6/23/2008

Na UE27, os portugueses são os que mais comem fora

Já não tenho aqui comigo o jornal da semana passada, mas lembro-me que a notícia, baseada no Eurostat, era mais ou menos assim, conforme transcrita no título. Um dos países do leste europeu detinha o recorde oposto. Os portugueses gastam em média qualquer coisa como 9 por cento do seu rendimento familiar a comer fora. A média europeia é de 3 vírgula qualquer coisa. Colocadas perante a informação em locais diferentes, pessoas conhecidas que eu, por brincadeira, questionei reagiram basicamente de quatro maneiras diferentes. Eis em súmula esses quatro pontos de vista:
1. Isso só vem mostrar que são falsas as notícias que toda a gente atira para o ar sobre a pobreza dos portugueses. Os jornais e a televisão adoram dizer que somos os mais pobres da Europa. É incrível. Querem é deitar abaixo o Governo!
2. Felizmente ainda se come barato no nosso país. Em Londres ou Paris comer fora de casa é fogo. Aqui, vá lá, vá lá, os preços têm-se aguentado mais ou menos. Se aumentarem muito, passamos a ir menos vezes.
3. Hoje em dia as mulheres portuguesas esquivam-se o mais possível a cozinhar. Estão fartas de trabalhar durante a semana, portanto é natural que queiram descansar um bocado ao fim-de-semana e fugir da lufa-lufa diária.
4. Com este comer fora, quem é que pensa em poupar dinheiro em Portugal? Isso era dantes! Depois andam sempre a tinir, ó tio, ó tio! Quando não se pode ir nem a uma tasca, é em casa que se come, que é muito mais barato. De outra forma, como é que se arranja um pezinho-de-meia para uma emergência?

Você por acaso leu a notícia? A propósito, como reagiu, ou como reagiria?

Da antecipação de vitória ao bem-te-dizia

Admito que seja a minha costela judaica a funcionar quando protesto contra alguém que proclama que determinada vitória está garantida. E protesto por duas razões. Primeiro, porque cantar de galo antes da consumação de uma vitória faz com que, em caso afirmativo, eu já não me regozije muito quando finalmente ganho. Fico privado desse real prazer. A outra razão por que essa antecipação me desgosta é também fácil de entender: se me mentalizei de que a vitória está no papo, no campo de luta não me vou esforçar tanto para vencer, tão convicto estou de que os ventos me correm de feição.
Ora, se o prazer (real) me vem de um denodado empenho para conseguir alcançar uma vitória, como poderei apreciar um prazer que é meramente virtual e surge antes de a vitória se concretizar?
Hoje em dia, o jornalismo abandonou o princípio da prudência de antigamente. Em tempos passados, os media evitavam criar frustrações nas pessoas, frustrações essas que são tanto maiores quanto mais alto se subir a priori nos cânticos de glória. Presentemente, a atitude dita positiva - que é, de facto, facilitadora - leva a que a maioria dos jornalistas dos vários meios de informação embalem numa espiral de euforia antes do evento ocorrer. E este evento tanto pode ser uma eleição política, um Prémio Nobel para um escritor português ou um campeonato de futebol.
É claro que o tam-tam dos tambores de vitória antecipada tocado pelos jornalistas tem uma clara finalidade: aumentar as vendas. Se um jornal se vende mais no dia seguinte àquele em que o Saramago ganha o Prémio Nobel de Literatura - na medida em que o comprador fica cheio de orgulho e quer saborear aquele momento de glória que sente nacionalisticamente também lhe pertencer -, é de admitir que vitórias proclamadamente antecipadas no campo desportivo também levem as pessoas compradoras de jornais a não quererem perder aquele pitéu que lhes vai encher a alma.
Terá sido Schlegel quem primeiro disse que os historiadores são os profetas do passado. Concordo. Mas profetizar o futuro, como muitos jornalistas pretendem, é que não me convence nada. Depois de fazerem o mal, fazem ainda a caramunha no caso de as coisas não correrem como pressagiaram. "Bem avisámos", dizem eles. E passam a uma análise dos contras, mostrando como é diferente a cor de um casaco quando virado do avesso. "Eu bem dizia que as coisas podiam correr mal." De súbito, o parágrafo que em reserva escreveram para terem algo em que se escorar na eventualidade de a coisa dar para o torto, vai substituir toda a imensa arengada de floreados e encómios que encheram anteriormente páginas e páginas da imprensa, programas de rádio ou de televisão. Esquecem que o amargo de boca que se sente em caso de derrota perdura muito mais tempo do que perduraria se o ambiente de euforia antecipada não tivesse sido criado. E, infelizmente, isso tem consequências no mal-estar que acaba por se gerar a nível geral.

