10/11/2008

Seis personagens à procura de algo em comum

Tomemos seis figuras portuguesas: o Marquês de Pombal, Humberto Delgado, Álvaro Cunhal, Mário Soares, Freitas do Amaral e Cavaco Silva. Que têm elas em comum? Coloquei informalmente a pergunta a quatro ou cinco amigos que me responderam que todos eles eram pessoas conhecidas, mais ou menos ligadas ao poder e à política. Acrescentaram que os três primeiros já tinham morrido e os restantes continuavam vivos. Admito que não era esse o tipo de resposta que eu pretendia, mas não é improvável que eu próprio, se fosse apanhado desprevenido, respondesse da mesmíssima forma.
A resposta que eu gostava que me tivesse sido dada tinha a ver com o facto de cada um deles ter tido contactos, de forma mais ou menos relevante, com outras sociedades e outras culturas. Explicando-me melhor: sinto que o país onde nasci possuiu, e possui ainda até certo ponto, uma corrente conservadora que favorece o monolitismo e olha com reservas determinados contactos com o estrangeiro. A conotação negativa ainda hoje dada aos "estrangeirados" portugueses, pessoas como Luís da Cunha, Ribeiro Sanches, Verney e o Abade Correia da Serra, expressa bem a preferência pelos grandes "patriotas" nacionais, que muitas das vezes não saíram sequer as fronteiras do país.
Foi o Padre António Vieira, conhecido jesuíta e diplomata do século XVII, homem viajado e com múltiplos contactos ao longo da sua vida, que escreveu no seu Sermão de Santo António: "Sem sair (de Portugal) ninguém pode ser grande." Curiosamente, o que tem sido divulgado desta passagem do sermão de Vieira é apenas aquilo que vem a seguir ao pensamento acima citado: "Para nascer, pouca terra; para morrer, toda a terra; para nascer, Portugal; para morrer, o mundo." Assim se gaba a universalidade dos portugueses que criaram um império nas várias partes do planeta, mas simultaneamente se escamoteia o outro princípio básico do pensamento de Vieira: "Sem sair (de Portugal) ninguém pode ser grande." (Certeiramente, José Cutileiro disse num artigo seu a propósito daqueles que se orgulham dos grandes feitos dos nossos antepassados mas que hoje se quedam mais em admiração do que em acção: "Os portugueses de hoje não são descendentes dos que foram à Índia; são descendentes do que cá ficaram.")
De facto, sem sairmos das nossas fronteiras talvez não possamos, como Vieira disse, ser verdadeiramente grandes. Comparar uma parte do país com outra, v.g. o Algarve com o Minho, pouco resulta e é quase como olhar unicamente para o umbigo. E o curioso é que a maioria das pessoas que verdadeiramente se distinguiram na vida portuguesa e alcançaram um nível que vai para além dos limites territoriais da nação são aquelas que, por uma razão ou outra, não se confinaram às fronteiras portuguesas. Condição de preferência: que já possuíssem uma boa base educacional. (Sem esta, tomar contacto com o estrangeiro ajuda, mas muito menos.) Não é verdade que foi em Inglaterra que Eça de Queiroz escreveu a maior parte da sua obra? Não é um facto que a estadia de Almeida Garrett na mesma Inglaterra foi decisiva para a formação do seu pensamento, quer do ponto de vista romântico, quer de consolidação das suas ideias liberais?
Ora, no mesmo saco cabem as seis figuras acima. Demos uma vista de olhos a cada um deles. Talvez encontremos algumas coisas interessantes, a juntar às que já conhecemos.
Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, ganhou muitas das suas ideias algo revolucionárias para a sociedade portuguesa antes de servir o rei D. José. Foi na Inglaterra protestante, onde viveu vários anos como embaixador, que o Marquês compreendeu aquilo que é um lugar comum dizer-se: a Reforma religiosa do século XVI, pelos novos princípios que criou nos países que a adoptaram, foi o movimento mais importante da civilização ocidental dos últimos séculos. Esses novos princípios tinham conduzido a um maior sentido de liberdade e responsabilização do homem na sociedade (accountability), a um sadio desrespeito pelos dogmas e pelas autoridades antigas, a um independentismo criativo e a uma forte curiosidade pelo saber. Que espanto foi para Sebastião José encontrar um país assim, em que a ciência se desenvolvia, o tempo contava, as finanças privadas funcionavam e havia uma classe claramente ilustrada! Portugal, sentiu ele, precisava de uma revolução de mentalidades. Fez o seu diagnóstico ainda no estrangeiro, de onde aliás foi escrevendo cartas ao seu rei D. João V que estão hoje reunidas sob o título de Escritos Económicos de Londres e que são a mais importante contribuição de estudos económicos que Portugal recebeu nesse século.
Uma vez regressado ao país e com os grandes poderes que adquiriu depois do "divino" terramoto de 1755, ensaiou a revolução. As linhas da Baixa lisboeta testemunham o seu querer. Os relógios de caixa que encomendou para os vários ministérios também (haveriam de desaparecer, encafuados em conventos e mosteiros quando o Marquês caiu em desgraça). Contribuiu para a expulsão dos Jesuítas e reformou a Universidade de Coimbra, ensaiando parcialmente as ideias do estrangeirado Luís António Verney. Criou a Aula do Comércio para que os filhos dos seus compatriotas mercadores ficassem a saber algo mais sobre comércio internacional. E realizou várias outras coisas, desde a criação da Região Demarcada do Douro até à fundação de uma cidade geometricamente planeada ab initio, como Vila Real de Santo António, passando pelo fomento da indústria nacional.
Com toda a naturalidade, num país que já tinha, dois séculos antes, expulso os grandes criadores de fortuna - os judeus, que acabaram por ir aumentar a riqueza das nações protestantes da Inglaterra e da Holanda, as quais os acolheram de braços abertos -, o Marquês revolucionário acabou por ser apeado do seu lugar e exilado para Pombal. As suas ideias seriam reconhecidas mais tarde por intelectuais como Garrett e, já no século XX, pelos republicanos que lhe erigiram a grande estátua que coroa a avenida de Lisboa crismada com o nome mais querido dos liberais: Liberdade.
Com Humberto Delgado, que foi, aos 47 anos, o general mais novo das Forças Armadas portuguesas, passou-se algo interessante também. Homem do Colégio Militar, onde se formara, tomou parte activa na revolução do 28 de Maio de 1926, que iria desembocar no Estado Novo de Oliveira Salazar. Humberto Delgado era um conservador, ultra-apoiante do regime salazarista. De que outra forma se entenderia que tivesse promovido a general ainda tão novo?
Entretanto, no espaço temporal de 5 anos – de 1952 a 1957 – esteve nos Estados Unidos a chefiar a missão militar portuguesa em Washington. Passado esse tempo, o homem que voltou da América era outro, de espírito mais aberto, consciente do que era a democracia e do que ela representava para o progresso das nações. A transformação foi radical. Apercebendo-se disso, a oposição, que sempre acreditou que uma revolução só seria possível em Portugal através da colaboração das Forças Armadas, congregou-se à volta do General (mais tarde, seria o General Spínola, lembram-se?), propondo-o como candidato presidencial em luta contra o Almirante Américo Tomás, proposto pelo regime. Numa famosa entrevista que deu à imprensa, quando lhe perguntaram o que faria com Salazar caso fosse eleito Presidente da República, Delgado respondeu desassombradamente: “Obviamente, demito-o.” A oposição chamou-lhe “General Sem-Medo”. O regime salazarista pretendeu ridicularizá-lo apodando-o de “General Coca-Cola” (bebida então proibida em Portugal e olhada como droga poderosa do capitalismo americano: os EUA já nos perturbavam na ONU por causa dos territórios ultramarinos). Será inútil continuar com a história da fraude eleitoral que todos conhecemos, do exílio forçado de Delgado e da sua morte às mãos da PIDE, convenientemente perto mas ainda fora das fronteiras portuguesas. O que nos interessa aqui é a fulcral estadia na América do General Delgado.
