Foi só no outro dia que me apercebi que levar o automóvel à inspecção é um pouco como ir à igreja com uma boa série de pecados e aguardar ansiosamente pela absolvição no final.
Num centro de inspecções periódicas (C.I.) não há carros verdadeiramente novos: esses estão isentos durante os seus primeiros quatro anos de vida. Depois, até aos 8, vão apenas de dois em dois anos, pelo que a grande massa de viaturas que se encontra num C.I. se apresenta com uma saca enorme carregada de pecados, traduzidos em muitos quilómetros percorridos, motores a funcionar já sem a energia da juventude, umas tantas amolgadelas e muitos riscos na pintura.
A meu lado, esfregando as mãos para esconder o nervosismo que o invade, o já idoso proprietário de um Honda fala ininterruptamente com o funcionário que lhe examina o veículo. Elogia a sua máquina, fala dela como se de uma namorada se tratasse, explica por que razão a mantém já há tantos anos e esclarece quantas centenas de euros gasta regularmente para a manter afinada. Fala alto e entrecorta a sua explicação com risadinhas nervosas que não consegue disfarçar. O inspector continua imperturbável no exame da viatura. Não creio que tenha ouvido nem um quarto da lenga-lenga que o indivíduo de cabelos brancos expressamente lhe dirige. Nem podia. Tendo em consideração os habituais padrões portugueses, a inspecção é mesmo rigorosa. Quem olhar para a folha com tabelas de um lado e do outro assinaladas a cores diferentes para testar o correcto funcionamento de uma infinidade de itens e, ao mesmo tempo, vir a provecta idade de alguns daqueles automóveis, chegará de pronto à conclusão de que só um milagre celestial é que pode permitir que passem minimamente em todos aqueles testes. Os faróis têm que farolar, os piscas que piscar, o motor não pode ir abaixo, os pneus devem permitir a boa aderência da viatura à estrada, o escape não pode ser barulhento nem ter fugas, as luzes de nevoeiro, tanto as dianteiras como as traseiras, têm que funcionar na perfeição, tal como os stops e a luz avisadora de marcha-atrás.
"Está tudo bem?", perguntam os proprietários ansiosamente, mais com fé do que com verdadeira credulidade. "Mais ou menos." A indecisão dos inspectores mantém-se até ao final. O seu veredicto é inapelável. Quando finalmente termina o exame, depois da saída do veículo do seu lugar sobre uma fossa ou no alto de um elevador que permite toda a visão da parte de baixo do chassis e do resto, o inspector recolhe ao silêncio do seu gabinete. São três as hipóteses: a melhor é o almejado "Aprovado", tout court. "Aprovado com reservas" é outra possibilidade. Nesse caso, o proprietário é vivamente aconselhado a mandar reparar um ou dois itens, que não são no entanto tão relevantes para o bom funcionamento do automóvel em condições de segurança que o impeçam de andar na estrada. Na terceira hipótese, comum, o veículo deverá voltar dentro do período de um mês à inspecção, mas apenas para que determinadas partes sejam testadas de novo. Se então passar, "até para o ano!" Caso contrário, a viatura perde a licença de circulação. Este acaba por ser um caso mais raro, afinal. A absolvição em Portugal sempre foi o que prevaleceu. Há costumes que se mantêm brandos.
7/21/2008
7/17/2008
Como vão as coisas?
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O irreprimível desejo de ladrar contra o inimigo, manifestado por todos os partidos que estão na oposição em face de maus resultados do Governo, acaba de surgir mais uma vez. Não será a última, decerto, sendo que quando o partido actualmente no Governo estiver na oposição fará exactamente a mesma coisa. Sinto-me particularmente mal ao ver estabelecer um nexo causal entre duas coisas que não estão directamente relacionadas. Por outro lado, ver os partidos da oposição como que a rejubilarem com a crise que se abate sobre o país, parecendo mais interessados no "eu-não-avisei?" do que na crua realidade vivida pelos cidadãos, é algo chocante. Lembra-me aqueles oradores que, ao citarem palavras de um discurso de Abraão Lincoln em que este fala da necessidade de continuar a lutar pela manutenção do governo do povo, pelo povo e para o povo, fazem com que toda a ênfase recaia retoricamente nas diferentes preposições "do povo, pelo povo e para o povo" em vez de acentuarem o mais importante: o povo, i.e. as pessoas.