6/21/2008

Fundamentalismos, extremismos e objectividade

A propósito do novo Museu do Oriente, escreveu-me uma amiga a elogiar o aspecto arquitectónico dos velhos armazéns do bacalhau, salientando ironicamente a qualidade daquela a que chamam "arquitectura fascista". A amiga em questão não foi de maneira nenhuma fã do salazarismo, muito pelo contrário. Contudo, não se coibiu, e bem, de elogiar a qualidade do edifício, reconhecendo também que tinha havido alterações feitas com tacto recentemente. Pego na palavra dela como bom exemplo de pessoa que, objectivamente, admite que o salazarismo que ela sempre detestou teve algumas coisas boas. Por contraste, há indivíduos que colam um rótulo de medíocre ou mau a tudo o que se passou nesse tempo. Já tenho ouvido defender que a escola de então era uma porcaria, que todas as pessoas tinham um medo horrível de falar e de serem presas e que se vivia num clima de terror. Aparentemente, nesse tempo as pessoas não davam gargalhadas francas, não se divertiam. Por antítese, tudo terá melhorado decisivamente depois do 25 de Abril.
Não vou obviamente enumerar todos os aspectos positivos e negativos, tanto do período salazarista como do actual. Mas não posso deixar de estar contra a visão de que tudo era não só mau como mesmo péssimo antes de 1974. Tive, juntamente com muitas outras pessoas, uma infância e adolescência feliz. E estive em festas animadíssimas, com gente bem disposta e pronta a divertir-se. Era outro mundo? Certamente! Mas se a censura existia, o que era mau; se não se podia falar publicamente contra o governo, o que também era naturalmente mau, não se pode daí inferir que tudo era péssimo e que a maioria das pessoas estavam ansiosas por derrubar o regime. Normalmente, esse não era o tema de conversas, a não ser para aqueles, relativamente poucos, que estavam envolvidos com os movimentos de esquerda. Para o bem e para o mal, a esmagadora maioria da população interessava-se pouco pela política.
Outro caso é o da guerra colonial. Ouvi uma vez um conhecido major do exército português dizer, numa conferência pública em que se dirigia à geração mais jovem, que nenhum dos muitos soldados que participaram na guerra colonial partiu de livre vontade. Segundo ele, terão todos partido à força, contrariados ao máximo e revoltados. Ouvi e disse de mim para mim que havia ali um exagero terrível. Fui com tropas para Angola em 1961, no ano em que eclodiu a guerra naquela colónia. Claro que não vi ninguém a bater palmas como se fosse para uma festa, mas é evidente que não estavam todos num estado de espírito de revolta. Pode dizer-se, isso sim, que havia um grande desconhecimento de verdades políticas importantes, cortadas impiedosamente pela censura daquela época. Mas, fosse pela propaganda que o regime fazia, fosse por outras razões, existia em muitos dos que embarcaram e depois estiveram comigo em África, uma noção enraizada de dever. Negá-lo é uma falsidade tremenda, uma desinformação total. Não direi que a situação fosse igual mais tarde, em 1972 ou 73, que aliás já não testemunhei, mas em 1961 o sentimento maioritário dos militares que iam para as Áfricas era de cumprimento de dever, aliado a um natural receio de serem feridos ou de não regressarem com vida.
"A guerra colonial foi tremenda para a juventude portuguesa." Terá mesmo sido? Não terá havido pessoas que gostaram de conhecer a África, a Índia ou Timor, e ficaram mesmo encantadas com isso? Que tiveram uma enorme abertura de espírito por verem terras diferentes, com culturas diversas? Ou ficaram todos com traumas? São fascistas também?
O fundamentalismo leva a generalizações que cabem inteirinhas nos idola de Bacon. Dizer que "o português é sempre assim" não é mais do que meter todos os portugueses no mesmo saco. O que é isso?! É idêntico a dizer "Lá fora nada disto acontece", como se "lá fora", i.e. em qualquer país do mundo que não Portugal, as coisas fossem não só diferentes das nossas como, ainda por cima, invariavelmente melhores do que as portuguesas. São erros crassos de pensamento que estão longe de animar quem faz as coisas bem e, além disso, tenta torná-las ainda melhores.
Durante os anos em que coordenei cursos numa determinada instituição, fui muitas vezes procurado por estudantes ou professores demasiado exaltados com problemas pessoais ou profissionais para serem minimamente objectivos. No silêncio do pequeno gabinete em que eu trabalhava, recordo-me bem da necessidade que sentia de os acalmar primeiro para que se sentissem mais descontraídos. Nalguns casos, entregava-lhes a esferográfica ou caneta que tinha na secretária. Pedia-lhes que a pusessem horizontalmente em frente dos olhos, bem junto a eles. Perguntava-lhes o que viam. Nada, era a resposta. "Vejo a caneta." Pedia-lhes depois para colocarem a esferográfica mais ou menos equidistante entre eles e eu, com quem estavam a falar. Repetia-lhes a pergunta. Respondiam que me viam a mim e à caneta, mais o que estava à volta. A mensagem era imediatamente compreendida. A partir daí podíamos começar a discutir o assunto. Visões obliteradas seja pelo que for, ódio ou paixão, cegam e não deixam ver mais nada. Os fundamentalismos e os extremismos entram nesse grupo.

