10/03/2004

Vim há pouco do teatro, e era suposto estar bem disposta. Mas não estou.

Tentei em vão fingir que o que presenciei não tinha importância de maior, era apenas uma cena infeliz, mas, na verdade, tem importância, e muita.

Refiro-me às manifestações do público durante o espectáculo. Se já achei de um tremendo mau gosto que, mesmo sem réstia de humor, se rissem desbragadamente a cada frase acabada com a palavra ?porra? ou similar, achei inqualificável o riso geral da assistência perante a violência física exercida pelo protagonista sobre a sua amante, numa cena de clímax emocional, que nada tinha de cómico: ele, um escroque, tentando à força de pontapés e palavrões fazê-la sua cúmplice no negócio criminoso e chorudo que preparava?

Veio-me de imediato ao espírito aquela outra cena televisiva de há anos, em que o público se riu alarvemente quando a deputada Odete Santos declamava, com grande sentimento, que à Luísa que sobe a Calçada de Carriche, ?saltam-lhe os seios na caminhada?? Na altura, tamanha demonstração de boçalidade envergonhou-me. Infelizmente, neste campo nada mudou desde então.

Não me espanta o riso do público, se pensar nas estatísticas da violência doméstica e na brandura com que são aceites, no voyeurismo obsceno que os telejornais diariamente alimentam, nos índices de audiência dos programas televisivos, para não ir mais longe. Não me espanta, mas choca-me.

Com alguma angústia me pergunto que espécie de país é este que deixarei aos meus filhos. E quem são estes seres, meus compatriotas, que amanhã vão votar decisões importantes para a vida de todos nós.

Baixámos três lugares no ranking de desenvolvimento humano do relatório da ONU. Sem que descortine sinais de mudança, temo que a vulgarização e massificação da boçalidade - parceiros privilegiados dos convencionais índices aferidores do subdesenvolvimento - ainda nos levem mais longe.

Vim há pouco do teatro, e era suposto estar bem disposta, Mas não estou.

10/02/2004

Relatório do Desenvolvimento Humano 2004


Estava eu à procura de mais informação sobre o Atlas da Globalização do Le Monde Diplomatique no infinito ciberespaço quando encontro o Relatório do Desenvolvimento Humano de 2004 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Aconselho a sua LEITURA (ficheiro PDF) pois tem informação muito interessante e com algumas novidades em relação ao ano anterior.

Portugal apresenta o mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano entre os quinze países que constituíam a União Europeia antes do alargamento.
O nosso país caiu três lugares, para o 26º, no ranking mundial de desenvolvimento humano.
Segundo o relatório, o índice de desenvolvimento humano português aumentou mas foi insuficiente para se manter na 23ª posição que ocupava em 2003.
À frente de Portugal ficaram, este ano, a Grécia, Singapura e Hong-Kong.
No caso da Grécia, a evolução mais favorável que a portuguesa esteve relacionada com um maior crescimento do PIB per capita.
No primeiro lugar do ranking do Índice de Desenvolvimento Humano manteve-se, pelo quarto ano consecutivo, a Noruega.
A Suécia, outro país do Norte europeu com enormes tradições em termos de qualidade de vida, subiu da terceira para a segunda posição.
Países como os EUA, o Japão ou o Reino Unido situam-se, respectivamente, na oitava, nona e décima segunda posição.
O país mais rico do planeta, medido pelo PIB per capita, o Luxemburgo, ocupa apenas a décima quinta posição. Isto porque, apesar do elevado rendimento médio por habitante que possui, e que é mais do triplo do português, apresenta níveis de educação e de esperança de vida à nascença bastante inferior aos países de desenvolvimento humano mais elevado.
Neste relatório, são analisados, para um universo de 177 países (mais 2 que no ano anterior), um vasto conjunto de indicadores de desenvolvimento humano.
A classificação mundial surge assim ordenada (indicando, para efeitos comparativos, o índice do ano anterior e correspondente posição na tabela geral):

1. Noruega - 95,6 / 94,4 (1)
2. Suécia - 94,6 / 94,1 (3)
3. Austrália - 94,6 / 93,9 (4)
4. Canadá - 94,3 / 93,7 (8)
5. Holanda - 94,2 / 93,8 (5)
6. Bélgica - 94,2 / 93,7 (6)
7. Islândia - 94,1 / 94,2 (2)
8. EUA - 93,9 / 93,7 (7)
9. Japão - 93,8 / 93,2 (9)
10. Irlanda - 93,6 / 93,0 (12)
...
26. Portugal - 89,7 / 89,6 (23)
...
55. Antigua e Barbuda - 80,0 / 79,8 (56)
56. Bulgária - 79,6 / 79,5 (57)
...
141. Camarões - 50,1 / 49,9 (142)
142. Paquistão - 49,7 / 49,9 (144)
...
177. Serra Leoa - 27,3 / 27,5 (175)


10/01/2004

Lei do Arrendamento Urbano

Como a entendo, a lei do arrendamento urbano tem três objectivos principais: um, semi-oculto: aumentar as receitas do Estado. Outro, declarado: recuperar o parque habitacional. O terceiro é subentendido: servir a clientela política governamental.
Dito isto, admitir-se-ão com facilidade três questões: 1. Esta era uma reforma cuja necessidade se fazia sentir. 2. O Governo mostrou grande coragem ao enfrentar o problema. 3. O Governo tem sido hábil na passagem da informação. A protecção às famílias de recursos mais fracos e aos mais idosos constitui uma sábia almofada para o choque social que inevitavelmente se fará sentir.
Na impossibilidade de tratar com brevidade um assunto tão complexo, limito-me a dois reparos apenas:
1. Depois de o Estado ter servido durante tantos anos de anjo da guarda dos inquilinos, o facto de ele consentir que muitas rendas antigas se liberalizem totalmente é como escorraçar um animal do protegido jardim zoológico para a selva. Não seria aconselhável criar um plafond? À guisa de exemplo, acredito que haverá muitos senhorios a substituírem um casal de inquilinos por grupos de imigrantes, assim auferindo uma renda substancialmente mais elevada.
2. Os inquilinos com mais de 65 anos ficam, de forma socialmente correcta, com renda de base condicionada. Porém, em caso de morte dos inquilinos arrendatários, se as respectivas viúvas não tiverem atingido ainda os 65, a casa ficará sujeita a renda livre. Ou seja: quando os rendimentos dessas viúvas ficam diminuídos, as suas despesas aumentam e elas ficam mesmo sujeitas a uma acção de despejo. Que protecção familiar é esta? Trata-se de uma verdadeira situação de injustiça, a corrigir urgentemente.

9/25/2004

MORAL SARMENTO

O ministro Morais Sarmento INSULTOU, com refinada demagogia, a dignidade de todos os docentes quando pediu desculpa aos portugueses pelos incómodos derivados da catastrófica (não) colocação dos professores: o seu mea culpa visa - especificou - em 1º lugar «as famílias» e só depois - acrescentou com indisfarçável displicência - «os professores». É preciso ter muitíssima lata! Alguém duvida de que neste transe são mesmo os professores (respectivas famílias incluídas, senhor ministro!) os cidadãos mais dramaticamente agredidos? Querem priorizar o educando desprimorando o educador ?

Trolaró

Ao contrário da maioria dos chefes, Santana Slotes é quem diz não a última mas sim a primeira palavra sobre múltiplos assuntos do país (os seus ministros levam-no a corrigir-se posteriormente). Creio que este seu gosto pela primeira opinião é apenas o resultado da sua própria concepção do cargo de Primeiro-Ministro. Sui generis.