Longe de mim defender o Governo, mas é de toda a justiça reconhecer que o tremor que presentemente se abate sobre o país está longe de ter o seu epicentro em Portugal. Portugal é, entretanto, um dos mais afectados pelo pacote-conjunto de elevados preços de combustíveis e de outras matérias primas, incluindo alimentares, por uma diferença abissal entre o valor do euro e do dólar, e pelos efeitos devastadores de um capitalismo que se embrenhou selvaticamente pelos caminhos do endividamento das populações seduzidas pelo sonho de contínuas valorizações que em poucos anos se desmoronou. Neste momento, Espanha, Grécia e Portugal - sempre juntos como nos famosos PIGS (Portugal, Italy, Greece, Spain) - enfrentam problemas sérios que um nível de vida excessivo praticado durante anos provocou. Enquanto as coisas vão de vento em popa para os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), os PIGS amocham. Estas coisas são assim. Estamos a viver uma aventura colectiva de que não sabemos o The End, se é que este existe. Talvez a coisa acabe por ser mais como as sessões contínuas do velho Olímpia ou do Coliseu.
Parece evidente que vai ocorrer gradualmente uma mudança significativa e gravosa. Já que os países da Eurolândia nesta vão continuar, acontece que "o seu" euro está supervalorizado. Devido a isso, os valores das empresas e das propriedades - incluindo imobiliário e terrenos - dos países que enfrentam maiores dificuldades de endividamento tenderão a baixar até chegarem a uma plataforma de preço que seja suficientemente atraente para o nacional e o estrangeiro investirem o seu dinheiro. E os salários subirão pouco.
Manietados por regras impostas por Bruxelas, os governos dos vários países têm a maior possibilidade de manobra através da fiscalidade. Podem também, é verdade, evitar cometer erros desastrosos que terão de ser pagos no futuro, mas é basicamente através da fiscalidade que podem agir. No caso de Portugal, já muita coisa se tentou fazer neste campo, mas sem grande sucesso sustentado. Vivemos num país com elevada taxa de corrupção e de crimes de colarinho branco. Sem seriedade, somos todos a sofrer. Quem cumpre com a lei acaba por ficar prejudicado. Muito embora a sua consciência possa estar em paz, a sua carteira ficará mais vazia do que a dos outros que actuam à margem da lei.
A Operação Furacão é, pelo que se sabe, um bom exemplo de manobras financeiras que movimentaram e possivelmente continuam a movimentar largas somas de forma menos clara. Entretanto, uma lei providencial para as empresas está em vias de abortar muitos dos esforços para deslindar teias bem urdidas e dificilmente desmontáveis.
Mas se isto se passa nas altas esferas das finanças, atente-se no que vem ocorrendo cada vez mais no mundo dos biscates. Uma quantidade cada vez maior de profissionais que prestam os serviços mais diversos estabelece com os seus clientes um contrato verbal de pagamento... em dinheiro vivo. Nada de cheques! Estes podem servir de meio de controlo à administração fiscal e eles não querem ser apanhados nas malhas da justiça do Fisco por nada deste mundo. Como é óbvio, torna-se praticamente impossível seguir o trilho dos largos montantes que resultam de somas relativamente pequenas mas acumuladas por todo o país. Depois, nada disto consta das estatísticas, a não ser por estimativa, algo que é por natureza pouco fiável. Mas é assim que o país anda.
Não considero que Portugal tenha errado ao concentrar cerca de oitenta por cento das suas exportações e importações no seio da União Europeia. No fundo, foi para trocas comerciais deste género que se criou o euro e se esbateram fronteiras. O pior é que quando não se exporta valores substanciais para os mercados que estão na curva ascendente, como os dos BRIC, a economia tende a estagnar ou a entrar em recessão. Na União, países como a Alemanha, a França e a Holanda têm conseguido entrar nesses mercados e por isso a sua economia resiste melhor. Noutros, nomeadamente os muito endividados, a situação não é tão brilhante.
