verdade, seja ela louvável ou reprovável. Significa isto que eu não defenderia um colega se ele fosse acusado e eu considerasse a acusação justa? Sim, isso mesmo. Mas o mesmo faria relativamente a um superior. Adulterar ou esconder aquilo que para mim era a verdade nunca me agradou nem foi o caminho que segui, conquanto nalguns casos tivesse tido o cuidado de revelar essa verdade apenas a quem era importante que estivesse bem informado.
A empresa ou instituição, a sociedade como um todo e a educação como instrumento constituíram sempre o fiel da minha balança. Sendo a atitude de muitos, está longe de ser a mentalidade habitual, que é mais de passa-culpas. O "coitado!", "o que lhe sucedeu a ele também poderia suceder a qualquer um de nós", "ele é um dos nossos, não podemos consentir que seja castigado!" são coisas que pessoalmente me arrepiam. E porquê? Porque não é o facto de alguém pertencer ao meu clube, ao meu partido, ou à minha empresa que me deve levar a defendê-lo; aquilo que tenho que julgar é o seu comportamento. Se prejudicou a empresa para a qual trabalho, merece ser punido – mais ou menos ligeiramente. Se vou entrar pela senda do "coitadinho" e da "caridade solidária", estou a pactuar com uma acção indevida e merecedora de punição. Se essa acção não for punida, nem que seja com uma mera advertência, cria-se um precedente, o tal que, ao existir, passa por vezes a ser mais importante do que o presidente. Quando não se pune por simpatias pessoais, por clubismo ou por partidarite política, entra-se sem querer na corrupção e num género de corporativismo. A corrupção rói por dentro, corrói. O corporativismo é o grande cancro da democracia.
Factos são factos, doa a quem doer? Ou não? Amigos, amigos, negócios à parte? Ou não? Actuar segundo a nossa consciência ou segundo a nossa conveniência? Não é exactamente a mesma coisa!
Considerem-se os casos do Presidente do Governo Regional da Madeira, dos vários responsáveis mormente do PSD envolvidos no enorme escândalo do BPN, os casos de claro suborno e fraude que têm envolvido elementos de vários clubes e partidos ligados ao desporto, ao comércio, ao mundo empresarial – todos sem castigo visível e público. São obviamente casos de comportamento anti-democrático, em que as pessoas violam a sua consciência para não faltarem à lealdade devida à instituição ou empresa, à maçonaria, ao Opus Dei, ao Partido em que estão filiados. Será que a nação não entende isso bem? Mais do que bem, de facto. Daí vem o descrédito e, com ele, o descambar económico e financeiro. Pensemos um pouco nisto quando nos quisermos comparar com alguns países bem mais honestos, mais desenvolvidos e mais igualitários, do resto da Europa. E olhemos para Portugal do ponto de vista daqueles países que não hesitam em colocar ministros e primeiro-ministros em tribunal. Ter a coragem para enfrentar a verdade é essencial.

9/25/2011

Poesia de A a Z

Para a letra K, um poema do moçambicano Rui Knopfli:

O MONHÉ DAS COBRAS
Manhã gloriosa, imobilizada na distância,
no extremo da caixa de areia branca
onde, agachado, anónimo e ascético,
envolto em alvos panos e silêncio,
está. O pudvém cobre-lhe o escroto

e sobraça-lhe as pernas magras e finas
de esquálido aracnídeo. No topo o turbante
e a barba anciã oscilam na brisa matinal.
Principia, então, a enfeitiçar o dia,
com exactos gestos rituais. Ergue-se,

por fim, plangente e implorativo,
o sinuoso som, para revelar, em
lentos arabescos, os assombros guardados
no sábio cesto de vime. Obedientes,
as cobras capelo encenam, à maneira,

seu acto, a coberto da enganosa pintura.
Húmidas, dardejam ao sol, rápidas,
coruscantes e fatais línguas bífidas.
Nós, meninos, paralisados de medo
e espanto. A esteira irá perder-se

no longe da areia, gasto tapete voador
voando imóvel no céu profundo
da imaginação. Privilegiado observador
desta vigília acesa debruando já,
de mansinho, as margens do sono.