6/16/2008

Democracia europeia em causa

Um antigo colega, que presidiu durante algum tempo a um órgão importante da escola onde ambos trabalhávamos, tinha uma táctica sui generis nas votações: quando não tinha dúvidas quanto ao voto (positivo) da assembleia, ele pedia aquilo que estava estatutariamente estabelecido: voto secreto. Quando pressentia que poderia haver votos negativos que para ele até eram bem-vindos, mantinha o voto secreto. Sempre que podia haver surpresas indesejáveis, pedia, em nome da transparência de voto, o sistema de braço-no-ar (sabendo antecipadamente que os votantes se retraem mais quando têm que identificar em público a sua escolha)
Este facto ocorre-me a propósito do Tratado de Lisboa. Dada a rejeição da anterior proposta de Constituição Europeia pelos votos contrários da Holanda e da França em referendos nacionais, essa proposta foi reformulada nalguns pontos e passou a denominar-se "Tratado". Como este foi aprovado durante a presidência portuguesa da União Europeia, recebeu a designação de "Tratado de Lisboa" (e a célebre exclamação eufórica de Sócrates para um seu colega, "Porreiro, pá!").
Dado que a experiência é, de facto, algo mais do que um pente para carecas, os escaldados líderes políticos da União resolveram fazer aprovar o Tratado pelos parlamentos nacionais - os parlamentares de cada país são primos direitos dos parlamentares europeus - e rejeitaram a ideia de o referendar. Só que, tal como aquela aldeia isolada e rebelde do Astérix no vasto império romano, aqui também havia um país que, isolada e teimosamente, mantinha o referendo - respeitando assim a sua própria Constituição. Como sabemos, esse país é a Irlanda.
Tê-lo-á feito apenas por pirraça? De forma nenhuma. Na realidade, a Suiça, que é politicamente famosa pelo seu elevado número de referendos, tem um bom equivalente europeu na Irlanda. A Irlanda tem respeitado a sua Constituição e, ao contrário da maioria dos países europeus - incluindo Portugal -, tem referendado os vários desenvolvimentos da União. Assim é que, há 36 anos, a Irlanda votou a favor da adesão à União, o que permitiu que a sua entrada se fizesse logo em 1973. Há 16 anos, o Tratado de Maastricht foi também aprovado em referendo pela Irlanda, assim como em 1998 o Tratado de Amesterdão. Em 2001, porém, os irlandeses, ao votarem o Tratado de Nice, não concordaram com a possibilidade de serem obrigados a quebrar a sua neutralidade militar e... rejeitaram o tratado. Em face das circunstâncias, o referendo sobre Nice foi repetido no ano seguinte, mas com a salvaguarda da neutralidade irlandesa. Foi então aprovado.
Este ano, o Tratado de Lisboa acaba de receber uma maioria de votos “não”. O que se prevê é que alguns dos motivos que levaram à rejeição irlandesa possam ser entretanto salvaguardados num arranjo negociado entre Bruxelas e Dublin, sendo então a fórmula já corrigida submetida a novo referendo. Este acabará, assim, por ser um processo democraticamente correcto. Caso a União Europeia tente outras soluções mais expeditas, a sua credibilidade democrática ficará inexoravelmente ferida. Da mesma maneira que as boas escolas não se fazem contra a maioria dos seus professores, uma União que não seja aprovada pela maioria do seu povo não terá pernas para andar.