Parece evidente que vai ocorrer gradualmente uma mudança significativa e gravosa. Já que os países da Eurolândia nesta vão continuar, acontece que "o seu" euro está supervalorizado. Devido a isso, os valores das empresas e das propriedades - incluindo imobiliário e terrenos - dos países que enfrentam maiores dificuldades de endividamento tenderão a baixar até chegarem a uma plataforma de preço que seja suficientemente atraente para o nacional e o estrangeiro investirem o seu dinheiro. E os salários subirão pouco.
Manietados por regras impostas por Bruxelas, os governos dos vários países têm a maior possibilidade de manobra através da fiscalidade. Podem também, é verdade, evitar cometer erros desastrosos que terão de ser pagos no futuro, mas é basicamente através da fiscalidade que podem agir. No caso de Portugal, já muita coisa se tentou fazer neste campo, mas sem grande sucesso sustentado. Vivemos num país com elevada taxa de corrupção e de crimes de colarinho branco. Sem seriedade, somos todos a sofrer. Quem cumpre com a lei acaba por ficar prejudicado. Muito embora a sua consciência possa estar em paz, a sua carteira ficará mais vazia do que a dos outros que actuam à margem da lei.
A Operação Furacão é, pelo que se sabe, um bom exemplo de manobras financeiras que movimentaram e possivelmente continuam a movimentar largas somas de forma menos clara. Entretanto, uma lei providencial para as empresas está em vias de abortar muitos dos esforços para deslindar teias bem urdidas e dificilmente desmontáveis.
Mas se isto se passa nas altas esferas das finanças, atente-se no que vem ocorrendo cada vez mais no mundo dos biscates. Uma quantidade cada vez maior de profissionais que prestam os serviços mais diversos estabelece com os seus clientes um contrato verbal de pagamento... em dinheiro vivo. Nada de cheques! Estes podem servir de meio de controlo à administração fiscal e eles não querem ser apanhados nas malhas da justiça do Fisco por nada deste mundo. Como é óbvio, torna-se praticamente impossível seguir o trilho dos largos montantes que resultam de somas relativamente pequenas mas acumuladas por todo o país. Depois, nada disto consta das estatísticas, a não ser por estimativa, algo que é por natureza pouco fiável. Mas é assim que o país anda.
Não considero que Portugal tenha errado ao concentrar cerca de oitenta por cento das suas exportações e importações no seio da União Europeia. No fundo, foi para trocas comerciais deste género que se criou o euro e se esbateram fronteiras. O pior é que quando não se exporta valores substanciais para os mercados que estão na curva ascendente, como os dos BRIC, a economia tende a estagnar ou a entrar em recessão. Na União, países como a Alemanha, a França e a Holanda têm conseguido entrar nesses mercados e por isso a sua economia resiste melhor. Noutros, nomeadamente os muito endividados, a situação não é tão brilhante.
Dizer que a culpa é toda do Sócrates é apenas um grito de galo de quem o quer ver saltar do poleiro para ir ocupar o seu lugar. Mas é evidente que, numa altura destas, insistir em construir um TGV Lisboa-Porto, por exemplo, é passar ao lado do cerne da crise e agravá-la ainda mais. Coisas desse género são, de facto, erros graves que devem ser assacados aos governantes, como aliás outros ocorridos neste mandato.
7/11/2008
O xadrez
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Quando estive na Índia no princípio deste ano, fiquei impressionado com variadíssimas coisas. Terei dado testemunho de algumas delas neste blog. Algo que não referi foi que, imperdoavelmente, me esqueci de fotografar uma enorme porta de madeira de entrada no castelo de Orcha. Não era uma porta qualquer. Estava "forrada" do lado de fora com inúmeros picos de ferro bem salientes. Na parte de trás tinha a revesti-la uma chapa forte para maior resistência. Hoje, Orcha é uma pequena e modesta localidade que sobrevive como atracção turística. Para que serviam aqueles picos de ferro?
