Recomendar livros nem sempre é fácil pela simples razão de que aquilo de que gostamos não é necessariamente aquilo de que outros gostam. Não é só a forma de escrita que está em questão, mas também a temática abordada. De qualquer modo, dentro do sentimento de partilha que me anima neste blogue, gostaria de deixar aqui duas breves referências a livros que ultimamente li e que me parecem merecer alguma atenção.
O primeiro intitula-se Verdade, Humildade & Solidariedade, tem a autoria de João Ermida e foi publicado pela editora Livros d’Hoje. O autor é um portuense que, com um curso incompleto de Economia da Universidade Católica, iniciou aos 22 anos a sua actividade profissional como corretor de Bolsa, ingressou depois no departamento de mercado de capitais do Citibank e aos 28 passou a fazer parte dos quadros do grupo Santander no qual, primeiro no nosso país, depois no Brasil e, por fim, em Madrid, passou a ter a seu cargo a responsabilidade das áreas de Tesouraria e Mercados Financeiros à escala mundial, com frequentes viagens a toda a América Latina.
Afectado por um intenso stress que resultava não só da enorme responsabilidade de movimentar milhões que poderiam originar tanto ganhos como perdas colossais, mas também da noção de que o sistema se baseava em algo despido dos valores que ele interiormente defendia, aos 38 anos, com um invejável salário, apresentou a sua demissão. Depois, ou tomava montes de drogas ou escrevia um livro a revelar o que o tinha atormentado. Escolheu escrever o livro. Um parágrafo ao acaso: "No mundo de hoje dos negócios, a verdade foi perdendo interesse. É mais importante fazer promessas que nunca serão cumpridas do que tentar vender a realidade em que se vive. Esta situação leva a que empregados sejam postos em situações de total insegurança no seu trabalho, graças aos enormes objectivos que lhes são impostos, os quais só por sorte serão cumpridos."
Do ponto de vista da escrita, o livro carece de alguma afinação, mas vale pela verdade do seu conteúdo. A coincidência com o desencadear da crise financeira empresta-lhe uma particular actualidade.
O segundo livro que gostaria de recomendar é A Viagem do Elefante. Ainda bem que Saramago sobreviveu à grave doença que o atirou para a cama de um hospital quando ia apenas na página 40 desta sua historieta. Toda a ironia e humor de Saramago aparecem aqui a propósito de um elefante indiano que estava em Belém havia dois anos com o seu respectivo cornaca e que acabou por ser oferecido pelo rei português D. João III a seu primo, o arquiduque austríaco Maximiliano. No seu estilo inconfundível, Saramago faz-nos viajar primeiro até Valladolid, onde o arquiduque se encontrava, e depois até Viena. No meio de breves mas incisivas reflexões sobre a lógica, a moral e a filosofia, de um pensamento voante que nos transporta em duas ou três linhas ao futuro que nós conhecemos, de confrontos bem humorados entre a religião cristã e a filosofia indiana, a história do elefante faz-nos viajar no espaço e no tempo com uma notável leveza de escrita e deixa-nos imaginar o prazer e mesmo gozo do autor em ser o condutor dessa atribulada viagem. Vale muito a pena.
11/12/2008
11/09/2008
No pasa nada!
Há coisas que não esquecem. Entre as muitas que só desaparecerão da minha memória quando a minha própria memória um dia desaparecer conta-se uma série de longas conversas que, no início da década de 70, mantive num hospital de Moscovo com um sociólogo de trinta e poucos anos que lá se encontrava internado. Ele era de Tashkent, no Uzbequistão. A certa altura falou-me de um grande tremor de terra que tinha recentemente abalado a sua cidade e causado centenas de mortos. "Doeu-me imenso ver tantos funerais na minha cidade, mas o mais revoltante de tudo foi verificar que, oficialmente, tinham morrido apenas 7 (sete) pessoas. Dado que a União Soviética deveria, se o número de mortos fosse maior, autorizar a entrada em Tashkent de equipas da Cruz Vermelha Internacional, para eles indesejáveis, reduziu-se tudo a sete mortos e a um número indeterminado de feridos. Ter que viver com a mentira oficial foi terrível. Se era assim que deturpavam uma verdade que convivia ali mesmo connosco, como poderiam querer que acreditássemos e confiássemos nas notícias que diariamente nos chegavam de Moscovo sobre outros assuntos?"
