Download do ficheiro das Sugestôes (8 Abril)
4/08/2004
4/07/2004
O Capelão
Viver numa casa de hóspedes pode ter as suas vantagens. Por um lado há a simpatia dos donos da casa que, quando existe, torna a vida fácil e agradável aos seus hóspedes, pois há um quarto sempre irrepreensivelmente arrumado, assim como uma boa comida a tempo e horas. Acresce que, numa casa de hóspedes podemos, se tivermos alguma sorte, encontrar pessoas interessantes. Tive essa sorte. A história que me proponho aqui singelamente contar, de entre outras possíveis tendo como base o mesmo cenário, daria um conto a Somerset Maugham; a mim, dá-me um breve apontamento.
Conheci a Helena na década de 70. Irmã de um dos hóspedes da casa, a Helena tinha então 36 anos e, quando passava, fazia os homens parar inevitavelmente as suas conversas de rua para depois virarem o pescoço e vê-la bem de trás. De estatura média, bem fornecida de carnes e fortemente sensual no seu todo, a Helena tinha um belo cabelo preto de azeviche que emoldurava na perfeição um rosto fortemente maquilhado.
Apareceu a primeira vez lá em casa para estar uns seis meses em Lisboa, vinda de terras tropicais: a cidade do Lobito, em Angola. E como ela falava voluptuosamente do Lobito Sports Club e das festas do jet set local!
Era casada desde os seus 17 anos com um funcionário dos Caminhos de Ferro. O marido não veio a Lisboa aquando dessa sua deslocação, nem tão pouco as duas filhas, que estudavam no liceu do Lobito. A Helena vinha até à metrópole também para tirar férias do matrimónio que, pelas conversas tidas à mesa, a entediava razoavelmente, mas que ela não via qualquer necessidade ou conveniência em terminar.
Em Lisboa, o irmão, homossexual assumido com a profissão de decorador, não lhe causava quaisquer problemas a uma eventual fuga à rotina do matrimónio e, convenhamos, até a ajudava. Foi ele que lhe decorou o apartamento que o seu amante de Lisboa adquiriu, exactamente durante a primeira estadia dela na cidade onde a conheci. Por seu lado, o amante não lhe causaria problemas com outra mulher. É que o casamento dele não fora senão com Cristo. O indivíduo em questão era um distinto padre, na altura capelão militar, que pregava o bem e fustigava o pecado junto dos seus crentes ouvintes.
Que o celibato dos padres é uma aberração prova-o o elevadíssimo número de escândalos de ordem sexual que rebentam aqui e ali. Hoje a imprensa não os poupa, principalmente se se trata de casos de pedofilia. Com mulheres, digamos que o caso é diferente. Naquele tempo, porém, a inefável Comissão de Censura cortaria tudo o que fosse escandaloso.
O Capelão tinha mais dois ou três anos do que a Helena e era um indivíduo desempenado e bem parecido. Não aparentava ter quaisquer problemas de ordem material. Para além do apartamento que adquiriu na António Augusto de Aguiar e que registou em seu nome, bem entendido, comprou um potente BMW que pôs à disposição da sua bela Helena. Aliás, ela foi com ele ao stand para escolher a cor. Todavia, o BMW mostrou-se demasiado fogoso mesmo para a fogosa Helena. Num cruzamento aziago em Monsanto, à noite, ela encandeou-se com os faróis de uma outra viatura e enfeixou-se contra uma árvore.
Foi uma Helena algo disforme que se me deparou no hospital quando a fui visitar. Mas umas três operações estéticas, que causaram um inevitável prolongamento da sua estadia em Lisboa, recuperaram-na totalmente. A Helena talvez tenha acentuado um pouco mais a maquilhagem, mas manteve-se o mesmo belíssimo exemplar de raça apurada a suscitar comentários das senhoras e gulosos olhares de homens.