Antes de vermos a resposta, lembremos a maneira como Timur, um dos príncipes mogóis que conquistou para si uma parte substancial do território indiano no virar do século XIV para o XV, conseguiu derrotar os governantes hindus da capital, Delhi. Estes possuíam bastantes tropas, encontravam-se numa posição defensiva e tinham uma arma terrível que causava sempre o pânico entre as tropas invasoras: elefantes. Quando os elefantes atacavam, o destroço do inimigo era completo. Timur, porém, preparou bem o combate. Mandou levantar uma robusta muralha e construir um fosso, além de criar vários tipos de armadilhas, com enormes covas cheios de ferros espetados no fundo. O mogol não dispunha de elefantes, mas na sua caminhada para Delhi conseguira arrebanhar uma quantidade razoável de camelos e búfalos. Estes faziam também parte da sua estratégia. Postas as tropas em posição de combate, o guerreiro Timur mandou atar palha seca aos rabos dos búfalos e dos camelos. Depois, quando a refrega se iniciou, com os seus búfalos e camelos na linha da frente, deu ordem para que a palha atada aos rabos dos animais fosse ateada, enquanto os seus soldados faziam os bichos avançar. Loucos de dor e absolutamente espavoridos, os numerosos búfalos e camelos investiram contra os elefantes inimigos. Estes, em debandada, acabaram por ir contra as tropas hindus. A partir daí, não foi difícil a Timur ocupar Delhi e iniciar assim uma dinastia mogol que viria a construir alguns dos mais belos palácios da Índia, incluindo o Taj Mahal, e desenvolver as ciências e as letras.
Ora, o grande portão do castelo de Orcha, com os seus salientes picos em ferro, não pretendia mais do que rechaçar os elefantes que contra ele investissem. Terá sido por estas e por outras razões que o temido elefante fez inicialmente parte do jogo de xadrez. Crê-se que este jogo tenha tido a sua origem na Índia várias centenas de anos antes de Cristo. Aliás, uma das grandes epopeias indianas - Ramayana - conta que o rei Ravana inventou o xadrez para divertir a sua mulher, Mandodari. Cerebralmente brilhante, Mandodari depressa se tornou melhor jogadora do que o marido e derrotava-o invariavelmente.
O xadrez figura também no Arthashastra, aquele que é possivelmente o mais antigo tratado político que se conhece (século III a.C.). Nele, o xadrez é tratado como jogo de guerra. A história acima narrada dos búfalos, camelos e elefantes, que tem tanto de verídica como de cruel, iria confirmar vários séculos mais tarde como as peças do jogo podem ser manipuladas numa batalha real.
No entanto, hoje não encontramos nem elefantes nem camelos entre as peças do jogo de xadrez. Existirá alguma razão? Sim. Crê-se que da Índia o jogo passou para a Pérsia. Os árabes que conquistaram a Pérsia no século VI transportaram-no para o norte de África. Do norte de África o jogo atravessou o Mediterrâneo e entrou na Espanha moura, na qual se tornou imensamente popular. Era frequentemente jogado nas ruas, algo que aliás ainda se pode ver hoje em várias cidades do mundo (fotos, em Berna e Lausanne).