Ocorre-me este episódio quando oiço o governo menorizar propositadamente o que se está a passar em muitas escolas públicas de ensino não-superior. Existe um descontentamento profundo que se traduz em comentários sentidos como os que este próprio blogue registou há dias (e que está disponível perto daqui, apenas umas tantas linhas mais abaixo). Por que razão há tantos docentes (e outros funcionários dependentes do Ministério) a pedirem a reforma? Em 2008 totalizam 7471, o que representa um aumento de 43,5 por cento (!) relativamente a 2007 e de 12,5 por cento face a 2006. O que levará tantos docentes com vinte e muitos anos de ensino, ou mesmo trinta, a revoltar-se contra uma situação que nunca até agora encontraram nas suas escolas? Tal como sucedeu o ano passado, está em curso uma avaliação por demais burocratizada e frequentemente conduzida por professores recentemente promovidos a titulares nos quais os colegas nem sempre reconhecem competência para implementar a referida avaliação. Entre outros casos que são do meu conhecimento, o jornal Público informa-nos que uma professora com 34 anos e nove meses de serviço se vai reformar antecipadamente - com isso sendo obviamente penalizada na sua futura pensão. Como diz essa professora, cujo nome vem publicado, "Não tenho medo de falar. Já meti os papéis para me ir embora: não quero avaliar nenhum professor porque isto é uma fantochada."
A manifestação de hoje em Lisboa trouxe à rua muitos docentes que sentiram necessidade de protestar veementemente. Que a manifestação foi organizada por um sindicato com alguns dirigentes comunistas é um facto. Que o Mário Nogueira seja, ao que consta, o inimigo mais detestado por Sócrates, também aceito. Que isto proporciona aproveitamento político aos partidos da oposição é igualmente verdade. Mas paremos para pensar no essencial: quem é que consegue fazer movimentar tantos professores de todo o país, se não existir um substrato de razões objectivas que provoca todo este desvio do statu quo que se desejaria normal em muitos estabelecimentos de ensino?
No pasa nada?
Ocorre-me este episódio quando oiço o governo menorizar propositadamente o que se está a passar em muitas escolas públicas de ensino não-superior. Existe um descontentamento profundo que se traduz em comentários sentidos como os que este próprio blogue registou há dias (e que está disponível perto daqui, apenas umas tantas linhas mais abaixo). Por que razão há tantos docentes (e outros funcionários dependentes do Ministério) a pedirem a reforma? Em 2008 totalizam 7471, o que representa um aumento de 43,5 por cento (!) relativamente a 2007 e de 12,5 por cento face a 2006. O que levará tantos docentes com vinte e muitos anos de ensino, ou mesmo trinta, a revoltar-se contra uma situação que nunca até agora encontraram nas suas escolas? Tal como sucedeu o ano passado, está em curso uma avaliação por demais burocratizada e frequentemente conduzida por professores recentemente promovidos a titulares nos quais os colegas nem sempre reconhecem competência para implementar a referida avaliação. Entre outros casos que são do meu conhecimento, o jornal Público informa-nos que uma professora com 34 anos e nove meses de serviço se vai reformar antecipadamente - com isso sendo obviamente penalizada na sua futura pensão. Como diz essa professora, cujo nome vem publicado, "Não tenho medo de falar. Já meti os papéis para me ir embora: não quero avaliar nenhum professor porque isto é uma fantochada."
