12/21/2005

Feliz Natal!

Votos de Boas Festas para os colegas do blog e para todos aqueles que têm colaborado com os seus comentários, ou apenas lido os nossos arrazoados.
Pela minha parte, embora tenha como habitualmente vários assuntos na manga, vou fazer uma pausa natalícia.

12/17/2005

Mulher


Esta é uma foto tirada há algum tempo nas terras nortenhas do Soajo. Não custará a acreditar que fiquei algo estonteado ao ver esta aparentemente franzina mulher a carregar à cabeça um molho de fetos tão volumoso. Não consegui divisar-lhe o rosto para concluir se ia cansada ou a praguejar com a vida. A princípio, tudo o que enxerguei foi o que a objectiva captou: duas pernas magras a sustentarem um corpo que fazia mover ao longo da estrada aquele enorme feixe de fetos. Decidi segui-la. Ao fim de uns dois minutos chegou ao quintal da sua casa, onde alijou a carga. Com grande jovialidade, dispôs-se a falar comigo. Admitiu que não estava fatigada. Fazia aquilo duas ou três vezes no mês. "Mas mesmo assim era melhor não ter que carregar isto, bem entendido!" Falou-me com a resignação da mulher-mãe, que veste invariavelmente de preto, viu os seus dois filhos emigrarem para o Luxemburgo e agora tinha que tratar sozinha da sua vida. "Eles não querem que eu faça isto. Quando cá vêm no verão, não me deixam. Mas agora, até aquece!"
Impressionou-me. Pensei em dizer-lhe qualquer coisa, mas decidi quedar-me como ouvinte. Quem era eu, homem da cidade e apenas ocasional viajante por aquelas paragens, para eventualmente lhe transmitir palavras que, se causassem um sentimento de revolta, poderiam afinal envenenar quem fazia com prazer, por ser útil, tarefas a que há muito se habituara?
A publicação desta foto é uma pequena homenagem, a ela e a tantas outras mulheres que labutam sem cessar, desde o muito cedo da manhã, totalmente ignoradas da esmagadora maioria de nós.

12/16/2005

Périplo livreiro no Chiado


Como antigo morador no bairro de Santa Catarina, aluno do Passos Manuel e, mais tarde, da Faculdade de Letras na Rua da Academia das Ciências, o Chiado sempre foi o meu poiso de livros. Folhear romances, ler capítulos inteiros, dar uma olhadela a poemas, apreciar fotos e hesitar perante o preço foram passos que me habituei a dar nas livrarias do Chiado. Os alfarrabistas da Trindade e da rua do Alecrim também faziam frequentemente parte do meu itinerário, onde invariavelmente encontrava amigos perdidos nas mesmas deambulações.
No final da manhã de sábado passado, resolvi descer o Chiado. Descendo a Garrett, que juntamente com a Rua do Carmo e a Nova do Almada forma um Y invertido, entrei primeiro numa das minhas livrarias favoritas do passado: a Sá da Costa. Era lá que, antes do 25 de Abril, por vezes me arranjavam à sexta-feira à tarde, depois da hora a que terminava a eventual visita da PIDE (17H00), aqueles livrinhos que os bons costumes políticos da altura não consentiam que chegassem ao público em geral. Vinham invariavelmente embrulhados, sem qualquer identificação que permitisse concluir que tinham sido comprados na Sá da Costa. Ora bem, no passado sábado a Sá da Costa surgiu-me, sem remodelações aparentes, com apenas dois clientes no interior para igual número de funcionárias. Dei uma vista de olhos. Mantinha-se tudo sensivelmente na mesma. As estantes ainda são encimadas por quadradinhos de cartão com dizeres manuscritos: Direito, História, Edições Sá da Costa, etc. Quando saí, depois de dar uma volta pelas instalações onde, por falta de dinheiro, namorei durante meses uma enciclopédia que ainda hoje tenho em casa, o número de clientes era igual a zero. A abertura da caixa registadora não se fez ouvir.
Um pouco mais abaixo e do lado oposto, entrei na Bertrand. Um ambiente mais acolhedor, boa iluminação e decorações natalícias permitiam que estivessem uns 20 clientes ao todo na vasta livraria. Não eram muitos, mas não provocavam a horrível sensação de vazio. Mesmo assim, atendendo à quadra do ano, o movimento era relativamente diminuto.
Mais abaixo, entrei na FNAC, de que sou cliente assíduo. Para começar, não se poderá dizer que a FNAC seja apenas uma livraria, mas o certo é que vende incomparavelmente mais do que todas as livrarias do Chiado juntas. Havia um movimento grande, que é aliás frequente. Crianças, jovens e adultos, uns de pé e outros sentados em locais destinados a leitura rápida, folheavam livros, enquanto empregados perfeitamente identificáveis respondiam com prontidão e eficiência, geralmente graças ao sistema informático, a questões levantadas por clientes. Todos sabemos que a FNAC junta à livraria a música, os DVD, os computadores, as impressoras e toda a parafernália afim. E adiciona ainda a isto um café, venda de bilhetes para espectáculos e mais um cartão de membro. De qualquer forma, impressiona o número de pessoas que congrega em comparação com as restantes livrarias da zona.
Desci propositadamente a Rua Nova do Almada. A velha Luso-Espanhola é hoje a Coimbra Editora e, tanto quanto me pude aperceber, especializou-se na área de Direito, o que estará em ligação directa com o grande número de advogados que têm os seus escritórios naquela zona. Com bom aspecto no seu remodelado interior, estava fechada.
Mais abaixo e com o seu charme habitual, a centenária Férin tinha as portas abertas, mas apenas oito potenciais clientes. Coffee-table books decoravam as montras.
Do lado da Rua do Carmo, o panorama foi mais grave. Na Portugal, que foi em tempos uma das livrarias mais concorridas, três funcionários palravam uns com os outros. Não tinham ninguém para atender. Dois ou três visitantes limitavam-se a folhear os livros. Nada mudou na Portugal. Encontrei as obras de referência e as edições em inglês nas mesmas prateleiras em que sempre as consultei e adquiri.
Duas portas abaixo, a Aillaud & Lellos não tinha uma só pessoa lá dentro. O ambiente era soturno. Dois funcionários conversavam.
As conclusões a tirar dos resultados desta breve peregrinação impressionam-me.

12/15/2005

Toda Gente Vê (TGV)


Às vezes chego a pensar que aquilo que tenho escrito contra o TGV não tem qualquer razão de ser. Num país que há anos ainda mantinha sinais de enorme atraso, como é evidenciado por este pequeno comboio de mercadorias que fotografei numa ida a Trás-os-Montes, como poderá ainda haver pessoas contra o progresso?
Façamos com que essas vozes anti-progressistas e reaccionárias sejam só fumaça, como a que sai da chaminé desta locomotiva! P'rá frente é que é!

12/14/2005

Resultados finais sem totalidade de dados

Num exame que uma vez me calhou vigiar numa escola de Contabilidade, um aluno pediu-me a certa altura para chamar um professor da cadeira. Segundo ele, na questão 3 do ponto faltavam dados, pelo que não conseguia chegar à solução. Chamei de pronto o regente da cadeira, que olhou para o ponto e, depois de um minuto de reflexão, disse: "Você tem razão. Faltam aqui pelo menos umas duas linhas, que quem passou o ponto terá inadvertidamente saltado. Agradeço-lhe o reparo." Terá ido depois às várias salas onde o exame se estava a realizar e, no quadro, escreveu, com as suas desculpas, as linhas em falta. De facto, admitiu que não se podia chegar a resultados concretos sem possuir aqueles dados.
Vejo agora que professores deste género não estão no governo. Se estivessem, só por "artes mágicas de político" conseguiriam saber, já, que o preço final dos bilhetes do TGV iria em 2015 ficar em cerca de 80 euros no trajecto Lisboa-Porto, que o número de empregos (temporários) que se vão criar é da ordem das muitas dezenas de milhar e que o custo final de todo o processo de construção da via, carruagens, etc. é de 4,7 mil milhões de euros. É que, segundo os media, o governo ainda não decidiu se a entrada em Lisboa será feita pelo norte se pelo sul. Outra incógnita diz respeito às estações que vão servir a linha de alta velocidade. Daqui depende, obviamente, a articulação a fazer com a rede convencional. Também não se sabe como vai ser desenhado o modelo de financiamento,o qual tem evidentes reflexos no custo. Igualmente se desconhece se a terceira ponte de Lisboa sobre o Tejo (Chelas-Barreiro) irá ser só ferroviária ou servirá simultaneamente o trânsito automóvel. Enfim, ninharias... para mágicos. Gostaria apenas de saber se os membros do governo tomariam decisões deste tipo se o dinheiro saísse do seu próprio bolso, em vez de do bolso dos contribuintes.
Duas notas, a findar. A primeira é sobre o impacte previsto do TGV sobre o avião nas ligações Lisboa-Porto-Lisboa. O avião é clarissimamente perdedor, o que naturalmente deveria ser um ponto importante a favor da manutenção do aeroporto na Portela. Mas não é. E não é porque o outro assunto está arrumado. Magister dixit. O país é o mesmo, o pagante é o mesmo, mas o novo aeroporto de Lisboa na Ota nada tem a ver com o TGV.
A segunda: lembram-se das realidades virtuais que foram programadas para a gigantesca barragem do Alqueva? Comparem-nas com as realidades actuais.

12/12/2005

Harold Pinter

Embora, por razões literárias e sentimentais, eu tenha apreciado mais a alocução proferida por Saramago aquando da cerimónia de entrega do Prémio Nobel de Literatura em 1998, não posso deixar de chamar a atenção aqui neste blog para o texto muito interessante, tanto do ponto de vista literário como político, que Harold Pinter enviou há dias para idêntica cerimónia em Estocolmo. Questionando-se sobre a natureza da verdade e a distinção entre o verdadeiro e o falso, Pinter descreve o processo criativo de algumas das suas peças de teatro e passa depois, como cidadão, a abordar a grande mentira: o posicionamento dos Estados Unidos nas últimas décadas. Considera a política dos Estados Unidos um perigoso mas inteligente bluff à escala global, que embora não seja tradicionalmente comparada às criminosas políticas soviéticas, essas sim, muito badaladas, não lhes fica atrás em real sofrimento para a humanidade. Cita um Pablo Neruda denunciante literário de bombardeamento de civis como Picasso fez pictoricamente com Guernica. Diz, quase no final: "Quando olhamos para um espelho, pensamos que a imagem que se nos depara é exacta. Contudo, se nos movermos um milímetro, a imagem muda. Estamos na realidade a olhar para uma série infinita de visões reflectidas. O escritor tem por vezes necessidade de quebrar o espelho - pois é do outro lado desse espelho que a verdade nos contempla."
Para quem estiver interessado, o http://www.swedishacademy.org contém a versão integral (nove páginas). No dia em que Bush fala da necessidade de prosseguir a implantação da democracia no Iraque, ao mesmo tempo que refere os 2040 americanos mortos no conflito e os 30000 civis iraquianos que já perderam a vida, este discurso é uma leitura muito a propósito.

