Um longo artigo de Pacheco Pereira no Público de hoje diz, a dada altura: "O que se passa é que esse verdadeiro mostruário em linha, feito de mil egos à solta, revela mesmo a nossa pobreza, a nossa rudeza, a falta de independência face aos poderosos, grandes, pequenos e médios, os péssimos hábitos de pensar, a falta de estudos e trabalho, de leitura e de "mundo" que caracterizam o nosso Portugalinho. Nem podia ser de outra maneira." (Lembra o estilo do Vasco Pulido Valente!) Mais à frente, afirma: "Sem reflexão crítica sobre o próprio meio, sobre o meio em Portugal, que introduza critérios de qualidade e exigência que os blogues são lestos a exigir a outros mas não a aplicar a si próprios, os blogues serão apenas mais uma câmara de ressonância da nossa vida cívica."
É-se preso por ter cão, e também por não ter o dito. Será que ajuda alguma coisa falar assim dos blogues portugueses, ou é apenas para denegrir o panorama? Será que não teremos aqui um caso de participação razoável da sociedade portuguesa? Será que a necessidade de pensar, de concatenar ideias e expressá-las de forma acessível não conta? Seria melhor ficarmos mudos, sem usar a escrita? Valeria mais ventilarmos as nossas ideias apenas num café?
Creio que a afirmação de que os bloggers não gostam de ser contraditados não corresponde totalmente à verdade. Por meu lado, já várias vezes aprendi variadíssimas coisas através dos comentários e fui corrigido. Gostei. Recordo-me, por exemplo, que há mais ou menos um ano levantei a questão dos indultos pelo Presidente da República e aprendi (com gosto) várias coisas que desconhecia com quem sabia mais do que eu sobre o assunto. Além disso, os blogs são informativos em muitos aspectos. Se os bloguistas portugueses são assim tão maus, por que razão existirão já firmas comerciais - a começar por alguns media – que incluem blogues nos seus sites da Web? Não é deitando abaixo o "Portugalinho" que se faz desaparecer o diminutivo do nome e se põe Portugal a mexer!
12/28/2007
Byblos
Possivelmente escrevo para quem já visitou a Byblos, a nova livraria de Lisboa, mas quero de qualquer forma saudar aqui no blog o seu aparecimento. Auto-intitulada a maior livraria do país em termos de área, algo de que não duvido por um segundo, a Byblos está longe de ser uma livraria comum. Os livros estão cuidadosamente divididos por secções, existe um enorme espaço para andar, ver e escolher, há diversos locais onde nos podemos sentar e calmamente folhear um livro, e existem diversos computadores à disposição dos clientes, que podem consultar o acervo de livros, DVDs, CDs, playstations, etc. e o respectivo preço (há sempre 10 por cento de desconto sobre o preço habitual). Esteticamente é um local muito interessante e confortável, com dois pisos muito amplos ligados por escadas rolantes. O bar serve refeições a preços acessíveis.
Encontrei um único senão: o acesso. Fica a dois passos do CC Amoreiras, é verdade, mas como a Byblos não é servida pelo Metro, só se nos oferece a alternativa do autocarro ou do automóvel. Parquear um automóvel por aqueles sítios não é tarefa fácil, embora existam estacionamentos pagos, a começar pelo do próprio Centro Amoreiras.
Para quem se lembra da pequena maravilha que foi a primeira Buchholz na Avenida da Liberdade, livraria que depois passou para a Duque de Palmela e teve os problemas que se conhecem, aqui está uma prenda natalícia que se espera fique por longos anos na nossa cidade.
Encontrei um único senão: o acesso. Fica a dois passos do CC Amoreiras, é verdade, mas como a Byblos não é servida pelo Metro, só se nos oferece a alternativa do autocarro ou do automóvel. Parquear um automóvel por aqueles sítios não é tarefa fácil, embora existam estacionamentos pagos, a começar pelo do próprio Centro Amoreiras.
Para quem se lembra da pequena maravilha que foi a primeira Buchholz na Avenida da Liberdade, livraria que depois passou para a Duque de Palmela e teve os problemas que se conhecem, aqui está uma prenda natalícia que se espera fique por longos anos na nossa cidade.
12/23/2007
12/22/2007
Cisão da Bélgica à vista?
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Ponha a sua imaginação a funcionar e, tendo como base numerosas declarações públicas feitas pelo Presidente do Governo Regional da Madeira, considere a hipótese de ele ter congeminado uma lei, devidamente aprovada pelo Parlamento regional, que determinaria que nenhum cidadão nascido fora da Região ou sem parentesco directo a nativos da ilha pudesse adquirir terrenos públicos. Por outras palavras, terrenos das autarquias ou do próprio Governo Regional só poderiam ser vendidos a “madeirenses”. Concebe esta hipótese?
Se sim, está a ir longe de mais. A. J. Jardim já tomou múltiplas atitudes pró-Madeira, mas esta ainda não e, possivelmente, nunca pensará em tal. Já o mesmo não se pode dizer de um senhor belga chamado Tim Vandenput, que é presidente do município de Hoeilaart, uma cidade relativamente pequena que não fica longe de Bruxelas. Vandenput, flamengo até à medula, determinou que o potencial comprador de terrenos públicos na área da sua autarquia tem de fazer prova da sua fluência na língua flamenga. Se não, não! "Esta é uma região da Flandres e é como tal que queremos que se mantenha!"