9/21/2011

Pobreza nos Estados Unidos

Falar de pobreza no mundo é algo perfeitamente comum. Infelizmente. Mas falar de pobreza nos Estados Unidos da América, país que é geralmente considerado o mais rico do mundo, é relativamente raro. O American Dream, que se sente claramente fraquejar em numerosos domínios, leva-nos a caminhos de livre iniciativa, de subida a pulso na vida, de invenções bem sucedidas, de riqueza de um dia para o outro, mas geralmente não nos fala de pobreza.
Agora é oficial que existem mais de 15 por cento de americanos a viverem abaixo da linha de pobreza. Numa população que, segundo o censo de 2010, atingiu 308 milhões, isto significa algo como 46 milhões, i.e., comparativamente, mais de quatro vezes o total da população portuguesa a viver na situação de pobreza. A notícia, oficial, é que esta é a pior situação da população americana desde 1959, ano em que se iniciou a recolha de dados estatísticos sobre a pobreza nos EUA.
Para uma família composta por quatro pessoas, isto significa viver com cerca de 22 mil dólares por ano, quantia que grosso modo corresponde a 16 mil euros. Fazendo as contas, isto dá qualquer coisa com 300 e tal euros por cabeça e por mês. Imagine-se o que significa ter mais do quádruplo da população portuguesa a viver nestas condições num país como a América.
Como um interessante artigo da autoria de Rana Foroohar – vice-directora da revista TIME - assinala, esta crise de pobreza surge em parte devido à outra grande crise com que os Estados Unidos se debatem: o desemprego. Ora, o caminho mais rápido para a pobreza é bem conhecido: a perca de emprego. O que se constata nos Estados Unidos é que esta não é uma crise passageira nem nova. Quando à recessão do ano 2000 se seguiu uma recuperação da economia, os níveis de pobreza não desceram, como seria normal que acontecesse. É que o ponto de viragem não se situa aí, mas sim no legado de duas décadas anteriores de hiperglobalização, quando dezenas de milhar de empregos de salários médios se perderam devido à externalização de serviços – para a China, Índia, Indonésia, etc. – ou foram substituídos por novas tecnologias. Foi nessa altura, com um claro excesso de pessoas à procura de emprego nos EUA, que os salários se foram gradualmente reduzindo. Aquilo que um operário médio leva hoje para casa como rendimento real do seu trabalho fica abaixo do nível dos salários de 1964!
Parcialmente em resultado desta situação, o grau de mobilidade dos americanos desceu muito. Ainda me recordo do número 18. Era o número médio de endereços diferentes que o americano tinha em toda a sua vida. Eu comparava com o que sucedia em Portugal e ficava abismado: conhecia variadíssimas pessoas que viviam na mesma casa toda a vida e que consideravam isso perfeitamente normal. Outras mudavam só quando casavam, e por esse segundo endereço se quedavam. A mobilidade não era realmente a grande característica da sociedade portuguesa, nem mesmo, deve dizer-se, entre os funcionários públicos, embora nestes fosse superior.
Ora, o curioso nos Estados Unidos e que o censo do ano passado revelou é que, como consequência da situação de carência de meios para pagar à banca as prestações da casa que tinham contratualmente adquirido, problema ao qual se juntou a perda do emprego, houve cerca de três milhões de pessoas que por absoluta carência voltaram a habitar a casa dos seus pais. Se contabilizados, eles elevariam para quase 50 milhões o número de americanos que se encontram abaixo do limiar da pobreza.
Dado que, desde a década de 90 do século passado, o crescimento do emprego nos Estados Unidos se situou principalmente no sector público e concretamente no da educação, sectores que entretanto sofreram severos cortes devido à crise, a questão agravou-se na comparação que surge naturalmente entre os beneficiários de direitos antigos (a geração dos baby-boomers) e as actuais gerações, que não só se sentem desprotegidas socialmente com vêem fracas perspectivas à sua frente. A hipótese de conflitos geracionais não pode ser arredada. Entretanto, mais arredado fica o Sonho Americano. Infelizmente também.