Álvaro Cunhal simboliza, em certa medida, a antítese do capitalismo americano. Defendeu sempre, tenazmente, o comunismo russo. Homem de elevada estatura intelectual, licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, esteve preso várias vezes em Portugal, tendo logrado fugir rocambolescamente da prisão-fortaleza de Peniche, onde a polícia de Salazar o mantinha enclausurado. Aproveitou as suas leituras e a sua longa estadia na União Soviética e em Paris, cidade em que viveu cerca de oito anos na clandestinidade, para depois conduzir como verdadeiro líder, idolatrado, as hostes do seu partido em Portugal. Quando, após o 25 de Abril de 1974, os que o detestavam diziam, jocosamente e para o colocar em ridículo, que sempre que ele ia à casa de banho se limpava duas vezes - a cópia era para enviar para Moscovo -, estavam implicitamente a reconhecer a influência que a União Soviética tinha exercido sobre ele. Se se tivesse confinado ao território adentro das fronteiras lusas, Cunhal não teria sido o mesmo, certamente.
O grande oponente de Álvaro Cunhal, Mário Soares, escolheu parcialmente uma educação semelhante à daquele que foi seu grande rival. Como licenciado em Direito e em Ciências Histórico-Filosóficas, Mário Soares foi e continua a ser um pensador mas também um homem de acção. Feito prisioneiro pela PIDE uma dúzia de vezes, acabou por se exilar no estrangeiro - um pouco à semelhança do que tantos liberais se viram forçados a fazer para fugirem à sanha das conservadoras forças miguelistas no século XIX. Escolheu a França como país de refúgio, tendo colaborado em várias universidades. Com mais talento para a política do que para línguas, ficou famoso pelo seu "ami Miterã" e pelo seu castelhano perroqueño. Impôs-se como líder socialista, cultivando amizades um pouco por todo o lado, como foi o caso de Willy Brandt, o chanceler alemão daquele tempo. Leu muito do que era leitura absolutamente proibida pelo regime em Portugal. Cultivou-se de forma notória, embora sempre com maior propensão para as letras do que para os números. Foi várias vezes Primeiro-Ministro, tendo contribuído para a abertura de Portugal à Europa. Chefiou a República durante dez anos (1986-1996). Aí tornou-se um verdadeiro globetrotter. Ele reconhecia a vantagem de ver as coisas in loco. Ainda hoje continua activo, com uma boa visão geral. Actualizado, mantém-se o paladino da liberdade que sempre foi.
Passando ao nosso quinto personagem, Diogo Freitas do Amaral, também homem de Direito como Álvaro Cunhal e Mário Soares, foi, como este último, candidato a Presidente da República em eleições que haveria de perder por poucos votos. Haverá ainda quem o ligue à fundação de um partido da direita, o CDS. Com razão, aliás. Ele foi um dos seus fundadores. Jurista de renome, o seu pai tinha sido um claro apoiante de Salazar e deputado pelo círculo de Braga.