12/10/2005

Ética e Sobrevivência

Em meados de Novembro, coloquei aqui um texto a que dei o título de "Contradições". Tratava de casos de aparente falta de ética. No seu comentário, M. Tulipa chamou-me a atenção para um facto: quando se trata de sobrevivência, o nosso instinto animal pode mandar mais do que a razão e redundar em puro egoísmo social. Gostei de ler o comentário e felicitei a sua autora. Permito-me prosseguir o (perigoso) curso desse pensamento.
Todos conhecemos cães fidelíssimos, nossos amigos, que nos acompanham por todo o lado, obedecem ao nosso chamamento e abanam a cauda em sinal de satisfação sempre que nos vêem. Somos os seus donos, tratamos bem deles, afeiçoaram-se a nós. Se, porém, colocarmos a nossa mão no prato em que eles estão a comer, rosnarão imediatamente. Ameaçadoramente. Poderão mesmo morder-nos. Porque se viram os cães contra nós? Porque estamos a ameaçar a sua sobrevivência.
Quando, há umas semanas, a conflitualidade social rebentou em França com extraordinária força, houve naturalmente quem se perguntasse: "Porquê agora?" Bem, em grande medida porque Sarkozy tinha nas semanas anteriores lançado acções policiais sobre gangs que operavam naqueles bairros. O ministro causou situações de ruptura no abastecimento de droga e de contrabando. Ameaçou a sobrevivência de cabecilhas e de todos os que satelizavam o seu mundo. O conflito estoirou. (Terá depois passado para outros bairros e para outras cidades, numa compita, ainda por cima mostrada na TV, "a ver quem faz pior".)
Não se peça a todas as famílias deste país, desde sempre honestas e bem comportadas, que se portem da mesma maneira quando se vêem confrontadas pelo desemprego, pelo despejo da casa, pelo futuro sem rosto que assoma à sua frente. É a sua sobrevivência que está em jogo. Se a sociedade os despreza e lança na valeta, para quê e porquê respeitar os valores éticos que aprenderam e sempre cultivaram, pensarão vários indivíduos. A criminalidade tende a aumentar como puro reflexo da conflitualidade social. Às vezes ocorre-me uma visita à América Latina do Papa João XXIII, em que ele, de forma politicamente incorrecta, admitiu o recurso à violência quando não haja outras maneiras de resolver questões de justiça social. "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém considera violentas as margens que o apertam", lembrou Bertolt Brecht.
Os ricos que cuidem dos pobres para que não sejam estes a cuidar deles.

12/08/2005

O canto da cigarra

Caro António:
Sei que existem padrões laborais à luz dos quais trabalhar 50 ou 60 horas por semana é considerado coisa normal. São sem dúvida, também por essa razão (mas não só), padrões mais empreendedores do que o da função pública. Aproveito para lhe dizer que tenho alguns colegas que trabalham por sistema muito mais do que as famigeradas 35 horas semanais. Ninguém os obriga a tal, são simplesmente «workoholics»... Eu, que sou muito mais contemplativa do que empreendedora (coisas do temperamento!), trabalho sensivelmente as 35 horas, por vezes menos, por vezes bastante mais (esta semana e a próxima, por exemplo, em que tenho as provas de Filosofia de 4 turmas para corrigir, além das aulas para preparar). Mas de facto não me sinto nada motivada para dilatar o meu horário laboral e estou genuinamente persuadida de que a hipótese de vir a trabalhar mais horas, sobretudo no «minimalista» espaço físico da minha escola da era do achaque tecnológico (e não é, nem de longe nem de perto, das piores!), não fará de mim uma professora substantivamente melhor. O luxo supremo, na minha contemplativa (talvez demasiado aristocrática...) bitola, chama-se TEMPO - trocaria de bom grado dinheiro por tempo. Por exemplo, tento sempre (por acaso este ano sem sucesso mas com a correspondente compensação venal) furtar-me à obrigação de fazer horas extraordinárias.
Como vê, aquilo que nos separa é muito mais do que a diferença, admito que abissal, entre as respectivas realidades laborais... É toda uma concepção de vida que está em jogo - cigarras versus formigas! Mas eu, cigarra intempestiva destes anos de apocalipse anunciado, procuro ainda assim interagir honestamente com as laboriosas formiguinhas, suando de facto (não apenas picando o ponto nas aparências) o suficiente para obter resultados que me colocam por vezes, na linha de chegada, à frente das formigas (que as há também, insisto, na escola pública).
Além disso, dado o meu relativo desprendimento no que toca a retribuições materiais, não me importo nada de auferir um ordenado com certeza muito inferior, apesar de já me encontrar no topo da carreira, aos de boa parte da «legião de quadros voluntaristas» a que se refere. Sem pôr em dúvida o sentido de responsabilidade ou o amor «à camisola» desses quadros, imagino que eles não serão completamente imunes à força atractora do vil metal (eu, displicente cigarrinha, não o seria se estivessem em jogo determinadas remunerações estratosféricas ou mesmo só a expectativa realista de recebê-las no futuro).
Decerto já percebeu, neste ponto da nossa conversa, que não é o meu doloroso caso pessoal (as cigarras não cultivam chagas) que me anima a responder-lhe. Convenhamos que ele não é assim tão doloroso - jogo por natureza bem à defesa e, além do mais, nesta fase já adiantada do meu campeonato, tenho o usufruto (parcimonioso!) do posto que a antiguidade dá. É o meu tenaz, talvez um tanto obsessivo, fraquinho pela coerência (valor tão degradado, ultimamente, pela tutela da Educação) que me anima a exibir na blogosfera a minha politicamente incorrecta alma de cigarra até hoje tão cuidadosamente «encapuchada». Que pensa o António da condição laboral da «legião» (também ela em grande parte esforçada) de colegas meus - sem vínculo estável ao sistema de ensino e com fraquíssimas expectativas de o obterem - que por mês recebem, ilíquidos, 1058,60 (os licenciados tout court) ou 1268,64 (os profissionalizados) euros? Muitos deles condenados a fazer uma pipa de quilómetros casa/escola, nisso «investindo», sem recurso a qualquer subsídio mitigador, boa fatia do seu ordenado! Acha sensato que se lhes peça que trabalhem mais de 35 horas semanais?! Assumo que concordará que esta questão não é apenas de direito(s) mas sobretudo, flagrantemente, de justiça (comparativa e absoluta). Ou, se preferir, uma básica questão de moral.
E, para terminar, permita - ainda em abono da coerência (o que me torna, pensando bem, uma cigarra um bocadinho atípica) - que tire algumas singelas ilações de uma notícia ainda fresca: provavelmente vão acabar os exames nacionais de Português (no 12º ano) e Filosofia (no 11º ano). O de Filosofia, aliás, não chegou sequer a começar.
Sem me deter nos pressupostos economicistas de mais esta opção da tutela (trata-se de exames obrigatoriamente feitos pela totalidade dos alunos do secundário, sendo curial inferir que a sua extinção, além de cativar politicamente muitos encarregados de educação, permite ao Estado poupar umas valentes massas), desejo confessar o seguinte a todas as formigas deste país:
Os impostos que vocês pagam para sustentar o meu dolce far35 em nada contribuem para a certificação da putativa qualidade do meu desempenho. Aqui declaro solenemente que nunca fui objecto, tirando o episódio do estágio, de qualquer tipo de avaliação externa (a interna, poupo-vos os pormenores obscenos, tem sido uma anedota). Se, por mero acaso, alguma valia tenho como docente, isso deve-se acima de tudo à excelência de alguns colegas e alunos com quem me cruzei, talvez ligeiramente ao parco talento dispensado pelo meu modesto ADN. Também terá contribuído alguma coisa a vergonha na cara incutida pela educação que recebi...
Numa palavra, vocês têm passado, e vão continuar a passar, cheques em branco a esta cigarra que se assina Capuchinho! Ainda por cima uma cigarra das bandas da Filosofia, cujos alunos nunca foram (e tudo indica que nunca serão) submetidos a exame nacional! Concluindo: o Ministério da Educação, ao pretender eliminar um instrumento crucial de avaliação externa (ainda que indirecta) do meu desempenho, prepara-se para matar no ovo a única boa oportunidade de vocês, caras formigas, poderem finalmente, como é vosso direito inalienável, pedir-me contas. Enfim, malhas que o «eduquês» tece...

12/05/2005

Comentando um comentário...

...do António.
Vou cingir-me ao universo cujos meandros conheço bem - o do ensino ensino secundário.
1- A sua componente lectiva sem reduções traduz-se numa carga horária de 20 horas semanais, podendo esta carga emagrecer, em virtude do desgaste que leccionar provoca, até às 12 horas. O desvio relativamente às 35 horas que um funcionário público trabalha por semana corresponde justamente às 15 horas que, na minha opinião, devem na totalidade ser agregadas à componente não lectiva individual, abusivamente considerada tempo livre. Acho ainda que a componente não lectiva dada à escola deve integrar apenas as diversas tarefas «volantes» não registadas no horáro dos docentes (por exemplo, reuniões), as quais, naturalmente, não devem em circunstância alguma beliscar o calendário lectivo propriamente dito, sobrepondo-se-lhe. A especificidade associada à componente lectiva da docência manifesta-se, entre outras coisas, na flagrante diferença entre uma hora de trabalho burocrático e o mesmo tempo passado dentro de uma sala de aula com 26/28 alunos por norma indisciplinados - sei do que falo, pois fui funcionária pública durante alguns anos.
2- Mas concedo que o tempo liberto pela redução da componente lectiva deva estar ao serviço da componente não lectiva dada à escola. A minha carga horária lectiva encontra-se actualmente reduzida a 14 horas e era apenas esse o tempo, quando não havia também reuniões, que eu passava na escola há um ano atrás, antes da revolução burocrática em curso. Assim, acho absolutamente justo dar à escola as 6 horas de redução a que por lei tenho direito. Mas de facto passo, além dessas 6, mais 5 horas por semana na escola - sem outro «benefício», juro, além do dano que isso repercute na qualidade do meu trabalho em casa. Acrescente-se, em abono da verdade, que não me importaria nada de passar 35 horas por semana numa escola que me proporcionasse metade das condições de trabalho de que disponho em casa. Sem contar com o dinheiro que pouparia em livros, papel, tinteiros de impressora e outros recursos...
3- Acresce que, mesmo trabalhando apenas 35 horas por semana (as 14 da componente lectiva + as 6 da componente não lectiva que acho justo dar à escola + as 15 por cuja gestão responderia individualmente), trabalharia decerto sempre mais do que o funcionário público em que a tutela tenciona converter-me. A unidade de tempo lectivo, mesmo com o prazer que dar aulas proporciona, é muito mais desgastante, insisto, do que a equivalente burocrática. Aceito que seja normal o esforço de actualização de conhecimentos exceder a órbita das 35 horas. O que já não me parece tão normal é que, somado às horas que tenho de estar na escola, o tempo dispendido, entre mais tarefas, a preparar/planificar aulas, a elaborar testes e outros materiais, a corrigir testes e restantes trabalhos dos alunos, extravase frequentemente a referida órbita, comprometendo com frequência a disponibilidade - objectiva e subjectiva - para pôr em prática essa actualização! E já que se chama à liça o exemplo de médicos, advogados, mecânicos e carpinteiros, convém não esquecer que se trata de profissões: cujo horário de trabalho, em grande parte flexível, não é honestamente comparável à rigidez total do meu; cujo esforço de actualização pode em muitos casos coabitar com o horário «formal» de trabalho, ao passo que eu sou obrigada a actualizar-me (basicamente lendo) fora da escola - a natureza das minhas tarefas e as condições medíocres que as escolas portuguesas proporcionam não toleram outra opção.
4- Quanto à disponibilidade dos professores (pelos vistos, um privilégio) para frequentarem livrarias entre as 9 e as 18 horas, ela decorre tão só do facto de em muitas escolas a mancha horária da componente lectiva se distribuir variavelmente por 2 turnos: diurno (8 a 10 horas) e nocturno (6 horas). Começo, muito sinceramente, a ter inveja de quem, como os funcionários públicos e certos livreiros, trabalha 8 horas por dia - com o pormenor aliciante de não levarem, a não ser excepcionalmente, trabalho para casa!
5- Aproveito para eslarecer que me repugna um sistema de ensino centrado, como o nosso, no aluno. Reflecte, no seu populismo, prioridades bem típicas do estilo cunhado «eduquês» e é largamente responsável pelo actual insucesso escolar. Aluno e professor são duas faces da mesma dialéctica moeda - a degradação de um infecta irremediavelmente o outro. O único referencial legítimo de qualquer sistema de ensino é, penso eu, precisamente o ensino. Apenas a sua qualidade, desígnio verdadeiramente nacional, deve nortear as opções estratégicas da tutela, não os interesses particulares de professores, alunos ou encarregados de educação! Mas também não será grande pecado, julgo, ter e defender interesses particulares, dos professores ou outros, desde que compatíveis com o superior interesse público. E não é ferindo arbitrariamente o interesse dos docentes (executando cegamente escolhas por sinal correctas no essencial) que a Ministra da Educação vai conseguir melhorar a qualidade do ensino. Apenas vai conseguir com isso o que já conseguiu em parte: desmotivar e deprimir. Ora - e aqui atingimos o coração do problema - um bom professor desmotivado e deprimido é uma contradição nos termos, mesmo que o obriguem a passar 35 horas na escola! Os medianos, bons ou excelentes professores sentir-se-ão, em grau variável, acossados e isso reflectir-se-á negativamente no seu desempenho; os medíocres ou maus continuarão impunemente, «motivados» pela inoperância cúmplice da tutela, a fazer a greve de zelo que sempre fizeram.
6- Haja moralidade... mas que não paguem todos! Não é burocratizando indiscriminadamente heróis e vilões que o Ministério da Educação vai conseguir inflectir o desempenho dos docentes prevaricadores. O facto de passarem a «picar o ponto» não os impedirá, garanto, de continuar a prevaricar! E o «nivelamento por baixo» do corpo docente, seguramente um dos cancros que corrói as nossas escolas, tornar-se-á ainda mais rasteiro. Acontece que os decretos são necessários mas não suficientes para fabricar bons professores...
Que fazer? Para mim a resposta é obvia: promover, a montante de qualquer outra medida, uma credível avaliação externa do desempenho dos docentes e disso extrair corajosamente as dolorosas consequências práticas (que vão onerar, hélas, os cofres do Estado). Mas isso é outra conversa e esta já vai demasiado longa.