9/19/2011

Clubismo e nacionalismo

Como todos sabemos, as mudanças que têm ocorrido na sociedade nas últimas décadas não são de pequena monta. Este blogue tem-se debruçado sobre alguns desses aspectos. Nessa mesma linha, entremos hoje um pouco no mundo do futebol.
Em Inglaterra, no jogo que se disputou no passado sábado entre o Arsenal e o Blackburn Rovers, o Arsenal entrou em campo com onze titulares estrangeiros. Não havia um único inglês na equipa! Recordemos que o futebol nasceu no Reino Unido, onde aliás continua a desfrutar de grande popularidade.
Também há poucos dias, no jogo entre o Manchester United e o Benfica disputado no Estádio da Luz, Lisboa, Portugal, foi só quando, durante a segunda parte, Nani entrou em campo para substituir um colega seu que tivemos no relvado o único português entre os 22 jogadores. Já agora, ele jogava pela equipa estrangeira.
Uma vez que falei do Benfica, permito-me recordar que um dos grandes orgulhos da equipa benfiquista foi durante muitos anos o facto de não utilizar qualquer jogador estrangeiro. A equipa englobava então muitos futebolistas do Ultramar português, dos quais Eusébio e Coluna foram possivelmente os expoentes máximos, mas constituía um ponto de honra para o clube ter apenas jogadores portugueses. Foi apenas na época de 1979/80, portanto já depois da revolução de Abril, que o primeiro estrangeiro ingressou no futebol do Benfica. Era brasileiro e chamava-se Jorge Gomes. Quebrara-se o tabu.
Anteriormente, não podemos esquecer que quando Eusébio foi aliciado por equipas estrangeiras devido às suas excelentes exibições, o Estado português não consentiu que ele fosse vendido. Eusébio era um símbolo demasiado importante do Ultramar português, então em plena guerra, para que isso pudesse suceder.
Hoje, com o lema do mundo laboral a repetir constantemente que não existem empregos para toda a vida, aceita-se e recomenda-se a mobilidade. E essa mobilidade, ajudada por legislação que lhe é francamente favorável, traduz-se por exemplo no facto de a equipa do campeão nacional – o FC Porto – jogar quase sempre com um número de estrangeiros que é muito superior à dos jogadores portugueses. O mesmo acontece nas equipas mais endinheiradas, como a do Sporting.
A questão da mobilidade faz com que existam hoje jogadores que envergaram durante a sua vida desportiva camisolas tão diferentes como as do Porto, Sporting, Benfica e Belenenses, além de terem jogado por outras equipa. A juntar-se à mobilidade vem a competitividade, que é hoje muito superior à de antigamente. Qualquer treinador que se preze diz hoje, com grande sentido de autoridade, que ninguém na equipa tem lugar cativo. Jogador que não jogue bem, apesar de ser normalmente um dos mais bem pagos, poderá não alinhar no encontro seguinte. Não era costume depararmo-nos com este tipo de competitividade na sociedade portuguesa de antigamente.
Aquilo a que se costuma chamar “amor à camisola” continua parcialmente a existir, mas muitas vezes é mais frase que sai da boca para fora aos microfones de qualquer televisão ou rádio do que um forte sentimento. O mesmo jogador que depois de marcar um golo coloca tipicamente a sua mão sobre o emblema que ostenta na camisola para mostrar à assistência o seu clubismo não recusará na semana seguinte uma oferta tentadora que lhe façam de um clube grande estrangeiro. O dinheiro conta muito mais do que todo o resto.
Como seria previsível, não é só para o jogador que essa mais-valia conta, mas também para o clube. Na realidade, os clubes mais abastados transformaram-se em iniludíveis entrepostos comerciais, que negoceiam os seus jogadores a troco de quantias fabulosas. Em flagrante contraste com o que sucedia no passado – e não pretendo fazer aqui qualquer juizo de valor relativamente à superioridade de um modelo sobre o outro - o jogador possui hoje um empresário que trata dos detalhes dos contratos, embolsando naturalmente para si uma determinada percentagem da verba contratada na venda.
Como todos sabemos, há jogadores com ganhos astronómicos. Aos seus ordenados muito elevados, eles juntam significativas verbas de publicidade. Por seu lado, o departamento de marketing dos clubes mais conhecidos a nível mundial aufere vultoso lucros com a venda de camisolas que ostentam o número e o nome dos seus jogadores mais famosos. A máquina está muito bem montada e oleada. Funciona na perfeição.
É aqui que recordo, sem nostalgia mas achando uma certa graça ao contraste, uma cena dos meus tempos de miúdo. Num dia de semana, vim a Lisboa de carro com o meu pai. Tomámos a estrada normal, que passava por Torres Vedras e Malveira. Logo depois da Malveira, na Venda do Pinheiro, vimos três homens que pediam boleia na beira da estrada. Ora, nessa altura era precisamente na Venda do Pinheiro que ficava situado o centro de estágio da selecção nacional portuguesa. Os três homens que nos pediam boleia eram figuras bem conhecidas. Lembro-me apenas do nome de dois - Travassos e Canário -, ambos jogadores do Sporting. Para meu grande contentamento e orgulho, lá vieram no carro connosco, claro. Onde é que algo como isto seria possível hoje em dia?! E, a propósito do que se viria a passar mais tarde com Eusébio, onde é que hoje o Estado ousaria dar ordens a um jogador ou a um clube, tratando-o como se o que estava em jogo fosse uma golden share?
É interessante analisar mesmo que seja desta forma ligeira a evolução das coisas. Os conceitos sociológicos de globalização e de mobilidade entraram profundamente no mundo do futebol. Sem deixar de existir, o conceito de pátria esbateu-se muito, assim como o de clube-do-coração.
Por outro lado, a chegada de jogadores estrangeiros para os vários clubes tapa necessariamente lugares que dantes seriam em princípio ocupados por jogadores nacionais. Destes, os melhores são contratados para ir para o estrangeiro; outros não arranjam emprego. Afinal, o panorama não é muito diferente do que ocorre no mercado de trabalho, no qual produtos fabricados no estrangeiro acabam por roubar emprego aos nacionais dos vários países. Hoje em dia, jogador que se mantenha durante toda a vida no seu “clube de sempre” é invariavelmente notícia, especialmente se se tratar de um clube grande. Aquilo que antigamente era a regra passou hoje a ser a excepção.
No futuro, tanto pode suceder que esta tendência se acentue, como pode acontecer que ela se esbata através da imposição de regras mais apertadas e protectoras dos nacionais. Por vezes, como a história nos ensina, são as guerras a ditar essas leis. Avisado é quem não tenta prever o futuro. Analisar a evolução das coisas é por si já suficientemente interessante. A única certeza que podemos ter é a de que nada se manterá igual.