Freitas do Amaral sempre se mostrou um homem inteligente, seguro, bem-educado. Pelas suas qualidades de homem de saber, moderação e equilíbrio, foi em 1995 nomeado para desempenhar as funções de Presidente da Assembleia-Geral da ONU, em Nova Iorque. É bom aqui recordar o que sucedeu a Humberto Delgado com a sua estadia na América. Com Freitas do Amaral ter-se-á passado algo de semelhante. Freitas tinha, no entanto, uma bagagem intelectual francamente maior do que a do General Delgado. No grande areópago que são as Nações Unidas, teve que contactar líderes de todo o mundo, alargar em muito os seus horizontes, estabelecer novas linhas de pensamento. É neste sentido que não deve causar grande admiração que, regressado a Portugal, ele se tivesse tornado um homem politicamente diferente. Muito mais aberto do que anteriormente e sempre interessado na educação superior, modernizou a Faculdade de Direito em que leccionava. Politicamente, inclinou-se para uma luta por uma sociedade mais justa. Neste sentido, não hesitou em criticar vivamente a Administração Bush pela invasão do Iraque, para grande desespero dos apoiantes do CDS. Não esteve contra os democratas dos Estados Unidos, mas sim contra a política agressiva e violadora do direito internacional de Bush. Na mesma linha, aceitou o convite que o governo socialista de Sócrates lhe endereçou e sobraçou a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros, cargo que iria abandonar por motivos de saúde.
Mais uma vez se nota neste caso uma forte influência do estrangeiro. O professor Miller Guerra disse um dia que ninguém deve esperar que as faculdades se reformem a si próprias. De facto, as revoluções têm que vir de fora. De dentro, em sociedade encasulada, só teremos mais do mesmo. Daí que haja necessidade de uma abertura cada vez maior, de um número de coutadas progressivamente mais reduzido. Quanto mais aberta e competitiva a sociedade for, tanto melhor. Com a rule of law a imperar.
Estranhamente, poderá julgar-se, vem agora a sexta personagem: o actual Presidente da República. Perguntar-se-á: onde está a comparação, por exemplo, com o homem revolucionário e lutador que foi Mário Soares? Não há comparação, de facto, nem é isso que se pretende. Nem estão nele representadas muitas das características dos outros personagens. Os tempos são outros. Cavaco Silva será, admito, aquele que destes seis menos mostra a influência que o estrangeiro terá tido sobre si. Mesmo assim, escolhi-o para a galeria para mostrar - eu, que nem o apoiei para a Presidência - que fez muito bem em ter-se doutorado no estrangeiro. Não escolheu doutorar-se entre os seus amigos e antigos colegas. Fugiu à endogamia tão típica da sociedade portuguesa. O tempo que passou em Inglaterra foi-lhe benéfico, embora ele não seja, por feitio, uma pessoa aberta e comunicativa. Creio que o facto de ter vivido em York e de ter necessariamente contactado a sociedade inglesa, muito diferente da algarvia de Boliqueime, lhe emprestou algumas qualidades que agora sobressaem no seu mandato como Presidente. Quero, principalmente, realçar um ponto que considero bastante significativo: o seu posicionamento contra o facto de muitas empresas portuguesas tenderem a encostar-se ao Estado. Pugna por um maior empreendedorismo e por uma sociedade civil com mais espírito de independência e iniciativa. A materializar este seu desejo, sempre que vai em visita oficial ao estrangeiro leva na sua comitiva líderes de empresas como a Y-Dreams (António Câmara), para dar uma imagem da modernidade do país e da inovação empresarial. Pessoalmente, Cavaco Silva tem-me surpreendido positivamente na sua acção. Factos como o que atrás aponto são algo que associo mais à sociedade aberta portuguesa, que defendo, do que ao conservadorismo de determinados grupos que, infelizmente, ainda existem em grande número.
Muito mais haveria a dizer sobre este tópico, mas alongar-me seria pouco consentâneo com o espaço que um blog concede e com a paciência dos eventuais leitores. Deixemos a continuação para uma outra oportunidade. Espero, entretanto, ter ajudado as seis personagens acima, "políticos conhecidos", a encontrarem algo extra de comum entre si. Quot erat demonstrandum.