Admito que para mim tudo isto era já mais ou menos conhecido. Mas vim agora a aperceber-me através de um interessante artigo da Time - escrito pelo actual campeão do mundo de xadrez - de um pormenor absolutamente novo para mim: o papel de Isabel, a Católica, de Espanha, na evolução do jogo. Puxando a brasa à nossa sardinha portuguesa, lembremos que esta Isabel, de boas e más famas, era bisneta do nosso rei D. João I, neta do Infante D. João e de Isabel de Bragança, e filha de Isabel de Portugal. Com a reconquista de Granada pelas tropas católicas de Castela (de Isabel) e Fernando (de Aragão) e o fim do império mouro na Península em 1492, houve inúmeras coisas que mudaram. Entre elas o xadrez. A rainha tornou-se a peça mais importante do tabuleiro, o bispo entrou na liça substituindo o camelo, o elefante desapareceu, dando o seu lugar ao cavalo. Se repararmos, veremos que os Cavaleiros (com os seus cavalos), a Rainha (por si própria e pela Virgem), os Bispos (pela Igreja), o Rei (como líder máximo), os Castelos (torres, como residência e refúgio), e a linha da frente dos Peões (simbolizando os soldados geralmente retirados dos servos da gleba medievais) formam todo um retrato da sociedade da época. Apesar de o xadrez ser um jogo e, como vimos, também um jogo de guerra (um war game, quem diria?), é curioso ver nele este retrato da sociedade daquele tempo. Para nós, portugueses, lembrar-nos-á porventura o famoso Políptico de S. Vicente, de Nuno Gonçalves, que representa pictoricamente a nossa sociedade da época. Por associação, chegamos também aos óptimos retratos teatrais de Gil Vicente nos seus autos. Em idêntica associação, chegamos aos Canterbury Tales, de Chaucer, relativamente à sociedade medieval inglesa. A presença dos soldados que constituem a perigosa linha dianteira traz-nos à mente as mulheres "coitadas", que viam os seus homens partir para a guerra e vestiam de preto até que eles regressassem. Os cavaleiros mostram-nos os nobres, montando um animal que pela sua nobreza fez com que a designação de "cavaleiros" evoluísse no sentido de "cavalheiros" (os gentlemen ibéricos). A rainha evoca os jogos de influência palaciana, as intrigas, a importância que constitui para um rei ter uma mulher arguta e decidida a seu lado. E simboliza a importância de Nossa Senhora. Os bispos caracterizam a influência da Igreja, poderosa no seu lobbying, perigosa por vezes nas suas manobras de ataques laterais. O Rei é o chefe, mas tem ele próprio de contar com aqueles amigos todos a secundá-lo. Sozinho, cairia facilmente nas mãos do inimigo. O castelo (a torre) é o grande reduto da segurança real, com a sua vivência própria.
Interessantemente, fiquei a saber que o xadrez moderno é ainda hoje jogado por regras que foram formalmente adoptadas durante o reinado de Isabel, a Católica.
Admito perfeitamente que o xadrez seja mais importante para jogar do que para permitir deambulações através de historietas assim, mas esta poderá eventualmente ter também algum interesse.
Antes de vermos a resposta, lembremos a maneira como Timur, um dos príncipes mogóis que conquistou para si uma parte substancial do território indiano no virar do século XIV para o XV, conseguiu derrotar os governantes hindus da capital, Delhi. Estes possuíam bastantes tropas, encontravam-se numa posição defensiva e tinham uma arma terrível que causava sempre o pânico entre as tropas invasoras: elefantes. Quando os elefantes atacavam, o destroço do inimigo era completo. Timur, porém, preparou bem o combate. Mandou levantar uma robusta muralha e construir um fosso, além de criar vários tipos de armadilhas, com enormes covas cheios de ferros espetados no fundo. O mogol não dispunha de elefantes, mas na sua caminhada para Delhi conseguira arrebanhar uma quantidade razoável de camelos e búfalos. Estes faziam também parte da sua estratégia. Postas as tropas em posição de combate, o guerreiro Timur mandou atar palha seca aos rabos dos búfalos e dos camelos. Depois, quando a refrega se iniciou, com os seus búfalos e camelos na linha da frente, deu ordem para que a palha atada aos rabos dos animais fosse ateada, enquanto os seus soldados faziam os bichos avançar. Loucos de dor e absolutamente espavoridos, os numerosos búfalos e camelos investiram contra os elefantes inimigos. Estes, em debandada, acabaram por ir contra as tropas hindus. A partir daí, não foi difícil a Timur ocupar Delhi e iniciar assim uma dinastia mogol que viria a construir alguns dos mais belos palácios da Índia, incluindo o Taj Mahal, e desenvolver as ciências e as letras.
Ora, o grande portão do castelo de Orcha, com os seus salientes picos em ferro, não pretendia mais do que rechaçar os elefantes que contra ele investissem. Terá sido por estas e por outras razões que o temido elefante fez inicialmente parte do jogo de xadrez. Crê-se que este jogo tenha tido a sua origem na Índia várias centenas de anos antes de Cristo. Aliás, uma das grandes epopeias indianas - Ramayana - conta que o rei Ravana inventou o xadrez para divertir a sua mulher, Mandodari. Cerebralmente brilhante, Mandodari depressa se tornou melhor jogadora do que o marido e derrotava-o invariavelmente.