9/17/2011

O perigo dos dinossauros

Que os dinossauros do passado dão para fazer filmes relativamente interessantes, nós já sabemos. Que um grande número de fósseis de dinossauros tem sido encontrado na nossa costa, nós também sabemos. E sabemos, além disso, que eles viveram há imensos anos atrás e que hoje se limitam a fazer parte do nosso património cultural, não constituindo qualquer perigo para a humanidade.
Dinossauros foi, entretanto, o nome dado àqueles políticos que ocupam determinados lugares durante uma eternidade. Eleição após eleição, lá estão eles a surgir de novo. Houve necessidade, nomeadamente no caso das autarquias, de pôr um travão legal a essa renovação de presidentes de câmara que ocupavam a sua cadeira de poder local por períodos de vinte e mais anos.
Avisadamente, foi considerado pelas regras constitucionais portuguesas que um Presidente da República não poderia desempenhar o seu cargo por período superior a duas eleições. Assim, dois mandatos, com uma eleição de permeio é o que temos tido. E bem.
Infelizmente, nem todos os lugares políticos seguiram esta norma, aliás como uma outra que outrora existia para a função pública: a de que ninguém poderia auferir no desempenho das suas funções públicas um vencimento superior ao do P.R.
O certo é que esta já não jovem democracia portuguesa consente que não exista qualquer limite para a reeleição dos presidentes das regiões autónomas dos Açores e da Madeira. Se os Açores têm tido uma saudável alternância no governo do arquipélago, já o mesmo não sucede com a Madeira. Alberto João Jardim é, ao que creio, o mais antigo dos dinossauros que temos. Constitui também um óptimo case-study para que a avisada regra do travão seja aplicada. O escândalo que agora rebentou – e rebentou com grande estoiro porque estamos a tratar com credores estrangeiros, pois de contrário o regabofe continuaria apesar do que há anos se pressentia – envergonha o país sobremaneira. A tecla que os políticos portugueses tanto têm tocado – que somos diferentes dos gregos, que Portugal não é a Grécia – arrisca-se a soar desafinadamente. No fundo, haverá grande diferença no modo como o descontrolo das finanças públicas prevaleceu na Grécia e em Portugal? Lembremo-nos de uma conhecida passagem de Eça de Queiroz nas suas Farpas.
Num mundo que se encontra por demais desregulado (= liberalizado), aqui temos mais um exemplo da necessidade de malhas mais apertadas para o mundo da política. O americano James Madison, que viveu entre 1751 e 1836, foi um homem suficientemente sagaz e sensato para ser chamado para arquitectar a constituição dos Estados Unidos. Gosto especialmente de duas das suas reflexões. A primeira diz-nos que os dois principais atributos de um bom governo são: primeiro, o governo deve ser capaz de controlar os governados; segundo, esse governo deverá saber controlar-se a si próprio.
A outra reflexão recorda-nos, com uma simplicidade desarmante, que se os homens fossem anjos, não seriam necessários governos.
Quem diria que, afinal, ainda existiam dinossauros destes a causar-nos grandes problemas?

