7/06/2008

TGV em risco de descarrilar antes de partir

Depois de Luís Campos e Cunha, o primeiro ministro das Finanças do Governo de Sócrates, ter manifestado as suas dúvidas quanto à bondade do projecto TGV, é agora a vez de Cavaco Silva levantar algumas questões quanto às mais-valias do projecto face aos seus elevados custos e à actual situação difícil das finanças nacionais, as quais não serão favorecidas por maiores endividamentos do país. Tanto Campos e Cunha como Cavaco Silva são indubitavelmente mais conhecedores da área de finanças do que Sócrates. Este, no início do seu mandato e perante as objecções de Campos e Cunha, não aceitou a sua continuação no Governo e substituiu-o por Teixeira dos Santos. Só que Cavaco Silva não é membro do Governo, mas sim o Presidente da República...

7/02/2008

Cereal killer


Este é um cartoon notável (o título é meu e a reprodução directa do jornal foi o melhor que consegui arranjar) publicado há umas semanas no Público. A autoria - conhece-se bem o traço - só podia ser do Luís Afonso. Pela oportunidade do "boneco" e poder de síntese-que-diz-tudo, os meus parabéns através do azweblog ao Luís Afonso.

7/01/2008

Os peseteros

Diga-se o que se disser, muitas pessoas da minha geração ainda consideram importante o "amor à camisola", a fidelidade à empresa e à família. Pode ser que não cumpram a cem por cento, mas existe um sentimento enraizado de que é assim que deve ser. Gerações mais novas tendem a pensar de maneira diferente: mais no sentido de aproveitar as oportunidades que surgem, uma vez que elas podem não se repetir.
Como é sabido, antigamente um ciclista que do Benfica passasse para o Sporting ou vice-versa era apodado de “traidor”. Vendia-se por uns parcos dinheiros, à maneira de Judas. O mesmo se passava com jogadores de futebol. Não era imaginável que o benfiquista Eusébio passasse para o Porto ou para o Sporting, ou que o sportinguista Travassos se transferisse para um clube rival.
Gradualmente, porém, o dinheiro começou a falar mais alto. Os leilões a ver quem dava mais passaram a ser correntes. Clubes apodados de bem geridos transformaram-se em entrepostos de venda, sempre na mira de comprarem barato para venderem caro. Recentemente, no campeonato europeu verificou-se que a selecção portuguesa era das mais valiosas - era conhecido o preço por que tinham sido vendidos a clubes estrangeiros muitos dos jogadores que nela alinhavam.
Sempre defenderei a liberdade e, portanto não posso em consciência opor-me a mudanças. Cada um é livre de escolher o que considera ser melhor para si, sendo naturalmente responsável pelos seus actos. E admito, naturalmente, que questões de dignidade pessoal, problemas familiares ou de saúde podem estar na base de mudanças mais do que justificadas.
Apesar de tudo, há situações que continuam a doer aos formatados em fidelidade. Citarei três casos bem nossos conhecidos. Por um lado, a transferência de Figo do Barcelona, onde era idolatrado e ganhava bom dinheiro, para o grande rival espanhol de Madrid. Já foi há uns anos, mas constituiu uma verdadeira ofensa para os catalães, que até lhe tinham dado a honra de capitanear a equipa. Mais: o clube madrileno ficou com toda a razão para pensar que o mesmo lhe poderia suceder a si relativamente ao dito jogador se aparecesse outra proposta mais elevada.
Scolari, treinador da selecção portuguesa, é um outro caso. Para o bem e para o mal, desenvolveu-se uma mística entre o homem e o nosso país. Vê-lo abandonar por meras (?) razões monetárias não caiu bem. Isto digo eu, mas muitos não concordarão comigo. A sua dificuldade em línguas vai possivelmente causar-lhe grandes problemas e portanto ele abre até a hipótese de regressar um dia. Eu nunca o receberia.
O terceiro caso é o de Cristiano Ronaldo, o menino-bonito do Manchester. Depois de receber mil prodigalidades do clube onde se fez um grande jogador à escala mundial, disse-se pronto a trocar o clube inglês pelo Real Madrid. Pesetero, como Figo.
Entretanto, não esqueçamos que mesmo no mundo do futebol bem pago ainda existem alguns fiéis. Agora durante o Euro sensacionalmente ganho pela Espanha sobressaiu Xavi, um jogador que entrou para o Barcelona aos 11 anos. Recusou pelo menos por duas vezes sair do seu clube. Em ambas foi convidado por José Mourinho, primeiro para o Chelsea, agora para o Inter. Em ambos os casos declinou o convite. É, evidentemente, um símbolo emblemático do Barcelona, tal como foi Guardiola, que vai ser o novo treinador da equipa e jogou no clube juntamente com Figo.
Apesar das notáveis e saborosas excepções como estas de Xavi e Guardiola, os valores máximos que contam hoje em dia parecem ser os da conta bancária. Os outros são subalternizados. É uma evolução sociologicamente interessante. É sintomático que uns a aceitem sem quaisquer problemas de consciência e outros a reprovem, admitindo apenas que se trata de um sinal dos tempos.

6/29/2008

Como pode um S ser simultaneamente igual e diferente de outro S?