Números mágicos

Quer queiramos quer não, temos a cabeça formatada no sistema decimal. Tudo o que cheire a 10, ½ de 10, 10 x 10, ¼ de 10 x 10, ½ de 10 x 10, ou número relacionado com múltiplo de 10 é objecto de um determinado tipo de celebração.
Há dias, um velho amigo meu fez oitenta anos. Telefonei-lhe a dar-lhe os parabéns. Recordou-me, orgulhosamente, que tinha trabalhado como professor exactamente 50 anos. Número mágico.
Os casais celebram os seus 25 anos de casamento, 50 e 75, que são respectivamente as bodas de prata, ouro e diamante. Ninguém pensa em 100 anos neste caso, por razões que se entendem. A conotação diamantina colou-se aos 75. (É possível que hoje em dia já se estejam já a festejar os primeiros 5 anos.)
Um desportista que comemore o seu 100º jogo como profissional, a sua 100ª vitória, o seu 100º golo, a sua 100ª taça, a sua 100ª internacionalização, faz disso uma celebração especial.
Indivíduos ricos são considerados milionários quando possuem activos em carteira no valor de um milhão de dólares.
Também o sucesso de discos e outras obras se ordena por classificações baseadas em dez, de que se popularizou a fórmula Top Ten.
Duas notícias recentes mostraram como a opinião pública reage mais acaloradamente quando números deste tipo são atingidos. Os Estados Unidos -- país em que tradicionalmente se quantificam as coisas o mais possível, o que em certa medida é de aplaudir -- registaram nos últimos tempos dois destes números mágicos. O primeiro foi o número de 2 mil mortos nas forças americanas em guerra no Iraque. A popularidade do governo americano desceu significativamente e levou ao anúncio de retirada de tropas mais cedo do que se esperava. O segundo foi o de 1000 execuções desde que a condenação à morte foi restaurada nos EUA (em 38 dos 50 estados), há 29 anos. Dos números complementares, é de salientar que só um estado -- o petrolífero e bushiano Texas -- contribuiu com 355 (o segundo, a Virgínia, ajudou à festa com 94). São dados que impressionam.
Gostaria basicamente de chamar a atenção para estas duas últimas notícias. O resto pode ser visto como mera conversa introdutória.

12/03/2005

VERGONHA

No domingo passado, a conversa amena que eu estava a ter com um amigo não-citadino que há anos não via enveredou a certa altura para um tema clássico: desonestidades praticadas por certas pessoas. Foi então que o ouvi relembrar um provérbio, que eu não conhecia de todo. Para mim, foi a frase da semana:
"A vergonha é como a virgindade. Perdê-la uma vez é perdê-la para sempre."
Anotei.

11/30/2005

A todos aqueles que ingloriamente se esforçam por aprender inglês

"Não há língua mais fácil no mundo", dizem os que a falam desde o berço. Como ninguém é bom julgador em causa própria, veja você por si, como português de gema.
No outro dia, um amigo meu, que arranha inglês e foi a Londres em visita turística, ficou num hotel que estava em obras de restauro. Em pinturas, para ser mais exacto. A dado momento, ouviu alguém gritar Look out!, num andar muito por cima do seu. Correu à janela ao chamamento, só para levar na cabeça e nos ombros com a tinta de uma grande lata de plástico que escorregara das mãos do pintor. Concluiu, assisadamente, que quando os ingleses gritam look out! querem dizer que não se deve olhar para fora. Ainda por cima, o verde escuro nunca foi a sua cor favorita.
Esse mesmo amigo contou-me que, nessa noite, uma moça londrina o embaraçou quando, suave e languidamente, lhe perguntou, no bar onde tomavam um drink: "Which is the best flower to kiss?" Ele corou, murmurou um atrapalhado "I don't know" e ficou depois a ouvir a moça sussurrar-lhe, candidamente: "Tulips" (two lips).
Em inglês você julga que uma coisa é A, e depois ela sai B. Se você se lastimar do dinheiro que um pickpocket lhe surripiou do bolso, é capaz de ouvir o seu interlocutor dizer-lhe "I sympathize". Está você já todo contente com o facto de o considerarem simpático, quando uma mirada ao seu pequeno dicionário o informa que sympathize significa algo como "sinto muito!" Desmancha-prazeres!
É difícil entender uma língua com tantas rasteiras. Todos nós aprendemos a dizer "smoking" e chegamos a uma terra inglesa e constatamos que smoking não é coisa que se vista. Aliás, os dizeres que se encontram aqui e ali não são a dizer que é preciso usar smoking, mas a indicar precisamente o contrário: No smoking!
Anda um homem à espera de um fim feliz para a sua estadia, um happy end como ele sempre disse, e depois descobre que, afinal, é happy ending. Porque é que não disseram antes? Também o jogo do box não é assim que se diz, mas sim boxing, e o nosso surf, tão British, afinal é surfing. Que história é esta?!
Mas há muito mais, tanto que parece mesmo ser para nos fazer pirraça. Fala um homem em Christianism e emendam-nos, polidamente, para Christianity. Se falamos em Romantism, corrigem-nos para Romanticism. Se dizemos "lubrificate" quando pedimos para nos lubrificarem o carro, atiram-nos com um lubricate que é parecido mas faz o nosso verbo estar errado. E se quisermos condecorar alguém com umas medalhitas lusas e falamos em condecorate, atalham-nos o discurso. É decorate. Também o que deveria ser confraternize é apenas fraternize. Já podiam ter avisado antes!
Em matéria de grafia e pronúncia então, estamos conversados. Um verbo como to read, read, read devia obviamente ler-se da mesma forma. Devia! Estou convencido de que eles põem letras só para nos atrapalharem: em should, o -l- não se lê. O.K. Chegava. Era uma excepção e a gente aceitava. Mas não: em would, could, calm, salmon e mais uma chusma de palavras fazem o mesmo! A isto chamam eles simplicidade!
A história não fica por aqui: castle não tem um -t- audível, tal como listen. Debt e doubt têm o -b- só para nos confundir, e quanto ao -ough que aparece em tantas palavras, só está lá para ver se nós conseguimos resolver o problema: em tough, cough, trough, through, borough e thorough é um verdadeiro jogo de atirar a moeda ao ar a ver se se acerta. Não se acerta!
Imagine que hiccough, palavra que aparece em histórias de banda desenhada sob a forma abreviada de "hic" (soluço, principalmente quando se apanhou uma bebedeira), se pronuncia hik-kup (a última parte como cup).
Foi por estas e por outras que o filho de um outro amigo meu, já farto de andar a apanhar bonés com a língua inglesa em Londres, ficou doido quando leu um título no jornal de uma senhora que seguia no banco da frente do seu autocarro. Embora a notícia fosse sobre uma exposição que tinha alcançado grande êxito, o título, que foi tudo o que ele leu, dizia: "Exhibition pronounced success". No dia seguinte apareceu de volta na casa dos pais em Lisboa. Para experiência já bastava!

11/28/2005

Presidenciais

Por razões que não consigo descortinar, ninguém ainda aflorou aqui a questão das presidenciais. Talvez seja por fartura de política, talvez seja por cansaço relativamente aos candidatos -- um déjà vu a provocar um enorme bocejo. Seja como for, há um aspecto interessante: temos pela frente um autêntico direita-esquerda. Há um candidato único da direita, contra cinco da esquerda (um deles, filho do homem que primeiro me ensinou inglês a sério, farta-se de protestar que não lhe ligam, e até parece ter razão no seu sentir-se discriminado).
Um encontro tão directo da direita contra a esquerda nas presidenciais era algo que não se via há bastante tempo. Parece-me interessante, como intróito, rever um pouco a matéria dada sobre este assunto. Começarei por lembrar que sempre que alguém nos diz que "essa de esquerdas e direitas é pura balela", esse alguém é, sem margem para dúvidas, de direita. Porquê? Porque ser de esquerda exige uma tomada de consciência e um sentimento de revolta mais ou menos acentuado que não se compadece com a não-existência de, pelo menos, um dualismo. Pelo contrário, a quem é de direita convém esbater as diferenças para que o status quo se prolongue sem alterações de maior. Com evolução sim, nunca com revolução.
Não quer dizer que todos os esquerdistas sejam revolucionários, mas há decerto algo com que se preocupam bem mais que as pessoas de direita: com a justiça social. O valor número um da esquerda sempre foi uma tendência para a igualdade. Isto não significa todos muito ricos, mas sim todos com bons meios de subsistência. Para quem é de esquerda, repugna que a desigualdade excessiva provoque o domínio claro de uns pelos outros, o que vai contra uma desejada harmonia social.
Para a direita, o valor número um é a ordem. Cada peça no seu lugar no tabuleiro de xadrez. Congruentemente, a direita defende a tradição, que torna as diferenças sociais legítimas porque atestadas pela história. O que a direita defende não é a liberdade que a esquerda entende: liberdade de pensamento e expressão num contexto de rule of law.Defende, sim, um conceito de liberdade desregulada. Assim, quem mais tem, mais poderá acumular. Mas essa desregulação, que tem largos efeitos práticos, tem algo a precedê-la em matéria de relevância: a segurança. A manutenção da ordem. Não há nada que a direita mais tema do que a desordem.
Esquerda e direita são populistas na sua ânsia de angariarem votos. Mas a cultura da direita, ao apelar aos que tão diferentes são em matéria de rendimentos, pretende mais do que tudo manter a situação, com a dominação dos muitos pelos relativamente poucos.
Quem não soubesse, entenderia imediatamente pelo que escrevo que sou de esquerda. Acredito na possibilidade de um mundo melhor, que não é necessariamente um mundo mais rico, mas encerra certamente uma melhor distribuição da riqueza. Acredito mais no valor da liberdade do que da segurança, que tantas vezes é usada para cercear as liberdades. Aceito aquela máxima muito simples que nos diz que a direita sabe fazer dinheiro, mas não sabe distribuí-lo, enquanto a esquerda sabe distribuí-lo, mas não o sabe fazer. Considero-a, no entanto, uma asserção tipicamente de direita, na medida em que se refere exclusivamente a dinheiro, o que, sendo importante, é manifestamente insuficiente.
Tenho para mim que existem basicamente dois grandes pólos ideológicos, dos quais um é mais característico da esquerda, e o outro do pensamento mais conservador da direita. Em resumo possível, direi que: a direita pretende basicamente o crescimento da riqueza, enquanto a esquerda luta pela sua redistribuição. À liberdade empresarial da direita contrapõe-se um ideal de igualdade de oportunidades da esquerda. Ao conceito de segurança da direita o ideal da liberdade. À forma mais tradicional de família da direita responde a esquerda com novas formas de vida em conjunto. À exploração de matérias-primas que a direita defende nas suas políticas de curto prazo, replica a esquerda com a luta pela defesa e conservação do ambiente.
São opções claras, com pontos de vista nitidamente diferenciados, embora às vezes o contexto internacional obrigue a práticas quase semelhantes em determinados aspectos.
Relevantes são, ainda, as diferentes maneiras de encarar o Estado. Tanto a esquerda como a direita consideram-no essencial nas suas políticas. A um Estado mais redistribuidor e interventivo da esquerda, responde a direita com um Estado mais liberal, garante da ordem e da segurança, benévolo na fiscalidade
Neste pano de fundo, Cavaco Silva tem o apoio da direita. Todos os grandes grupos económicos estão com ele. Os restantes candidatos, que se degladiam uns aos outros, pugnam no campo da esquerda.
Até agora, Portugal tem tido presidentes bastante consensuais e que não originaram descontentamentos de vulto. A direita apoiou Mário Soares na sua reeleição, se bem me lembro. A única situação mais grave ultimamente foi o derrube do governo de Santana Lopes, algo que no entanto foi tão aprovado pela maioria da população que acabou por resultar na maioria absoluta conferida aos socialistas.
Agora, esboça-se uma radicalização maior. A ver vamos.