9/11/2011

À toa

Não há nada como a experiência vivida para aprendermos bem, e para sempre, o significado de determinadas coisas. Há muitos anos já, um antigo colega de instrução primária que voltei a encontrar após largo tempo sem nos vermos, contou-me que andava na pesca. Tinha um pequeno barco em Peniche, cujo motor tinha naquela semana estado a ser reparado, mas agora já estava pronto. Aliás, no dia seguinte àquele em que nos encontrámos, ele iria levantar uns covos que deixara junto às Berlengas para apanhar lagosta. Ante a minha curiosidade, convidou-me a vir com ele e mais os três homens que constituíam a tripulação. Ficou assente que eu iria e que deveria estar num determinado café do porto por volta das cinco da manhã.
Recordo-me que às quatro já estava a pé, pronto para ir no meu pequeno Volkswagen até Peniche. O nevoeiro, cerradíssimo, obrigou-me a fazer a viagem de forma lenta e ultra-cautelosa. Chegado ao porto, lá encontrei o meu amigo. “Não sei se vamos conseguir sair com este nevoeiro”, disse-me ele. “Os que estão aqui dos outros barcos já me disseram que assim não se metem ao mar.” Cerca das seis e um quarto, porém, o meu amigo António começou a não aguentar o nervoso miudinho que sentia, “Isto levanta! Conheço o caminho de olhos fechados.”
O nosso barco foi o único a largar do porto àquela hora. Eu ia totalmente às cegas. Quando passámos o Cabo Carvoeiro, nem o avistei. Mas os homens sabiam que o cabo tinha ficado para trás. Decorrida menos de uma hora de navegação num mar que estava calmo, sem vento – se houvesse vento, o nevoeiro dissipar-se-ia pelo menos parcialmente – eis que todos ouvimos um baque forte da embarcação. “Batemos!”, exclamou um dos homens. Ninguém sabia concretamente onde estávamos. Teríamos batido num dos rochedos ao largo da Berlenga? Uma rápida inspecção a ver se o barco estava a meter água teve felizmente resposta negativa. Mas alguma coisa tinha sucedido: o veio do motor não estava bem alinhado e tinha-se partido. A reparação anterior não tinha sido perfeita.
Para abreviar a narração, direi apenas que a angústia dos pescadores era grande, que estivemos quase a ser abalroados por um navio italiano que nos cortaria ao meio se a sua rota tivesse passado uns poucos metros ao lado e que o peixe que os homens tinham trazido para fazer uma caldeirada a bordo acabou por ser cozinhado com água salgada para poupar a pouca água doce que tínhamos.
O nevoeiro só se levantou pelas três horas da tarde! Entretanto, depois de termos lançado para o fundo do mar uma pesada poita a servir de fateixa descobrimos que já tínhamos ultrapassado a Berlenga. Estávamos ao largo da parte ocidental da ilha. O barco não tinha qualquer rádio emissor e muito menos radar. Contávamos apenas com um sonar, que, quando consultado, informou que nos sobravam apenas três braças da corda que segurava a poita.
Já com o tempo claro e o sol finalmente a brilhar, houve um barco de pesca de Peniche que respondeu aos sinais que o meu amigo e os seus homens enviaram a pedir socorro. E que sinais eram esses? Uma saca de serapilheira que eles agitavam freneticamente e um chifre que emitia um som à boa maneira viking!
Depois de confirmar que nos tinha visto, a outra embarcação continuou mais algum tempo na sua faina marítima, até que se aproximou de nós e nos lançou um cabo grosso e forte. Foi aí que aprendi que aquela corda se chamava toa. O cabo foi amarrado ao nosso barco e, a uma distância conveniente, lá seguimos no regresso ao porto de Peniche rebocados pelo barco amigo. Como seria fácil de prever, dada a forma como estávamos a ser rebocados, o nosso barco dava enormes guinadas para a direita e para a esquerda, o que constitui sempre um bom teste para quem quer provar que não enjoa. Foi aí que entendi distintamente o significado de andar à toa!