10/09/2008

Três apontamentos de honestidade

Num curto espaço de tempo, tive a oportunidade de testemunhar três pequenos actos de honestidade, que me deixaram mais satisfeito com o mundo. Ainda por cima, provieram de três comerciantes. Nesta era de sacralização do lucro em que "quem não maximiza os ganhos é parvo", soube-me bem ver que não se pode nem deve extrapolar para a generalidade dos casos uma corrente que, de facto, parece ser dominante. Os episódios abaixo descritos são de reduzida importância em termos materiais, mas denotam uma atitude mental e ética que me dá gosto registar.
Na história número 1, fui a uma florista daqui do bairro comprar uma orquídea. É linda e não foi cara. Interessado em manter a flor pelo período mais longo possível e, mais tarde, fazer nascer uma nova, perguntei à dona da loja se tinha algum produto adequado para o efeito. Respondeu-me afirmativamente. E acrescentou, da sua experiência pessoal, um detalhe que apreciei: “Ponha sempre um pouco menos do líquido do que eles recomendam! A quantidade indicada é excessiva para a água que eles dizem. E não regue mais do que de três em três semanas. Esta flor não é como as outras.” Ali estava uma comerciante a ensinar-me não só de forma grátis aquilo que os anos lhe devem ter custado a aprender como ainda a aconselhar-me a usar menos produto, o que naturalmente significava gastar menos frascos e, para ela, ter menor lucro. A ética foi para ela mais importante.
Na história número 2, a minha mulher, que tinha há dias comprado um carro, foi comigo a uma oficina que lhe indiquei. Íamos mandar pôr um alarme no carro, o que parecia altamente aconselhável numa cidade em que os roubos não são raros. "Francamente", disse o rapaz novo que nos atendeu, "tratando-se deste tipo de Volkswagen acho que a senhora não precisa de gastar dinheiro no alarme. É um certo desperdício. O carro já vem equipado com sistema anti-roubo." Nós não sabíamos. A honestidade do atendedor poupou-nos umas centenas de euros.
No caso número 3, estávamos três adultos e uma criança de cinco anos sentados à mesa de um restaurante à espera que alguém nos trouxesse o menu. Já tínhamos antecipadamente escolhido o prato, no entanto: posta à mirandesa. Íamos recomendados por alguém que tinha comido esse prato na véspera e adorado. Foi exactamente isso, aliás, o que dissemos quando encomendámos duas doses. O dono do restaurante, que estava a atender-nos, mirou-nos aos quatro e sugeriu, tão honestamente quanto se pode ser, que uma dose e meia seria perfeitamente suficiente. Nós não tínhamos sequer colocado a questão. E a dose e meia, que estava deliciosa, chegou de facto para todos.
Estes são três breves apontamentos que espero contribuam um pouquinho para a elevação do nosso moral e nos façam ver que é obviamente errado acreditar na generalização do vozeario que clama a "podridão do mundo e total ausência de valores que campeia por aí". Há também muita coisa boa! Convém acarinhar estes comportamentos e, já agora, segui-los!