11/25/2005

Ministério da Educação e docentes (II)

Foi há cerca de vinte anos que, intrigado com a falta de conhecimentos de muitos dos estudantes que recebia das escolas secundárias, pedi a três alunas minhas para me contarem o que se passava. Eram três alunas especiais, docentes de francês e português no ensino básico e secundário. Amigas, as três tinham decidido aproveitar a oportunidade que a escola superior em que eu estava lhes oferecia para se matricularem em cursos livres de línguas. Como a expressão se fazia na língua que estavam a reaprender, a sua prática oral serviu até de razoável exercício, sem as inibições que às vezes estudantes sentem ao exprimir-se em línguas estrangeiras. É que o assunto não só lhes dizia respeito como, além disso, elas tinham imensa vontade de se abrir sobre o tema.
Devo dizer que sempre considerei os "desabafos" pessoais algo de importante. Deitar cá para fora coisas que nos oprimem (e abafam, no sentido de nos tirarem o fôlego ou criarem aperto -- a angústia, a ansiedade, o Angst alemão que está ligado a isto tudo, tal como a angina pectoris) é uma verdadeira e saudável catarse. Abafo é pressão, pelo que conseguir extravasar essa pressão é fundamental. É, no fundo, a ex-pressão.
E as "alunas" expressaram-se. Ainda hoje me recordo bem das suas ideias. Eram de profundo desapontamento. Porquê? Basicamente por questões de disciplina geral e de rigor. Não se pense que me falaram nessa coisa mediática que dá pelo nome de violência física, com agressões e coisas do género. Falaram-me de outro tipo de violência. De se sentirem impotentes perante a sociedade, os seus meninos e meninas, e ainda os respectivos pais. Estes alijavam a carga sobre os docentes das escolas, exigindo aos professores aquilo em que frequentemente eles próprios eram permissivos. Queriam que os docentes endireitassem a vara torta que lhes entregavam, em termos de respeito, disciplina e prazer de trabalhar. Queriam também resultados bons: era essencial que os filhos passassem de ano. Mas não eram só os pais a quererem isso. O próprio Ministério tinha criado todas as condições para que as estatísticas educativas fossem mais risonhas. E, diziam-me elas, é bastante difícil chumbar alunos. Temos que responder a quesitos vários. Ora, a realidade simples é que muitos dos estudantes não sabem o suficiente para passar. Porém, com a pressão daqui e dali, acabam por transitar para o ano seguinte. Sentimo-nos naturalmente desautorizadas. Essas passagens imerecidas levam à falta de aplicação dos alunos no ano posterior. Para quê estudar tanto, se a passagem está praticamente garantida? E não é a passagem que interessa aos pais?
Infelizmente, tem-se andado há muito neste engano. Recordo-me de, há anos, ter encontrado nos lavabos de uma escola politécnica em que leccionava, um protesto escrito na parede: "Queremos licenciatura univercitária!" E, mesmo com a grafia errada, obtiveram-na. O engano do facilitismo e da escola light foi fatal. Enquanto por palavras se falava em "escola de excelência", a realidade mostrava algo substancialmente diferente. Nunca se deveria ter ido por aí. Isso representou o abanar das estruturas. Não foi algo apenas conjuntural para que as estatísticas revelassem enormes progressos do país, a que corresponderiam mais fundos de apoio europeus. A situação abalou o edifício social, muito para além da escola, e esta foi, por sua vez, afectada pelo abalo do edifício social. Entrou-se na teoria do aluno-coitadinho. Existem notórias excepções, como é óbvio, mas o resultado global está à vista de todos. O interesse pelos fins, desprezando a forma como a eles se chegava, foi fruta podre que contaminou mais do que devia. Este é um assunto longo, que exigiria muito espaço e exemplos concretos, que aliás abundam. Limitemo-nos à questão dos professores.
Com o problema da notória desresponsabilização social em que frequentemente se entrou, os docentes honestos e sérios ficaram verdadeiramente desolados. Esses professores mais não pretendem do que rigor, o reconhecimento do seu trabalho e do esforço dos seus alunos. Querem justiça, como todo o ser humano que se preza. Com o abalo da estrutura social, o status do professor sofreu. Os concursos sucessivos de colocação nas escolas, a mediatização do número de professores a engrossarem a lista dos desempregados, os lamentos frequentes registados nas televisões, não serviram para melhorar esse status. Muito pelo contrário.
Ora, se há algo crucial para que um aluno aprenda é a confiança e a admiração pela pessoa que o ensina. Pela pessoa e pela instituição. Com a exposição frequente nos media, e nas conversas gerais, de diplomados que de facto cometem erros que não são admissíveis, lança-se o descrédito sobre a escola e, em linha directa, sobre os professores. Em geral. Sem separar o trigo do joio. Porque há trigo e há joio.
Em minha opinião, agora mais informada, a situação presentemente imposta às escolas básicas e secundárias contribui mais para aviltar a maneira como os docentes são vistos, e se vêem a si próprios, do que para resolver a questão do insucesso escolar. Entre a qualidade e a quantidade, há que escolher. Existem, de facto muitas coisas a melhorar na escola, mas é preciso nunca perder de vista as raízes da sociedade em que ela se encontra inserida. Com isso, ser-se-á mais justo, mais honesto, e não se procurará arranjar bodes expiatórios únicos.

VERGONHA

Retirado do jornal PÚLICO de hoje:

Hoje é Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres.
Violência doméstica matou 33 mulheres desde o início do ano.
Foram alvejadas a pistola ou caçadeira, golpeadas com faca ou machado, mortas à vassourada, à paulada, ao murro ou pontapé. Desde o início do ano, 29 mulheres foram assassinadas por maridos, namorados ou ex-companheiros, mais quatro por familiares.


Como dizia a canção, "vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar!"

11/24/2005

PROPOSTA

Agora que está decidido que o novo aeroporto de Lisboa vai ser na Ota, gostaria apenas de propor, em primeira mão, que aos vastos terrenos da Portela, os quais a seu tempo irão ficar devolutos para construção imobiliária, se dê a designação de Bairro dos Políticos. Numa Lisboa que tem, entre muitos outros, o Bairro Azul, o Bairro do Restelo, o Bairro Cardeal Cerejeira, o Bairro da Madre de Deus, o Bairro dos Actores, o Bairro dos Professores, o Bairro das Colónias, o Bairro dos Irmãos Pobres, o Bairro da Liberdade, o Bairro Operário e o Bairro da Penitenciária, está obviamente a faltar o Bairro dos Políticos. Será o maior de Lisboa. Como convém.

(Se sobejar ainda alguma nesga de terreno, que ela seja aproveitada para a edificação do Bairro dos Construtores.)

11/22/2005

Ministério da Educação e Docentes

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que, entre os participantes neste blog há pessoas mais qualificadas do que eu para abordar este assunto, na medida em que são professores no activo e sentem estes problemas na pele. Como não avançam, faço-o eu, numa tentativa de colher opiniões que me deixem mais bem informado.
Na passada sexta-feira, os professores de escolas públicas do ensino básico e secundário, em greve, manifestaram-se nas ruas de Lisboa a exteriorizar o seu descontentamento. Cartazes pediam que a ministra fosse "para a rua". Tinham razão? Quem, de um momento para o outro, vê alteradas determinadas expectativas relacionadas com a sua progressão na carreira e condições de reforma, e se vê legalmente proibido de dar explicações aos seus próprios alunos, sente-se inevitavelmente prejudicado relativamente à sua situação anterior. Quem, ainda por cima, se vê confrontado com a obrigatoriedade de passar mais tempo na escola a fim de atender a eventuais necessidades de alunos e a aulas de substituição, considera-se naturalmente privado do tempo livre de que anteriormente usufruía. É humano que os professores reajam nesta altura. Acabou de lhes calhar a fava no bolo.
Do lado do governo, personalizado pela ministra, existe a declarada intenção de (1) não deixar apenas no papel e, portanto, sem cumprimento, leis que já existem, com a finalidade de (2) inverter a situação do insucesso escolar, visto que, dentro da UE, estamos na cauda do aproveitamento dos dinheiros gastos na educação. Muito na cauda, de facto.
Ora, no seu objectivo de incrementar a produtividade, a ministra parece ter razão. No que respeita a alguma da metodologia usada, é possível que tenha menos, muito por culpa, digo eu, de costumes já enraizados nas escolas, da actuação dos conselhos executivos e do ambiente social em que a escola se insere. Por outro lado, pedir colaboração redobrada a quem acaba de ver vários dos seus "direitos adquiridos" cerceados é uma acção que de antemão se previa ser passível de protestos, numa sociedade muito desequilibrada em matéria de justiça social como é a portuguesa.
Com este pano de fundo, ressaltaram os casos mais mediáticos e facilmente ridicularizáveis das aulas de substituição. De facto, não parece admissível que um docente de História fique a substituir a professora de Matemática, que faltou a uma turma que não tem a referida docente de História como professora. Os alunos vêem que a professora não sabe o que há-de fazer com eles. Quanto a ela, sente-se a mais. O que se diz de História e Matemática, diz-se de um docente do 12º ano a substituir um professor do 10º ano, que faltou. Como não há grande respeito em muitas das nossas escolas -- o ambiente social acima referido, que é o do país e até frequentemente retratado ou exagerado em telenovelas --, a situação torna-se caricata tanto para alunos como para professores. Estes vêem o seu status, nesta altura já fragilizado, ainda mais aviltado. Desmotivam-se.
A verdade, porém, é que há muitos professores a faltar. Porquê? Por uma infinidade de razões. Primeiro, porque a maioria dos docentes (mais de 70 por cento) são mulheres. Ora, sabe-se que as mulheres em Portugal são mais sobrecarregadas do que os homens relativamente aos filhos e a outras tarefas. Assim, se um filho precisa de ir ao médico, a mãe, que muitas vezes não pode já pedir à avó da criança para ir com ela ao médico (a avó tem também o seu emprego ou mora longe), vê-se obrigada a faltar ao trabalho. Depois apresenta atestado. A gravidez é outra situação relativamente comum. Noutros casos, é o próprio docente que adoece e tem de ficar em casa. Noutras situações, ainda, pode precisar de ir a um funeral, assinar uma escritura, ir a tribunal, ou fazer algo do género. São razões válidas, mas isso parece originar 10 por cento de faltas (nas escolas públicas, contra apenas 3 por cento nas privadas). Ora, se essas aulas fossem substituídas por um professor do mesmo ano e da mesma turma, que adiantaria a sua matéria ou faria exercícios e revisões, tudo bem. Não haveria inconveniente de maior.
Pessoalmente, foi o que muitas vezes fiz como coordenador de cursos no ensino superior privado. Só que aí, se um professor faltasse a uma aula, não recebia. Se a falta tinha uma doença como motivo, seria depois a Segurança Social a pagar-lhe. No Estado, porém, as coisas são diferentes. Falta-se mais e, com isso, acaba-se por diminuir a produtividade e, principalmente a partir de agora, por sobrecarregar os colegas.
Mas, pergunta-se, não seria possível para os Conselhos Executivos ordenarem as substituições apenas por ano, impedindo portanto que um professor do 9º fosse vigiar uma turma do 5º ano, que não conhece, por quem não é conhecido e que não tem matérias afins com aquela que ele lecciona? Dir-se-á que, com isso, iriam prejudicar mais uns professores do que outros. É possível. Mas prejudicariam menos os alunos. E, numa escola, quem conta mais: os alunos ou os professores? Para os Conselhos Executivos, constituídos por docentes, haverá uma natural tentativa de não prejudicarem os seus colegas. Por serem colegas e por serem também os seus eleitores. Logo, não é impossível que, para se protegerem e não terem contra si a animosidade dos colegas na altura das próximas eleições, os membros do Conselho Executivo não lancem medidas que sejam impopulares. Com isso, porém, acabam por causar outro tipo de descontentamento -- contra o Ministério.
Entretanto, parece que existe uma minoria de escolas onde este problema das substituições é resolvido a contento. Porque os Conselhos Executivos são melhores gestores? Talvez. De facto, se o assunto for estudado sob a óptica das turmas e não dos docentes; se os docentes forem obrigados a avisar a escola da sua falta -- há telemóveis e e-mails para isso! -- a situação não é muito complicada. Um professor pode dar duas horas suas, extra, a duas turmas que são também suas e, no caso de o colega agora impossibilitado poder, este dará, em dia a combinar, as suas duas aulas em falta.
Para terminar este longo arrazoado, não posso deixar de registar o quanto me custou testemunhar pessoalmente casos de docentes cujas escolas ficam a trinta ou mais quilómetros das suas casas. Especialmente esses não têm uma vida fácil!