O problema deste post é que o meu objectivo principal é falar de outro tipo de reboque e entretanto já esgotei a paciência dos eventuais leitores. Embalei-me na recordação e andei verdadeiramente à deriva. As minhas desculpas.
No final daquela aventura marítima que afortunadamente acabou bem, formulei para mim próprio duas perguntas: 1. E se não tivéssemos encontrado um barco que nos trouxesse a reboque? 2. E se o barco de reboque avariasse também?
Podem parecer perguntas feitas pelo advogado-chefe do diabo, mas não são. Pelo contrário, creio que são perfeitamente plausíveis. Entremos então no tema principal: a União Europeia e a sua actual situação. Só aparentemente é que o assunto não terá quaisquer pontos de contacto com a experiência do barco atrás descrita.
Foi ainda há relativamente poucas décadas que a União Europeia nasceu. Fosse como Comunidade Económica Europeia, à qual Portugal aderiu depois de ter estado na EFTA, fosse com o seu nome actual, a União nasceu com o objectivo de aumentar a prosperidade das nações que a constituem. Previsivelmente, umas desenvolver-se-iam mais, outras menos, mas todas acabariam por encontrar uma linha ascendente que tornaria gradualmente mais ricas as sucessivas gerações do Ocidente.
A criação do euro, que hoje é vista de forma ambivalente como um acto inovador mas também temerário, corroborou em 1999 aquela visão de crescimento permanente. Aos poucos, porém, a realidade impôs-se com toda a sua crueza. Não digam aos gregos que eles têm progredido, não falem em taxas de desemprego nem aos espanhóis nem aos portugueses, esqueçam-se os sonhos de prosperidade. Há, sem margem para dúvidas, uma séria avaria neste barco. O baque foi sentido com maior intensidade em 2008, mas daí para cá a situação não tem melhorado. Pelo contrário. Agitam-se em Itália bandeiras de protesto, enquanto manifestações em Espanha clamam por justiça social, na Irlanda se maldiz a prosperidade baseada no imobiliário e na dívida tal como em Portugal. Na Grécia, os cidadãos mais aflitos desfraldam e agitam com raiva a sua saca de serapilheira. Todos pedem auxílio.
Como seria natural, com o decorrer dos anos algumas nações mais desenvolvidas da União, como a Alemanha, a França e a Holanda, ganharam mais com o negócio do euro do que aquelas que se quiseram pôr demasiado depressa em bicos de pés e, para isso, não hesitaram em pedir dinheiro emprestado aos mais poderosos. É uma história consabida, que os números não deixam desmentir.
Os barcos cujos motores se partiram pedem auxílio aos que lhes podem lançar uma toa para o correspondente reboque. Só que estes serviços de reboque não são grátis e, pelo contrário, tornam-se bastante onerosos para quem pede auxílio.
E se agora estivessem todos, mesmo os mais ricos, a analisar a hipótese de terminar com o euro? Haveria custos para todos, mas no oceano europeu haveria uns tantos países que ficariam mais à deriva do que outros. E terminar com o euro porquê? Só porque têm surgido problemas de sobreendividamento, tal como costumava suceder com as colónias, que estavam constantemente endividadas perante a nação que as explorava? Não, esta razão existe, é importante, mas não é a única. Presentemente, outro grande motivo de preocupação reside algures, fora da Europa.
Na realidade, a prosperidade da União Europeia sempre foi vista como algo baseado no comércio. As trocas comerciais entre os países da União constituía um factor essencial. Porém, se elas per se não resultassem satisfatoriamente, qual seria o plano B? Ora, o plano B consistia nas exportações europeias para os países mais ricos, concretamente para os Estados Unidos. É aqui que se coloca a questão: e se esse rebocador que deveria vir em socorro da União Europeia tivesse o seu motor avariado? Como se iria resolver a questão?
Esta é a segunda questão que coloquei relativamente à minha historieta com o barquito de pesca e aqui reitero com a U.E. Quando se sabe que, a juntar aos seus tremendos gastos militares e ao consumo privado excessivo, os Estados Unidos apresentam taxas de desemprego que rondam os 10 por cento e taxas de crescimento que não excedem dois pontos percentuais, como podem eles ajudar a Europa? Precisam é de alguém que os ajude. É uma situação que faz com que os europeus entrem em pânico, com os seus valores bolsistas a oscilarem mais do que qualquer ponte preparada para resistir a ventos fortíssimos.
Quando o barco rebocador líder europeu – a Alemanha – se mostra cada vez mais indisponível para ajudar os mais fracos, e o outro barco externo não tem sequer combustível para se fazer ao mar e dar a sua ajuda, quando conseguirá a aflita Europa regressar ao porto? Quanto tempo mais aguentará na sua viagem à toa neste mar encapelado?