Contou-me ela em tempos -- nem sei porque me contava tanta coisa, devo dizer -- que uma vez tinha precisado do carro, que na ocasião o seu amigo padre tinha levado para junto da igreja onde ia dizer missa. Atrevida, entrou na igreja e foi postar-se de joelhos na teia, bem em frente do altar. Vira-se o pobre, que estava a celebrar o santo sacrifício da missa para a congregação e depara com ela ali, à sua frente, muito católica e perturbante. A Helena faz-lhe de maneira subtil o gesto de que precisava das chaves e ele, no meio do seu latinório e com a mão sagrada a sair da sua comprida opa, indica-lhe certeiramente que as chaves estão ao seu lado direito na sacristia, no bolso das calças. Não houve qualquer problema para a Helena em dar com elas e sair com o bólide.
Dois anos depois, chegou-me outra notícia através do irmão. A Helena, que entretanto voltara para o seu santo e bronzeante Lobito, estava cá de novo. Veio para casar a filha mais velha, que, tal como a mãe, ia contrair matrimónio bastante nova: acabava de fazer dezanove anos. Era uma bonita rapariga, mais alta do que a mãe e de sorriso relativamente ingénuo. De corpo esbelto, era nadadora exímia e ginasta. A cerimónia do casamento foi perto de Ferreira do Zêzere, com toda a pompa que o acontecimento merecia. Para mim, porém, o acontecimento foi o celebrante. Com muita honra dos noivos e de todos os convidados, a missa, envolvendo todas aquelas lindas e sinceras palavras que são da praxe e ficam para todo o sempre na memória dos nubentes, foi celebrada pelo Reverendo Padre Capelão.
Nesta semana da Páscoa, lembrei-me de recordar esta pequena história. É melhor que Deus não decida vir tão cedo cá abaixo verificar como se comportam os seus ministros.
Conheci a Helena na década de 70. Irmã de um dos hóspedes da casa, a Helena tinha então 36 anos e, quando passava, fazia os homens parar inevitavelmente as suas conversas de rua para depois virarem o pescoço e vê-la bem de trás. De estatura média, bem fornecida de carnes e fortemente sensual no seu todo, a Helena tinha um belo cabelo preto de azeviche que emoldurava na perfeição um rosto fortemente maquilhado.
Apareceu a primeira vez lá em casa para estar uns seis meses em Lisboa, vinda de terras tropicais: a cidade do Lobito, em Angola. E como ela falava voluptuosamente do Lobito Sports Club e das festas do jet set local!
Era casada desde os seus 17 anos com um funcionário dos Caminhos de Ferro. O marido não veio a Lisboa aquando dessa sua deslocação, nem tão pouco as duas filhas, que estudavam no liceu do Lobito. A Helena vinha até à metrópole também para tirar férias do matrimónio que, pelas conversas tidas à mesa, a entediava razoavelmente, mas que ela não via qualquer necessidade ou conveniência em terminar.
Em Lisboa, o irmão, homossexual assumido com a profissão de decorador, não lhe causava quaisquer problemas a uma eventual fuga à rotina do matrimónio e, convenhamos, até a ajudava. Foi ele que lhe decorou o apartamento que o seu amante de Lisboa adquiriu, exactamente durante a primeira estadia dela na cidade onde a conheci. Por seu lado, o amante não lhe causaria problemas com outra mulher. É que o casamento dele não fora senão com Cristo. O indivíduo em questão era um distinto padre, na altura capelão militar, que pregava o bem e fustigava o pecado junto dos seus crentes ouvintes.
Que o celibato dos padres é uma aberração prova-o o elevadíssimo número de escândalos de ordem sexual que rebentam aqui e ali. Hoje a imprensa não os poupa, principalmente se se trata de casos de pedofilia. Com mulheres, digamos que o caso é diferente. Naquele tempo, porém, a inefável Comissão de Censura cortaria tudo o que fosse escandaloso.
O Capelão tinha mais dois ou três anos do que a Helena e era um indivíduo desempenado e bem parecido. Não aparentava ter quaisquer problemas de ordem material. Para além do apartamento que adquiriu na António Augusto de Aguiar e que registou em seu nome, bem entendido, comprou um potente BMW que pôs à disposição da sua bela Helena. Aliás, ela foi com ele ao stand para escolher a cor. Todavia, o BMW mostrou-se demasiado fogoso mesmo para a fogosa Helena. Num cruzamento aziago em Monsanto, à noite, ela encandeou-se com os faróis de uma outra viatura e enfeixou-se contra uma árvore.