A manifestação de hoje em Lisboa trouxe à rua muitos docentes que sentiram necessidade de protestar veementemente. Que a manifestação foi organizada por um sindicato com alguns dirigentes comunistas é um facto. Que o Mário Nogueira seja, ao que consta, o inimigo mais detestado por Sócrates, também aceito. Que isto proporciona aproveitamento político aos partidos da oposição é igualmente verdade. Mas paremos para pensar no essencial: quem é que consegue fazer movimentar tantos professores de todo o país, se não existir um substrato de razões objectivas que provoca todo este desvio do statu quo que se desejaria normal em muitos estabelecimentos de ensino?
No pasa nada?
11/05/2008
Obama, a vitória e o discurso
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Admito que me deitei mais tarde do que o habitual, mas sem qualquer esforço e devido a um real interesse no apuramento final dos resultados. A diferença de cinco a seis horas entre o nosso horário e o americano forçou-me a isso. Estas eleições eram mesmo especiais.
E eram especiais depois do enorme desapontamento que constituiu, há quatro anos, a reeleição do pior Presidente americano de que me lembro. Custava-me a acreditar que a cena se repetisse, com outro nome mas com o mesmo partido e política semelhante.
Toda uma geração pensante que foi na sua juventude e mesmo na idade adulta profundamente influenciada pelo cinema, pela literatura e música dos Estados Unidos sentiu-se, com Bush e os seus conselheiros, acerrimamente anti-americana. Era inevitável. Ao espalharem guerra por múltiplos lados do planeta, ao serem mentirosos compulsivos, ao intrometerem-se indevidamente nos assuntos de outros países ao mesmo tempo que recusavam asperamente um comentário sobre o seu próprio comportamento, ao praticarem a tortura e isentarem os seus torturadores de serem julgados em tribunal internacional, ao auto-excluirem-se de assinar acordos ambientais que favoreciam o mundo e ao alardearem valores que depois eles próprios não praticavam, os americanos tornaram-se depressa no povo mais odiado do planeta. A recente crise financeira, que ainda fará muitos estragos na economia mundial, também é algo da sua autoria: mais um produto de valores produzidos do lado avesso.
Obama tinha muito contra si. Não era branco WASP (White Anglo-Saxon Protestant). Aliás, nem sequer era branco. Não provinha de famílias conhecidas, não possuía meios de fortuna. A culminar estas suas carências, era detentor de algo terrível: o seu próprio nome. Este rima com Ossama (de Bin Laden) e, como middle-name, contém Hussein (de Saddam). Barack Hussein Obama poderia eventualmente ser o nome dum chefe de estado muçulmano algures em África ou no Médio Oriente. Mas nos Estados Unidos da América?! E depois do 11 de Setembro de 2001?!
Inacreditavelmente, conseguiu bater a sua grande rival democrata, Hillary Clinton, que tinha a seu favor o facto de ser conhecida mundialmente, de ter mantido a sua família coesa apesar das infidelidades públicas do marido-presidente, de poder vir a ser a primeira mulher a eleger e de possuir a experiência e o know-how que o seu lugar de primeira-dama durante oito anos certamente lhe conferiu.
Uma vez arrebatado o ticket democrata para as eleições, Obama conquistou grande parte do eleitorado, democrata e republicano, através do testemunho vivo da sua própria, esmerada educação de Harvard e da diferença em matéria de inteligência e moderação que a sua hibridez rácica lhe proporcionava. O seu poder oratório lembra o dos grandes tribunos. Não pelo esforço gutural de arrastamento de multidões através da elevação do tom de voz e de frenética gesticulação como tantos líderes fazem, mas antes pela calma e fluidez do seu discurso, que surge como que iluminado. De onde vem toda aquela capacidade retórica?, pergunta-se na assistência. De um invisível teleponto divino?