Dificilmente se arranjaria uma história mais simbólica do que esta para vincar a profunda aversão que muitos flamengos nutrem pelos habitantes da Bélgica francófona. Ao contrário de Portugal, que é o país mais antigo da Europa com as mesmas fronteiras, a Bélgica data apenas de 1830. A parte belga de língua francesa já foi em tempos muito próspera, mas presentemente está a ser largamente "subsidiada" pela Flandres. Calcula-se que os trabalhadores flamengos contribuem anualmente com cerca de 3000 dólares para cada valão, o que causa naturais ressentimentos. Este é um exemplo verídico e flagrante da importância da língua (e não só) na formação de uma comunidade. Note-se que o Presidente do partido mais votado nas últimas eleições belgas considerou a Bélgica um acidente da história, sem real valor intrínseco, e ousou dizer que "os franceses" eram demasiado estúpidos para aprender o flamengo.
É verdade que o país continua a funcionar e que acabou de ser atamancado um governo temporário, mas não se vê solução à vista. Teremos possivelmente mais um desmembramento, tal como ocorreu com a Checoeslováquia. Pode parecer estranho à primeira vista que, numa altura em que a União Europeia já congrega 27 nações, haja esta cisão em potência. A História continua a mostrar-nos que problemas relativos às raízes culturais dos povos se tornam explosivas quando agregadas a questões económicas. Ainda por cima no país que tem como capital a cidade de Bruxelas, onde está sedeada uma parte substancial do aparelho político e administrativo da União Europeia!
Se sim, está a ir longe de mais. A. J. Jardim já tomou múltiplas atitudes pró-Madeira, mas esta ainda não e, possivelmente, nunca pensará em tal. Já o mesmo não se pode dizer de um senhor belga chamado Tim Vandenput, que é presidente do município de Hoeilaart, uma cidade relativamente pequena que não fica longe de Bruxelas. Vandenput, flamengo até à medula, determinou que o potencial comprador de terrenos públicos na área da sua autarquia tem de fazer prova da sua fluência na língua flamenga. Se não, não! "Esta é uma região da Flandres e é como tal que queremos que se mantenha!"
Dificilmente se arranjaria uma história mais simbólica do que esta para vincar a profunda aversão que muitos flamengos nutrem pelos habitantes da Bélgica francófona. Ao contrário de Portugal, que é o país mais antigo da Europa com as mesmas fronteiras, a Bélgica data apenas de 1830. A parte belga de língua francesa já foi em tempos muito próspera, mas presentemente está a ser largamente "subsidiada" pela Flandres. Calcula-se que os trabalhadores flamengos contribuem anualmente com cerca de 3000 dólares para cada valão, o que causa naturais ressentimentos. Este é um exemplo verídico e flagrante da importância da língua (e não só) na formação de uma comunidade. Note-se que o Presidente do partido mais votado nas últimas eleições belgas considerou a Bélgica um acidente da história, sem real valor intrínseco, e ousou dizer que "os franceses" eram demasiado estúpidos para aprender o flamengo.
É verdade que o país continua a funcionar e que acabou de ser atamancado um governo temporário, mas não se vê solução à vista. Teremos possivelmente mais um desmembramento, tal como ocorreu com a Checoeslováquia. Pode parecer estranho à primeira vista que, numa altura em que a União Europeia já congrega 27 nações, haja esta cisão em potência. A História continua a mostrar-nos que problemas relativos às raízes culturais dos povos se tornam explosivas quando agregadas a questões económicas. Ainda por cima no país que tem como capital a cidade de Bruxelas, onde está sedeada uma parte substancial do aparelho político e administrativo da União Europeia!
12/19/2007
Dois breves apontamentos
1. O meu amigo T. von Holst acaba de me enviar um apontamento do correspondente da BBC, Mark Doyle, que esteve presente aquando da recente assinatura do Tratado de Lisboa. Ele intitula-o, sem crítica, Sócrates-speak: "The Summit ended, as do most meetings of this sort, with smiling photocalls. The Portuguese Prime Minister, Jose Socrates, gave an extraordinary closing speech which spoke about bridges being built, steps forward being taken, and visions being pursued. He went off on such an oratorical flight, in fact, that I became mesmerised by the beauty of the Portuguese language and the elegance of his delivery. I was so bewitched that I didn't register any concrete points in the speech at all. Perhaps there weren't any. But it certainly sounded good."
2. Na imprensa de hoje, os construtores do nosso imobiliário respondem às polémicas declarações sobre a corrupção do sector proferidas por Van Zeller, responsável da CIP, há umas semanas atrás. Afirmam, pela voz de Reis Campos, presidente da FEPICOP, que "fraude e evasão fiscal são problemas transversais a todos os sectores." Logo…
Este é o tipo de argumentação que ouvi há um ano ou dois um bem-humorado ex-governante russo referir num ciclo de conferências da Gulbenkian: "Se digo a alguém que o que está a fazer não me parece correcto, recebo como resposta que aquilo não é nada comparado com o que o fulano tal e tal faz." É isto: uns desculpam-se com os outros. O problema é que, como têm razão, mostram à evidência a profundidade e extensão das raízes da corrupção.
2. Na imprensa de hoje, os construtores do nosso imobiliário respondem às polémicas declarações sobre a corrupção do sector proferidas por Van Zeller, responsável da CIP, há umas semanas atrás. Afirmam, pela voz de Reis Campos, presidente da FEPICOP, que "fraude e evasão fiscal são problemas transversais a todos os sectores." Logo…
Este é o tipo de argumentação que ouvi há um ano ou dois um bem-humorado ex-governante russo referir num ciclo de conferências da Gulbenkian: "Se digo a alguém que o que está a fazer não me parece correcto, recebo como resposta que aquilo não é nada comparado com o que o fulano tal e tal faz." É isto: uns desculpam-se com os outros. O problema é que, como têm razão, mostram à evidência a profundidade e extensão das raízes da corrupção.
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