Foi uma Helena algo disforme que se me deparou no hospital quando a fui visitar. Mas umas três operações estéticas, que causaram um inevitável prolongamento da sua estadia em Lisboa, recuperaram-na totalmente. A Helena talvez tenha acentuado um pouco mais a maquilhagem, mas manteve-se o mesmo belíssimo exemplar de raça apurada a suscitar comentários das senhoras e gulosos olhares de homens.
Contou-me ela em tempos -- nem sei porque me contava tanta coisa, devo dizer -- que uma vez tinha precisado do carro, que na ocasião o seu amigo padre tinha levado para junto da igreja onde ia dizer missa. Atrevida, entrou na igreja e foi postar-se de joelhos na teia, bem em frente do altar. Vira-se o pobre, que estava a celebrar o santo sacrifício da missa para a congregação e depara com ela ali, à sua frente, muito católica e perturbante. A Helena faz-lhe de maneira subtil o gesto de que precisava das chaves e ele, no meio do seu latinório e com a mão sagrada a sair da sua comprida opa, indica-lhe certeiramente que as chaves estão ao seu lado direito na sacristia, no bolso das calças. Não houve qualquer problema para a Helena em dar com elas e sair com o bólide.
Dois anos depois, chegou-me outra notícia através do irmão. A Helena, que entretanto voltara para o seu santo e bronzeante Lobito, estava cá de novo. Veio para casar a filha mais velha, que, tal como a mãe, ia contrair matrimónio bastante nova: acabava de fazer dezanove anos. Era uma bonita rapariga, mais alta do que a mãe e de sorriso relativamente ingénuo. De corpo esbelto, era nadadora exímia e ginasta. A cerimónia do casamento foi perto de Ferreira do Zêzere, com toda a pompa que o acontecimento merecia. Para mim, porém, o acontecimento foi o celebrante. Com muita honra dos noivos e de todos os convidados, a missa, envolvendo todas aquelas lindas e sinceras palavras que são da praxe e ficam para todo o sempre na memória dos nubentes, foi celebrada pelo Reverendo Padre Capelão.
Nesta semana da Páscoa, lembrei-me de recordar esta pequena história. É melhor que Deus não decida vir tão cedo cá abaixo verificar como se comportam os seus ministros.
4/04/2004
Compensações
Muitas das coisas que admiramos são -- ou pelo menos assim o pressinto -- por compensação. Um não-aventureiro gostará de ler sobre aventuras. Um temeroso gostará de ler, ver filmes, ou ouvir histórias, sobre algo movimentado e excitante.
Os portugueses de hoje, parados, quase estáticos, gostam de relembrar os seus antepassados que mais se movimentaram. Também quem é velho gosta de lembrar a mocidade.
Isto é mesmo verdade? Neste domínio é mais difícil provar a hipótese do que num laboratório químico, por exemplo. Seja como for, aqui deixo algumas "compensações", alguns exemplos do re-equilíbrio das coisas e das pessoas:
. Quando transpiramos muito, por perdermos água e aumentarmos a nossa percentagem de sal, bebemos água para compensar. Voltamos ao equilíbrio.
. Quando fumamos muito e o sangue das veias tende a engrossar, sentimos necessidade de beber café para o tornar mais fluido.
. Quando o vento sopra, é porque há uma zona onde o ar está mais quente e outra onde está mais frio. O ar corre portanto de um lado para o outro, para voltar ao equilíbrio.
. Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão. Já serve para equilibrar as coisas, pois não há praticamente ninguém que viva cem anos.
. Um velho que anda com uma rapariga nova compensa a sua falta de juventude com a que lhe pede emprestada a ela.
. Idem uma velhota com um rapaz novo. É o elixir da eterna juventude.
. Velhos que falam do passado compensam a energia que já não possuem. Vivem uma realidade virtual. Com isso reequilibram-se.
. Velhos que mostram fotografias da sua mocidade conseguem igualmente um efeito compensatório.