O discurso final de Obama após a vitória torna-se histórico por vários motivos que todos entendemos. Muitos excertos vão obrigatoriamente ser reproduzidos aqui e ali. Justificadamente. Pessoalmente, não pude deixar de me recordar de dois grandes momentos americanos: o primeiro, inevitavelmente, o de Martin Luther King e o seu famoso “I have a dream”; o segundo, que o antecede cronologicamente (1939), o clássico filme do realizador ítalo-americano Frank Capra Mr Smith Goes to Washington (“Peço a Palavra!”, no seu título português). São dois momentos que estão nas bases mais profundas da cultura americana e do famoso American Dream (que Bush num ápice transformou no American Nightmare).
Todos sabemos por experiência própria que as palavras por si sós não movem o mundo. Mas sabemos também que a par de discursos e comportamentos assassinos, que provocam insegurança e pânico, existem palavras que motivam cada um individualmente e uma nação no seu todo maioritário. Ao afirmar, com voz sentida mas moderada, “Change has come to America!”, Obama não se arvorou, felizmente, como redentor, mas colocou o povo através da sua escolha como obreiro dessa mudança que terá, afinal, de ser concretizada por todos. Foi um posicionamento inteligente e altamente motivador.
Esperemos que as as nuvens negras do pesadelo americano se vão gradualmente dissipando. Precisamos de novos ventos. The answer, my friend, is blowing in the wind…
E eram especiais depois do enorme desapontamento que constituiu, há quatro anos, a reeleição do pior Presidente americano de que me lembro. Custava-me a acreditar que a cena se repetisse, com outro nome mas com o mesmo partido e política semelhante.
Toda uma geração pensante que foi na sua juventude e mesmo na idade adulta profundamente influenciada pelo cinema, pela literatura e música dos Estados Unidos sentiu-se, com Bush e os seus conselheiros, acerrimamente anti-americana. Era inevitável. Ao espalharem guerra por múltiplos lados do planeta, ao serem mentirosos compulsivos, ao intrometerem-se indevidamente nos assuntos de outros países ao mesmo tempo que recusavam asperamente um comentário sobre o seu próprio comportamento, ao praticarem a tortura e isentarem os seus torturadores de serem julgados em tribunal internacional, ao auto-excluirem-se de assinar acordos ambientais que favoreciam o mundo e ao alardearem valores que depois eles próprios não praticavam, os americanos tornaram-se depressa no povo mais odiado do planeta. A recente crise financeira, que ainda fará muitos estragos na economia mundial, também é algo da sua autoria: mais um produto de valores produzidos do lado avesso.
Obama tinha muito contra si. Não era branco WASP (White Anglo-Saxon Protestant). Aliás, nem sequer era branco. Não provinha de famílias conhecidas, não possuía meios de fortuna. A culminar estas suas carências, era detentor de algo terrível: o seu próprio nome. Este rima com Ossama (de Bin Laden) e, como middle-name, contém Hussein (de Saddam). Barack Hussein Obama poderia eventualmente ser o nome dum chefe de estado muçulmano algures em África ou no Médio Oriente. Mas nos Estados Unidos da América?! E depois do 11 de Setembro de 2001?!
Inacreditavelmente, conseguiu bater a sua grande rival democrata, Hillary Clinton, que tinha a seu favor o facto de ser conhecida mundialmente, de ter mantido a sua família coesa apesar das infidelidades públicas do marido-presidente, de poder vir a ser a primeira mulher a eleger e de possuir a experiência e o know-how que o seu lugar de primeira-dama durante oito anos certamente lhe conferiu.
Uma vez arrebatado o ticket democrata para as eleições, Obama conquistou grande parte do eleitorado, democrata e republicano, através do testemunho vivo da sua própria, esmerada educação de Harvard e da diferença em matéria de inteligência e moderação que a sua hibridez rácica lhe proporcionava. O seu poder oratório lembra o dos grandes tribunos. Não pelo esforço gutural de arrastamento de multidões através da elevação do tom de voz e de frenética gesticulação como tantos líderes fazem, mas antes pela calma e fluidez do seu discurso, que surge como que iluminado. De onde vem toda aquela capacidade retórica?, pergunta-se na assistência. De um invisível teleponto divino?