9/02/2011

Job lag

O neurologista não encontrou nada de especial no paciente. E, contudo, este voltou a falar de uma perturbação difícil de definir, que experimentava pela primeira vez. Quanto a mim, o homem tem toda a razão: a saída de um emprego por razões de reforma (em casos de pré-reforma, ainda mais) provoca um misto de sensações na pessoa que esteve durante muitos anos a cumprir um emprego regular. Algumas dessas sensações são óptimas e gratificantes para a mente. Poder dormir mais algum tempo, não ter que aturar ordens absurdas e ver-se obrigado a lidar com superiores que nem sempre são humanos são coisas naturalmente bem recebidas. Possuir o tempo todo para nós dá-nos uma primeira sensação de maravilha da liberdade. Pouco a pouco apercebemo-nos de que temos que aprender a gerir essa aparente imensidão de tempo sem as grandes divisórias que durante anos e anos ele teve. Então passamos a criá-las nós próprios, sendo que a primeira tentativa nem sempre resulta. Dependendo das situações e das circunstâncias, pouco a pouco vamo-nos no entanto estabelecendo e, se notarmos bem, encaixamo-nos em horários que passam a ser os nossos, não necessariamente em paralelo com aqueles que tivemos ao longo da vida embora tenham pontos de contacto.
Possivelmente, o interessante de tudo é, afinal, um conjunto de platitudes. Todos temos a nossa vida, que é, naturalmente, feita de passado e de presente. O futuro existe também, mas é um futuro que se vai estreitando e afunilando à medida que avançamos nos anos. Aos 50 e tal não há razão de tomo para que ele seja visto já afunilado. Pelo contrário. Um escritor que foi galardoado com o Nobel começou a escrever os seus melhores livros após os 60 anos. Importante é o facto de que somos seres individuais. A sombra que nos acompanha em ambientes onde haja luz é a nossa e não a de qualquer outra pessoa. Já fomos mais colectivos, deve dizer-se, quando estivemos activamente a trabalhar para a comunidade. Mas o Estado continua a ver-nos como um número ínfimo que, juntamente com milhares ou milhões de outros ínfimos, faz um todo. Esse todo é sobretudo relevante sob o ponto de vista dos impostos e da Segurança Social. Seja como for, a nossa individualidade comunga em inúmeros casos com a comunidade, seja em espectáculos, seja através do visionamento de televisão ou leitura da imprensa, ou ainda de locais comuns a todos, como centros comerciais ou praias. Mas, e isto parece-me particularmente significativo, falamos cada vez mais connosco próprios. A “verdade” vem ter connosco mais vezes. Sentimos mais a passagem do tempo que, como se fosse brisa ou vento, ora nos acaricia, ora nos fustiga.
A nossa posição no círculo da família muda gradualmente. Deixamos de ser o centro dos centros para, tal como sucede com a transformação das cidades, nos convertermos numa praça que já foi central mas que as alterações e desvios de trânsito levaram a que passasse a ser secundária. Quando sentimos mais a acumulação dos anos, não é impossível que comecemos a ver em nós próprios um postal da antiga cidade. É assim que os outros nos vêem também. Lutamos para que não seja assim, mas há leis que são mais fortes do que nós. Inelutáveis. Ora, essas leis abrangem-nos, como já abarcaram tantos outros seres humanos. Quando nos olhamos ao espelho, conseguimos por vezes alhearmo-nos do passado e vemo-nos apenas com olhos do presente. Esse espelho começa na maioria dos casos a ser para nós mais um inimigo do que um amigo. É ele que nos diz, com justificada razão, que devemos “assumir”. Assumir é porventura bom, mas significa também, em grande medida, capitular. E isso tem claramente mais desvantagens do que vantagens. Lutar é preciso.
Tudo faz parte da conversa connosco mesmos. Como seria de esperar, tal como na nossa vida de emprego activo tivemos altos e baixos, agora temos igualmente baixos e altos. São é mais frequentes. Porquê? Porque temos a menos a distracção produtiva do trabalho e do emprego, com colegas à volta, chalaças aqui e ali, algo como cotoveladas no parceiro que sabe bem dar durante o espectáculo e de que se sente a falta quando comprámos só um bilhete para nós. Estamos mais sozinhos.
A sociedade começa a partir de certa altura a tratar-nos de forma diferente. Se quem não chegou ainda aos 60 não pode pedir um passe de terceira idade (onde a primeira idade e a segunda começam ninguém sabe com rigor) e ainda está apto a responder a inquéritos de telemarketing que excluem automaticamente os que têm mais de 64, quem ultrapassa essa barreira nota a maneira diferente, mais atenciosa ou mais impaciente, com que é tratado. Seja como for, entrou no grupo dos avós e saiu do dos pais. Os que são pais notam isso. Profundamente. Como em tudo, com vantagens e inconvenientes.
Isto daria pano para mangas. Mangas tão longas como longos eram os braços do rei Manuel I deste país. Será melhor parar. É o que faço.

