11/15/2005

Contradições

Durante a minha vida de professor de línguas (aplicadas a diversas áreas), tive ocasião de pôr alunos adultos a jogarem "O Álibi". Trata-se de um jogo interessante, tanto do ponto de vista linguístico como sociológico. Dois alunos, suspeitos de terem roubado uma joalharia, saem da sala de aula para prepararem o seu álibi, enquanto os que estão na sala preparam as suas perguntas. Como cada um dos suspeitos reentra sozinho na sala para ser interrogado pelos "polícias", é relativamente fácil demonstrar, através das respostas contraditórias de um e do outro a algumas perguntas mais subtis, que estão a mentir. Darei pormenores do jogo a quem estiver eventualmente interessado, mas o que me interessa salientar hoje aqui é que os alunos que estão na sala adoram fazer o papel de polícias. Questionam e questionam os suspeitos! Contudo, todos esses alunos admitem que, no geral, a polícia não cabe no mundo dos seus amores. Este aparente paradoxo é interessante e humano. É que se formos nós os polícias, a coisa é diferente!
Trago este assunto à baila a propósito de uma parte do último "Prós e Contras" televisivo sobre Imigração. A certa altura, a apresentadora sugeriu que, aparentemente, a situação ideal seria a de os trabalhadores imigrantes virem para as grandes obras, quando as há, e abandonarem o país após a prestação do serviço. Sobreveio uma revoada de aplausos, espontâneos, de uma plateia maioritariamente constituída por portugueses não descendentes de imigrantes.
O que os membros da plateia consideraram correcto foi, nem mais nem menos, a precariedade do emprego, algo que decerto detestariam para si próprios. Quando, há umas décadas, as empresas transformaram as suas consagradas Secções de Pessoal em Departamentos de Recursos Humanos, elas passaram a considerar as pessoas como meros recursos, só que humanos. Combustíveis, produtos químicos, madeira, etc. são os recursos materiais de que as empresas carecem para a sua laboração. A diferença relativamente a nós é que somos pessoas. Para as empresas, é ideal a situação em que conseguem que uma percentagem razoável dos seus "recursos humanos" possam ser dispensados depois dos picos de produção, eventualmente para serem chamados de novo quando a laboração recomeçar em pleno. As pessoas passam, assim, a ser mais uma ferramenta de gestão. JIT -- just in time.
Ora, foi esta situação, que para si próprios não apreciariam, que as pessoas da plateia aplaudiram quanto aos imigrantes. Admitamos que somos muito assim. Quando toca a nós, é uma coisa, quando o assunto é de outros, a opinião já é diversa. Não é assim também com os professores, que gostam de avaliar os outros mas detestam serem eles próprios os avaliados?
É por motivos desta ordem também que, se formos eventualmente detentores de acções de uma empresa que acabou de despedir três mil trabalhadores "redundantes" para aumentar a sua produtividade e, com isso, viu o valor das suas acções bolsistas disparar, rejubilamos com o nosso ganho e ignoramos por completo o que deu azo a essa súbita subida. Somos humanos. Nem mais, nem menos. É por isso que consideramos a doutrina de Cristo apenas como lindos preâmbulos éticos para o articulado das leis que nós próprios vamos elaborando.

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