O discurso final de Obama após a vitória torna-se histórico por vários motivos que todos entendemos. Muitos excertos vão obrigatoriamente ser reproduzidos aqui e ali. Justificadamente. Pessoalmente, não pude deixar de me recordar de dois grandes momentos americanos: o primeiro, inevitavelmente, o de Martin Luther King e o seu famoso “I have a dream”; o segundo, que o antecede cronologicamente (1939), o clássico filme do realizador ítalo-americano Frank Capra Mr Smith Goes to Washington (“Peço a Palavra!”, no seu título português). São dois momentos que estão nas bases mais profundas da cultura americana e do famoso American Dream (que Bush num ápice transformou no American Nightmare).
Todos sabemos por experiência própria que as palavras por si sós não movem o mundo. Mas sabemos também que a par de discursos e comportamentos assassinos, que provocam insegurança e pânico, existem palavras que motivam cada um individualmente e uma nação no seu todo maioritário. Ao afirmar, com voz sentida mas moderada, “Change has come to America!”, Obama não se arvorou, felizmente, como redentor, mas colocou o povo através da sua escolha como obreiro dessa mudança que terá, afinal, de ser concretizada por todos. Foi um posicionamento inteligente e altamente motivador.
Esperemos que as as nuvens negras do pesadelo americano se vão gradualmente dissipando. Precisamos de novos ventos. The answer, my friend, is blowing in the wind…
11/03/2008
Do "Milagre de Milão" ao milagre da Milú
Quando ontem li a crónica que António Barreto escreveu para o Público, sob o título "O Milagre", acerca dos resultados do último ano lectivo, não pude deixar de sorrir. A crónica nada tem de verdadeiramente novo para quem está atento ao mundo da educação, mas merece naturalmente ser lida. É, afinal, mais um reputado cronista a falar em facilitismo de provas para que os resultados acabem por aparecer. De facto, quem alguma vez ensinou sabe que em determinadas disciplinas não é possível conseguir elevadas taxas de sucesso de um ano para o outro como se de um passe de mágica se tratasse. É pena que só à custa de exames mais fáceis e de notas empoladas, de critérios generosos que não penalizam a forma de expressão nem os erros ortográficos para não atrapalhar mais o sistema, se consiga obter melhores resultados.
Entretanto, no meio de tudo, há docentes que se esforçam verdadeiramente no seu conturbado ambiente e há igualmente alunos que dão tudo o que têm para obter boas classificações. Porém, descontabilizando estes casos que são mais excepção do que regra, não é crível que de um ano para o outro surja uma elevação tão notória e generalizada de notas como esta, que lembra mais um truque de ilusionista do que uma situação real, sustentável no futuro.
Para fazer um simples jogo de palavras no meu título, relembrei o clássico filme de Vittorio de Sica “O Milagre de Milão” (1951) e contrapu-lo ao milagre da Milú. Contudo, a verdade é que não é só a Milú ministra da Educação a usar poções mágicas típicas de druidas. Há muito que em certas escolas do ensino superior se dá uma generosa ajuda à fraqueza dos resultados obtidos pelos alunos do secundário para que os candidatos possam entrar na Faculdade X ou Instituto Y. Há anos e anos que nas escolas com menor reputação se utilizam os estratagemas mais diversos para permitir o maior número possível de ingresso de candidatos: começou-se por criar uma banda larguíssima de provas de acesso; mais tarde, passou a atribuir-se apenas 35 por cento às notas dos exames nacionais, indo os restantes 65 por cento para as médias escolares, que são por norma mais elevadas; com novas leis mais apertadas do Ministério, iniciou-se a escolha para provas de acesso à instituição de ensino superior de blocos de duas disciplinas, sendo uma delas básica para o curso - geralmente a Matemática - e a outra apenas auxiliar, mas mais fácil e portanto de nota compensatória no cômputo da média de ambas; utilizaram-se igualmente percentis (legais) para preenchimento de vagas.