11/19/2005

Start Something!

Este é um pequeno texto com alguma história, que terei prazer em vos contar se o "Start Something!" merecer a vossa leitura. Desconheço o seu autor. Sei, no entanto, que o retirei de uma publicação.

Throughout history
most great
civilizations that
have declined
were victims of
stagnation rather than
conquest.
Apathy,
indifference,
detachment
led to decay.
In every country today
we find more people who
prefer the role of
spectator rather
than participant.
Whenever a problem arises,
The spectator asks,
"Why don't they do something?"
They can't help the police
to maintain law and order.
You can!
They are not responsible
for the conditions of your schools.
You are!
They can't give your community
good government.
You can!
Every civic group,
every business,
every sports club,
every good tradition,
every worthwhile institution
began with a need,
a vision
turned into reality by someone
alive, responsible
and innovative.
To the people who sit back and
ask,
"Why don't they do something?"
we ask,
"Why don't you?"

11/16/2005

Quem só olha para a Ota, não vê a batota

Se Portugal tem cerca de 15 milhões de fogos para 10,5 milhões de pessoas; se muitos desses fogos estão devolutos (embora se continue a construir abundantemente); se os preços da habitação não baixam apesar do excesso de oferta -- tudo se deve certamente ao facto de o sector da construção civil ser não só muito forte em Portugal como até desmesurado para o país que temos. Ora, quem é forte constitui, obviamente, um grupo de pressão que lhe permite exercer melhor o seu poder. A necessidade de uma ininterrupta série de obras públicas, por um lado, e de novos terrenos para negócios ligados ao sector imobiliário, por outro, são factores que se auto-justificam, segundo os interessados, para manter activo um sector que, dirão, emprega milhares e milhares de trabalhadores (os eternos desvelos sociais do patronato).
Creio que a questão do aeroporto da Ota se enquadra perfeitamente no panorama acima esboçado. A Ota significa, para o sector, o jogar em dois ou três tabuleiros ao mesmo tempo, ganhando em todos. Curiosamente, tanto a TAP como a Portugália, as duas linhas aéreas que mais utilizam os aeroportos em Portugal, já se manifestaram contra o abandono do actual aeroporto da Portela. Uma parte substancial da opinião pública está contra despesismos estatais, numa época de contenção, e não entende a razão do projecto. O Euro-2004, que registou uma afluência de aviões muito superior ao normal, provou à evidência que a Portela está pronta a resistir por muitos e bons anos a partidas e chegadas. Por outro lado, o facto de uma cidade como Lisboa possuir um aeroporto perto do centro representa um trunfo em termos de qualidade. A presente localização é decerto muito mais cómoda para os passageiros do que uma outra que os obrigue a percorrer cerca de 80 quilómetros (ida e volta) em estradas com trânsito intenso.
À luz destes factos, que são dificilmente contestáveis, é legítimo perguntar-se por que razão se insiste tanto na Ota ou, já agora, noutro local qualquer, que pode até localizar-se do outro lado do Tejo? Basicamente porque o sector da construção civil, ele próprio grande financiador dos partidos políticos segundo consta, se encontra neste momento ávido de obras públicas vultosas como esta do novo aeroporto, que necessariamente implicará ainda a construção de novos acessos. Mas, mais importante que tudo, o sector cobiça há muito os valiosíssimos terrenos hoje ocupados pelo aeroporto da Portela.
Lembremo-nos da campanha que, há anos, foi lançada contra o Hospital Júlio de Matos, que ocupa uma vasta área na zona da Avenida do Brasil. Foi repetidamente afirmado por comentaristas, que pareciam estar fazer o jogo do lobby, que uma unidade do tipo do Júlio de Matos possuía uma dimensão que não fazia qualquer sentido nestes novos tempos. O tratamento de doentes mentais fazia-se modernamente em unidades de pequena dimensão, espalhadas por vários locais. A proximidade do aeroporto, dizia-se ainda como argumento, não permitia que os doentes descansassem verdadeiramente. Tanta preocupação com os pacientes fazia enternecer a alma mais empedernida. Na realidade, porém, os amplos espaços do Júlio de Matos eram apenas alvo de elevada cobiça para construção de mais umas torres de luxo. Quanto dinheiro não se poderia fazer ali? Loucos eram os que estavam no hospital, não os cabeças do sector!
Hoje em dia, mantém-se o mesmo argumento do barulho das aeronaves. E em prol das indefesas populações das proximidades que, por acaso, nunca fizeram abaixo-assinados contra esse facto. Sintomaticamente, as novas construções nas imediações do aeroporto prosseguem, apesar do "ruído ensurdecedor" provocado pelos aviões que as sobrevoam. Está a fazer-se, por assim dizer, o cerco ao aeroporto. A área das Galinheiras, a seguir à Ameixoeira, está a ser objecto de um enorme projecto urbanístico. Mais uma vez, surge como interessante que o local fique situado nas proximidades do aeroporto. Arranja-se assim mais um argumento futuro para a poluição sonora causada pelas aeronaves, como se estas tivessem começado a sobrevoar aqueles locais depois de as construções terem sido feitas!
A Ota surge aos meus olhos como um caso típico de exercício de poder por parte de um núcleo que é amplamente sustentado pela banca e por sociedades financeiras. Trata-se de um sector insensível a outros argumentos que não sejam o do lucro, fácil e contínuo. Barulho mais ensurdecedor que o dos aviões é o produzido pelos estafados argumentos da construção civil. Poderei estar enganado, mas estou sinceramente convencido de que a Ota é apenas mais um caso de pura batota. Para culminar, veja-se o caso da linha do Metro prevista para o aeroporto da Portela. Faz algum sentido que, numa altura em que se pensa desactivar o aeroporto, se gastem rios de dinheiro na construção dessa nova linha? Porém, se for para valorizar o imobiliário que vai ser construído na zona, então já fará todo o sentido.

11/15/2005

Contradições

Durante a minha vida de professor de línguas (aplicadas a diversas áreas), tive ocasião de pôr alunos adultos a jogarem "O Álibi". Trata-se de um jogo interessante, tanto do ponto de vista linguístico como sociológico. Dois alunos, suspeitos de terem roubado uma joalharia, saem da sala de aula para prepararem o seu álibi, enquanto os que estão na sala preparam as suas perguntas. Como cada um dos suspeitos reentra sozinho na sala para ser interrogado pelos "polícias", é relativamente fácil demonstrar, através das respostas contraditórias de um e do outro a algumas perguntas mais subtis, que estão a mentir. Darei pormenores do jogo a quem estiver eventualmente interessado, mas o que me interessa salientar hoje aqui é que os alunos que estão na sala adoram fazer o papel de polícias. Questionam e questionam os suspeitos! Contudo, todos esses alunos admitem que, no geral, a polícia não cabe no mundo dos seus amores. Este aparente paradoxo é interessante e humano. É que se formos nós os polícias, a coisa é diferente!
Trago este assunto à baila a propósito de uma parte do último "Prós e Contras" televisivo sobre Imigração. A certa altura, a apresentadora sugeriu que, aparentemente, a situação ideal seria a de os trabalhadores imigrantes virem para as grandes obras, quando as há, e abandonarem o país após a prestação do serviço. Sobreveio uma revoada de aplausos, espontâneos, de uma plateia maioritariamente constituída por portugueses não descendentes de imigrantes.
O que os membros da plateia consideraram correcto foi, nem mais nem menos, a precariedade do emprego, algo que decerto detestariam para si próprios. Quando, há umas décadas, as empresas transformaram as suas consagradas Secções de Pessoal em Departamentos de Recursos Humanos, elas passaram a considerar as pessoas como meros recursos, só que humanos. Combustíveis, produtos químicos, madeira, etc. são os recursos materiais de que as empresas carecem para a sua laboração. A diferença relativamente a nós é que somos pessoas. Para as empresas, é ideal a situação em que conseguem que uma percentagem razoável dos seus "recursos humanos" possam ser dispensados depois dos picos de produção, eventualmente para serem chamados de novo quando a laboração recomeçar em pleno. As pessoas passam, assim, a ser mais uma ferramenta de gestão. JIT -- just in time.
Ora, foi esta situação, que para si próprios não apreciariam, que as pessoas da plateia aplaudiram quanto aos imigrantes. Admitamos que somos muito assim. Quando toca a nós, é uma coisa, quando o assunto é de outros, a opinião já é diversa. Não é assim também com os professores, que gostam de avaliar os outros mas detestam serem eles próprios os avaliados?
É por motivos desta ordem também que, se formos eventualmente detentores de acções de uma empresa que acabou de despedir três mil trabalhadores "redundantes" para aumentar a sua produtividade e, com isso, viu o valor das suas acções bolsistas disparar, rejubilamos com o nosso ganho e ignoramos por completo o que deu azo a essa súbita subida. Somos humanos. Nem mais, nem menos. É por isso que consideramos a doutrina de Cristo apenas como lindos preâmbulos éticos para o articulado das leis que nós próprios vamos elaborando.

11/14/2005

Lobisomens

Há tempos vi num programa de televisão algo que desconhecia e considerei fascinante. O programa era sobre lobisomens. A palavra evoca-me Trás-os-Montes, região acerca da qual era vulgar dizer-se que "é uma terra em que as mulheres são homens e os homens lobisomens".
Na realidade, em Trás-os-Montes como em tantas outras terras da Europa, existiram "lobisomens" nos séculos XV, XVI e possivelmente até muito mais tarde. Investigações relativamente recentes conduzidas por uma cientista norte-americana levaram à conclusão de que os lobisomens tendiam a surgir em regiões de gente pobre e com cultivo e produção de centeio. Constatou-se que o centeio pode conter um fungo -- ergot -- que é alucinogénico. O ergot é, de resto, usado em numerosos alucinogénicos. Este fungo forma-se no centeio próximo da altura em que o cereal está pronto a ser colhido. Quem o colhe não repara nele e, mesmo que notasse, se fizesse pão utilizando esse centeio o pão passaria a conter o ergot, que resiste à cozedura. Daí à ingestão do pão em largas quantidades -- como é timbre das famílias pobres -- e à sugestão real dada à pessoa de que possuía força sobrenatural era um passo.
Para o restante da população, esses lobisomens eram vistos como estando possuídos pelo demónio. Se a descoberta da cientista tivesse ocorrido há quatrocentos anos, ter-se-iam evitado muitas mortes -- e muitas histórias fantásticas.
O programa não fazia qualquer alusão concreta a Trás-os-Montes nem a Portugal, embora mencionasse outras regiões da Europa. Para mim é evidente a possível transferência para o nosso nordeste.

11/13/2005

TNSC

Um bem-haja ao João Miguel, também conhecido no mundo da blogosfera por João Ratão, por ter organizado para hoje uma visita aos bastidores do S. Carlos, que teve fortes motivos de interesse. As 22 pessoas que nela participaram tiveram oportunidade de conhecer em pormenor praticamente todas as secções do Teatro Nacional de S. Carlos, de visitar os locais mais conhecidos e os mais recônditos, receber explicações vivas, informativas e detalhadas. Uma visita assim, de 120 minutos, não acontece todos os dias.