10/06/2008

A liberdade segundo Nolasco

O Nolasco, de quem uma vez vos narrei aqui um episódio que considerei algo rocambolesco, é, presentemente, o maior chato que conheço. O Asdrúbal era certamente ainda mais chato, mas, infelizmente para ele, já não é pessoa que eu possa voltar a encontrar aqui na rua. Mas quanto ao Nolasco, o melhor é fugir! A rua não é larga e, penso eu nas vezes que o vejo à distância, porque não há-de haver um terceiro passeio de um lado que não dê nas vistas? Como normalmente não uso telemóvel, a situação é embaraçosa. Nunca posso ter aquela chamadinha salvadora. Assim, só mesmo se um familiar meu aparecer na rua é que logro alcançar a salvação; mesmo assim, provisória ou apenas abreviante. Lembro-me da ocasião em que a minha mulher me encontrou, postado em frente dele com o ar mais seráfico que conseguia, e se esforçou por estender-me uma mãozinha. Ficou ela presa também, ainda que de facto não por muito tempo.
Desta vez o Nolasco deteve-me na rua, com o seu tradicional sorriso radiante de predador que encontrou a presa e, não me lembro já bem porquê, veio-me com uma história nova: tinha pertencido à PIDE. "Suponho que já lhe disse isto." Não, nunca me tinha referido o caso. E também não usou o acrónimo habitual da instituição, antes o nome completo: "Polícia Internacional de Defesa do Estado". Tacteando o caminho a princípio, aventurou-se depois mais na sua divagação, contou a vez em que, postado perante um tribunal no pós-25 de Abril, respondeu com firmeza e garantiu que nunca tinha feito mal a ninguém, ele só tinha protegido a Nação (insistiu que era com letra maiúscula) como bom português, era um administrativo, tinha lá estado "só três anos" e depois pedira a exoneração do cargo. A qual saiu oficialmente no Diário da República. "Pode imaginar o significado de sair da Polícia naquela altura!" Calculo, disse eu. "Sempre fui um amante da liberdade," prosseguiu o Nolasco. E, perante os meus insistentes protestos de que se estava a fazer tarde e eu tinha coisas para tratar - o que até era menos verdade naquela manhã de sábado - disse-me que só me queria mostrar como ele definia a liberdade. Contou-me então a história de uma vez que, junto à sua terra, nos solitários campos da Lousã, tinha ficado surpreendido com o piu-piu de um passarinho. Não parava o piu-piu da avezinha. Deparou com uma cobra que estava em plena acção de encantamento da ave. Angustiado, porque o passarito ia acabar nas goelas da bicha, o Nolasco agarrou então numa pedra "não para matar a cobra mas só para a espantar". O encantamento desapareceu, o passarito deixou finalmente o seu aflitivo piu-piu e voou para bem longe. Em liberdade total. Aí estava definida a liberdade para o Nolasco, contente com a sua acção para toda a vida.
Então, e a liberdade das pessoas? perguntei-lhe eu. "Depois de trabalhar algum tempo na António Maria Cardoso, sem gostar muito porque alguns dos meus colegas viam-me com maus olhos devido ao meu superior comportamento moral, pedi a minha transferência para Coimbra, já mais perto da Lousã." Então, e a liberdade das pessoas? insisti. Não o incomodava tratar de processos que punham indivíduos dentro por um mero delito de opinião? "Os mais ricos até gostavam muito de mim. Sabe porquê? Eu ajudava-os. Não conseguia vê-los prejudicados." Compreendi que muito provavelmente tinha havido ali mais uma fatia de rendimento a juntar-se à outra economia de estar mais próximo da terra natal. "Sempre fui um amante da liberdade, mas a Nação estava à frente." Mesmo se a nação fosse definida de uma certa maneira e não abrangesse todos os cidadãos? "A Nação é sempre a Nação", atirou-me ele. E, de rajada, após uma brevíssima busca das palavras certas entretanto já um pouco esquecidas, jogou-me à cara a habitual definição de nação tal como era feita pelo regime salazarista.
"Tenho muito orgulho em ter pertencido à Polícia Internacional, sabe? E porque não havia de ter? Agora não continua a haver a Interpol?" Claro que sim, respondi-lhe. Retirei com cuidado a mão com que ele estava a agarrar-me o braço na sua veemente ânsia de contar a sua história. Numa próxima vez a gente conversa mais um bocado, disse-lhe. O Nolasco sorriu. Tenho a certeza de que não me vai perdoar a próxima!

10/04/2008

Memória(s)