Hoje em dia, em face do requisito obrigatório de nota positiva à cadeira básica de acesso, por exemplo a Matemática, muitas escolas superiores de menor prestígio eliminaram a obrigatoriedade da disciplina, escolhendo como alternativas possíveis cadeiras como Português, Economia ou Direito. O leque de candidatos abriu-se instantaneamente como por encanto, enquanto as médias de ingresso treparam. Mas quantos alunos tiveram a sua média de acesso computada na base da Matemática que costumava ser cadeira sine qua non? Isto sucede em várias escolas de engenharia, de contabilidade, de gestão e, eventualmente, outras áreas.
E que dizer do facilitismo das Novas Oportunidades? Se nalguns casos, claramente minoritários, surgem alunos esplêndidos, alguns até a adicionar uma nova licenciatura àquela que já possuem, no geral o panorama é sombrio, com estudantes detentores da habilitação máxima do 9º Ano (a Matemática, por exemplo) a debaterem-se com naturais dificuldades no ensino superior para o qual não estão preparados. A taxa de abandono é elevada e as não-passagens a disciplinas mais numéricas não são menos impressivas.
Daí que acusar apenas a Milú me pareça ser uma atitude que peca por bater sempre na mesma ceguinha. Há outros com culpas no cartório. Mas claro que isto de culpas é algo que depende sempre do ponto de vista!
Na questão do ranking, procurar estabelecer uma distinção competitiva, no ensino básico e secundário, entre os resultados do sector privado e do público é esquecer que as condições não são idênticas em vários aspectos, a começar pelo pagamento, que estabelece uma primeira selecção. Os melhores colégios particulares, em face do grande afluxo de pedidos de matrícula que lhes chegam, fazem aquilo que é mais natural: deixam de fora os alunos potencialmente piores. E se alguns hoje são indisciplinados e perturbadores, no ano que vem a escola não lhes renova a matrícula. Ora, na medida em que começam com uma certa "nata" do corpo discente e tentam manter um corpo coeso de docentes que exerce a sua actividade dentro dos parâmetros de um projecto escolar válido, nada de mais natural que as melhores escolas do ensino secundário privado surjam com resultados muito superiores aos do ensino público. Neste, não se podem recusar alunos. Além disso, nas últimas décadas têm surgido com gravosidade crescente os problemas que todos conhecemos.
A perversidade do sistema termina o seu ciclo com muitos dos melhores alunos provindos do sistema particular de ensino secundário - filhos de famílias com maiores posses - a preencherem muitos dos lugares nas melhores universidades públicas, com propinas consideravelmente mais baixas do que as do ensino superior privado.
Este é um breve resumo do que me tem sido dado observar após várias décadas de ensino, tanto no sector privado como no público.
Entretanto, no meio de tudo, há docentes que se esforçam verdadeiramente no seu conturbado ambiente e há igualmente alunos que dão tudo o que têm para obter boas classificações. Porém, descontabilizando estes casos que são mais excepção do que regra, não é crível que de um ano para o outro surja uma elevação tão notória e generalizada de notas como esta, que lembra mais um truque de ilusionista do que uma situação real, sustentável no futuro.