9/01/2011

Mês com R

Relativamente à sardinha, é famoso o ditado que nos aconselha a não a comer nos meses com –r-. Digamos que Junho, Julho e Agosto são, pelo menos em princípio, bons meses para comer sardinha. Que o –r- , para além da sua componente gastronómica, também tem uma faceta política, vemo-lo bem através da enorme diferença entre evolução e revolução. Enquanto uma agrada mais a quem prefere o statu quo, a outra mostra a incontida raiva de uns tantos e a vontade de tudo alterar.
Setembro, que hoje se inicia, contém um –r-. Como amargo. É o mês no qual, depois das ameaças feitas pelo governo em Junho, Julho e Agosto, se começam a concretizar uma série de medidas ditas de austeridade que vêm complicar a vida a muitos que, quanto a responsabilidades que tiveram no cartório, pouco ou nada se lhes pode assacar. Já o mesmo não acontece com os maiores culpados, que, apesar de sofrerem um beliscão, sofrem isso mesmo: apenas uma leve beliscadura.
Os substanciais aumentos nos transportes, na electricidade, no gás e na água causam mossa a muita gente. Outros aumentos, nomeadamente nas prestações a pagar aos bancos por empréstimos contraídos para compra de habitação, diminuem igualmente os rendimentos de muitas pessoas. Em certos casos fazem mesmo esticar a corda. Também Setembro vê mais alunos no ensino público do que habitualmente, e menos no privado. A saúde está mais cara, por menos comparticipada. As rendas, especialmente as mais antigas, podem sofrer um aumento substancial nos próximos meses.
Falando desses próximos meses – Outubro, Novembro e Dezembro, todos com –r- - não deixou de ser curioso verificar o sentido de oportunidade em marketing do supermercado Continente ao sugerir aos seus clientes possuidores de cartão que não levantem ainda os descontos que lhes vão sendo concedidos pelas suas compras. Se os guardarem até ao Natal, poderão fazer render os euros entretanto acumulados para parcialmente substituirem no Continente aquilo que gostariam de comprar com o subsídio de Natal que este ano vem bastante mutilado.
Interessantemente, austeridade também contém um –r-.