O xadrez figura também no Arthashastra, aquele que é possivelmente o mais antigo tratado político que se conhece (século III a.C.). Nele, o xadrez é tratado como jogo de guerra. A história acima narrada dos búfalos, camelos e elefantes, que tem tanto de verídica como de cruel, iria confirmar vários séculos mais tarde como as peças do jogo podem ser manipuladas numa batalha real.
No entanto, hoje não encontramos nem elefantes nem camelos entre as peças do jogo de xadrez. Existirá alguma razão? Sim. Crê-se que da Índia o jogo passou para a Pérsia. Os árabes que conquistaram a Pérsia no século VI transportaram-no para o norte de África. Do norte de África o jogo atravessou o Mediterrâneo e entrou na Espanha moura, na qual se tornou imensamente popular. Era frequentemente jogado nas ruas, algo que aliás ainda se pode ver hoje em várias cidades do mundo (fotos, em Berna e Lausanne).
Admito que para mim tudo isto era já mais ou menos conhecido. Mas vim agora a aperceber-me através de um interessante artigo da Time - escrito pelo actual campeão do mundo de xadrez - de um pormenor absolutamente novo para mim: o papel de Isabel, a Católica, de Espanha, na evolução do jogo. Puxando a brasa à nossa sardinha portuguesa, lembremos que esta Isabel, de boas e más famas, era bisneta do nosso rei D. João I, neta do Infante D. João e de Isabel de Bragança, e filha de Isabel de Portugal. Com a reconquista de Granada pelas tropas católicas de Castela (de Isabel) e Fernando (de Aragão) e o fim do império mouro na Península em 1492, houve inúmeras coisas que mudaram. Entre elas o xadrez. A rainha tornou-se a peça mais importante do tabuleiro, o bispo entrou na liça substituindo o camelo, o elefante desapareceu, dando o seu lugar ao cavalo. Se repararmos, veremos que os Cavaleiros (com os seus cavalos), a Rainha (por si própria e pela Virgem), os Bispos (pela Igreja), o Rei (como líder máximo), os Castelos (torres, como residência e refúgio), e a linha da frente dos Peões (simbolizando os soldados geralmente retirados dos servos da gleba medievais) formam todo um retrato da sociedade da época. Apesar de o xadrez ser um jogo e, como vimos, também um jogo de guerra (um war game, quem diria?), é curioso ver nele este retrato da sociedade daquele tempo. Para nós, portugueses, lembrar-nos-á porventura o famoso Políptico de S. Vicente, de Nuno Gonçalves, que representa pictoricamente a nossa sociedade da época. Por associação, chegamos também aos óptimos retratos teatrais de Gil Vicente nos seus autos. Em idêntica associação, chegamos aos Canterbury Tales, de Chaucer, relativamente à sociedade medieval inglesa. A presença dos soldados que constituem a perigosa linha dianteira traz-nos à mente as mulheres "coitadas", que viam os seus homens partir para a guerra e vestiam de preto até que eles regressassem. Os cavaleiros mostram-nos os nobres, montando um animal que pela sua nobreza fez com que a designação de "cavaleiros" evoluísse no sentido de "cavalheiros" (os gentlemen ibéricos). A rainha evoca os jogos de influência palaciana, as intrigas, a importância que constitui para um rei ter uma mulher arguta e decidida a seu lado. E simboliza a importância de Nossa Senhora. Os bispos caracterizam a influência da Igreja, poderosa no seu lobbying, perigosa por vezes nas suas manobras de ataques laterais. O Rei é o chefe, mas tem ele próprio de contar com aqueles amigos todos a secundá-lo. Sozinho, cairia facilmente nas mãos do inimigo. O castelo (a torre) é o grande reduto da segurança real, com a sua vivência própria.