Para fazer um simples jogo de palavras no meu título, relembrei o clássico filme de Vittorio de Sica “O Milagre de Milão” (1951) e contrapu-lo ao milagre da Milú. Contudo, a verdade é que não é só a Milú ministra da Educação a usar poções mágicas típicas de druidas. Há muito que em certas escolas do ensino superior se dá uma generosa ajuda à fraqueza dos resultados obtidos pelos alunos do secundário para que os candidatos possam entrar na Faculdade X ou Instituto Y. Há anos e anos que nas escolas com menor reputação se utilizam os estratagemas mais diversos para permitir o maior número possível de ingresso de candidatos: começou-se por criar uma banda larguíssima de provas de acesso; mais tarde, passou a atribuir-se apenas 35 por cento às notas dos exames nacionais, indo os restantes 65 por cento para as médias escolares, que são por norma mais elevadas; com novas leis mais apertadas do Ministério, iniciou-se a escolha para provas de acesso à instituição de ensino superior de blocos de duas disciplinas, sendo uma delas básica para o curso - geralmente a Matemática - e a outra apenas auxiliar, mas mais fácil e portanto de nota compensatória no cômputo da média de ambas; utilizaram-se igualmente percentis (legais) para preenchimento de vagas.
Hoje em dia, em face do requisito obrigatório de nota positiva à cadeira básica de acesso, por exemplo a Matemática, muitas escolas superiores de menor prestígio eliminaram a obrigatoriedade da disciplina, escolhendo como alternativas possíveis cadeiras como Português, Economia ou Direito. O leque de candidatos abriu-se instantaneamente como por encanto, enquanto as médias de ingresso treparam. Mas quantos alunos tiveram a sua média de acesso computada na base da Matemática que costumava ser cadeira sine qua non? Isto sucede em várias escolas de engenharia, de contabilidade, de gestão e, eventualmente, outras áreas.
E que dizer do facilitismo das Novas Oportunidades? Se nalguns casos, claramente minoritários, surgem alunos esplêndidos, alguns até a adicionar uma nova licenciatura àquela que já possuem, no geral o panorama é sombrio, com estudantes detentores da habilitação máxima do 9º Ano (a Matemática, por exemplo) a debaterem-se com naturais dificuldades no ensino superior para o qual não estão preparados. A taxa de abandono é elevada e as não-passagens a disciplinas mais numéricas não são menos impressivas.
Daí que acusar apenas a Milú me pareça ser uma atitude que peca por bater sempre na mesma ceguinha. Há outros com culpas no cartório. Mas claro que isto de culpas é algo que depende sempre do ponto de vista!
Na questão do ranking, procurar estabelecer uma distinção competitiva, no ensino básico e secundário, entre os resultados do sector privado e do público é esquecer que as condições não são idênticas em vários aspectos, a começar pelo pagamento, que estabelece uma primeira selecção. Os melhores colégios particulares, em face do grande afluxo de pedidos de matrícula que lhes chegam, fazem aquilo que é mais natural: deixam de fora os alunos potencialmente piores. E se alguns hoje são indisciplinados e perturbadores, no ano que vem a escola não lhes renova a matrícula. Ora, na medida em que começam com uma certa "nata" do corpo discente e tentam manter um corpo coeso de docentes que exerce a sua actividade dentro dos parâmetros de um projecto escolar válido, nada de mais natural que as melhores escolas do ensino secundário privado surjam com resultados muito superiores aos do ensino público. Neste, não se podem recusar alunos. Além disso, nas últimas décadas têm surgido com gravosidade crescente os problemas que todos conhecemos.
A perversidade do sistema termina o seu ciclo com muitos dos melhores alunos provindos do sistema particular de ensino secundário - filhos de famílias com maiores posses - a preencherem muitos dos lugares nas melhores universidades públicas, com propinas consideravelmente mais baixas do que as do ensino superior privado.
Este é um breve resumo do que me tem sido dado observar após várias décadas de ensino, tanto no sector privado como no público.
11/02/2008
E um pouco mais de poesia, porque ainda é fim-de-semana...
Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses: as ondas já
engoliram a praia mais pequena e entornaram algas
nos vasos da varanda. E ,na cidade, conta-se que
as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.
A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu
estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.
(Fado, de Maria do Rosário Pedreira)
Estou assustada à espera que regresses: as ondas já
engoliram a praia mais pequena e entornaram algas
nos vasos da varanda. E ,na cidade, conta-se que
as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.
A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu
estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.
(Fado, de Maria do Rosário Pedreira)
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