Alguns dos meus familiares e amigos já me têm dito que tenho uma memória de elefante. Confesso que não sei se têm razão. Pressinto que o que sucede é que quando evoco um episódio que eventualmente vivi em conjunto com quem me está a ouvir, essa pessoa não se lembra do que aconteceu ou tem apenas uma ideia muito vaga. Em face do facto de não se recordar, lança-me à cara a história da memória de elefante. Com isso passa a considerar o seu esquecimento do dito episódio como um facto banal - que o é - e elefantiza-me.
A verdade parece-me ser outra. Há coisas que outros nos contam e de que não nos lembramos minimamente ou temos apenas uma ideia nebulosa. Na realidade, nós recordamo-nos das coisas que provocaram em nós, na ocasião em que ocorreram, um afluxo especial de adrenalina. Por uma razão ou por outra. Apesar de serem iguais uns aos outros em muitos aspectos, os seres humanos diferem também notoriamente. Logo, algo que impressionou uma pessoa e se tornou inesquecível pode perfeitamente ter sido totalmente ignorado por outra que estivesse presente. Porquê? Simplesmente porque não a impressionou.
O que me leva a falar do assunto, porém, tem a ver com o déjà vu. Se é a novidade que nos provoca a grande variedade da vida, não dispormos dessa variedade leva-nos a bocejar perante o rotineiro e consabido. É por este motivo também, como é evidente, que rememoramos uma viagem a um país ou região que anteriormente não conhecíamos.
A memória divide-se, suponho eu, em dois grandes tipos: a da realidade e a da ficção. Consoante as nossas características pessoais, tendemos a fixar mais ou episódios reais ou os de ficção. Devo admitir que relembro razoavelmente a realidade mas tenho a tendência para esquecer a ficção – seja ela em livros, em teatro ou cinema. Embora tenha lido Os Maias três vezes – e nunca por obrigação escolar – sinto que não seria neste momento verdadeiramente capaz de reproduzir as características ou mesmo os nomes de muitas das personagens. Ressalvaria apenas os dois protagonistas. Mantenho, porém, uma óptima "impressão" do romance, assim como de vários outros.
Ora, este esquecimento da ficção é muito conveniente, como ainda hoje tive oportunidade de experimentar. A Cinemateca apresentava um filme que vi há cerca de 40 anos. Tinha desde então ficado com a ideia de que se tratava de um filme bastante interessante. O titulo? "Testemunha de Acusação". Resolvi rever o filme, aguardando que determinados passos me fizessem recordar o enredo. Qual quê! O memória-de-elefante estava absolutamente em branco. Longe de me assustar ou surpreender, regozijei-me. Estava a ver o filme como se fosse a primeira vez! Qual déjà vu! Os rostos do Tyrone Power, da Marlene Dietrich e do Charles Laughton eram-me familiares, mas também os vira em montes de outros filmes. Foi um prazer enorme chegar ao fim e poder usufruir a sensação de novidade total.
Fiquei assim a saber, com satisfação, que possuo esplêndidas oportunidades de rever bons filmes. Em vez de lastimar a não-retenção das imagens, antevejo a possibilidade de experimentar sensações que, muito possivelmente, há alguns anos senti de forma semelhante, embora com outra idade. E quando na nossa memória os itens estão classificados do lado dos bons, vale sempre a pena revê-los! Apetece-me comentar, positivamente, que neste caso a natureza está do nosso lado!

10/01/2008

A bushiana figura

Na década de 80, um amigo americano a quem eu andava a mostrar uns locais de Lisboa comentou que a disposição das nossas avenidas lhe fazia lembrar um pouco o estilo de longas mesas de casamento com um bolo em cada ponta. Assim, a Avenida da Liberdade com o "bolo" do monumento dos Restauradores de um lado e o monumento do Marquês do outro; a Fontes Pereira de Melo, com a estátua do dito marquês numa das extremidades, corria depois até se encontrar com o outro "bolo" - a estátua de Saldanha. E assim por diante. Achei interessante o comentário, que nunca me tinha ocorrido.
Mas ele veio-me à cabeça nesta altura em que estão a chegar as eleições americanas e, com elas, o fim do segundo e último mandato do Presidente Bush. É curioso que o primeiro mandato tenha praticamente começado com as torres do World Trade Center, ícones da alta finança e do comércio mundial, a serem destruídas - infelizmente com a morte de mais de três milhares de pessoas inocentes. Agora, no final da longa avenida do tempo, são, metaforicamente, as torres da banca de investimentos e das companhias de seguros dos Estados Unidos a ruírem com o maior choque financeiro que a América conhece desde a Grande Depressão.
Se pensarmos nos muitos milhares de iraquianos e nalguns milhares de militares americanos que, neste meio tempo, já perderam a vida na guerra iniciada por Bush no território da antiga Mesopotâmia, compreendemos por que razão os mandatos bushianos não vão deixar saudades a muita gente.