Interessantemente, fiquei a saber que o xadrez moderno é ainda hoje jogado por regras que foram formalmente adoptadas durante o reinado de Isabel, a Católica.
Admito perfeitamente que o xadrez seja mais importante para jogar do que para permitir deambulações através de historietas assim, mas esta poderá eventualmente ter também algum interesse.
7/10/2008
Enigma
7/08/2008
Não matei!
Por mero acaso, estive no outro dia com um indivíduo beirão com quem já tinha estado uma vez. A certa altura, da sala do 2º andar onde nos encontrávamos vi-o atirar pela janela fora (para o quintal que fica na parte de baixo) o cigarro que ele tinha estado a fumar. Lembrei-lhe que o cigarro aceso podia acertar nalguma pessoa ou num cão. "Se for num cão, não faz mal." A dureza do discurso impressionou-me - estamos num tempo em que falar contra os animais se tornou altamente incorrecto.
Ele explicou-me que não era tanto assim. Tinha um ódio tremendo a gatos e cães. Desde miúdo. Contou-me então a vez em que, gaiato ainda, tinha ido trabalhar para o campo com a mãe. À hora do almoço, não encontrou a sopa que levara no farnel exactamente intacta. Nem dava para meia tijela. "O gato andou por aí", disse-lhe a mãe. "Se calhar foi-te à sopa." Com a fome a apertar e o odiozinho aos bichos a martirizá-lo, o puto não esperou muito. Apanhando a mãe distraída a trabalhar, agarrou numa corda, filou o gato e enforcou-o. Assim! "Para que servem os gatos? Aquilo é bicho que não interessa!"
Se essa era uma história antiga, agora que o indivíduo já é quase avô, tinha entretanto uma outra fresquinha para contar. "Este fim-de-semana fui à terra por causa de uns terrenos que lá tenho e uma hortinha. Então não é que apanhei quatro cães a darem-me cabo das cebolas e do tomate que eu tinha plantado! Espojados a dormir e a esborrachar-me aquilo tudo, que me custou uma nota!" Perguntei-lhe de quem eram os cães. "Ninguém me disse quem era o dono. Mas hoje já não estão cá." "Não me diga que você os enforcou como fez ao gato quando era miúdo?" "Não. Não matei os cães. Eles é que foram gulosos! Foram comer o frango que eu tinha cozinhado com uma boa dose do produto que usamos nos terrenos. Garanto-lhe que nunca mais vão às cebolas nem a mais nada. Foi remédio santo!"
Santo é que o homem não é, caramba!
Ele explicou-me que não era tanto assim. Tinha um ódio tremendo a gatos e cães. Desde miúdo. Contou-me então a vez em que, gaiato ainda, tinha ido trabalhar para o campo com a mãe. À hora do almoço, não encontrou a sopa que levara no farnel exactamente intacta. Nem dava para meia tijela. "O gato andou por aí", disse-lhe a mãe. "Se calhar foi-te à sopa." Com a fome a apertar e o odiozinho aos bichos a martirizá-lo, o puto não esperou muito. Apanhando a mãe distraída a trabalhar, agarrou numa corda, filou o gato e enforcou-o. Assim! "Para que servem os gatos? Aquilo é bicho que não interessa!"
Se essa era uma história antiga, agora que o indivíduo já é quase avô, tinha entretanto uma outra fresquinha para contar. "Este fim-de-semana fui à terra por causa de uns terrenos que lá tenho e uma hortinha. Então não é que apanhei quatro cães a darem-me cabo das cebolas e do tomate que eu tinha plantado! Espojados a dormir e a esborrachar-me aquilo tudo, que me custou uma nota!" Perguntei-lhe de quem eram os cães. "Ninguém me disse quem era o dono. Mas hoje já não estão cá." "Não me diga que você os enforcou como fez ao gato quando era miúdo?" "Não. Não matei os cães. Eles é que foram gulosos! Foram comer o frango que eu tinha cozinhado com uma boa dose do produto que usamos nos terrenos. Garanto-lhe que nunca mais vão às cebolas nem a mais nada. Foi remédio santo!"
Santo é que o homem não é, caramba!
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