Ainda antes da campanha para a Presidência da República em França, Sarkozy avistou-se com Sócrates e elogiou-o abertamente pela sua acção política. Agradou-lhe a forma como, sem contestação de maior, Sócrates conseguiu não só pôr fim a várias situações de claro privilégio lesivo do Estado, como logrou introduzir reformas de vulto na Segurança Social.
Após um primeiro ano algo atribulado como Presidente, desde Maio último que Sarkozy se está a empenhar a fundo num vasto conjunto de reformas. Aproveitando o tempo estival em que muitos trabalhadores estão fora, Sarkozy assesta toda a sua artilharia naquilo que prometeu ao eleitorado francês. Baseado num relatório que ele próprio encomendou a uma comissão liderada por Jacques Attali, Sarkozy joga em vários tabuleiros. Attali forneceu-lhe 316 medidas. Ele já colocou várias em funcionamento, mas é agora que ataca a sério. Começou por adelgaçar substancialmente o obeso orçamento das Forças Armadas, reduzindo estas em 54 mil postos e desactivando dezenas de instalações militares. Por seu lado, o Parlamento francês já aprovou uma lei que facilita o despedimento de trabalhadores e em Julho deverá aprovar uma outra que vai permitir às firmas negociarem horas extraordinárias com os seus empregados - um golpe mortal na muito propalada semana-de-35-horas. Na calha está também legislação que vai permitir que os funcionários públicos sejam recolocados noutros departamentos estatais, ao mesmo tempo que se opera a redução dos efectivos através da não-substituição dos que saem. O Serviço Nacional de Saúde vai ser objecto de medidas drásticas a fim de sanar o seu crónico défice. Nas escolas, os professores viram substancialmente aumentado o número das suas horas de permanência. Em nome da sacra concorrência, mesmo leis antigas que protegiam o pequeno comércio têm os seus dias contados.
Mais coisa, menos coisa, todo este panorama soa a algo familiar para quem tem vivido em Portugal na era de Sócrates. O interessante é o facto de Sarkozy e Sócrates, embora tão irmãos nas suas acções, pertencerem a famílias políticas bem diferentes: um foi eleito pela direita - derrotou os socialistas de Ségolène Royal, como todos se lembrarão -, o outro recebeu maioria absoluta pela esquerda. Com medidas tão semelhantes, quem diria que um dos S era um socialista português e o S francês um acérrimo combatente do socialismo?

6/27/2008

Os garranos também se abatem




A notícia do abate de quatro garranos no concelho de Melgaço, a tiros de caçadeira, impressionou-me e trouxe-me inevitavelmente uma série de eventos à memória. Na última vez que estive nas Terras de Bouro e no Gerês, deliciei-me com o espectáculo dos cavalos à solta, inédito para mim em Portugal. Fui de imediato transportado em pensamento até terras de África, com outros animais como palancas, gazelas, veados e antílopes que vi inúmeras vezes a fruir todo o prazer da liberdade. Selvagem e primitiva. No Gerês, soube-me muito bem estar junto dos garranos, vê-los correr à desfilada, deparar com as suas silhuetas bem recortadas contra a linha do horizonte. Agora, de súbito, vem a notícia do abate. E, na continuação da notícia, vem a informação de que no concelho de Paredes de Coura foram mortos outros dez garranos no princípio deste mês.
É a luta entre o homem e os animais. Quando os lobos descem ao povoado, por que razão o fazem? Obviamente, porque têm fome. E por que razão têm fome? Porque a natureza lhes é adversa e os homens lhes matam a caça que é o seu alimento habitual. Javalis, pequenos animais selvagens e outros bichos deixam de ser presas do lobo para serem presas do homem. Nessa altura, os lobos atacam a aldeia em busca de alimento. É a sua luta pela sobrevivência.
Em África, muitos dos animais que nós, europeus, pretendemos preservar, destroem as lavras dos nativos. O rinoceronte preto só foi conservado num determinado país africano porque foi criada uma reserva de turismo e houve possibilidade de melhorar a vida dos cidadãos cujas aldeias ficavam dentro da reserva. Que motivação tinham os nativos anteriormente para não matarem o rinoceronte preto, que lhes arrazava o que eles tinham plantado por gosto e necessidade? Além disso, caçadores furtivos ganhavam fortunas com a venda do "corno mágico" do rino.
Pelo que leio, o caso dos garranos não sai muito deste mesmo sistema: o homem alarga os seus terrenos de cultivo e entra em colisão com os cavalos semi-selvagens que os garranos são. Estes, no seu cavalgar pelas terras fora, podem de facto destruir as culturas dos agricultores, os quais, por seu lado, entraram resolutamente por terras ainda não cultivadas em busca de mais rendimento.
Este aspecto da luta é, aliás, mais vasto: entre o homem e o homem. Quando os nativos da actual Namíbia foram quase dizimados pelos alemães no início do século XX, quando os americanos mataram milhares e milhares de índios para lhes roubarem as terras, quando os nativos da Nova Zelândia sofreram um morticínio terrível às mãos dos colonizadores, quando os aborígenes australianos quase foram extintos para que os emigrantes britânicos pudessem viver melhor, quando os americanos atacaram o Iraque para poderem aumentar a sua riqueza através do petróleo, em todos estes casos e decerto em muitas centenas de outros ao longo da História, que temos senão o mais forte a dominar e a abater o mais fraco?
Tudo isto é verdade, mas mesmo assim não posso deixar de lastimar a morte destes magníficos garranos.