11/09/2005

Aplauso

Duas notícias recentes aumentaram um pouco o meu capital de esperança na correcção de situações injustas. Uma delas diz respeito a uma sentença jurídica que condenou três empresas por abate ilegal de sobreiros para fins de construção. Se a sentença lhes tivesse aplicado apenas uma coima, o caso seria vulgar. Seria aquilo que geralmente se classifica de situação em que o crime compensa. Contudo, o tribunal determinou que, para além do pagamento de uma coima, as empresas teriam que replantar os sobreiros abatidos e, mais relevante do que tudo, ficavam impossibilitadas de efectuar construções naqueles terrenos por um período de 25 anos. Assim, admitamos, o crime começa a não compensar. É o Estado de Direito a funcionar.
A segunda notícia informa que o código de conduta aprovado pela Apifarma determina que os laboratórios farmacêuticos não poderão oferecer aos seus clientes prendas de valor superior a 25 euros nem patrocinar congressos fora de Portugal. Ficam proibidas vantagens pecuniárias ou benefícios em espécie aos profissionais de saúde que os incentivem a receitar, fornecer, vender ou administrar medicamentos. A violação destas regras é punida com advertência, multa ou expulsão da Apifarma.
Este é um bom caminho.

11/08/2005

Uma questão

Se não o fizeram ainda, dêem uma espreitadela ao endereço http://www.blogsearch.google.com/. Quando aparecer "Pesquisa de blogs", escrevam na respectiva caixa azweblog. Reparem que surgem cerca de 50 entradas nossas, dispostas "por ordem de relevância". Quem determina esta ordem? Que palavras incluídas nos blogs são consideradas relevantes para a busca e ordenação automática?

11/07/2005

Histórias à volta de um teimoso défice

Imagine-se pai ou mãe de uns três viçosos filhos, todos a estudar. O ano correu-lhe economicamente bem, foi aquilo a que se chama um ano de vacas gordas. Já o ano anterior tinha sido muito razoável. Você decidiu colocar os seus três filhos numa das melhores escolas de Lisboa. Aumentou-lhes também a mesada dos 100 euros habituais para 300 euros. Nivelou por cima, porque admite que o mais novo não precisa desse montante, mas não quis fazer descriminações. Viajou, ainda, pela Europa com toda a família no novo carro, o qual vai pagar a prestações. Uma entrada para uma casa nova, que ainda não está pronta, foi o seu acto de maior relevo. Tudo foi feito com a intenção de dar satisfação à família e a si próprio.
A crise económica que agora aí está não era exactamente esperada. Mas está aí. Você entrou em dificuldades. Tem um fundo de reserva mas, se as coisas continuarem assim, ele esgotar-se-á num ápice. Você tem os seus compromissos fixos: a casa, o carro, a escola dos garotos. Até a mesada! "Quem é que me mandou aumentá-la? Devia estar a dormir quando fiz isso!"
São assim as coisas nas famílias. Podem ser assim, também, no governo de uma nação. Quando não se aproveita os anos das vacas gordas para juntar umas reservas que dêem para os anos maus e, pelo contrário, se assinam compromissos que há que cumprir, a coisa pode tornar-se preta. É verdade que os governos têm que apresentar todos os anos um orçamento aos deputados e que estes o devem aprovar. Mas, com votos contra e abstenções, ele passa na mesma. Por outro lado, um orçamento nunca diz tudo. Tem muita coisa encapotada, coisas que só anos depois, quando já são outros os governantes, se vêm a descobrir.
A pergunta mais importante a colocar é: pode gastar-se mais do que aquilo que se arrecada? Pode, claro que sim, mas não se deve. A excepção será quando aquilo que se gasta a mais irá ter um valor reprodutivo certo num futuro próximo. É o chamado défice virtuoso. Outra pergunta que deve ser colocada: por que razão se irá gastar de mais? No seu caso, acima, era para dar satisfação à família. E no caso do Estado? Bem, será muitas vezes para parecer mais um Midas do que um verdadeiro gestor, que quer agradar a um maior número possível de pessoas para que essas mesmas pessoas, como votantes, possam garantir a sua reeleição. O poder é algo que um governo detesta perder.
Publicou há dias o jornal Público uma interessante análise dos défices registados entre 1980 e 2004. Não houve ano que não apresentasse défice. Para começar, deverá estranhar-se a existência invariável desse défice. Então não é verdade que, para mais, fomos o país mais ajudado pela União Europeia através de diversos fundos? É. Mas quando se trata de dinheiro fácil, também fácil se torna gastá-lo. Além daquela história das reeleições. História que é decisiva.
Nestes últimos 24 anos, os défices mais baixos ocorreram em 1999 e 2000. Foi aquando da nossa candidatura ao euro. O governo declarou défices de 2,9 por cento, resvés com o máximo permitido: 3 por cento. E os mais elevados? Bem, esses chegaram aos 9 por cento (!) e ocorreram em 1981 e 1985. Em 1981, na sequência da morte de Sá Carneiro houve várias eleições. Em 1985 foram concedidas múltiplas benesses. Dois anos depois, com importantes eleições legislativas a realizarem-se, o défice atingiu outro número elevado: 7,2 por cento. Em 1991, quatro anos depois, com novas eleições para o parlamento, o défice pulou para 7,6 por cento. Este pai a gastar o que não podia nem devia! E ele que, como primeiro-ministro, até devia saber, porque a sua formação era em Finanças e gabava-se disso. Dir-se-á: não se seja injusto! Então, e as crises económicas? Qual crise económica! As condições de escudo baixo e petróleo barato até davam para produzir e vender mais! E, na realidade, verifiquemos que houve sempre um saldo positivo do lado económico, o famoso PIB: em 1981 foi de 1,6 por cento, número que em 1985 cresceu para 2,8 por cento, em 1987 cresceu ainda mais para 6,4 e em 1991 desceu, mas para uns ainda confortáveis 4,4 por cento. Pois mesmo assim o Estado gastou mais do que arrecadou!
Quando chegar a factura para pagar, o que virá a suceder a partir do ano que vem, ela será pesada. E longa na sua duração.
Esta é uma breve história que ilustra como o amor é cego. Tanto o amor aos filhos como ao poder. Um tem laços sanguíneos e desculpa-se mais. O outro não tem perdão. É também um dos pontos fracos do regime democrático.

11/06/2005

Falta de notícias que incomoda

Se há uns quinze dias fomos alertados pelos media para um alegado sistema de fraudes, envolvendo a banca e lesando o Estado, num montante de causar verdadeiro alarme, presentemente estamos a ser objecto do mesmo silêncio que se ergueu desde Maio sobre uma propriedade na zona da Companhia das Lezírias onde se procedeu a um abate de sobreiros, numa alegada acção promíscua entre governantes do CDS e o BES. É em nome do segredo de justiça que de súbito se eleva este muro de não-informação? É a favor do bom nome da economia nacional e do seu sistema financeiro? Ou é em puro desrespeito pela democracia e pelos direitos dos cidadãos-que-só-servem-para-botar-o-voto-na-urna?

11/04/2005

Matriz de Acontecimentos (3 Novembro 2005)

Continuo a aceitar inscrições para uma visita aos bastidores de São Carlos, a efectivar às 12h15 do domingo 13 de Novembro.

Se ainda não viu, não perca o filme que está em exibição (até dia 9, para já?) no Nimas, na 5 de Outubro. Eu segui, e confirmo, a opinião de Carvalho de Oliveira no nosso blog no dia 28.

Acaba no domingo, dia 6, o XXV Festival Nacional de Gastronomia de Santarém, o XVI Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora e os XIII Encontros de Coros Amadores do Concelho de Oeiras.

De 8 a 13, Festival Internacional de Chocolate de Óbidos (fecha às 23h, último dia 20h). Aproveite para ver a exposição do José Aurélio.

Sexta-feira, dia 4:

às 21h30, no Auditório Municipal Eunice Muñoz, Oeiras, Música de Câmara com o Moscow Piano Quartet, integrado no Festival Península de Músicas.

Sábado, dia 5:

às 15h00, início dos circuitos de autocarro para visita às Galerias com inaugurações no âmbito da LISBOARTE (marcação pelo 21 356 78 00)

às 15h00, nas novas instalações do Museu da Música Portuguesa (na Casa Verdades Faria, no Monte-Estoril) conferência por Teresa Cascudo ?Por que é que a Nona Sinfonia é o hino da União Europeia";

às 21h30, no Auditório Municipal Eunice Muñoz, Oeiras, recital de canto e piano com Ana Ester Neves (soprano) e João Paulo Santos, integrado no Festival Península de Músicas.

Domingo, dia 6:

às 10h00, na Rádio Baía, 98,7 MHz, Carlos Pinto Coelho entrevista Pedro Almeida Vieira.

às 12h00, no CAMJAP (?Centro Arte Moderna da Gulbenkian?) visita temática do ciclo ?Primeiro Contacto? ?Uma Introdução à Colecção do CAMJAP - Arte Portuguesa na Segunda Metade do Século XX? por Hilda Frias.

Segunda-feira, dia 7:

às 18h00, na Gulbenkian, ciclo de conferências ?Ao Encontro da Medicina?, Duarte Nuno Vieira (Faculdade de Medicina de Coimbra) ?Como Saber Quem Éramos: Identificação e ADN, História e Catástrofe?;

às 19h30, no Trem Azul Store Jazz (Rua do Alecrim, 21 A), concerto de aniversário

às 23h30, na 2:, Ana Sousa Dias vai conversar com Marco Martins e Nuno Lopes.

Quarta-feira, dia 9:

às 10h00, na Gulbenkian, ciclo de conferências ?8º Fórum Gulbenkian de Saúde?, Debora Spar ?Os Ganhos da Promoção em Saúde?;

às 18h00, na Gulbenkian, ?As Forças da Natureza?, por João Paulo Silva, do ciclo ?À Luz de Einstein 1905-2005?;

às 18h00, na Culturgest, conferência do ciclo ?Óperas (mal) amadas do Século XX?: Der ferne Klang (1912) de Krank Schreker (1878-1934), por Carlos de Pontes Leça.

A seguir:

11 a 29 de Novembro, Guimarães Jazz

11 a 20 de Novembro, London Jazz Festival

13 de Novembro, Teatro de São Carlos segundo dia do ciclo ?Europa em Música?, dedicado a Itália!!! Por 5?, poderá assistir a um, a dois ou a todos os concertos programados: 11h00 no Salão Nobre, 15h00 no Foyer e 17h00 no Salão Nobre.

25 de Novembro, às 22h45, na Aula Magna: Jacinta

Download do ficheiro das Sugestôes (03 Novembro 2005)

Bom fim-de-semana

JMiguel

11/03/2005

Dantes havia apenas a Travessa do Fala-Só

Telemóvel, télelé, trelamóvel, celular, seja o que for, já estamos tão habituados que nem ligamos. Mas muita gente liga, e gasta boas somas palrando em longas conversas fiadas. No verão passado, vi uma participante num passeio pedestre nocturno de cerca de 10 quilómetros empunhar o dito sensivelmente ao quilómetro 3 e não parar de falar até chegar ao fim do percurso. Fez dois passeios paralelos.
Ultimamente, a situação tem-se alterado. Desconheço se a tecnologia usada é bluetooth com um auricular, o certo é que cada vez encontro mais fala-sós. Estarão obviamente a falar com alguém, mas a falta do télelé na mão desorienta o espectador à primeira vista. Ainda hoje, num autocarro meio-vazio, deparei com uma senhora que, de uma situação de quietude total, passou a certa altura a falar desalmadamente alto e a fazer montes de gestos, enquanto olhava de soslaio para a sua própria imagem reflectida na vidraça. Acredito que tenha havido pessoas no transporte que duvidaram da sanidade mental daquela fala-só. O problema é que qualquer dia, ao vermos alguém nas proximidades do Júlio a falar sozinho, vai-nos assaltar a terrível dúvida: cliente do JM ou apenas um telesolitário?