6/10/2008

Breves do dia 10 de Junho

1. Noticia o jornal que "a água do Alqueva vai ser mais para o turismo do que para a agricultura". Mas houve alguma vez quem duvidasse disso? O retrato de um homem alentejano a servir de caddie, carregando às costas um saco pesado repleto de tacos de golfe, há muito que simboliza os empregos a criar na população local.

2. Apesar de serem subterrâneas, as obras de construção do Metro para o aeroporto continuam de vento em popa. Tal como sucede no caso do Alqueva relativamente à melhoria da agricultura para os alentejanos, quem é que acredita que a finalidade das obras do Metro seja servir o aeroporto? Viva a Alta de Lisboa! Afinal, os terrenos valorizam-se tanto mais quanto melhor forem servidos de transportes públicos.

3. A Estoril-Sol manifestou o seu entusiasmo pelo facto de a Procuradoria-Geral da República ter reconhecido que a Sociedade era a proprietária legal do edifício do Casino Lisboa, na área da Expo. De facto, isso nunca esteve em causa. Aquilo que sempre se contestou foi a forma como isso foi conseguido.
Pessoalmente lembro-me de uma vez, no liceu D. João de Castro onde estudava, ter percebido - tal como todos os meus colegas, aliás - que era impossível entregar uma justificação de atraso ou falta à primeira aula, a não ser que o encarregado de educação estivesse connosco na altura. Sem essa justificação não podíamos entrar na aula. Em vista deste facto, no ano seguinte falei com o meu pai/encarregado de educação e pedi-lhe para ser eu a assinar a minha matrícula na escola. Assim, deixaria de ter problemas numa eventualidade dessas (ele morava a cerca de 80 quilómetros de Lisboa) pois a minha assinatura seria igual à da matrícula. Como confiava plenamente em mim, concordou. A partir daí, nas poucas vezes em que me atrasei por qualquer razão, assinei por ele. Claro que nunca fui descoberto. Sinto que não prejudiquei ninguém e me limitei, respeitando a ética relativamente ao meu encarregado de educação, a contornar um regulamento que estava mal feito e que, aliás, acabou por ser modificado.
No caso da Estoril-Sol e do Governo PSD-CDS de então, a situação contestada esteve longe de ser semelhante e inócua, contendo uma notória excepção ao regime normal de concessão de casinos. Mas, como é evidente, uma vez que o documento legal foi assinado, a partir daí a cobertura foi total.

4. O Presidente da República teve um lapsus linguae que, apesar de infeliz, se pode considerar relativamente normal numa pessoa como ele. Não será, aliás, de admirar que alguma vez lhe escapem - a ele e a mais políticos - outros lapsos, tais como dizer "Assembleia Nacional" em vez de Assembleia da República, ou "Diário do Governo" em vez de Diário da República. Admita-se, no entanto, que estes serão menos graves do que referências à raça.
Seja como for, para um indivíduo tímido falar aos microfones não é a coisa mais fácil do mundo e, portanto, é sempre possível que o cérebro sofra algumas interrupções quando Cavaco se prepara para manifestar a sua opinião. Isto, mau grado a lentidão do seu discurso e o contido sopesar das suas palavras.

5. Valha a magnífica exibição do seleccionado português em terras suíças no jogo de futebol contra a Turquia. Fez aparecer mais bandeiras nos automóveis e nas janelas das casas. Espera-se que continue assim.

6. Estamos a 48 horas do próximo Dia D para a Europa: a votação do Tratado de Lisboa na Irlanda. Se ganhar o "não", como é que a UE descalça a bota?