3/12/2004

Matriz de Acontecimentos (12 de Março)


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3/07/2004

Fado

Ah, o velho que morre com a sabedoria toda
E o filho que dele herda
A ignorância inicial!

BOLINANDO...

Esgotar-se-á a identidade em circunstâncias como sexo, idade, família, estado de saúde, profissão? Ou será algo apenas vestido (afagado ou ciliciado) por elas, sobrevivendo-lhes, perdurando APESAR delas, embora sempre e fatalmente ATRAVÉS delas? Se for este o caso, então talvez a estratégia mais propícia à livre expressão do eu profundo consista em navegar nas circunstâncias à bolina, não tanto em contrariá-las frontalmente...
Se eu tivesse, por exemplo, nascido homem, tal ocorrência definiria um campo magnético seguramente diverso daquele em que cresci, atraindo à existência «limalhas» adormecidas pela minha condição feminina, repelindo para o limbo dos possíveis alguns companheiros de viagem, talvez até os meus demónios actuais... Se eu fosse hoje trinta anos mais nova, esse cenário não optimizaria por força o meu potencial. Esculpi-lo-ia, isso sim, com outros materiais, seleccionando os convenientes recursos alternativos e desse modo abrindo portas hoje fechadas, mas fechando também implacavelmente outras cujas fechaduras só agora se encontram ao alcance da minha determinação.
A energia disponível será assim provavelmente constante, não aumentando nem diminuindo ao sabor das circunstâncias, não decrescendo designadamente com a idade apesar das evidências em contrário. Mais: o nosso potencial será o mesmo com um minuto de vida ou às portas da morte numa provecta idade. Isto presumindo que nada do que somos se cria ou perde, tudo se formando e deformando em função do maior ou menor grau de consciência com que fiamos, desfiamos, rasgamos e cerzimos a trama dos nossos desafios.

3/04/2004

Matriz de Acontecimentos (04 de Março)


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3/02/2004

Factos em cadeia

Só quem anda verdadeiramente distraído não encontra em jornais como o PÚBLICO linhas que se encadeiam como peças de um puzzle. Para me referir apenas aos números de 27 e 28 de Fevereiro (sexta e sábado), saliento um artigo de Miguel Sousa Tavares (MST) e duas notícias, a que se somam um carta ao Director e um Editorial. MST considera de mau agoiro um “plano de protecção para a ria de Alvor” recentemente assinado pelos presidentes de duas câmaras algarvias (Lagos e Portimão). Receia que se trate de preparativos para um assalto à ria de Alvor através de interesses imobiliários. Cita uma frase reveladora do autarca de Portimão: “Não podemos ser fundamentalistas (em matéria ambiental), pois pagamos por isso nas eleições”. Conclui MST que agentes imobiliários e construtores financiam as campanhas dos partidos cujos autarcas se mostrem sensíveis aos seus “direitos atendíveis e adquiridos”. O triunfo eleitoral vai a par com os atentados urbanísticos aprovados.
O cidadão médio como eu questiona-se de onde vem o muito dinheiro necessário para os grandes projectos imobiliários. A resposta remete-nos a muitos de nós, leigos mas interessados no assunto, para a suspeita do uso demasiado frequente de dinheiro legal conjuntamente com lavagem de capitais obtidos ilicitamente e subtraídos portanto aos impostos devidos ao Estado. A conclusão é lógica para quem vê tanta construção por todo o lado, muitas vezes não habitada, e a associa a facturas falsas, contrabando, offshores, droga, etc..
Numa das notícias de sábado, inspectores da PJ queixam-se da ministra Cardona, afirmando que têm sofrido uma crescente perda de poderes relacionados com a investigação criminal, particularmente a nível financeiro.
Noutra das notícias lê-se que num estudo encomendado pelo governo a um arquitecto crítico das reservas ecológicas nacionais (REN) se sugere que a aprovação das áreas a serem ou não incluídas nas REN passem para as competências municipais.
Por seu lado, a carta de um leitor insurge-se contra um verdadeiro laxismo que grassa no ensino secundário e, por arrastamento, noutros sectores do país, do qual resulta um abaixamento grave e generalizado da qualidade.
Por último, o editorial de Amílcar Correia compõe o ramalhete. Considerando que o cruzamento de dados do fisco e da Segurança Social pode ser o princípio de uma política séria de combate à fraude, não deixa de mencionar a opinião de Bagão Félix sobre a possibilidade de o uso sistemático desse cruzamento poder violar a Constituição (como se a fuga aos impostos não fosse ela própria punível, constitucionalmente, pela Justiça). Amílcar Correia conta-nos ainda como é que o único país que nos é vizinho tem actuado neste domínio. A propósito do relatório McKinsey, que comparativamente elogia a Espanha, afirma que a razão que subjaz à diminuição da fraude fiscal do outro lado da nossa fronteira é, basicamente, o medo de uma inspecção.
Pois é. A grande diferença é que em Espanha se mata o touro. Em Portugal ... encana-se a perna à rã.