10/31/2005

Atiradores furtivos

Durante largos anos tive como colega um indivíduo que era particularmente arguto e pragmático no seu comportamento. Tendo passado por vários cargos na instituição em que trabalhava, foi-se precavendo relativamente a umas quantas pessoas que poderiam eventualmente pregar-lhe rasteiras, prejudicando-o, portanto. Como antídoto para eventuais males futuros, coleccionou dessas pessoas alguns documentos oficiais que, de uma forma ou doutra, as comprometiam. Um dia, mostrou-me a sua pequena mas valiosa colecção e confessou-me que dois dos colegas já o tinham tentado "entalar". "Bastou-me chamar-lhes a atenção. Lembrei-lhes que possuía documentos que não os favoreciam", contou-me. E assim passou incólume pela instituição até se reformar.
Esta história vem a propósito da recentemente eleita presidente de uma autarquia a norte do Porto. O que tem na manga é, creio, demasiado comprometedor para determinadas pessoas, quiçá um partido. Se a maçam demais, ela ameaçará lançar toda a artilharia de que dispõe. Os anarcas rir-se-iam: "Desculpem esta injustiçazinha. A democracia segue dentro de momentos."

10/30/2005

Uma lição da toponímia nacional

Os nomes que são dados às múltiplas localidades de um país derivam de um sem-número de itens: factores geográficos (rios, ribeiras, montes, vales, várzeas), nomes de santos protectores, corruptelas de designações antigas, etc. Muitos topónimos derivam também dos nomes de árvores, arbustos e plantas de vária ordem. Tal como sucede noutros países, Portugal é rico neste domínio. Proponho que demos uma mirada por esses topónimos.
Matas de faias dão-nos o Faial. Carvalhos dão-nos Carvalhais, Carvalhos, Carvalheira e Carvalhosa. Castanheiros dão-nos Soutos, Soutelos e Castanheiras, como Castanheira de Pera. Nogueiras emprestam o seu nome a muitas localidades, como Vila Nogueira de Azeitão. O funcho, de que o caracol tanto gosta, dá-nos o Funchal. Do junco vêm Juncal, Juncais e Junqueira. Da oliveira, temos Olival, Oliveirinha e múltiplas Oliveiras, de que a de Azeméis será a mais conhecida. Da ameixieira, temos Ameixial. Das matas provêm as Moitas e as próprias Matas. Povoações com o nome de Abrunheira, Nespereira, Nesperal, Alandroal (de aloendros), Amieira, Amiais (de amieiros), Amoreira e Moreira (de amoras) remetem-nos para mais árvores, de fruto ou não, e para arbustos. Cedros, Coentral, Horta, Fenais (de feno), Feteira (de fetos), Cebolais, Figueira, Figueiredo, Figueiró e Freixo lembram-nos outros elementos do nosso mundo vegetal. Aroeira, Avelal, Avelar, Avelãs, Beringel, Zambujeira, Azambuja, Zambujal, Azinhal, Pessegueiro, Laranjeiro, Tramagal, Olaias, Pereiro, Pereira e Macieira juntam-se à longa lista. Das malvas vêm as Malveiras, das murtas o Murtal e a Murtosa, dos nabos Nabais, dos marmelos Marmeleira, do louro Loureiro, Louredo e Lourosa, das silvas as Silveiras e Silvalde, do salgueiro Salgueirais, do sobro Sobral e Sobreira. E ainda: Nabais, Palmeira, Palmela, Sabugo, Sabugueiro, Rosmaninhal, Vimioso, Vimeiro, Vimieiro, Romãs, Salsas. De um país rico em vinho é natural que surja Vide, Vidigueira, Vinhó, Vinhas e Vinhais. Da árvore que mais tem ardido em Portugal são numerosos os topónimos: Pinheiro, Pinheiros, Pinho, Pinhão e Pinhel.
Existem muitas mais designações, mas esta listagem já nos dá uma ideia razoável. O que se poderá estranhar é que a árvore que mais aumentou em área plantada em Portugal, o eucalipto, não esteja representada com um único topónimo. E, no entanto, entre 1928 e 1995 a área plantada com eucaliptos em Portugal aumentou 90 vezes! (Lamento não possuir estatísticas credíveis pós-1995, mas todos podemos ver na nossa paisagem o aumento exponencial dos eucaliptais.) Porque será que as populações não quiseram denominar de "Eucaliptal" nenhuma das suas localidades, à semelhança de Olival e Olivais, ou Carvalhal e Carvalhais? Dir-me-ão: porque é uma árvore relativamente nova em Portugal. Será um motivo. Mas o principal é o facto de o eucalipto ser uma árvore que contribui -- e de que maneira! -- para a desertificação do território. É o oposto de povoamento. Onde há largas plantações de eucalipto, tendencialmente não há pessoas. Permito-me recordar que essas plantações não são matas. Faltam-lhes os três componentes habituais: as ervas, os arbustos e as árvores propriamente ditas. Destes três elementos, o eucaliptal só tem as árvores. Os eucaliptos. Eles próprios. Chupistas de toda a água que encontram. Os seca-pântanos de antigamente vieram para secar o país e alimentar as companhias de celulose. É uma forma de tratar o país como se fora uma colónia que apenas se explora. O mais possível. Sem pensar nas gerações vindouras. Tudo no curto prazo, porque dá rendimento rápido. Pouco nos devemos admirar dos incêndios a perder de vista que destroem as matas autóctones de Portugal, aquelas que no fundo deram os nomes a tantos vilares, aldeias, vilas e até cidades. Esta é uma lição que a toponímia nos concede, como que a dar-nos um conselho: quando os incêndios deflagram, não se olhe apenas para as alterosas e mediáticas chamas que iluminam o céu e tudo devastam à sua frente. Pense-se também, e principalmente, nas futuras raízes que no terreno ardido se vão criar!

10/27/2005

Matriz de Acontecimentos (27 Outubro 2005)

Este fim-de-semana muda a hora. Ao acordar, no domingo, será uma hora mais cedo do que o indicado nos relógios que não tenham sido corrigidos. Que tal aproveitar para visitar um Museu? Recordo que os «Museus Oficiais», e alguns particulares, são grátis ao domingo de manhã. Recordo, ainda, que a interessantíssima exposição «Malhoa e Bordalo: Confluências duma Geração»foi prolongada até 6 de Novembro. Acaba no próximo sábado, dia 29, o SeixalJazz2005 ? todas as noites às 21h30 e 23h30.

Acaba no domingo, dia 30, o Grande Mercado do Livro de Outono - Mercado da Ribeira, das 10h00 às 22h00.

Decorre até 6 de Novembro XXV Festival Nacional de Gastronomia de Santarém, o XVI Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora e os XIII Encontros de Coros Amadores do Concelho de Oeiras.

Não liga/s nada às sugestôes aqui penosamente alinhadas! Para ver/es o que perdeu/ste sugiro o blog www.bizarrologia.com/jazz/jazz.php que no post do dia 22 pp. titula de «Um concerto memorável na Ordem dos Médicos» o concerto liderado pelo médico Barros Veloso aqui sugerido e onde não o/a vi ?(na realidade estou a sugerir o blog, que é muito interessante, embora neste caso estejam a ser bonzinhos. Foi bom, mas longe do memorável, grau que, dadas as limitações da minha memória, aplico com alguma parcimónia).

Quinta-feira, dia 27:
às 18h00, na Gulbenkian, «Arte e Ciência: Conversa em Torno de uma Obra de Arte», com Nuno Crato, Nuno Faria, José Brandão, João Paulo Feliciano e João Caraça (moderador), do ciclo ?À Luz de Einstein 1905-2005?;

às 18h00, no Monte-Estoril, reabertura do Museu da Música Portuguesa Casa Verdades Faria (local onde se passarão a realizar as conferências do ciclo ?De Música também se fala - Tudo o que você sempre quis saber sobre Beethoven... e nunca teve a oportunidade de perguntar!", por Teresa Cascudo).

Sexta-feira, dia 28:
às 21h30, na Culturgest, Uri Caine interpreta, a solo, composições originais, jazz standards e arranjos e improvisações sobre música de Mahler, Verdi e Beethoven.

Sábado, dia 29:
às 15h00, no Auditório da Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha, homenagem ao poeta Alexandre O´Neill pelas Comunidades de Leitores e de Cinéfilos das Caldas da Rainha (inclui a projecção, em estreia, do filme ?Tomai lá do O´Neill?).

das 15h00 às 19h30, na Culturgest, Maratona de Leitura tema: o amor!

às 17h00, na Fnac Colombo: Angelina, apresenta o CD ?Jazz Feelings?.

Domingo, dia 30:
às 12h00, no CAMJAP (?Centro Arte Moderna da Gulbenkian?) visita temática do ciclo ?Artistas da Colecção? «Eduardo Nery e a Arte Óptica na Colecção do CAMJAP» por Carla Mendes.

Segunda-feira, dia 31:
às 23h30, na 2:, Ana Sousa Dias vai conversar com a escritora brasileira Nélida Piñon.

Terça-feira, dia 1, feriado:
às 21h30, na Igreja de S. Domingos, concerto evocativo do Terramoto de 1755 pela Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Quarta-feira, dia 2:
às 18h00, na Culturgest, conferência do ciclo «Óperas (mal) amadas do Século XX»: Maskarade (1906) de Carl Nielsen (1865-1931), por Sérgio Azevedo.

A seguir:
11 a 20 de Novembro, London Jazz Festival

25 de Novembro, às 22h45, na Aula Magna: Jacinta

Download do ficheiro das Sugestôes (27 Outubro 2005)

Bom fim-de-semana

JMiguel

Três notícias positivas

Considero dignificante a posição de Portugal no relatório sobre liberdade de imprensa, elaborado todos os anos pela organização "Repórteres sem Fronteiras". O 24º lugar que o país ocupa, à frente do Reino Unido, França e Espanha, é bastante interessante. Os Estados Unidos foram, entretanto, relegados do 23º para o 44º lugar. Como seria de prever, também neste capítulo são os países nórdicos, como a Dinamarca, a Finlândia e a Noruega que lideram o ranking.
As duas outras notícias positivas dizem respeito à autarquia de Lisboa. Num caso, o poder autárquico resistiu à tentação do imobiliário e transformou, conforme prometido, a antiga estação da Carris no Arco Cego -- uma área altamente valiosa em termos de terrenos -- num jardim, ainda em fase de conclusão. O edifício contíguo está a ser objecto de restauro.
Por outro lado, a Fonte Luminosa, na Alameda Afonso Henriques, foi restaurada, incluindo os baixos-relevos das partes laterais. O topo por detrás da fonte, que se encontrava em lastimável estado, foi todo ajardinado.
É um prazer assinalar estes factos.

10/25/2005

Gastronomia portuguesa

Eu sei que há tasquinhas em tudo quanto é feira. Sei também que qualquer Bolsa do Turismo de Lisboa apresenta anualmente uma quantidade notável de comes-e-bebes. Mas continuo a considerar que a Feira de Gastronomia de Santarém é das melhores do país. Estende-se ao longo de cerca de três semanas, o que permite aos restaurantes apostarem no seu melhor. E quem diz restaurantes diz, obviamente, casas de doces. E de presuntos. E de queijos. Sem faltarem os vinhos, claro.
Dei uma saltada à Feira num dia pacato. Com uns amigos de velha data. A única grande decisão que tivemos que tomar foi entre saltitar de tasquinha em tasquinha, petiscando e bebericando aqui e ali, ou abancar num sítio e comer. Esta hipótese seria eventualmente mais cómoda, a outra mais interessante. Foi o não-abancar a alternativa escolhida. E foi também uma alegre romaria, saborosa, apaladada, rica e variada, de região em região. Qualidade: impecável. É realmente extraordinário fazer uma peregrinação deste tipo e apanhar, por vezes no prato, por vezes só no menu, petiscos tão díspares como maranhos e bucho, da Beira Baixa, chanfana, cracas dos Açores, pezinhos de coentrada, ensopado de cabrito e torresmos do Alentejo, peixinhos da horta, sopa e arroz de lingueirão, choquinhos fritos e xerém do Algarve, posta mirandesa, posta maroeira, nacos na pedra, enguias fritas, ensopado de enguias, sável, leitão da Bairrada e eu sei lá mais o quê. Uma delícia, quando se come um pouco disto e um pouco daquilo, que o que se encomenda é para o grupo e cada um só petisca. Pão do melhor, jarros de vinho óptimo: as tascas estão a concurso e, no final, haverá prémios para os melhores. Doçaria conventual de bom nível e extraordinária variedade.
Ponhamos por uns dias a política de lado e revejamo-nos neste mosaico de elevada qualidade que é a comida portuguesa. Podem muitos dos nossos valores ter caído, mas há sempre outros que mais alto se alevantam. Estes são uns deles. Quem puder tasquinhar assim num dia pouco concorrido considere-se um felizardo. Comeu e bebeu do melhor que Portugal tem. E ao fazer as contas, divididas por todos, não pagou muito. É que a concorrência aperta e preços demasiado altos deitariam tudo a perder.
Salvo erro até 3 de Novembro -- mais uma sugestão saborosa do João Miguel -- convém não perder Santarém.