. Velhos e velhas gostam de se vestir de forma gaiata para assim contrabalançarem a sua idade.
. Países que comemoram frequentemente o seu passado, como é o caso de Portugal, procuram nessas comemorações uma compensação para o presente de que não se orgulham.
. Padres que proíbem os jovens de, afinal, se comportarem como jovens, dando largas à sua química de juventude, arranjam aí uma forma compensatória para a sua impossibilidade ética de fazer determinadas coisas em razão do seu sacerdócio.
. Uma rapariga menos bonita mas que estuda muito procura compensar através da parte intelectual algo que lhe é desfavorável fisicamente.
. Uma rapariga pouco atraente que lê muitos romances de amor produz em si própria um efeito compensatório que a faz sonhar e sentir-se feliz.
. Um homossexual em potência que fala alto contra os homossexuais em geral está a procurar obter uma defesa para si próprio através dessa atitude. Uma pessoa normal reagirá sem grande calor ao assunto.
. No geral, mulheres que não casaram adoram anedotas picantes como forma compensatória. Idem os homens.
. Sade escreveu na prisão sobre aquilo que não podia fazer. Foi uma forma esplêndida de se evadir da prisão.
. Algo de semelhante se passa com aqueles que não têm razão e, para compensar, falam alto, numa certa tentativa de amedrontar quem ousa pô-los em cheque.
. Ainda dentro da mesma linha, quem tem menos cultura tende a ser mais racista. É uma maneira de disfarçar a sua não-evidente superioridade sobre alguém de outra cor, superioridade que ele acha deveria possuir.
. O intelectual compensa o seu desgaste cerebral jogando ténis no fim-de-semana ou praticando outra actividade que o faça transpirar.
. Quem é tímido, usa frequentemente óculos escuros para compensar, disfarçando, a sua timidez.
. Quem é baixo e tem complexos com isso, usa frequentemente saltos altos para compensar a sua falta de altura.
. Um homem com pouco cabelo deixa por vezes o pouco que tem comprido atrás, como compensação. Barba ou bigode servem também de compensação por atrairem o olhar dos outros, desviando assim a atenção do ponto fraco.
. Quem não se sente seguro de si tende mais a ser religioso do que aquele que é verdadeiramente confiante. A religião funciona, no conhecido dizer de Marx, como ópio.
Os exemplos não faltam. Será que a compensação é mesmo uma regra que se pode estabelecer?
Os portugueses de hoje, parados, quase estáticos, gostam de relembrar os seus antepassados que mais se movimentaram. Também quem é velho gosta de lembrar a mocidade.
Isto é mesmo verdade? Neste domínio é mais difícil provar a hipótese do que num laboratório químico, por exemplo. Seja como for, aqui deixo algumas "compensações", alguns exemplos do re-equilíbrio das coisas e das pessoas:
. Quando transpiramos muito, por perdermos água e aumentarmos a nossa percentagem de sal, bebemos água para compensar. Voltamos ao equilíbrio.
. Quando fumamos muito e o sangue das veias tende a engrossar, sentimos necessidade de beber café para o tornar mais fluido.
. Quando o vento sopra, é porque há uma zona onde o ar está mais quente e outra onde está mais frio. O ar corre portanto de um lado para o outro, para voltar ao equilíbrio.
. Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão. Já serve para equilibrar as coisas, pois não há praticamente ninguém que viva cem anos.
. Um velho que anda com uma rapariga nova compensa a sua falta de juventude com a que lhe pede emprestada a ela.
. Idem uma velhota com um rapaz novo. É o elixir da eterna juventude.
. Velhos que falam do passado compensam a energia que já não possuem. Vivem uma realidade virtual. Com isso reequilibram-se.
. Velhos que mostram fotografias da sua mocidade conseguem igualmente um efeito compensatório.
. Velhos e velhas gostam de se vestir de forma gaiata para assim contrabalançarem a sua idade.
. Países que comemoram frequentemente o seu passado, como é o caso de Portugal, procuram nessas comemorações uma compensação para o presente de que não se orgulham.
