12/14/2005

Resultados finais sem totalidade de dados

Num exame que uma vez me calhou vigiar numa escola de Contabilidade, um aluno pediu-me a certa altura para chamar um professor da cadeira. Segundo ele, na questão 3 do ponto faltavam dados, pelo que não conseguia chegar à solução. Chamei de pronto o regente da cadeira, que olhou para o ponto e, depois de um minuto de reflexão, disse: "Você tem razão. Faltam aqui pelo menos umas duas linhas, que quem passou o ponto terá inadvertidamente saltado. Agradeço-lhe o reparo." Terá ido depois às várias salas onde o exame se estava a realizar e, no quadro, escreveu, com as suas desculpas, as linhas em falta. De facto, admitiu que não se podia chegar a resultados concretos sem possuir aqueles dados.
Vejo agora que professores deste género não estão no governo. Se estivessem, só por "artes mágicas de político" conseguiriam saber, já, que o preço final dos bilhetes do TGV iria em 2015 ficar em cerca de 80 euros no trajecto Lisboa-Porto, que o número de empregos (temporários) que se vão criar é da ordem das muitas dezenas de milhar e que o custo final de todo o processo de construção da via, carruagens, etc. é de 4,7 mil milhões de euros. É que, segundo os media, o governo ainda não decidiu se a entrada em Lisboa será feita pelo norte se pelo sul. Outra incógnita diz respeito às estações que vão servir a linha de alta velocidade. Daqui depende, obviamente, a articulação a fazer com a rede convencional. Também não se sabe como vai ser desenhado o modelo de financiamento,o qual tem evidentes reflexos no custo. Igualmente se desconhece se a terceira ponte de Lisboa sobre o Tejo (Chelas-Barreiro) irá ser só ferroviária ou servirá simultaneamente o trânsito automóvel. Enfim, ninharias... para mágicos. Gostaria apenas de saber se os membros do governo tomariam decisões deste tipo se o dinheiro saísse do seu próprio bolso, em vez de do bolso dos contribuintes.
Duas notas, a findar. A primeira é sobre o impacte previsto do TGV sobre o avião nas ligações Lisboa-Porto-Lisboa. O avião é clarissimamente perdedor, o que naturalmente deveria ser um ponto importante a favor da manutenção do aeroporto na Portela. Mas não é. E não é porque o outro assunto está arrumado. Magister dixit. O país é o mesmo, o pagante é o mesmo, mas o novo aeroporto de Lisboa na Ota nada tem a ver com o TGV.
A segunda: lembram-se das realidades virtuais que foram programadas para a gigantesca barragem do Alqueva? Comparem-nas com as realidades actuais.

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