10/24/2005

Banca ocidental no Médio Oriente

O facto de o Islão, ao contrário do que sucede na nossa civilização, não estabelecer uma separação entre religião e direito, faz com que todas as suas leis sejam religiosas. A Sharia, de que por vezes lemos sobre várias práticas, constitui um conjunto de regras concretas para determinados procedimentos.
A Newsweek publicou há relativamente pouco tempo um artigo sobre a Sharia e a banca. Porque se tem falado aqui neste blog de questões éticas e da banca, pareceu-me interessante abordar o assunto. Sabendo nós que o Corão não só proíbe o empréstimo de dinheiro para fins lucrativos como também o patrocínio de um conjunto de actividades não-islâmicas, como o jogo, o tabaco, as bebidas alcoólicas e produtos à base de carne de porco, onde é que os muçulmanos investem o dinheiro que possuem? A resposta é simples: em bancos que cumprem a Sharia. E podem ser bancos ocidentais? Porque não? Desde que cumpram as regras preceituadas. Nos conselhos de administração de bancos como o Citi Islamic e o ABN AMRO, no Bahrein ou nos Emirados, têm lugar individualidades muçulmanas conhecedoras tanto de finanças como da Sharia, que zelam pelo cumprimento das regras. Em vez de pagar ou de cobrar juros, a finança islâmica baseia-se na propriedade colectiva ou no arrendamento / aluguer de activos, como o imobiliário, metais preciosos e outras commodities, que, com o tempo, tendem a valorizar-se. O Islão proíbe fazer dinheiro através de dinheiro, mas não é contra actividades comerciais e de leasing.
Desde 1996 que o Dow Jones, de Nova Iorque, oferece índices de acções consideradas particularmente adequadas para investidores islâmicos e recomendadas por um grupo de peritos da Sharia. Contudo, desde o 11 de Setembro de 2001 que muito do dinheiro que geralmente era investido nos Estados Unidos deixou de emigrar, ficando portanto na região. Foi aí que bancos americanos e europeus entraram em cena, adaptando-se às regras islâmicas. Se o dinheiro não vem para o ocidente, o ocidente vai ter com o dinheiro. Calcula-se que o valor dos depósitos em bancos que cumprem os preceitos da Sharia atinja presentemente mais de 250 biliões de dólares, a que se juntam outros investimentos da ordem dos 400 biliões. Com o petróleo aos preços a que está, não é nada para admirar. O curioso é ver como bancos ocidentais, com o renome internacional da Société Générale, BNP Paribas e do Deutsche Bank, além dos acima mencionados, entraram celeremente, e bem, no mercado. Mais um caso típico do think global, act local. Neste caso particular, não actuar segundo os preceitos e costumes locais seria falhar em toda a linha.

10/21/2005

ÉTICA

Há algum tempo, foi detectado numa escola de ensino superior de Lisboa um número inusitado de estudantes a usar, em diversos exames, aqueles papelinhos auxiliares a que vulgarmente se chama cábulas. Algumas das fraudulentas formas de alcançar boas notas até requeriam boa imaginação e mostraram um aturado trabalho prévio. O mais curioso de tudo é que os estudantes em questão possuíam no seu plano de estudos um item que foi introduzido há uns anos para dar satisfação ao politicamente correcto (e não só): a cadeira de Ética. Constatou-se depois, por curiosidade, que vários dos alunos apanhados em flagrante delito tinham obtido boas notas na disciplina. Saliente-se que a escola em questão possui códigos de conduta para docentes e para discentes.
Veio-me à memória este facto -- espero que, no futuro, eu possa dizer "por contraste e não por semelhança" -- quando li que ontem foi assinado por um número significativo de empresários e gestores de renome um código de ética, que nas suas obrigações inclui "lutar activamente contra todas as situações de fraude, designadamente cumprindo todas as obrigações fiscais", "não praticar qualquer acto económico à margem da lei" e "não influenciar de modo ilegítimo a decisão política".
Ámen.

10/20/2005

Notícias que incomodam

Quando questionado hoje pela televisão sobre o caso das investigações da Judiciária a uma alegada prática de fuga aos impostos e branqueamento de capitais com a conivência de bancos, empresas e paraísos offshore, um ex-ministro respondeu que o que se podia ler nos media era muito mau para as empresas e prejudicava a economia nacional. Não disse, no entanto, que o que alegadamente terá sucedido em grande escala e há vários anos, lesou os cofres do Estado em muitos milhões de euros. Não disse que essas empresas e instituições financeiras podem ter beneficiado ilegalmente de somas muito avultadas, prejudicando assim a nação e todos os cidadãos que cumprem com as suas obrigações fiscais. Não disse que, a verificar-se a veracidade da situação, as empresas e as instituições financeiras deveriam ser seriamente punidas. O que interessava era a notícia em si. Talvez a censura de antigamente fosse mais cómoda.

Matriz de Acontecimentos (20 Outubro 2005)

As sugestôes fizeram seis anos de edições!!!

Continuo a aceitar inscrições para uma visita aos bastidores de São Carlos, a efectivar às 12h15 do domingo 13 de Novembro ? segundo dia do ciclo «Europa em Música», dedicado a Itália!!! Precisamente por ser dia do referido ciclo «Europa em Música», poderá igualmente assistir, por 5?, a um, a dois ou a todos os concertos programados: 11h00 no Salão Nobre, 15h00 no Foyer e 17h00 no Salão Nobre.

Decorre até 23 de Outubro, na Culturgest, o DocLisboa 2005 (Festival Internacional de Cinema Documental).

Decorre até 29 de Outubro, nas noites de quinta, sexta e sábado, o SeixalJazz2005.

Decorre até 30 de Outubro, das 10h00 às 22h00, no Mercado da Ribeira, o Grande Mercado do Livro de Outono.

Decorre até 6 de Novembro os XIII Encontros de Coros Amadores do Concelho de Oeiras e o XXV Festival Nacional de Gastronomia de Santarém.

Quinta-feira, dia 20:
às 21h30, no terminal do Cais do Sodré, embarque no cacilheiro para o concerto dos ?Animal Collective?.

Sexta-feira, dia 21:
às 21h30 e 23h30, no SeixalJazz2005, Laurent Filipe.

às 21h30, na Estação de Metro da Amadora, inauguração do XVI Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (prossegue até 6 de Novembro).

às 22h30, na 2:, Fernanda Botelho (documentário).

Domingo, dia 23:
às 12h00, no CAMJAP (?Centro Arte Moderna da Gulbenkian?) visita temática do ciclo ?Olhares? «A Arte como Aproximação à Paisagem Contemporânea» por Carlos Carrilho.

às 18h00, no Auditório Rui de Carvalho, Carnaxide, «Concerto Serenata» (G.Puccini, E. Elgare J. Suk) pela Orquestra de Câmara Cascais e Oeiras.

Segunda-feira, dia 24:
às 23h30, na 2:, Ana Sousa Dias vai conversar com José Medeiros.

Terça-feira, dia 25:
às 21h30, na FNAC do Fórum Almada, actuação dos Irmãos Catita.

Quarta-feira, dia 26:
às 18h00, na Culturgest, conferência do ciclo «Óperas (mal) amadas do Século XX»: Osud (1907) de Leos Janácek (1854-1928), por João Pães.

A seguir:

29 de Outono, às 17h00, na Fnac Colombo: Angelina

25 de Novembro, ás 22h45, na Aula Magna: Jacinta

Download do ficheiro das Sugestôes (20 Outubro 2005)

Bom fim-de-semana

JMiguel

Desenvolvimento

O último relatório das Nações Unidas sobre o desenvolvimento humano permite, como tantas vezes sucede em casos semelhantes, interpretações positivas e negativas. Um exemplo: nos últimos 15 anos, 130 milhões de pessoas terão saído da pobreza extrema, mas por outro lado ainda há 2500 milhões, i.e. 40 por cento da população mundial, a viver com cerca de 1 euro e meio por dia! Como se sabe, os países pobres podem ter o seu mais importante meio de sustento, e mesmo de exportação, no sector agrícola -- certamente não no da indústria ou no dos serviços. Podem ou poderiam? Poderiam. De facto, não conseguem competir com os países ricos nem nesse sector, pois apesar de aqueles lhes darem com uma mão mil milhões de dólares por ano em ajudas à sua agricultura, com a outra gastam exactamente o mesmo montante por dia em subsídios aos seus próprios agricultores. Como se torna evidente, assim não há comércio justo que resista.
Mais: o dinheiro que os países pobres recebem dos ricos está ligado a aquisições a preços especiais nos países em desenvolvimento e à obrigatoriedade de compras daqueles nos países doadores a preços superiores aos do mercado livre. Caridade interesseira!
Nestas questões do desenvolvimento humano, há aspectos que de longe superam as meras medições do rendimento nacional bruto, sendo a taxa de mortalidade infantil e a esperança de vida factores importantes, entre vários outros. O Brasil, o mais populoso país de língua portuguesa, apresenta uma gritante desigualdade de rendimentos, com os dez por cento mais ricos a deterem quase metade do rendimento nacional, enquanto os dez por cento mais pobres não possuem mais de 0,7 por cento desse mesmo rendimento.
Os países humanamente mais desenvolvidos são a Noruega, a Islândia e a Austrália. Três antigas colónias portuguesas -- Angola, Moçambique e Guiné-Bissau --figuram entre os menos desenvolvidos. Portugal situa-se em 27º lugar entre 177 países.
Estas panorâmicas globais são importantes em muitos aspectos, mas não podem fazer-nos esquecer que as medições de pobreza se fazem dentro do mesmo país. As pessoas comparam-se com as que vêem à sua volta e não com as que estão num outro canto do mundo. Aliás, por definição, um pobre de um determinado país é alguém que dispõe de menos de 60 por cento do rendimento médio nacional. Assim, um americano pobre pode possuir rendimentos francamente superiores aos de um africano pobre e considerar-se, por comparação com os seus compatriotas, mais infeliz do que esse africano. E a felicidade conta!

10/18/2005

Voto popular versus tribunais?

Que em Portugal a justiça é lenta, ninguém duvida. Os casos arrastam-se durante anos e anos. É frequente que as testemunhas arroladas para deporem em tribunal já não se lembrem de como os factos efectivamente se passaram. Múltiplos processos prescrevem, apesar de existir na mente das pessoas a ideia-quase-certeza da culpabilidade de alguém. Tudo isto contribui para o descrédito da justiça e para que nos questionemos se realmente vivemos num Estado de direito.
O recente voto popular nas eleições autárquicas, que fez eleger Valentim Loureiro, Fátima Felgueiras e Isaltino Morais, não veio contribuir para melhorar a imagem da justiça em Portugal. Estando presentemente sob fogo cerrado dos media e da opinião pública devido aos vencimentos e mordomias várias de que desfrutam, os juízes portugueses ficam necessariamente condicionados no seu julgamento dos processos que pendem sobre os três nomes acima citados. Todos sabemos que o voto para uma eleição é uma coisa e um processo em tribunal é outra. Também sabemos que ninguém pode ser condenado antes de ser julgado. Sabemos ainda que, pelo menos em teoria, o poder judicial é independente do legislativo e do executivo. Porém, no seio de um regime democrático em que "o voto é uma arma" e "o povo é quem mais ordena", como é que se concilia a justiça dos tribunais, que é lentíssima, com a justiça popular, que é célere e democrática? Será fácil para os juízes condenarem qualquer um dos três autarcas eleitos após o esmagador voto popular que obtiveram, ainda por cima tendo sido os autarcas a advogar politicamente a sua própria causa, à revelia dos partidos que anteriormente os apoiavam? O que vale mais? Milhares de votos democráticos ou um voto da justiça portuguesa?