. Padres que proíbem os jovens de, afinal, se comportarem como jovens, dando largas à sua química de juventude, arranjam aí uma forma compensatória para a sua impossibilidade ética de fazer determinadas coisas em razão do seu sacerdócio.
. Uma rapariga menos bonita mas que estuda muito procura compensar através da parte intelectual algo que lhe é desfavorável fisicamente.
. Uma rapariga pouco atraente que lê muitos romances de amor produz em si própria um efeito compensatório que a faz sonhar e sentir-se feliz.
. Um homossexual em potência que fala alto contra os homossexuais em geral está a procurar obter uma defesa para si próprio através dessa atitude. Uma pessoa normal reagirá sem grande calor ao assunto.
. No geral, mulheres que não casaram adoram anedotas picantes como forma compensatória. Idem os homens.
. Sade escreveu na prisão sobre aquilo que não podia fazer. Foi uma forma esplêndida de se evadir da prisão.
. Algo de semelhante se passa com aqueles que não têm razão e, para compensar, falam alto, numa certa tentativa de amedrontar quem ousa pô-los em cheque.
. Ainda dentro da mesma linha, quem tem menos cultura tende a ser mais racista. É uma maneira de disfarçar a sua não-evidente superioridade sobre alguém de outra cor, superioridade que ele acha deveria possuir.
. O intelectual compensa o seu desgaste cerebral jogando ténis no fim-de-semana ou praticando outra actividade que o faça transpirar.
. Quem é tímido, usa frequentemente óculos escuros para compensar, disfarçando, a sua timidez.
. Quem é baixo e tem complexos com isso, usa frequentemente saltos altos para compensar a sua falta de altura.
. Um homem com pouco cabelo deixa por vezes o pouco que tem comprido atrás, como compensação. Barba ou bigode servem também de compensação por atrairem o olhar dos outros, desviando assim a atenção do ponto fraco.
. Quem não se sente seguro de si tende mais a ser religioso do que aquele que é verdadeiramente confiante. A religião funciona, no conhecido dizer de Marx, como ópio.
Os exemplos não faltam. Será que a compensação é mesmo uma regra que se pode estabelecer?
4/03/2004
Meia via
Não nos surpreende que exista luta pela sobrevivência no mundo animal, com os mais fortes a perseguirem e devorarem os mais fracos sempre que o conseguem fazer. Ninguém se admira, por exemplo, que o papa-formigas coma formigas -- como que para justificar o seu nome --, nem que o leão se lance sobre um veado ou uma pacaça para arranjar alimento. É a lei da selva, do instinto natural.
Ao homem, animal também mas possuidor de razão superior e portanto apodado de racional, não se admitirá em princípio comportamento semelhante. Mas o que acaba por se observar num razoável número de sociedades é apenas uma sofisticada encenação da mesma hegemonia dos mais poderosos sobre os mais débeis. A exploração e, frequentemente, a exclusão social a que estes últimos são votados é prova evidente de que o sistema de leis criado para combater o instinto básico e assim civilizar o homem continua a funcionar como uma mera teia de aranha que deixa passar os passarões e apenas capta os pequenos insectos.
É uma situação que me leva tendencialmente a concordar com uma velha reflexão de Nietzsche, segundo a qual a grande tragédia do homem é ter já deixado a idade do instinto e não ter chegado ainda à idade da razão.
Ao homem, animal também mas possuidor de razão superior e portanto apodado de racional, não se admitirá em princípio comportamento semelhante. Mas o que acaba por se observar num razoável número de sociedades é apenas uma sofisticada encenação da mesma hegemonia dos mais poderosos sobre os mais débeis. A exploração e, frequentemente, a exclusão social a que estes últimos são votados é prova evidente de que o sistema de leis criado para combater o instinto básico e assim civilizar o homem continua a funcionar como uma mera teia de aranha que deixa passar os passarões e apenas capta os pequenos insectos.
É uma situação que me leva tendencialmente a concordar com uma velha reflexão de Nietzsche, segundo a qual a grande tragédia do homem é ter já deixado a idade do instinto e não ter chegado ainda à idade da razão.
4/01/2004
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